Skip to main content

Full text of "Eça de Queiroz "In memoriam," organizado por Eloy do Amaral e M. Cardoso Martha"

See other formats


í^N  *  7^ 


W'-'*- 


#t^ 


:^^ 


t    -       V ,— 


>^  ' 


í      iV  - - 


^^^L  ^ 


.-.NT 


i.-**ií.-^ 


LIVRARIA  ACADÉMICA 
Q.    ^juutÁti   da    ScLo-a 


R.  Márfires  da  Liberdade,  10 
Telefone   25988  —  PORTO 


LIVROS       USADOS 
COMPRA     E    VENDE 


li 


ECA 


DE 


QUEIROZ 


"IN     MEMORIAM,,     ORGANIZADO     POR 
ELOY    DO    AMARAL    E    CARDOSO    MARTHA 


I 


PARCERIA      PEREIRA 
19      2      2 


EÇA  DE   QUEIROZ 


IN  MEMORIAM,, 


*  *  *  i-  Tipografia  da  Parceria 
António  Maria  Pereira  *  »  ^r.  m 

*  *.  *  Rua  Augusta,  44,  46  e  48 
******    Lisboa    ***■■:  *  ■* 


r 


==^ 


i= 


■J 


EÇA  DE  QUEIROZ 


EÇA  DE  QUEIROZ 


<< 


In  Memoriam, 


Os  Portugueses  lecm  um  grande  escritor,  como  a 
França  conta  poucos.  E'  o  vosso  Eça  de  Queiroz. 

Palavras  de  Emílio  Zola 

A  Alves  da  Veiga. 


1922 

Parceria  antonio  Maria  Pereira 

Livraria  Editora 

Rua  Augusta,  44  a  54 

I-ISWOA 


\ 


S8fi)8'g 


DUAS  PALAVRAS 


Como  o  «In  Memoriam-  de  Antero,  surgido  do 
primitivo  projecto  dum  número  comemorativo  na 
Revista  de  Portugal,  assim  este  volume  de  home- 
nagem nasceu  da  ideia  dum  número  especial  que  a 
extinta  revista  provinciana  Figueira  devia  sagrar  a 
Eça  de  Queiroz.  Como  naquele  «In  Memoriam», 
quizéramos,  também,  no  dizer  do  artista  ilustre 
das  Ultimas  paginas,  que  este  livro  fosse  <o  de- 
poimento dos  seus  amigos  perante  a  história», — 
envolvendo  a  palavra  ^amigos*  os  da  inteligência 
e  os  do  coração. 

Não  lográmos,  porém,  completa  satisfação  ao 
nosso  desejo,  quiçá  por  não  haver  prazer  perfeito 
neste  mundo.  Se  até  alguns  dos  que  Eça  honrou 
com  a  sua  amisade  nos  regatearam  auxílio ! 

Mas,  assim  como  é  de  uso  dizer-se  que  «sem  um 

E','4    DK    QríIJÍO^  1 


ovo  também  se  faz  uma  fritada^,  êsie  iivro  organi- 
sou-se  mesmo  sem  a  cooperação  que  nele  seria,  não 
já  indispensável,  mas  razoável  e  devida.  É  bom? 
É  mau?  É  o  que  ahi  está.  Fez-se  o  que  se  poude 
atravez  de  contrariedades  de  toda  a  ordem,  silên- 
cio ou  recusas  em  resposta  a  instantes  e  multipli- 
cados pedidos,  promessas  não  realisadas,  indife- 
renças e  más  vontades,  colaborações  demoradas 
até  á  última  hora  —  casos  e  feitios,  emfim,  muito 
portugueses,  que  só  estranhará  quem  não  estiver 
afeito  a  obras  desta  natureza. 

A  todos,  porém,  quantos  enviaram  os  seus  es- 
critos, ou  dalgum  modo  cooperaram  na  factura 
deste  dn  Memoriam  ,  o  nosso  mais  sentido  agra- 
decimento. 

Ahi  vai  pois  o  livro,  a  um  tempo  homenagem 


Aquele  por  cujo  nome  é  patrocinado,  satisfação 
aos  que  tiveram  conliecimento  da  nossa  antiga  pro- 
messa, e  resposta  a  alguns  inúteis  que  já  por  ahi 
rosnavam  que  nada  chegaria  a  fazer-se. 

Perdoa-Ihes,  Mestre,  que  eles  não  sabem  o  que 
dizem. . . 

Eloy  do  Amaral. 
M.  Cardoso  Martha. 


Âs  minhas  qoeixas  de  Eça  de  Queiroz 


Ha  poucos  anos,  em  ídCQ,  suscitada  pela  publicação  do 
Eça  de  Queiroz  do  Senhor  José  Agostinho,  acendeu-se  na 
imprensa  uma  discussão  interessante  do  significado  e  al- 
cance moral  da  obra  de  Eça  de  Queiroz. 

Queriam  os  devotos  fervorosos  das  brilhantes  criações 
daquele  extraordinário  espírito  que  elas  fossem  inocentes, 
senão  benéficas,  para  o  caracter  de  quem  as  lesse  e  amas- 
se ;  e  exaltavam-se  os  que  as  exorcisavam  fazendo  cruzes 
aos  demónios  que  as  pervertiam  e  eram  portadores  de  uma 
relaxação  mortal.  Tudo  isto  em  termos  de  inflamado  ardor 
religioso,  porque  a  obra  de  Eça  de  Queiroz  e  o  seu  talen- 
to, já  por  virtude  do  próprio  deslumbramento,  já  por  con- 
sequências de  ingénitae  propensões  entusiastas  do  nosso 
temperamento,  tiveram  cedo  o  condão  de  se  tornarem  obje- 
cto de  religião  para  grande  numero  dos  que,  admirando-as, 
logo  transformaram  em  culto  a  admirarão. 

Também  me  aventurei  a  emitir  parecer  na  contenda,  e 
achando  oportuna  e  salutar  a  crítica  e  discordância  de  lou- 
vores de  um  absolutismo  cego,  sem  restrição  nem  medida, 
e  necessariamente  sujeito  a  provocar  reacções,  por  igual 


inteiriças  e  despóticas,  julguei  então  que  -  Eça  de  Queiroz 
não  foi  santo,  nem  vidente,  nem  apóstolo,  mas  esclareceu- 
nos  muito  e  com  delícia  sobre  os  mundos  por  que  passou. 
Ficou-se  na  ironia,  no  scepticismo  e  na  indiferença,  negou 
tudo  sem  coragem  de  afirmar  o  quer  que  fosse,  de  tudo 
desconfiou  e  a  nada  se  rendeu,  embora  no  coração  não 
houvesse  perdido  a  fé  na  vida  nobre,  e  a  adoptasse  e  se- 
guisse na  vida  intima  .  Não  quereria  eu,  todavia,  que  pas- 
sássemos ao  <ról  dos  livros  proibidos  a  obra  maravilhosa 
do  artista,  desprendida  de  preocupações  e  aspirações  mo- 
rais, cativante  pela  forma,  vastíssima  na  extensão  de  co- 
nhecimentos que  abrange  e  toca,  espelho  fiel  do  pensamento 
de  uma  época  ;  mas  também  reputaria  insensato  que  por 
uma  desassizada  impaciência  lavrássemos  «sentença  de 
proscrição  ao  crítico  que,  robustecido  com  o  alimento  de 
fontes  puras,  viu  e  proclamou  as  deficiências  perigosas  de 
um  septicismo  mortal  para  a  dignidade  dos  homens  e  para 
o  engrandecimento  das  raças  >. 

Qnod  scripsi,  seripsi.  Não  tenho  que  mudar,  porque  de 
pensar  não  mudei.  Mas  tenho  que  acrescentar,  desenvol- 
ver e  esclarecer  ;  o  tempo  e  a  reflexão  sugerem  distinções 
que  o  impulso  da  primeira  hora,  de  ordinário  leviana,  fa- 
cilmente desconhece  e  não  raro  atropela. 

Sim,  na  verdade,  examinando  atentamente  a  natureza  e 
proporções  relativas  das  energias  psíquicas  que  colaboram 
na  obra  de  Eça  de  Queiroz  e  lhe  imprimem  caracter,  vire- 
mos a  concluir  que  elas  não  foram  de  molde  a  acrescentar, 
e  nem  tão  pouco  a  minguar,  a  feição  e  estatura  moral  de 
quem  se  impregnou  do  seu  contacto.  Muito  provavelmente 
e  de  pronto  nos  inclinaremos  a  notar-lhes  muito  mais  espí- 
rito do  que  alma :  uma  rara,  fascinante  e  ágil  capacidade 
de  vêr,  distinguir,  aproximar  e  confrontar,  no  confronto 
provocando  a  mordacidade  e  a  sátira,  de  todo  sobrepuja  e 


amesquinha  qualquer  força  persistente  e  eficaz,  própria 
para  fundar,  robustecer,  alargar  e  guiar  os  trâmites  da  vi- 
da. Se  essa  força  por  acaso  surge,  aqui  e  além,  em  uma  fu- 
gidia e  estéril  aparição,  não  tarda  a  sumir-se  entre  os  cla- 
mores de  uma  jocosa  derrubada.  Suspeito  que  nesse  exame 
não  seria  descabida  a  lembrança  de  J.  Joubert  que  «quanto 
mais  pensava,  mais  via  que  o  espírito  é  qualquer  cousa  fora 
da  alma,  como  as  mãos  o  são  fora  do  corpo,  os  ramos  fora 
do  tronco.  Ajuda  a  poder,  mas  nào  a  ser  mais  . 

Evidentemente,  em  Eça  de  Queiroz  superabunda  o  espí- 
rito, de  sua  natureza  e  em  toda  a  conjuntura  analítico,  e 
portanto  dissolvente ;  nào  lhe  deixava  margem  para  largos 
impulsos  de  edificação.  Não  foi  moralizador.  E'  manifesto. 
O  que  aliás  é  diferente  de  ser  moral. 

Por  isso  nesta  altura,  e  dando  por  averiguado  que  Eça  de 
Queiroz  não  foi  moralizador,  manda  o  seguimento  lógico 
que  preguntemos  de  que  moral  descreu  e  se  apartou,  qual 
foi  a  que  o  seu  sorriso  ofendeu,  se  a  de  Confúcio,  se  a  de 
Cleópatra,  se  a  de  Plutarco,  pois  o  mundo  não  está  tão 
moço  e  nem  tem  peregrinado  tão  pouco  que  não  conheça 
muito  género  de  moral  e  não  se  tenha  governado  excelen- 
temente com  as  mais  diversas  das  suas  espécies,  havendo 
chegado  até  a  persuadir-se  de  que  alguma  que  ontem  foi 
magnífica  e  gloriosa,  é  hoje  abominável  e  aviltante. 

O  certo  é  que  no  pensamento  vulgar  e  corrente,  quando 
se  fala  em  moral,  apenas  nos  referimos  á  moral  cristã,  aos 
Mandamentos  da  Lei  de  Deus,  em  que  a  tradição  e  a  evo- 
lução histórica  das  gerações,  donde  vimos,  moldaram  a  nossa 
mentalidade  afectiva  e  determinaram  a  obediência  e  obri- 
gações daí  derivadas. 

Neste  sentido,  não  será  moral  a  obra  de  Eça  de  Queiroz ; 
não  será  o  melhor  texto  para  o  púlpito  sagrado  nem  para 
intercalar  nos  livros  de  missa.  Entre  o  tumulto  das  ruinas 


que  a  sciencia  do  seu  tempo  se  empenhou  em  acumular  e 
de  que  êle  foi  um  portentoso  sina),  exaltando  pelo  êxito 
maravilhoso  não  só  a  capacidade  do  seu  criador  como  tam- 
bém a  da  raça  que  pelo  génio  fecundo  de  um  intérprete  ex- 
cepcional se  revelava  apta  para  partilhar  da  mais  alta  men- 
talidade de  um  momento  da  civilização,  que  entre  todos  se 
distinguiu  por  uma  actividade  ingente  do  espírito  ;  nesse 
arraial  turbulento  de  aspirações,  a  obra  de  Eça  de  Queiroz 
niantem-se  destituída  das  confianças  vulgares  que  remanes- 
ciam,  benignamente  descrente,  espontaneamente  maleável 
e  fluida,  indulgente  para  todos  os  fanatismos,  para  os  mais 
ortodoxos  como  para  os  mais  audaciosamente  iconoclastas, 
apagando  de  contínuo  e  mansamente  a  desenvoltura  ingé- 
nua dos  paradoxos,  em  geral  de  nenhuma  fé,  quando  não  se 
deleita  em  ser  de  toda  e  qualquer  fé. 

Ainda,  porém,  não  podemos  parar  aqui;  e  tendo  de  ir  um 
pouco  mais  além  na  diligencia  de  decifrar  atitudes  e  dize- 
res, não  raro  enigmáticos,  viremos  a  preguntar  se  no  fundo 
da  inquietação  moral  e  frouxidão  erradia  de  Eça  de  Quei- 
roz não  haverá  elementos  constantes,  um  lastro  que  lhe 
equilibra  a  embarcação  e  lhe  deixa  levar  a  cabo  a  jornada 
em  meio  da  tormenta,  e  mais  parece  afoita-lo  a  todo  o  ar- 
rojo do  que  induzi-lo  em  acautelado  retraimento.  Aquela 
mesma  contradição,  unanimemente  confessada,  da  isenção 
moral  da  obra  literária  coincidindo  com  a  incontestável  ele- 
vação moral  do  seu  autor,  não  terá  explicação  e  nexo  e 
coerência  em  uma  moralidade  superior,  estranha  á  moral 
corrente  e  mais  alta  do  que  esta,  e  parecendo  que  llie  é  to- 
talmente estranha  e  a  despreza  só  porque  lhe  está  mais 
alta? 

Talvez  que  umas  breves  linhas  daquele  malogrado  C.  Pé- 
guy,  que  tão  subtilmente  nos  revelou  os  fundamentos  da 
moral  incorruptível  de  Renan,  nos  sirvam  para  nos  mostrar 


igualmente  a  intima  e  inviolável  robustez  das  hesitações  e 
divagações  de  Eça  de  Queiroz.  Porque  dele  e  com  verdade 
poderemos  dizer  também :  <Um  perpétuo  cuidado  de  não 
ser  ridículo,  mesmo  perante  a  sua  própria  pessoa,  e  para 
isso  de  não  ser  logrado,  mesmo  pela  sua  própria  pessoa, 
substituía  nele,  quasi  com  vantagem,  o  amor  da  verdade  > 
O  que  em  muitos  outros  ha,  mesmo  inocentes.  Por  todas 
estas  vias  era  levado  a  meditar,  sob  as  suas  ocupações 
quotidianas,  o  próprio  objecto  destas  ocupações.  Não  era 
estranho  a  toda  a  metafísica.  Sabia  o  que  isso  fosse.  Estava 
ionge  de  o  ignorar.  Tinha  necessidade  disso.  Por  isso  um 
homem  como  Renan  nos  trará  um  auxílio  precioso,  quasi 
único  ;  os  seus  gracejos  incessantes,  tantas  vezes  imodes- 
tos,  só  por  modéstia  ali  estavam,  e  como  uma  túnica.  Os 
seus  trajos  são  fáceis  de  fazer ;  porque  nesse  doce  clima  só  se 
usa  um  pedaço  de  pano  fino  e  leve,  que  não  ê  cortado  e  que 
cada  uni  cinje  ao  corpo  por  modéstia,  dando-lhe  a  forma  que 
iiuer:  —  é,  dada  por  Fénelon,  esse  Renan  do  século  xvii, 
uma  definição  exacta  do  nosso  Renan.  Tanto  mundauismo, 
tantas  fraquezas,  tantas  concessões  ao  século  eram  apenas 
um  revestimento.  E  a  preocupação  metafísica  andava  no 
próprio  organismo  >. 

Ponhamos  Eça  de  Queiroz  onde  Péguy  escreveu  Renan, 
e  talvez  não  haja  mais  que  mudar  para  que  o  retrato  seja 
fiel.  Somente  distingo  mal  onde  é  que  aquele  «cuidado  de 
não  ser  ridículo  nem  logrado.)  se  estrema  do  amor  da  ver- 
dade, ou  melhor,  da  aspiração  da  verdade. 

Nas  torrentes  de  desrespeito  em  que  a  obra  de  Eça  de 
Queiroz  submergiu  tantos  ídolos  e  tanta  respeitabilidade 
sediça,  flutua  e  jamais  se  afunda  um  culto  cuja  fé  sempre 
venerou  e  nunca  traiu,  uma  honestidade  intelectual  incor- 
luptivel,  a  ansiedade  de  verdade  e  as  freimas  constantes 
de  a  captar  e  de  a  servir.  Nem  será  exagero  dizer  que  so- 


10 


freu  pela  verdade,  pois,  buscando-a  com  agitada  e  como- 
vida solicitude,  foi  vítima  de  toda  a  dúvida,  e  a  duvida  é 
por  natureza  crudelissima ;  lasciafe  ogni  speranza,  á  sua 
porta  cessa  toda  a  alegria,  A  alegria  não  prescinde  de  con- 
fiança e  certeza,  se  não  é  mesmo  a  exaltação  em  uma  certeza 
apetecida.  Porventura  as  últimas  décadas  do  século  xix 
teriam  sido  singularmente  férteis  em  pessimismos  sombrios 
porque  se  mostraram  não  só  pródigas  de  incertezas  e  dú- 
vidas mas  também  demolidoras  impetuosas  das  certezas  de 
outras  eras  e  do  seu  conforto.  E  esse  conforto  não  o  pôde 
ter  Eça  de  Queiroz,  porque  a  agudeza  do  espírito  e  o  alvo- 
roço da  sua  época  lho  roubaram  e  proibiram  para  que  po- 
désse  ser  um  pregoeiro  de  moralidades.  Não  veio  como 
missionário  a  evangelisar  as  gentes  ;  veio  apenas  a  honrar 
a  sinceridade  e  a  definir  o  pensamento  entre  as  próprias 
mágoas,  sacrificando-lhes  sem  lamentos  o  contentamento 
íntimo  dos  afirmativos.  Nem  teve  outra  aspiração.  Não  quis 
ser  pastor  nem  senhor  ;  preferiu  ser  o  servo  de  um  impulso 
de  lucidez.  Não  sonhou  dar  uma  consciência  ao  mundo ; 
mas  foi  luz  da  consciência  do  mundo  em  que  viveu,  tole- 
rante, desiludido  algumas  Vezes  e  instantemente  esforçado 
em  se  libertar  e  nos  libertar  do  erro.  Alto  exemplo  de  pro- 
bidade intelectual,  sujeitando-se  a  todas  as  dolorosas  hesi- 
tações que  ela  irremissivelmente  impõe,  por  fim  se  achará 
sob  um  esvoaçar  de  desdém  uma  real  humildade,  que  só  por 
si  é  uma  moral,  e  austera,  desinteressada,  nobre. 

Não  poderei  ignorar  que  o  conhecimento  filosófico  da 
verdade,  embora  exija  virtudes,  não  é  só  por  si  a  virtude, 
não  é  uma  solução  da  vida  ;  apenas  se  limitará  ao  exame  e, 
quando  muito,  á  contemplação  das  relações  dos  homens  e 
das  cousas,  não  indo  além  de  elemento  de  acerto  e  preven- 
tivo de  desenganos.  A  solução  da  vida  e  a  moral  em  que 
ela  se  traduz,  e?sas  são  um  pouco  tnai?  esquivas  e  severas; 


11 


têm  de  ser  emanação  e  dependência  da  alma,  uma  prisão, 
uma  religião,  da  qual  deriva  um  fim  e  uma  regra  para  a 
servir  e  revelar  aos  sentidos,  uma  razão  de  ser  e  proceder. 
Mas  Cristo,  que  aceitou  a  cruz  por  amor,  por  divino  man- 
dado religioso,  consagrou  com  o  seu  sangue  o  amor  da 
verdade.  Poderá  a  verdade  substituir  na  inconsciência  re- 
ligiosa, não  duvido  ;  mas  a  consciência  religiosa  jamais  se 
apartará  da  paixão  da  verdade,  e  sempre  será  arriscado, 
senão  impossível,  pretender  distinguir  os  limites  respecti- 
vos do  amor  da  verdade  e  da  abdicação  religiosa. 


Eixo,  7-VII.1918. 

Jayme  Magalhães  Lima. 


A  ultima  vez  que  o  vi 


Ao  declinar  de  uma  deliciosa  tarde  de  verão,  em  Cintra, 
fcstava  eu  sentado  num  muro  baixo,  próximo  dos  Banhos 
de  duche,  quando  avistei  a  figura  nervosa  e  franzina  de  Eça 
tle  Queiroz,  que  voltava  para  a  vila. 

Foi  a  ultima  vez  que  o  vi. 

Cedendo  ao  primeiro  impulso,  levantei-me  para  lhe  dar 
duas  palavras,  mas  logo  me  tornei  a  sentar,  por  me  haver 
ocorrido  subitamente  um  facto  curioso  que  Blaze  de  Bury 
refere  passado  em  Paris  com  o  célebre  Meyerbeer. 

O  grande  compositor  do  Profeta  e  dos  Hugtunotes,  até 
quando  andava  por  fora  de  casa,  ia  dominado  pela  magia 
da  sua  arte  divina,  e  era  frequente  tirar  do  bolso  a  carteira 
e  apontar  a  lápis  uma  melopeia,  uma  cadencia.  Se  acon- 
tecia dirigir-se-lhe  algum  ocioso,  desses  que  andam  na  rua 
para  matar  o  tempo,  e  lhe  dizia,  por  exemplo :  —  Então 
que  é  feito  ?  O  que  faz  por  aqui  o  meu  amigo  ?  —  Meyer- 
beer respondia  com  a  maior  naturalidade:  Eh!  Monsieur, 
jefais  com  me  voas,  je  me  promène. 


13 


E  seguia  logo  o  seu  caminho.. .  o  caminlio  da  glória. 

Ora,  naquela  tarde,  Eça  de  Queiroz  ia  muito  pensativo, 
parecendo  de  todo  alheado  da  encantadora  paisagem  que  o 
circundava,  e  inteiramente  absorvido  nas  suas  cogitações. 
Foi  por  isso  que  preferi  não  lhe  falar,  deixando-o  seguir 
tranquilo  o  seu  caminho. . .  que  era  o  mesmo  de  Meyerbeer. 


Alberto  Tclp- 


Eça  de  Queiroz 


(CARTA) 


Meu  caro  camarada  —  pede-me  colaboração,  dando-nie 
pressa,  e  fornece-me  um  tema  enorme  :  Eça  de  Queiroz. 
Imagino  que  acerca  de  um  autor  como  este  ou  se  escreve 
um  longo  estudo,  pelo  menos  um  sério  estudo,  ou  se  apre- 
sentam desculpas  e  nos  escusamos.  E'  esta  ultima  solução 
a  que  se  me  afigura  decorosa.  Se  eu  me  dedicasse  a  essa 
ordem  de  ensaios,  o  que  mais  me  tentaria  seria  estudar 
neste  grande  mestre  a  curva  da  sua  complexa  psicologia, 
que  o  fez  partir  de  uma  atitude  de  encarniçados  desdéns 
até  chegar  á  ternura  gentilissima  e  bucólica  dos  seus  últi- 
mos livros.  Queiroz  conta  que  os  rapazes  revolucionários 
da  roda  de  Antero  tinliam  descoberto  um  dia  esta  novidade 
imensa  —  a  Bíblia.  O  grande  escritor  descobriu,  no  último 
período  da  sua  vida,  esta  outra  maravilhosa  novidade  — 
Portuííal ! 


15 


E'  que  o  romancista  confundiu  durante  longo  tempo  Por- 
tugal com  o  conselheiro  Acácio. 

Mas  nos  seus  últimof  livros  o  grande  artista,  sentindo  a 
graça  do  seu  País,  é  já  um  grande  camarada  nosso.  E  êle, 
como  nós  e  o  Castanheira  do  Ramires,  — amamos  enifim  a 
Tradição . . . 


Março  de  1917. 


Affonso  Lopes  Vi  lira. 


Eça  de  Queiroz,  tiomem  de  coração 


Foi  Eça  de  Queiroz,  antes  de  tudo,  a  realisação  viva 
daquele  simples  e  comovente  conceito  que  um  dia  vi  ornar, 
como  a  mais  bela  e  a  mais  suave  das  apoteoses,  um  mo- 
desto pedestal  de  sábio  :  E'  do  coração  e  não  do  cérebro  que 
nascem  os  grandes  pensamentos. 

Na  sua  vida  de  funcionário,  ofuscada  pela  scintilação 
candente  da  sua  existência  literária,  ha  contudo  traços 
desta  nítida  psicologia  que  jamais  o  biógrafo  deverá  dei- 
xar de  examinar  se  quizer  que  a  figura  sublime  do  roman- 
cista ressalte,  vibrante,  em  toda  a  pujança  dos  seus  múlti- 
plos aspectos  de  creatura  verdadeiramente  excepcional. 
Sabe-se  quanto,  durante  a  temporada  de  Paris,  se  tornou 
proverbial  a  excelsa  bondade  da  sua  alma  e  a  nobreza  ex- 
trema do  seu  coração.  Aventureiros  e  boémios  que  o  pro- 
curavam no  consulado  encontravam  invariavelmente  nele 
um  protector  amigo. 

A  linha  severa  e  austera  daquela  extranha  figura  de  di- 
plomata rígido  na  aparência,  gelado  no  olhar,  irónico,  quase 


17 


sarcástico  no  tiorriso,  nào  conso^uiu  nunca  perturbar  ne- 
nhum dos  portugueses  que,  perdidos  na  imensidade  da  con- 
fusa cosmópolis,  a  êle  recorriam  em  desespero  de  causa. 
Chegavam  a  procurá-lo  pobres  hespanhoes,  italianos,  bra- 
zileiros,  creaturas  de  acaso  surdidas  dos  confins  da  Armé- 
nia e  da  Bulgária,  russos,  rumenos,  judeus,  turcos  de  ori- 
gem vaga  e  mais  incerta  que  a  côr  dos  andrajos  que  ves- 
tiam..  .  Eça  de  Queiroz,  diz  um  cronista  do  tempo,  «quando 
aparecia  algum  necessitado  tentava  reagir,  queria  negar-se, 
mas  por  fim  o  seu  coração  falava  mais  alto,  e  depois  de 
dar  uma  pequena  reprimenda  ao  intruso,  se  era  estrangeiro, 
metia  a  mão  ao  bolso  e  tirava  sempre  um  ou  dois  francos 
para  o  desgraçado,  que  nunca  em  vão  implorava  uma  es- 
mola na  sua  frente.» 

Era  de  uma  sensibilidade  de  violeta  aquele  espírito  ro- 
busto e  fecundo  como  um  roble  secular.  Exemplar  chefe  de 
"familia  — a  maior  e  mais  inestimável  de  todas  as  qualida- 
des do  homem  —  atornientava-o,  num  indizivel  anseio,  a 
paixão  violenta  da  côr  e  do  perfume.  Adorava  as  creanças, 
as  aves,  as  coisas  frágeis  e  os  grandes  silêncios  claros  das 
paisagens  tranquilas  :  tinha  de  ser  fundamentalmente  bom. 
Na  sua  tebaida  de  Neuilly,  sobre  a  mesa  de  trabalho,  pen- 
diam sempre  algumas  flores  discretas.  Era  legionário  da 
Honra ;  mais  vezes  porém  lhe  sorria  na  lapela  uma  violeta 
ou  uma  rosa  que  a  fita  rubra  da  Legião. 

Ha  na  sua  vida  um  facto  que  ficou  quase  ignorado  e  tem 
todo  o  sabor  das  coisas  inéditas,  porque  só  uma  vez  en- 
contro, entre  a  extensa  cópia  de  notas  e  informações  bio- 
gráficas de  Eça  de  Queiroz,  uma  leve  referência  ao  episó- 
dio feita  pela  pena  amiga  de  Eduardo  Prado.  Transcrevo, 
textualmente : 

«A  Havana,  para  onde  foi  mandado  como  cônsul,  nào  foi 
para  êle  um  paraíso.  Cuba  não  tem  uma  literatura  impres- 


18 


sionante  e  a  paisagem  tropical  nào  é  animada  pelas  jjran- 
des  recordações  clássicas  da  História  e  da  Arte.  E'  uma 
estufa  verdejante  que  o  estrangeiro  não  chega  a  amar,  sem- 
pre extenuado  de  calor  e  da  apreensão  constante  de  uma 
morte  inglória  pelo  vómito  negro.  Ali  não  fez  obra  de  ar- 
tista e,  em  tudo  quanto  mais  tarde  escreveu  Eça  de  Quei- 
roz, não  se  vê  lembrança  daquele  pesadelo  de  palmeiras  e 
orquídeas.  Teve  porém  a  rara  sorte  de  iniciar  a  sua  prá- 
tica dos  homens  e  das  coisas  por  uma  obra  de  rialidade, 
de  honra  e  de  amor. 

\<Florescia  então  em  Cuba  o  comércio  dos  chins  escra- 
visados,  nominalmente  portugueses  porque  era  do  porto 
português  de  Macau  que  eles  eram  levados  para  os  infer- 
nos de  verdura,  de  calor  e  de  sofrimento  que  eram  para 
eles,  as  plantações  de  assucar  da  Ilha.  Foi  Eça  de  Quei- 
roz nomeado  cônsul  para  regular,  inspeccionar  e,  portanto,, 
manter  esse  comércio.  Por  uma  disposição  fiscal  da  lei  con- 
sular, esse  comércio  era  altamente  lucrativo  para  o  consuL 
Aconteceu  porém  que  o  cônsul  foi  Eça  de  Queiroz,  que  co- 
meçou uma  campanha  oficial  contra  o  comércio  dos  chins, 
c|ue  foi,  finalmente,  abolido.  Depois  deste  acto  de  desin- 
teresse, partiu  para  a  terra  proverbial  do  interesse.  Correu 
os  Estados  Unidos. . .» 

Eduardo  Prado  fixou  assim  uma  nota,  e  das  mais  vibran- 
tes, da  extraordinária  candura  de  alma  desse  homem  hom 
e  suave  como  Cristo.  No  que  erra  porém  Eduardo  Prado  é 
na  convicção  expressa  de  que  o  exílio  de  Cuba  ficasse  sem 
influência  na  obra  do  artista.  O  episódio  dos  chinas  es- 
cravisados  constituiu  nem  mais  nem  menos  que  a  remota 
sugestão  do  Mandarim,  de  que  já  em  1880  se  publicava  a 
2.^  edição.  E'  flagrante  o  paralelo.  E  senão,  peguem  no  li- 
vro, analisem  aquele  Teodoro,  o  enguiço,  como  lhe  chamava 
&  explêndida  D.  Augusta,  —  burocrata  magro,  que  entrava 


19 


sempre  as  portas  com  o  pé  direito,  tremia  dos  ratos  e  cor- 
covava. . .  Teodoro  não  é  mais  que  uma  auto-caricatura  fe- 
licissima  de  humorismo.  Eça  tinha  com  efeito  o  espírito 
constantemente  nublado  de  vagas  superstições ;  entrava 
com  o  pé  direito  em  casa  dos  amigos  e  desculpava-se  do 
ridículo  desse  gesto  ponderando  que  nos  deviamos  subme- 
ter, sem  reflectir,  ao  impulso  misterioso  das  Coisas. . . 

A  sua  situação  de  cônsul  na  Havana  assemelhou-se  num 
dado  instante  à  do  homem  diabolicamente  tentado  a  matar 
o  Mandarim  que  não  conhece,  que  o  não  interessa,  e  que 
lá  longe,  no  fundo  da  China,  ante  a  paisagem  remota  e  diá- 
fana de  uma  tarde  serena  entretém  os  longos  ócios  de  ve- 
lho na  tarefa  pueril  de  soltar  ás  brisas  o  seu  papagaio  de 
papel.  E  matá-lo  comodamente,  sem  um  esforço,  sem  uma 
repugnância,  com  a  consoladora  certeza  de  lhe  herdar  os 
copiosos  bens... 

Eça,  cônsul  de  Portugal  em  Cuba,  poderia  ter  feito  ali 
uma  fortuna  imensa  se  a  bondade  infinita  da  sua  alma  lhe 
não  tivesse  abafado  no  espirito  o  gérmen  satânico  da  cubi- 
ca. Não,  nunca !  Êle  repudiava  vigorosamente  a  sumptuo- 
sidade ao  preço  horrivel  por  que  lha  ofereciam  os  fazen- 
deiros da  ilha.  O  seu  coração  de  santo,  onde  havia  sempre 
uma  benção  para  todas  as  misérias  e  um  protesto  para  to- 
das as  injustiças,  como  nos  seus  lábios  um  sorriso  irónico 
de  desdém  para  todos  os  ridículos,  não  se  deixou  vencer 
pela  tentação.  Podia  calar-se,  não  auxiliando  a  infâmia. 
Fez  mais:  protestou.  E  na  prosa  oficial  dos  seus  relatórios 
consulares  insistiu  longamente  sobre  a  desgraça  do  pobre 
culi  que  trabalhava  como  um  escravo,  de  sol  a  sol,  no  in- 
ferno dos  engenhos,  para  que  mais  oiro  se  amontoasse  nos 
cofres  dos  fazendeiros  bestiaes.  Tomando  decididamente 
partido  ao  lado  do  china,  chegava  nos  seus  ofícios  para  o 
ministério  dos  estrangeiros  a  jiistificar-lhes  os  crimes  : 


20 


«Sucede  com  efeito  ás  vezes,  escrevia  Eça  de  Queiroz 
ao  ministro  em  17  de  maio  de  1873,  que  nos  engenhos  ha 
assassinatos  misteriosos  de  mayoraes,  a  que  os  chinas  não 
são  alheios  ;  mas  estes  excessos  não  se  podem  filiar  na  ín- 
dole, porque  vêm  da  desesperação.  A'  desesperação  se  deve 
atribuir  também,  ainda  que  ha  neste  facto  muita  influencia 
das  superstições  religiosas,  os  numerosos  suicídios  de  co- 
lonos. Assim  é,  ex."""*  sr.,  que  em  todos  os  exemplos  da 
servidão  humana,  eu  não  conheço,  a  não  ser  o  fellah  no 
Egypto  e  na  Núbia,  ninguém  mais  infeliz  que  o  culi.  E  se 
a  justiça  não  é  uma  mera  categoria  de  rasão,  a  condição 
dos  colonos  na  America  Central  não  é  compatível  com  a 
dignidade  desta  época.» 

Deste  episódio  que  detalhada  e  documentadamente  hei 
de  referir  um  dia,  nasceu  o  Mandarim.  Não  é  original,  bem 
sei,  a  forma  simbólica  por  que  o  problema  foi  posto  em 
equação.  A  literatura  francesa  forneceu-lhe  a  fórmula  da 
pregunta,  submetida  pelo  seu  enorme  talento  á  colorida 
análise  do  romance ;  foi  porém  no  seu  nobilíssimo  proce- 
dimento de  homem  de  coração  que  encontrou  a  resposta : 
Sô  sabe  bem  o  pão  que  dia  a  dia  ganham  as  nossas  mãos : 
nunca  mates  o  Mandarim ! 


Hermano  Neves. 


o  Regresso  a  Tormes 


Mf.u  caro  Cardoso  Martha: 


Não  sei  bem  que  importância  possa  ter  para  a  vossa  ca- 
rinhosa homenagem  ao  Mestre  a  mais  que  humilde  contri- 
buição da  minha  rubrica  e  dos  meus  dizeres. 

Preitos  da  natureza  d'este  devem  valer  pela  intensidade, 
que  não  pelo  Volume;  e  tudo  o  que  dizer  eu  possa  do  gran- 
de Evocado,  apenas  avolumará  em  composição  tipográfica 
e  em  papel  a  espécie  de  devassa  critica  que  deve  ser  o 
vosso  In  memoriam. 

Em  toda  a  acta  de  inquirição  compete  averiguar  da  ido- 
neidade da  testemunha,  para  que  o  seu  depoimento  produza 
prova.  O  meu  —  confesso-lho  sinceramente  —  em  nada  pode 
acrescentar-lhes  a  Festa  de  Saudade  e  de  Justiça  que  vo- 
cês andam  a  concertar. 

Eça  de  Queiroz  está  feito  para  a  admiração  culta  dos  ra- 
ros, por  si  próprio,  atravez  da  sua  obra.  Urge,  porventura, 
fazê-lo  para  a  popularidade,  atravez  de  uma  comentação 
crítica  que  lho  explique  e  torne  accessivel. 


22 


Nem  vocês  d'esta  feita  congeminam  nisso,  nem  eu,  por- 
tuguesissimamente  incrítico,  podia  levar-lhes  ajuda  de  me- 
diana monta  se  tal  premeditassem. 

Não  lhe  nego  que,  no  individualismo  anarchico  que  ca- 
racterisa  entre  nós  a  apreciação  do  facto  de  Arte,  eu  pos- 
sua sobre  a  Arte  de  Eça  uma  ou  outra  maneira  pessoal, 
porventura  criticamente  exacta,  de  a  frentear,  apreender  e 
definir.  Mas,  à  fé  de  Deus!  que  nenhuma  dessas  anotações 
rápidas  e  impressivas  da  minha  percepção  e  do  meu  juiso, 
—  mais  da  minha  sensibilidade  que,  propriamente,  da  minha 
análise  —  tem  a  pretensão  de  haver  atingido  aquele  valor 
definitivo  que  o  próprio  Eça,  atravez  do  auto-prolonga- 
mento  de  si-mesmo  que  é  Fradique,  exigia  ás  ideias  para 
que  merecessem  o  serem  registadas  ou  perpetuadas. 

Saudar  a  memoria  do  Mestre  querido  com  uma  mera  pi- 
rotecnia, mais  ou  menos  estralejada,  de  lugares-comuns, 
afigura-se-me  desrespeito.  Quem  tão  cordialmente  os  de- 
testava, já  excessivamente  os  tem  padecido.  Pela  minha 
parte,  julgo  do  meu  dever  poupá-lo.  Por  mim  e  pela  gera- 
ção a  que  pertenço,  devo-lhe  muito  —  até  em  defeitos.  An- 
tes pagar-lh'o  em  silêncio,  que  em  banalidade. 

Você  sabe  bem  —  pelo  comércio  de  impressões  que  so- 
bre este  particular  temos  realisado,  na  cavaqueira  fútil  e 
fugaz  de  todos-os-dias  —  quanto,  e  como,  quero  espiritual- 
mente àquele  que  com  o  fragmentado  e  intenso  Fialho, 
mais  contribuiu  para  a  ductilisação  plástica  de  uma  lín- 
gua, que  elles  vieram  topar  bella,  é  certo,  mas  ainda  dura 
e  densa,  nos  arremessos  formidáveis  da  prosa  camiliana. 
Os  músculos  fortes  do  seu  arcabouço  adelgaçaram-se  em 
fibra  de  nervos;  a  gargalhada  sorriu;  a  palavra  tornou-se 
som  vivo  e  côr  viva...  Desarticulado,  musicado,  liberto, 
o  vocábulo  arrojou-se,  aligeirou-se,  voou,  tomou  rumos 
novos,  novos  horisontes. ..  Os  elementos  expressionais  da 


23 


escrita  foram  inteiramente  renovados  pelo  seu  talento.  Ou- 
tros processos,  outro  movimento,  outros  ritmos,  outras 
ânsias  de  despertar  a  sensação.  Tudo  o  que  na  arte  de 
escrever  dos  nossos  dias  existe  de  elegância,  de  citadinís- 
mo,  de  europeu,  lho  devemos  —  porque  Eça  foi,  dentro  da 
literatura  como  dentro  da  vida,  um  dandy  que  nos  ensinou 
a  vestir  bem.  As  boas  maneiras  da  nossa  prosa  são,  ainda, 
as  que  elle  nos  trouxe  de  fora.  Outros  estofos,  talvez,  mas 
o  mesmo  figurino  sempre. 

Paralelamente  a  esta  mundanisante  influencia  de  bom- 
gôsto  e  de  civilisação,  que  abriu  á  nossa  bisonhice  recolhi- 
da de  lapónios  as  portas  da  Cidade,  integrando-nos  esteti- 
camente no  convívio  das  aristocracias,  é  claro  que  outra, 
consequente  e  inevitável,  se  exerceu:  a  de  um  dissolvente 
desamor  por  tudo  o  que  era  nosso. 

A  alta-goma  mental  em  que  Eça,  cedo  desenraizado  do 
huintis  natal,  se  fez,  incompatibilisou-o  com  a  canhotice 
dos  nossos  modos  tardos  e  rústicos. 

Porque  era  uma  inteligência  sofregamente  observadora, 
Eça  não  se  poude  furtar  ao  confronto  das  sensações  su- 
periores dos  meios  novos  e  adiantados  em  que  hospedou 
o  seu  espirito  com  os  que  obtinha  entre  os  da  sua  grei.  E 
por  tim  fenómeno  de  orgulho  intelectual,  repudiou  toda  a 
solidariedade  com  as  suas  inferior  idades  exteriores.  Dahi, 
a  perspectiva  caricatural  que  a  vida  portuguesa  tomou 
aos  seus  olhos.  E,  consequentemente,  a  acção  dúplice  do 
seu  esforço:  —  negativa  dentro  da  sociedade  e  da  educa- 
ção nacionais,  construtiva  e  inovadora,  dentro  da  Arte, 
que  um  instinto  superior  e  liberto  entendeu  ser  impessoal 
e  cosmopolita,  como  foi. 

A  essa  fase  corresponde  a  parte  da  sua  obra  que,  para 
mim,  não  passa,  com  raras  excepções,  de  uma  espantosa 
biag!je,  fulminante  de  talento,  acesa  e  charriscante  de  es- 


24 


pirito,  acre  e  incantadora  de  intenção  e  de  estilo  —  mas 
perniciosa,  envenenadora  como  um  tóxico  italiano  da  Re- 
nascença. Porem  o  meu  incantamento  espiritual  ante  a  sua 
obra  de  homem  de  espirito,  elegante  e  sceptico  paisagista 
da  existência,  começa  a  ser  admiração  profunda  quando, 
com  A  Cidade  e  as  Serras,  e  mais  tarde  com  o  Frei  Gil.  Eça 
iniciava  o  seu  regresso  definitivo  a  Tormes  e  á  Sinceri- 
dade. O  monóculo  caíra-lhe.  Começava  a  ver  por  dentro 
e  a  olho  nú  a  vida  e  as  coisas  que  até  ahi  não  vira,  mas 
espectaculára,  desdenhoso,  de  nm  balcão  do  202,  pelo  bi- 
nóculo de  Jacinto. . . 

O  grande  escritor  português  que  elle  era  no  fundo  volta- 
va-nos  então,  um  pouco  cansado,  talvez,  do  seu  turismo 
através  das  civilisações,  enjoado,  talvez,  dos  manjares 
alheios,  e  saudoso  do  pão  ázimo  do  seu^^ar. 

Essa  espécie  de  vergonha  de  se  enternecer  que  até  ali  o 
caracterizava,  desaparecia.  Reintegrava-se.  E  voltava  a  ser 
ternura  o  que  a  inteligência  doentiamente  critica  tornara 
em  ironia.  Ao  contacto  sincero  e  filial  com  a  terra  e  com 
a  alma  de  Portugal,  uma  profunda  integração  afectiva  se 
começava  a  esboçar.  E  quem  sabe  o  que  nos  viria  a  dar 
essa  como  que  penitencia  mental  do  muito  que  rira,  do 
muito  que  destruirá,  do  muito  que  contribuirá  com  os  da 
sua  geração  para  este  desamoroso  abandono  nacional  em 
que  a  nossa  se  avilta? 

Não  é  impossível  prevê-lo ;  e  gostosamente  o  meu  espí- 
rito aqui  ficaria  a  desfiar  comovidamente  todas  as  proba- 
bilidades dessa  obra,  que  a  morte  nos  truncou  no  seu  mo- 
mento mais  culminante  de  beleza.  Mas  não  foi  para  isso, 
caríssimo  Martha,  que  eu  peguei  na  pena.  Sei  até  onde  ella 
pôde  ir :  não  lhe  dou  trabalhos  com  que  não  aguente.  Que 
o  faça  quem  poder  fazê-lo  nessa  espécie  de  exéquias  críti- 
cas que  Vocês  lhe  preparam  na  vossa  consagração. 


25 


Quanto  a  mim,  já  que  Você  insta  em  me  ter  na  Festa, 
nada  mais  me  resta  que,  acorrer,  e  comovido,  estar  com 
Vocês.  Aqui  estou,  com  o  meu  feltro  na  mão,  e  o  meu 
joelho  pronto  a  dobrar-se  ao  erguer  da  Hóstia,  que  é  a  sa* 
grante  admiração  de  todos  nós. 


Seu  de  todo  o  C. 


JoÂo  CoRRt.\  d'Oliveira. 


Eça  de  Queiroz 


PAGINAS    DE    MEMORIAS 


A   PRIMEIRA  VEZ   QUE  O  VI 


Foi  ahi  por  1889,  sendo  eu,  portanto,  um  rapazelho  de 
16  annos,  mas  estando  já  tocado  da  fascinação  que  sobre 
toda  a  mocidade  do  meu  tempo  exerceu  a  obra  de  Eça  de 
Queiroz.  Posso  dizer  que  aprendi  a  ler  —  e  a  sentir,  e  a 
pensar  —  pelos  seus  livros.  Estou  certissimo  de  que  nelles 
soletrei  e  adivinhei  a  Vida,  muito  antes  de  tel-a  observado 
na  sua  chamada  realidade  objectiva  ou  subjectiva.  Poucos 
escriptores  portuguezes  terão  sido  assim  directores  espiri- 
tuaes  de  uma  ou  duas  gerações,  na  intensidade  e  extensão 
com  que  o  foi,  quasi  talvez  sem  o  saber,  Eça  de  Queiroz. 

Não  eram  só  os  seus  livros  que  nos  apaixonavam;  era 
também  a  sua  vida,  a  sua  figura,  tudo  o  que  de  perto  ou 
de  longe  se  ligasse  á  sua  pessoa.  Nella  encarnávamos  a 


Eça  de  Queiroz  e  sua  esposa 

No    JARDIM    DA    SUA    RESIDÊNCIA    EM    NEUILLY 


27 


cultura,  a  elegância,  a  arte,  o  mundo  civilisado,  perante  o 
qual  nos  sentíamos  ainda  bárbaros  informes,  o  sonho  das 
viagens  longínquas  e  exóticas,  a  febre  e  o  requinte  das 
grandes  Capitães,  as  surpresas  e  delírios  do  Amor,  a  dis- 
tincção  aristocrática  no  viver  e  no  trajar,  o  convivio  das 
mais  bellas  mulheres  e  dos  mais  celebres  homens,  a  expe- 
riência quotidiana  e  familiar  de  Museus,  Theatros,  Monu- 
mentos, Paisagens,  para  nós  mais  distantes  e  fulgurantes 
que  as  estrellas  do  ceu.  Tudo  quanto,  recem-chegados  á 
Vida,  sonhávamos  que  pudesse  constituir  algum  dia  a  per- 
feição e  encanto  da  nossa  vida,  era  symbolisado  para  to- 
dos nós  naquelle  grande  homem  sempre  exilado,  raras  Ve- 
zes visto,  de  quem  se  falava  como  de  um  ser  de  outra 
essência,  cujos  retratos  nos  traziam  uma  perturbante  ima- 
gem de  finura,  fidalguia  e  ironia,  cujas  anedoctas  logo 
promovíamos  a  lendas  e  repetíamos  com  enthusiasmo  cân- 
dido, cuja  alma  nos  parecia  conter  em  resumo  todo  o  Uni- 
verso e  porisso  ambicionávamos  trasladar  aos  poucos  para 
dentro  das  nossas  almas  provincianas. 

Consultem  a  sua  memoria  os  homens  da  minha  edade 
Verão  que  me  estou  recordando  fielmente. 

Escuso,  pois,  de  accentuar  o  que  foi  o  meu  alvoroço 
louco,  quando  uma  tarde,  subindo  a  rua  das  Carmelitas,  no 
Porto,  eu  vi  surgir  diante  de  mim,  como  uma  apparição, 
a  figura  viva  desse  semi-deus  que  Eça  de  Queiroz  era  para 
mim.  Suppunha-o  em  Inglaterra,  no  seu  cottage  florido  de 
Bristol,  de  onde  só  communicava  pontificalmente  comnosco 
através  das  suas  obras-primas.  Nenhum  jornal  me  dera  re- 
rebate  da  sua  vinda  a  Portugal,  da  sua  chegada  ao  Porto. 
E,  comtudo,  era  Elle  em  carne  e  osso,  immediatamente 
reconhecido  pela  semelhança  com  os  seus  retratos,  que  eu 
estava  vendo  descer  a  rua  como  que  ao  meu  encontro, 
entre  a  indifferença  absurda  dos  outros  transeuntes,  sem 


28 


que  ninguém  e  nada,  além  de  mim,  parecesse  tomado  de 
assombro.  Era  elle!  Alto,  esguio,  vestido  de  lucto  pesado, 
com  um  chapéu  alto  de  grande  copa  que  ainda  lhe  prolon- 
gava a  estatura,  umas  lunetas  fumadas  (em  vez  do  esperado 
monóculo)  velando-Ihe  os  olhos,  no  rosto  uma  pallidez  de 
marfim  velho,  uma  harmonia  acabada  no  seu  vestuário 
como  nas  linhas  e  movimentos  do  seu  corpo,  e  um  porte 
ao  mesmo  tempo  olympico  e  vencido,  desdenhoso  e  resi- 
gnado, irónico  e  melancólico,  que  na  occasião  me  fez  pen- 
sar na  frieza  e  altiva  tristeza  dos  cyprestes.  Tal  qual  a 
prosa  sonhada  por  Fradique  Mendes,  aquelle  homem  tão 
diverso  da  humanidade  vulgar,  pareceu-me  um  homem  conto 
ainda  não  havia!  Até  hoje  perdura  no  meu  espirito  esta  im- 
pressão, que  poucos  dos  meus  semelhantes,  pela  vida  fora, 
terão  renovado  em  mim.  E  calculo  com  que  exhuberancia 
infantil  a  hei  de  ter  manifestado.  Imagino  como  arregalei 
os  olhos,  como  alcei  o  corpo  microscópico  para  o  gigante 
elegante  que  se  cruzava  commigo,  como  me  agitei  e  re- 
mexi para  ser  notado.  Mas  o  semi-deus  seguiu  impassí- 
vel, sem  dar  pela  minha  existência.  O  seu  busto  ligeira- 
mente inclinado,  o  seu  andar  calmo,  o  seu  olhar  vago,  não 
mostraram  sentir  o  magnetismo  da  minha  admiração  des- 
lumbrada. E  logo  se  extinguiram,  nas  minhas  costas. 

Eu,  no  entanto,  é  que  não  podia  resignar-me  a  perder 
assim  de  vista  aquella  imagem  surprehendente  que,  de  tào 
longe  e  de  tão  alto,  viera  illuminar  o  meu  dia.  Arripiei 
caminho  e  puz-me  a  seguir  Eça  de  Queiroz.  Pouco  tive  que 
andar.  No  termo  da  rua  das  Carmelitas  ficava  a  velha  li- 
vraria Chardron,  editora  das  principaes  obras  do  grande 
romancista.  Foi  para  lá  que  elle  entrou  e  foi  para  lá  tam- 
bém que  eu  entrei,  faminto  de  prolongar,  sequioso  de  que 
nunca  mais  acabasse  o  nosso  encontro.  Regulando  pelos 
i?eus  os  meus  movimentos,  procurando  conservar-me  o  mais 


2d 


possível  na  sua  visinliativa,  para  melhor  o  ver,  e,  sobre- 
tudo para  o  ouvir,  fiz  menção  de  consultar  uns  livros.  O 
semi-deus  humanisou-se  levemente,  tirou  as  lunetas,  in- 
crustou o  monóculo,  entabolou  conversa  com  um  dos  ine- 
rentes da  livraria.  A  sua  voz  aguda,  um  pouco  de  canna 
rachada,  pronunciou  algumas  palavras  para  mim  indistín- 
ctas.  Ouvi-llie  um  riso  secco.  Foi  tudo.  Nesse  momento 
um  empregado  approximava-se  de  mim,  estranhando  por- 
ventura a  minha  agitação,  e  perguntava-me  ao  que  vinha. 
Reunindo  toda  a  minha  audácia,  querendo  ser  atrevido 
sem  parecer  grosseiro  aos  olhos  daquelle  grande  homem 
tão  fino,  arrebitei  a  voz  e  disse: 

—  Dê-me  o  Mandarim! 

Eça  de  Queiroz  não  ouviu  ou  não  reparou,  longe  de 
suppor  o  mundo  de  emoções  ardentes  que  enchia  aquellas 
minhas  palavras.  Logo  depois  sumiu-se  para  dentro  da  lo- 
ja, acompanhado  pelo  gerente.  E  não  voltou.  Como  semi- 
deus que  era,  breve  foi  a  sua  apparição,  quasl  irreal  a  sua 
presença.  E  eu  sahi  com  o  meu  livro,  arrependido  de  não 
ter  sido  mais  audaz,  e  corri  a  transmittir  aos  meus  amigos 
e  camaradas  o  enorme  acontecimento  de  que  acabava  de 
ser  espectador,  e  que  durante  semanas  foi  o  thema,  sempre 
amplificado,  de  todas  as  minhas  conversas. . . 


II 


A  PRIMEIRA  VEZ  QUE   LHE   FALEI 

Foi  era  Coimbra,  um  ou  dois  annos  depois,  na  Coimbra 
em  que  Eça  de  Queiroz  era  um  dos  nossos  verdadeiros  len- 
tes, na  Coimbra  onde  estudávamos  Direito  pelos  Maias  e 


30 


onde  commentavamos  tão  a  fundo  as  paginas  da  Relíquia 
como  ignorávamos  com  orgulho  as  do  Código  Civil  e  seus 
pares.  Uma  noite,  com  um  magote  de  rapazes  em  que  a  mi- 
nha memoria  só  discrimina  hoje  o  vulto  byroniano  de  An- 
tónio Nobre,  fui  á  Estação  Velha  esperar  o  comboio  rápido 
do  Porto,  em  que  devia  chegar,  ou  partir,  algum  nosso 
companheiro  da  Universidade. 

Estou  a  ver  a  estação  mortiça  e  lúgubre,  mm  instante 
despertada  pelo  alarido  das  nossas  vozes,  onde  sempre  ha- 
via um  resto  de  fados  e  como  um  surdo  trinar  de  guitar- 
ras. Estou  a  ver  e  a  ouvir  as  duas  ou  três  tricanas,  de  cha- 
lés traçados  á  maneira  das  nossas  capas  —  tão  estudantas, 
afinal,  como  nós  —  apregoando  nas  suas  vozes  doces,  com 
as  suas  pronuncias  perfeitas,  as  arrufadas  de  Coimbra,  os 
manjares  brancos  de  Cellas,  os  pasteis  de  Santa  Clara  e 
de  Tentúgal,  toda  a  saborosa  confeitaria  dos  nossos  ve- 
lhos conventos. 

O  comboio  do  Porto  entrou,  emfim,  nas  agulhas,  entre 
toques  de  sineta  e  a  algazarra  habitual  da  entrada  e  sahida 
de  passageiros.  A  demora  era  curta.  E  emquanto  as  porti- 
nholas se  refechavam,  e  na  estação  se  dava  o  signal  da  par- 
tida, eis  que  eu  descubro  e  desencanto,  através  da  larga 
vidraça  do  sleeping-car,  aquella  mesma  figura  tempos  an- 
tes entrevista  na  rua  das  Carmelitas,  e  que  a  distancia 
ainda  mais  divinisara  na  minha  imaginação.  Era  outra  vez 
Eça  de  Queiroz  em  carne  e  osso,  nitidamente  iiluminado 
pelas  luzes  da  sua  carruagem.  Era  elle,  inclinando  para 
nós  a  sua  esguia  figura,  tentando  visivelmente  evocar,  na 
escuridão,  alguma  coisa  da  sua  Coimbra,  da  Coimbra  que 
todo  o  Português  que  por  lá  passou  nunca  mais  deixa  de 
reconstruir  no  seu  coração. 

Passei  palavra  aos  rapazes.  Não  havia  um  segundo  a  per- 
der. O  comboio  começava  a  mover-se.  A  nossa  commoção 


31 


foi  eléctrica,  instantânea.  Muito  mais  que  na  rua  das  Car- 
melitas, agora  envolto  na  minha  capa-e-batina  inexpugná- 
vel de  estudante  de  Coimbra,  senti-me  capaz  das  maiores 
iiudacias.  As  nossas  cupas  ergueram-se  todas  no  ar,  em 
negra  revoada.  A  minha  voz,  a  voz  de  António  Nobre,  to- 
das as  outras,  gritaram  para  a  redoma  de  cristal  em  que 
acabava  de  surgir,  e  ia  já  fugir  aos  nossos  olhos  extacticos, 
a  imagem  encantada : 

—  Adeus,  Eça  de  Queiroz  !  Adeus,  Eça  de  Queiroz  !. . . 

E  Eça  de  Queiroz  ouviu-nos,  viu-nos.  Tivemos  tempo  de 
contemplar  a  sua  surpresa,  de  vel-o  assestar-nos  o  seu  mo- 
nóculo, curvar-se  mais  para  nós,  num  sorriso  em  que  se 
extinguira  bruscamente  toda  a  ironia.  Vimos  o  seu  braço 
crguer-se,  a  sua  mão  dizer-nos  também  adeus,  longamente, 
saudosissimamente,  naquelle  aceno  sem  esperança  com  que 
hoje  bem  sabemos  que  sempre  o  homem  se  despede  do  Pas- 
sado morto  e  da  Mocidade  perdida. . . 

E  o  comboi»  seguiu,  fugiu.  Logo  depois,  teria  de  atra- 
vessar a  ponte  sobre  o  Mondego,  de  onde  Coimbra  apparece, 
aos  olhos  mais  indifferentes,  no  seu  encanto  panorâmico  de 
velha  cidade  moira,  de  dia  enquadrada  e  illuminada  pela 
meiga  paisagem  e  tendo  a  seus  pés  a  endeixa  liquida  do  seu 
rio,  de  noite  toda  accesa  em  amphitheatro,  parecendo  maior 
e  mais  magica. 

Não  se  passa  por  cima  dessa  ponte  sem  sentir  a  oppres- 
são  e  o  echo  de  todos  os  nossos  sonhos  e  delirios,  que  lá 
andaram,  que  lá  ficaram  por  baixo  delia.  Ali  podia  bem 
o  comboio  descarrilar  com  a  nossa  alma,  precipitar-se  com 
ella  num  abysmo  de  evocações  e  saudades,  que  ao  mesmo 
tempo  nos  causa  medo  e  nos  fascina.  Ali  não  passou  tam- 
bém Eça  de  Queiroz  impassível,  naquella  noite  em  que  Deus 
nos  mandou  ao  seu  encontro.  Por  mais  fatigada  que  andasse 
a  sua  sensibilidade,  por  mais  resequida  que  estivesse  a  sua 


32 


memoria,  juro  que  bastou  o  adeus  inesperado  e  febril  das 
nossas  capas  moças  para  aquecer  de  repente  o  seu  sangue 
frio,  e  para  embaciar  de  algumas  lagrimas  deliciosas  o  vidro 
do  seu  monóculo. .. 


Ill 


COMO  NOS  CONHECEMOS 

Paris,  anno  da  graça  de  1892,  ha  exactamente  um  quarto 
de  século,  por  mais  que  a  minha  arithmetica  subjectiva  se 
recuse  a  contar  tanto  tempo  para  tão  pouca  vida.  Eu  for- 
mara-me  em  Direito  em  Coimbra  na  véspera  de  S.  João  e 
completara  a  minha  suave  formatura  pela  noite  adiante, 
dansando  e  cantando  nas  fogueiras  com  as  tricanas  tão  mi- 
nhas condiscípulas,  e  guitarreando  ao  luar  claríssimo  atrás 
do  grande  fadista  Hilário,  pelas  ruas  da  Alta  e  pelas  azi- 
nhagas do  Penedo  da  Saudade. 

Dias  depois  tomava  o  comboio  para  Paris,  ao  encontro 
de  António  Nobre,  que  lá  andava  cortejando  a  venerável 
Sorbonne,  para  arrancar-lhe  também  o  seu  grau  de  bacha- 
rel. Fiz  viagem  com  um  pescador  de  pérolas  das  ilhas  de 
Bazaruto,  que  das  próprias  algibeiras  extrahia,  em  vez  de 
cotão,  a  pesca  preciosa,  e  que  me  prometteu  um  collar 
para  a  minha  Noiva  de  algum  dia  e  até  me  offereceu  mea- 
ção na  sua  empresa.  Mas  os  únicos  milhões  que  então  me 
attrahiam  eram  os  da  minha  imaginação  e  os  da  minha 
edade,  disposto  a  gastal-os  perdulariamente  nessa  Paris 
onde  corria  a  buscar,  como  todas  as  almas  moças  da  mi- 
nha raça,  o  meu  baptismo  de  sonho.  Na  gare  de  Orléans 
esperava-me,  ancioso,  o  poeta  do  Sô,  com  a  sua  cabeça  an- 


33 


nelada  de  Byron,  os  seus  fundos  olhos  de  namorado,  a  sua 
fij^ura  triste  e  bel  ia  de  pescador  ou  de  frade. 

E,  juntos  num  loníjo  abraço,  dentro  de  um  velho  fiacre 
que  mal  sabia  a  carga  tão  rica  de  poesia  que  levava,  lá  to- 
mos ao  assalto  do  Boiúevard  e  do  Bairro  Latino,  lá  me  ini- 
ciei, como  mil  outros,  nos  mysterios  e  desencantos  daquel- 
la  Jerusalém  tão  desejada.  Não  posso  esquecer  que  nessa 
primeira  hora  nocturna  da  chegada,  com  a  cabeça  e  os  olhos 
atordoados  por  quarenta  horas  de  viagem,  ou  então  tomado 
só  da  vertigem  e  embriaguez  da  minha  anciedade,  as  gran- 
des artérias  de  Paris  e  os  terraços  abertos  das  cervejarias 
e  restaurantes,  fortemente  illuminados  e  trasbordantes  de 
mulheres,  me  pareceram  cobertos  de  ramos  de  flores.  Eram 
molhos  de  rosas  cada  vez  mais  densos,  mais  luminosos,  que 
faziam  alas  nas  ruas  á  minha  passagem.  Era  com  um  conto 
de  fadas,  que  a  Cidade  Única  recebia  a  creança  cândida  que 
eu  ainda  não  deixara  de  ser.  Na  manhã  seguinte,  depois 
de  um  somno  baloiçado  e  sacudido  como  pelas  ondas  do 
mar  bravo,  fui  á  busca  das  grinaldas  floridas  com  que  os 
boulevards  se  tinham,  na  véspera,  engalanado  em  minha 
honra.  Mas,  ai  de  mim  e  ai  delias !  a  todas,  sem  caridade, 
a  luz  do  dia  tinha  seccado  e  incinerado.  Nunca  mais  pude 
ou  mereci  vel-as.  Só  essa  noite  alcancei  —  das  mil  e  uma 
promettidas  pelos  poetas  do  Oriente  aos  seus  devotos ! 

Poucas  semanas  mais  tarde,  já  bem  encaminhada  a  mi- 
nha acciimação,  já  affeitos  os  meus  olhos  á  realidade  dos 
panoramas  parisienses,  tantas  vezes  sonhados  antes  de 
vistos,  levou-me  António  Nobre  á  presença  de  Eça  de 
Queiroz.  Encontrámol-o  no  gabinete  de  trabalho  do  seu 
Consulado,  á  rua  de  Berri,  no  bairro  elegante  dos  Campos- 
Eliseos.  Como  estou  procurando  confessar-me  com  simpli- 
cidade, tenho  de  dizer  que  esse  encontro  directo  com  elle 
não  me  deixou  na  memoria  impressão  que  se  compare  á  da 

EÇA    OK   (jCSlROil  ^ 


34 


sua  apparição  sobrenatural  na  rua  das  Carmelitas  ou  á  da 
sua  passagem  meteórica  pela  Estação  Velha  de  Coimbra. 
Os  meus  19  annos  já  eram  mais  críticos  e  estavam  já  mais 
adestrados,  para  o  contacto  dos  grandes  homens,  por  um 
estreito  convívio  faiado  e  escripto  com  esse  outro  Mago, 
de  nome  Guerra  Junqueiro,  que  ainda  hoje  não  oiço  sem 
me  electrisar. 

Eça  de  Queiroz  acolheu-nos  com  a  cortezia  sóbria,  re- 
quintada, que  era  um  dos  seus  dotes.  Cada  gesto  seu, 
cada  palavra,  era  naturalmente  e  sem  intenção  nem  esforço 
uma  obra  de  arte.  A  sua  ironia  ao  falar,  longe  de  ser  con- 
tundente ou  corrosiva,  era  sem  maldade  e,  por  vezes,  quasi 
infantil.  Parecia  incapaz  de  impor  uma  opinião  ou  de  exal- 
tar-se  por  uma  ideia.  Conversando  tacteava  á  procura  da 
tendência  dos  seus  interlocutores  e  logo  se  lhe  adaptava 
polidamente,  com  a  fadiga  velada  e  subtil  de  quem  tinha 
por  vã  qualquer  discussão.  Vi-o  successivaniente,  em  um 
minuto,  proclamar  que  o  tempo  estava  óptimo  e  que  estava 
péssimo,  ao  notar  quanto  a  primeira  these,  embora  tão  in- 
nocente,  desagradava  ás  arraigadas  convicções  de  um  seu 
conhecido.  Não  havia  nesta  attitude  desdém  grosseiro  ou 
artificio  irritante:  muito  ao  contrario,  originava-a  uma  im- 
possibilidade de  confiar-se,  de  interessar-se,  a  que  a  sua 
boa  educação  orgânica  se  empenhava  em  dar  remédio.  Para 
rapazes  fogosos  como  nós  éramos  havia  no  seu  primeiro 
acolhimento  alguma  cousa  de  distante,  de  frio,  que  nos 
deslumbrava  sem  nos  enthusiasmar.  Sentiamo-nos  insuffi- 
cientes  e  rudimentares  perante  a  arte  tão  espontânea,  mas 
tão  consummada,  da  sua  conversa. 

Quando  pude  olhar  para  elle  mais  desembaraçadamente, 
tudo  na  sua  figura  me  pareceu  inimitável.  A  observação 
vulgar  veria  em  Eça  de  Queiroz  um  homem  feio,  esgrou- 
viado,  de  feições  incorrectas ^  olhos  piscos,  cOr  de  pouca 


35 


saúde,  corcova  incipiente.  A  todas  estas  notas  sem  agudeza 
teria  uma  analyse  perspicaz  de  oppor  grandes  erratas.  Se 
aquillo  era  fealdade  nunca  a  encontrei  mais  invejável.  O 
criador  de  Fradique  Mendes  era  em  corpo  e  alma  um  Fra- 
dique.  Os  seus  movimentos  eram  musica  como  os  seus  pe- 
riodos.  E'  natural  que  a  coherencia  total  da  sua  pessoa  re- 
sultasse também  duma  longa  série  de  correcções  e  pacien- 
tes aperfeiçoamentos  através  da  vida,  como  por  vezes  as 
paginas  dos  seus  livros ;  é  possível  que  em  si  próprio,  como 
na  sua  obra,  elle  tenha  emendado  muito.  Mas  desse  esforço, 
se  chegou  a  havel-o,  não  restava  vestigio.  Eça  de  Queiroz 
era  o  homem  fino,  elegante,  exhalando  civilização  e  pes- 
soal encanto,  como  nas  nossas  mais  severas  exigências  po- 
deríamos concebel-o.  A  palavra  fino  é  a  que  mais  vezes 
acode  para  definil-o.  E'  a  que  nos  suggere  a  mecha  negra 
do  seu  penteado  sobre  a  vasta  fronte  pallida ;  o  monóculo 
não  automático,  mas  vivo,  falante,  que  lhe  sublinhava  e 
aguçava  o  olhar ;  a  bocca  excessiva  onde  no  entanto  se 
formavam  sorrisos  sempre  cheios  de  proporção  ;  as  extre- 
midades aristocráticas,  mãos  quasi  femininas  e  tão  ricas  de 
expressão  e  movimento ;  emfim  a  sua  grande  estatura,  que 
tanto  se  nos  impunha  sem  ter  nada  de  imponente,  e  o  ar- 
ranjo infalHvel  do  seu  vestuário,  em  que  todos  os  porme- 
nores tinham  uma  graça  própria,  como  se  Deus  houvesse 
posto  aquelle  homem  sobre  a  terra,  em  vez  de  nu  em  pello 
como  todos  os  outros,  já  calçado  e  vestido  por  sua  divina 
mão.  E,  coisa  estranha,  desta  harmonia  e  equilibrio  nascia, 
quasi  sem  transição,  quando  era  opportuno,  o  exaggeroda 
caricatura.  Eça  de  Queiroz  tinha  o  dom  da  mimica,  com  que 
fazia  viver  as  mais  simples  anedoctas ;  e  até  as  crianças 
riam,  irreprimivelmente,  quando  a  sua  cara  se  mudava  em 
careta,  a  sua  voz  em  guincho,  e  os  seus  braços  e  pernas  se 
ajitavam  em  movimentos  quasi  truanescos,  indo  do  singelo 


36 


coniico  até  ao  macabro.  Erà  assim  a  sua  companhia,  quando 
familiarmente  a  pude  gozar,  um  motivo  continuo  de  emo- 
ções, sensações  e  surpresas. 

A  visita  de  estricta  ceremonia  que  inaugurou  as  minhas 
relações  com  Eça  de  Queiroz  logo  teve  seguimento  em 
encontros  mais  Íntimos,  mais  interessantes,  que  a  sua  affe- 
ctuosa  hospitalidade  me  proporcionou  no  seio  da  sua  linda 
familia,  na  casa  famosa  de  Neuilly.  Ahi  passei  algumas  das 
mais  intensas  noites  da  minha  vida,  ao  pé  da  belleza,  da 
bondade,  da  arte.  Ahi  conheci  a  illustre  mulher  do  grande 
escriptor,  uma  das  maiores,  mais  formosas  e  mais  cultas 
senhoras  de  Portugal,  encarnação  feminina  do  que  na  nos- 
sa velha  raça  mais  nos  pode  orgulhar  perante  quaesquer 
outras,  A  quem  conviveu  com  essa  digna  companheira  e 
egual  de  Eça  de  Queiroz  não  poderão  escapar,  nunca  mais, 
quantos  signaes  haja  da  sua  existência,  da  sua  influencia, 
nas  melhores  paginas  dos  últimos  livros  delle.  Direi  sem 
hesitar  que  ha  lá  gestos,  phrases,  attitudes,  tudo  quanto 
exprime  graça  e  nobreza  senhoril,  verdadeira  belleza,  pura 
e  espiritual  feminilidade,  que  não  teem  outra  inspiração. 

O'  serões  de  Neuilly,  privilegiado  ornamento  da  minha 
mocidade,  onde  logo  ao  romper  da  vida  aprendi  o  que  de 
mais  alto  e  apurado  havia  nella !  Serões  portuguezes  que 
ante  meus  olhos  desenrolaram  um  trecho  de  Portugal  per- 
feito, e  assim  de  antemão  me  fizeram  exigente  e  refractário 
para  outras  suas  mais  contestáveis  perfeições !  Serões  lu- 
so-brasileiros  onde  de  perto  conheci  espíritos  cultos  como 
os  de  Domicio  da  Gama  e  de  Paulo  Prado,  com  quem  cedo 
me  habituei  a  interessar-me  pelo  Brazil  e  a  seguir-lhe  os 
passos  com  fiel  carinho!  Serões  completos,  para  a  intelli- 
gencia  e  para  a  sensibilidade,  onde  a  palavra  de  um  au- 
thentico  homem  de  génio  criava  e  irradiava  uma  athmos- 
phera  e  uma  luz  novas,  onde  havia  senhoras  que  em  tudo 


37 


honravam  o  nome,  on^e  havia  até  crianças  como  tinham 
de  ser  as  provindas  de  tal  pae  e  de  tal  mãe,  os  encantado- 
res filhos  de  Eça  de  Queiroz,  os  três  pequenos  encaraco- 
lados como  anjos  e  irrequietos  como  diabinhos,  a  filha 
meiga  e  linda,  de  grandes  olhos  portuguezes,  que  aos  três 
annos  nos  cantava  á  sobremeza,  com  o  seu  fiosinho  de  voz, 
a  canção  então  em  voga' de  Bruant: 

Papa  c'était  un  lapín 
Qui  s'app'lait  J.  B.  Chopin, 
Et  qu'avait  son  domicile 
A'  Berville... 


A  minha  memoria  foi  sempre  um  tonel  das  Danaides; 
por  isso,  embora  a  sonde  anciosamente,  nunca  me  offere- 
cerá  senão  pallidas  e  deficientes  evocações  do  meu  convi- 
vio  com  Eça  de  Queiroz.  Esse  convivio  não  foi,  aliás,  nem 
longo  nem  continuo.  Nos  oito  curtos  annos  que  duraram 
as  nossas  relações  (desde  1892  até  á  sua  morte  em  1900) 
poucas  vezes  nos  encontrámos.  Primeiro,  foram  os  três 
meses  de  Paris,  durante  os  quaes  fiquei  sendo  um  devoto 
de  Neuilly,  como  já  disse.  Depois,  em  1895,  Eça  de  Quei- 
roz passou  umas  longas  ferias  em  Lisboa,  onde  eu  então 
residia,  e  deu  á  minha  mocidade  atrevida  e  tagarella  a  con- 
fiança de  um  accesso  quasi  quotidiano  á  sua  casa  e  á  sua 
companhia.  Nesse  mesmo  anno  regressou  elle  a  Paris  e  eu, 
no  anno  seguinte,  encetei  em  Tanger  o  meu  exilio  profis- 
sional. Finalmente,  em  1898,  ambos  em  gozo  de  licença, 
vimo-nos  algumas  rápidas  vezes  em  Portugal.  E  é  tudo, 
tanto  e  tão  pouco!  —  além  de  algumas  cartas  —  o  que  me 
resta  do  meu  contacto  vivo  com  elle.  Tenho  de  sobra  com 
que  alimentar  um  culto  e  uma  saudade  que  não  esmorecem. 


38 


mas  falta<nie  quasi  tudo  para  dar  grande  interesse  e  novi- 
dade a  estas  reminiscências. 

Entretanto  não  desistirei,  no  decorrer  destes  capítulos, 
de  folhear  e  sacudir  a  minha  destructiva  memoria,  pedin- 
do-lhe  alguns  aspectos  e  alguns  echos. 

Evoco,  por  exemplo,  Eça  de  Queiroz  tal  como  uma  tarde 
o  encontrámos,  António  Nobre  e  eu,  num  dos  cães  do  Se- 
na, rebuscando  livros  velhos  com  uma  paciência  que  s6 
depois  verifiquei  ser  um  dos  seus  mais  salientes  e  menos 
conhecidos  predicados.  A  tarde  era  cinzenta  e  já  invernosa 
e  o  grande  homem,  curvado  sobre  as  prateleiras  de  livros 
e  envolto  em  espessos  agasalhos,  pareceu-nos  mais  velho 
e  triste,  de  uma  melancolia  final  e  irreparável.  Mas  havia 
tanta  electricidade  na  nossa  devoção  que  logo,  como  to- 
cado por  ella,  o  seu  espirito  resurgiu  e  faiscou.  Ali  esta- 
va, pois,  diante  de  nós,  á  procura  das  obras-primas  dos 
escriptores  clássicos,  o  escriptor  que  renovara  uma  lingua 
quasi  sem  a  saber,  o  pintor  e  o  poeta  que  tudo  pintara  e 
evocara  com  uma  paleta  e  um  vocabulário  pobres,  sem 
adjectivos,  sem  synonymos,  pouco  a  par  da  syntaxe  e  des- 
denhoso da  etymologia.  Jamais  na  nossa  litteratura  alguém 
desenhou  mais  nitidas  paisagens,  modelou  mais  vivas  figu- 
ras, poz  em  circulação  maior  numero  de  ideias  e  imagens, 
annotou  mais  incoercíveis  sensações,  desbanalisou  e  re- 
cunhou  mais  palavras  gastas,  melhor  descreveu,  melhor 
narrou,  mais  de  perto  attingiu  as  fronteiras  da  realidade  e 
as  fontes  da  vida!  Isto  pensávamos  nós,  emquanto  elle  nos 
dizia :  ~  Meus  amigos,  a  gente  em  Portugal  não  estuda 
nada  na  edade  de  estudar,  não  sabe  nada.  Eis  porque  eu 
cheguei  á  velhice  quasi  analphabeto  e  tenho  agora  de  vol- 
tar á  escola  para  conhecer  os  mestres  da  nossa  lingua  e  da 
nossa  historia.  Ando  aqui  a  formar-me  em  humanidades, 
bem  fora  de  tempo,  por  estes  melancólicos  cães  do  Sena, 


39 


onde  ao  fim  de  longas  pesquizas,  rivalísando  de  fleugma 
com  tantos  pescadores  á  linha,  longos  dias  debruçados  so- 
bre o  rio  por  esses  mesmos  cães  fora,  lá  descubro  um  Fer- 
não Lopes,  ou  arremato  um  Damião  de  Góes  ou  um  An- 
tónio Vieira,  encadernados  para  a  eternidade  em  solida 
carneira  lusitana!  Amigos,  aprendam  commigo  a  não  recahir 
nos  meus  erros,  formem  e  cultivem  a  sua  intelligencia  com 
fortes  e  lentas  leituras;  tudo  o  que  se  deixa  de  estudar  a 
tempo  e  horas  custa  muito  a  apprender  na  minha  edade ! 

E  era  de  ver  a  modéstia  sincera  e  humilde  com  que  se 
queixava,  a  dois  rapazes  ignorantissimos,  das  suas  insuffi- 
ciencias  de  linguagem  e  de  erudição,  o  prodigioso  escriptor 
que  tempos  depois  (como  o  ouvi  notar,  com  admiração,  a 
Oliveira  Martins)  resumia  soberbamente  em  três  paginas 
da  /Ilustre  Casa  de  Ramires  toda  a  historia  de  Portugal ;  e 
que  n'esse  livro,  e  em  todos  os  da  ultima  phase  da  sja 
obra,  ampliou  e  enriqueceu  até  á  sumptuosidade  o  seu  es- 
tylo,  chegando  assim  a  ser  também  erudito  e  também  ver- 
náculo, com  mais  brilho  e  êxito  do  que  outros  que  só  isso 
eram ! 

Sempre  me  surprehendeu  a  modéstia,  a  ausência  de  toda 
a  fatuidade,  em  Eça  de  Queiroz.  Não  é  de  estranhar  que 
os  homens  de  lettras,  como  afinal  todos  os  homens,  sejam 
franca  ou  dissimuladamente  vaidosos.  Mas  o  genus  irrita- 
bile  vatum  já  era  a  regra  no  tempo  de  Horácio  e  torna  en- 
fadonha aos  não-iniciados  a  convivência  dos  litteratos. 
Raras  vezes  também  o  escriptor  e  conversador  espirituoso 
deixa  de  preparar  em  casa,  com  engenho  e  arte,  as  suas 
graças  mais  opportunas  e  de  apparencia  mais  improvisada 
e  espontânea.  Em  Eça  de  Queiroz,  pelo  contrario,  a  con- 
sciência das  suas  lacunas  era  muito  mais  viva  que  a  dos 
seus  dotes,  A  sua  conversa  nascia  baça,  fatigada,  indiffe- 
rente,  e  só  ao  choque  dos  assumptos,  ou  pela  provocação 


40 


hábil  do  seu  interlocutor,  se  illuminava  e  ascendia.  Os  di- 
tos, as  imagens,  relampejavam  subitamente,  arrastados  uns 
pelos  outros,  imprevistos,  involuntários.  O  gesto,  a  phy- 
sionomia,  o  olhar,  tomavam  uma  parte  considerável  no  seu 
esforço  para  exprimir-se  e  punham-no  em  contacto  eléctrico 
com  os  seus  auditores.  Assistia-se,  emfim,  ao  despertar  do 
génio;  todas  as  ideias  redobravam  de  amplitude,  todas  as 
palavras  de  sentido  e  de  brilho:  havia  á  volta  de  nós, 
offuscando-nos,  um  como  que  fogo  de  artificio  verbal  e 
mental,  a  que  só  com  injustiça,  no  entanto,  é  permittido 
chamar  de  artificio. 

Um  dia,  em  Lisboa,  fui  buscar  Eça  de  Queiroz  a  casa, 
como  por  vezes  fazia,  para  irmos  juntos  saborear,  n'um 
longo  passeio,  o  tépido  sol  de  inverno  que  illuminava  a  ci- 
dade. Encontrei-o  á  porta  aberta  do  seu  quarto,  sentado 
na  esquina  de  uma  cadeira,  de  chapéu,  bengala,  e  luvas 
calçadas,  absorto  na  leitura  das  ultimas  paginas  de  um  li- 
vro. Como  que  acordou  á  minha  chegada.  Estava  para  sahir 
havia  uma  hora,  mal  disposto,  os  nervos  arripiados,  o  es- 
pirito obtuso  — dizia  elle.  Tentara  trabalhar  de  manhã,  mas 
sentira-se  irremediavelmente  estúpido.  Não  conseguira  es- 
crever uma  linha,  tendo  tantas  em  atraso  e  em  divida  para 
os  seus  editores  e  para  os  jornaes  do  Brasil.  Aquillo  — era 
de  comer  muita  manteiga,  decerto.  E  sem  decisão,  sem 
vontade,  encontrara  sobre  aquella  cadeira,  quando  ia  a 
sahir,  um  velho  romance  inglez.  Folheou-o  distrahido,  de- 
pois embebeu-se  na  leitura,  e  ali  ficou  á  porta,  de  chapéu 
e  bengala,  molle  e  esquecido  de  si  próprio. 

Sahimos  logo,  e  elle  continuou  a  queixar-se  da  sua  saúde 
e  da  sua  esterilidade.  Para  o  excitar,  e  com  o  azougamento 
irreverente  que  caracterisava  os  meus  poucos  annos,  en- 
caminhei a  conversa  para  o  debatido  fracasso  da  escola 
naturalista  e  tive  a  audácia  impertinentíssima  de  lhe  dizer 


Projecto  de  Columbano  Bordalo  Pinheiro 

para  a  capa  de  uma  revista  de  eça  de  queiroz, 

que  nunca  veiu  a  lume 


41 


como  nós,  rapazes,  lamentávamos  que  o  seu  tão  grande  ta- 
lento criador,  em  vez  de  pairar  livre  em  obras  de  phantasia 
que  nenhuma  estreita  regra  limitasse,  se  tivesse  deixado 
acorrentar  a  assumptos  dentro  dos  quaes  se  sentia  sempre 
o  seu  impaciente  e  prisioneiro  bater  de  asas.  Foi  isto  que 
eu  disse,  por  estas  ou  parecidas  palavras.  Eça  de  Queiroz, 
para  maior  espanto  e  vergonha  minha,  concordou !  Reco- 
nheceu que,  com  effeito,  a  preoccupação  naturalista,  se 
bem  que  contribuísse  para  disciplinar  o  seu  espirito,  o  con- 
demnara  a  reprimir,  muitas  vezes  sem  vantagem,  os  seus 
Ímpetos  de  verdadeiro  romântico,  que  no  fundo  era.  Não 
me  recordo  já  como  proseguiu  o  debate.  Sei  apenas  que 
a  pretendida  obtusidade  que  o  affectava  naquelle  dia  se 
transformou  logo  na  mais  exhuberante  e  luminosa  verbosi- 
dade ;  e  que  durante  horas,  subindo  c  descendo  mais  de  uma 
vez  a  Avenida  da  Liberdade,  devorei  quasi  em  silencio  e 
em  puro  êxtase  as  suas  palavras,  ora  ardentemente  com- 
movido,  ora  afogado  em  riso,  de  tal  modo  o  instrumento 
ricamente  sonoro  do  seu  talento  fez  vibrar  para  meu  gozo 
todas  as  suas  cordas,  as  dramáticas,  as  descriptivas,  as 
philosophicas,  as  cómicas  e  caricaturaes.  Recolhi  a  casa, 
ao  fim  daquelle  monologo  inebriante  que  durara  uma  tarde 
inteira,  certo  de  que  Eça  de  Queiroz  acabava  de  pronun- 
ciar perante  mim  mais  do  que  bastaria,  reduzido  a  escri- 
pta,  para  formar  um  esplendido  livro.  E  esse  livro,  que  da 
sua  bocca  perdulária  ouvi,  perdulariamente  também  se  der- 
reteu e  diluiu  na  minha  memoria. . . 

Foi  por  aquella  epocha  que  combinámos  fazer  reviver  a 
Revista  de  Portugal,  com  a  feição  mais  modesta  e  accessi- 
vel  de  um  magazine  litterario,  e  com  o  titulo  que,  depois 
de  ter  sido  audazmente  phantasista  —  A  Cegonha  —  se  re- 
signou a  ser  familiar  e  burguez  — O  Serão.  Eça  de  Queiroz 
seria  o  director,  eu  o  secretario.  Os  seis  primeiros  nume- 


42 


ros  estavam  promptos  a  publicar-se;  a  capa  da  revista 
sahira  já,  em  originaes  linhas  e  cores,  do  pincel  do  grande 
pintor  Columbano.  Mas,  o  director  regressou  a  Paris,  o 
secretario  ingressou  no  Ministério  dos  Estrangeiros,  e  as- 
sim falleceu,  antes  de  nascer,  o  nosso  tão  esperado  Serão. 
Para  encontrar  este  fácil  e  ameno  baptismo,  quaftto  mou- 
rejámos! Tardes  seguidas,  em  minha  casa,  mostrando  des- 
crer de  qualquer  achado  feliz  das  nossas  respectivas  inspi- 
rações, Eça  de  Queiroz  recommendava-me  que,  armados 
de  paciência,  caçássemos  o  difficil  e  fugitivo  titulo...  fo- 
lheando o  Diccionario!  E  com  effeito,  emprehendemos  essa 
viagem,  cada  qual  munido  de  um  Roquette,  sondando-o  pa- 
gina a  pagina;  parando,  quando  algum  vocábulo  nos  pare- 
cia digno  da  candidatura  e  apreciando-o  e  commentando-o 
alegremente.  Foi  assim  que  descobrimos  a  Cegonha,  ave 
entre  todas  esthetica  e  que  para  mim  era  um  symbolo  bas- 
tante exacto  do  próprio  Eça  de  Queiroz.  Foi  assim  que, 
receando  a  incomprehensão  do  grande  publico,  em  face  de 
um  rotulo  tão  subtil,  viemos  a  encontrar,  já  nas  ultimas 
letras  do  Diccionario,  o  democrático  e  intelligivel  Serão, 
que  por  fim  adoptámos. 

Estou  a  ver  Eça  de  Queiroz,  uma  noite,  no  Hotel  Cen- 
tral, depois  de  um  jantar  a  que  também  assistira  Agostinho 
de  Campos,  contando-nos  a  historia  da  sua  cabaia  chineza. 
Trouxera-lh'a  de  Pekim  o  nosso  querido  amigo  Bernardo 
de  Pindella.  Era  de  sumptuosa  seda  negra,  e  ricamente 
bordada  a  oiro.  Mas  que  emprego  dar-lhe?  Depois  de  lon- 
gas perplexidades,  resolvera...  photographar-se  com  ella 
em  differentes  posições.  E  eil-o  a  reviver  diante  de  nós  esta 
photographia  e  estas  posições !  Nunca  me  appareceu  mais 
flagrante  e  natural  o  seu  talento  cómico,  que  em  Coimbra 
lhe  valera  grandes  triumphos  no  Theatro  Académico  e  lhe 
permittira  ser  celebre  como  actor-amador,  antes  de  se  ter 


43 

estreado,  por  uma  linha  que  fosse,  como  escriptor.  Quizera 
saber  descrever  as  nossas  gargalhadas  torrenciaes  perante 
os  seus  esgares,  a  sarabanda  do  seu  monóculo,  a  quasi 
acrobática  flexibilidade  dos  seus  braços  e  das  suas  peri 
nas,  dessas  pernas  esgrouviadas  que  uma  vez  lhe  serviram 
de  desculpa  para  deixar  de  assistir  a  um  baile  no  Paço. 
«Porque  não  vaes?»  interrogava-o  um  amigo,  alto  dignitá- 
rio na  corte.  E  elle  respondia,  com  a  magua  no  olhar:  «Em 
primeiro  logar  porque  não  tenho  calção.  Mas,  emfim,  o  cal- 
ção podia  arranjar-se.  O  peor  é  que,  além  de  não  ter  calção, 
não  tenho  pernas,  e  esta  falta  parece-me  irremediável!» 

Encontrei  Eça  de  Queiroz,  pela  ultima  vez,  em  Moreira 
da  Maia,  na  vergiliana  Quinta  do  Mosteiro,  onde  residia  e 
sempre  reside  Luiz  de  Magalhães,  o  mais  venturoso  dos 
tiossos  amigos.  Ficámos  ambos  mais  uma  vez  namorados 
da  largueza  daquelles  horizontes,  da  belleza  meiga  dos 
campos  e  das  arvores,  da  encantadora  vivenda  conventual 
em  cujo  dono  o  lavrador  e  o  poeta  se  confundem.  Não  foi 
já  naquelle  dia  que  Eça  de  Queiroz  descobriu  que  o  mel  é 
uma  realidade,  e  não  apenas  uma  figura  de  rethorica.  Mas 
senti  bem  o  seu  interesse  e  carinho  renascentes  pelos  qua- 
dros da  vida  rústica,  adivinhei-o  nas  vésperas  de  encetar 
as  suas  Qeorgicas,  vi-o  empunhar  a  foice  e  tentar  imitar  o 
gesto  das  ceifeiras,  vi-o  erguer  o  mangual  e  despedir  gol- 
pes certeiros  sobre  a  eira,  toda  loira  de  espigas.  E  assim  o 
vi  —  e  nunca  mais  o  vi !  —  partir  de  Moreira  para  a  sua 
quinta  do  Douro  (a  futura  casa  de  Tormes,  de  Jacintho), 
onde  uma  curta  demora  de  dias,  caminho  de  Paris,  foi  a 
fonte  de  inspiração  e  de  emoção  intensa  que  veio  a  fecun- 
dar, logo  depois,  as  maravilhosas  paginas  lyricas  da  se- 
gunda parte  da  Cidade  e  as  Serras. . . 

Alberto  de  Oliveira. 


Eça  de  Queiroz  e  Flaubert 


(EXCERPTO) 


Conservam  dele  uma  piedosa  lembrança  os  amigos  ínti- 
mos, deslumbrados  ainda  pelo  fulgor  do  seu  espirito  tão 
vivo  e  tão  suave,  tão  irónico  e  tão  delicado,  saudosos  eter- 
namente desse  companheiro  inolvidável,  cuja  conversa,  di- 
zem, creava  obras-primas  tão  belas  como  as  suas  melhores 
páginas.  Mas  o  que  não  é  já  uma  comovente  e  estreita  ve- 
neração de  devotos  familiares,  é  esta  unânime  simpatia  da 
gente  nova,  que  nos  seus  livros  parece  ter  aprendido  a 
admirar  a  beleza  das  cousas,  a  anotar  os  ridículos  alheios, 
a  tornar  mais  subtis  as  suas  sensações  d'arte  e  até,  para 
muitos,  a  talhar  figurinos  de  snobs  na  elegância  desdenhosa 
dos  seus  tipos  aristocráticos. 

Eça  de  Queiroz  não  era  um  escritor  popular,  como  tam- 
bém nunca  o  foi  o  seu  grande  mestre  Flaubert.  Não  tinha 
o  estilo  retórico,  a  emoção  fácil,  a  estrutura  poderosamente 
vulgar,  a  imaginação  violenta  dos  autores  predilectos  das 
multidões.  O  seu  público,  exceptuando  alguns  mocinhos  na 


45 


crise  da  puberdade,  que  vão  procurar  a  página  célebre  do 
Primo  Basílio,  é  um  público  vasto  mas  escolhido,  de  artis- 
tas, de  homens  de  letras,  de  homens  de  çjosto. 

A  língua  portuguesa  sofreu,  no  século  xix,  sobretudo 
peia  influência  de  Eça  de  Queiroz,  uma  renovação  profun- 
da de  ritmos  e  de  expressões.  A  linguagem  de  Castilho, 
tão  fria  e  tão  fastíenta  de  metáforas  académicas,  e  a  dura, 
cadenciada  e  rígida  prosa  de  Herculano,  já  tinham  quebra- 
do, ainda  que  de  um  modo  imperfeito,  os  moldes  clássicos. 
Garrett,  que,  na  nossa  trilogia  romântica,  foi  o  mais  ar- 
tista e  mais  maleável,  criou  uma  linguagem  leve,  um  pouco 
afectada,  um  pouco  diluida  e  proli.xa,  por  vezes,  mas  duma 
correntia  limpidez  e  graça,  que  mais  tarde,  em  Júlio  Diniz, 
degenera,  quasi  sempre,  num  insuportável  ramerrão  fami- 
liar. Camilo  deixou  páginas  maravilhosas,  mas  a  própria 
riqueza  do  vocabulário  o  sufocava,  muitas  vezes,  numa 
abundância  enorme  e  confusa. 

Eça  de  Queiroz,  depois  dum  extravagante  e  curiosíssimo 
período  de  ensaios,  cria  uma  linguagem  absolutamente 
nova  na  literatura  portuguesa.  As  Prosas  Bárbaras,  a  Cam- 
panha Alegre,  a  sua  colaboração  d' O  mistério  da  Estrada 
de  Cintra,  com  o  seu  lirismo  convulso,  as  suas  guinadas 
de  sarcasmo  e  fantasia  lúgubre,  os  seus  ritmos  claudican- 
tes,  a  sua  prosa  turva  e  irregular,  se  não  deixam  prever  o 
sóbrio  e  harmonioso  discípulo  de  Flaubert,  representam  já 
o  esforço  duma  imaginação  bizarra,  indisciplinada,  esfu- 
siante,  imprevista,  em  cuja  lucidez  ha  um  toque  de  ironia 
e  de  loucura,  de  nevrose  e  melancolia.  O  Mandarim  é  tal- 
vez a  sua  obra-prima,  escrita  quasi  aos  quarenta  anos.  Mas 
já  quinze  anos  antes,  nas  fantasias  das  Prosas  Bárbaras, 
se  encontram,  imperfeitas,  mal  esboçadas  ainda,  as  supre- 
mas qualidades  de  artista  reveladas  naquele  conto  exce- 
pcionalmente belo. 


46 


A  segunda  maneira  da  prosa  de  Eça  de  Queiroz  caracte- 
risa-se  principalmente  no  Crime  do  Padre  Amaro,  n'0 
Primo  Basílio  e  WOs  Maias.  A  tumultuosa  espontaneidade 
dos  primeiros  anos  de  escritor  disciplina-se.  O  que  o  seu 
estilo  perde  em  exuberância,  adquire-o  em  vigor.  Sente-se 
nesses  livros,  principalmente,  a  influência  de  Flaubert.  A 
paisagem,  o  desenho  dos  personagens,  a  narrativa,  os  de- 
talhes, os  próprios  entrechos  derivam  directamente  do  au- 
tor de  Madame  Bovary,  da  Educação  Sentimental,  da  Lenda 
de  S.Julião  o  Hospitaleiro  e  da  Tentação  de  Santo  António. 

Reconhece-se  sem  dificuldade,  numa  simples  leitura  su- 
perficial, a  influência  exercida  por  estas  obras  no  Primo 
Basílio,  x\'Os  Maias,  no  5.  Cristovam  e  no  Santo  Onofre. 
Para  exemplos,  basta  lembrar  a  semelhança  dos  quadros 
d' Os  Maias  e  da  Educação  Sentimental.  Em  ambos  se  pro- 
nunciam as  frases:  Meus  senhores,  ouçam-me,  eu  tenho  ex- 
periência!—  A  religião  é  um  freio! — E  como  corpo  de  mu- 
lher! Em  ambos  ha  a  ideia  de  fundar  um  jornal.  E  ainda  os 
episódios  nas  duas  corridas  de  cavalos ;  os  dois  bailes  de 
máscaras,  a  propósito  dos  quais  se  invoca  o  testemunho 
dum  urso-  e  duma  «tirolesas;  Cisy  e  Dâmaso,  um  tendo  o 
cartão  no  chapéu,  outro  um  véu;  a  avó  de  Cisy  e  o  tio  do 
Dâmaso,  que  morrem;  ambos  eles  tendo  um  ideal  de  ele- 
gâncias; os  dois  duelos;  Le  Flambari  e  a  Corneta  do  Diabo; 
o  agradecer  da  gorgeta:— Aí^m,  Monseigneur!  que  Eça  de 
Queiroz  traduziu  no  Primo  Basílio  por:  — Muito  obrigado, 
senhor  conde !  —  Fumichon  e  o  França  do  Crime  do  Padre 
Amaro,  querendo  estrangular  Proudhon,  depois  de  terem 
tomado  o  seu  café  e  os  seus  licores...  «E  estrangulava. 
Depois  do  cognac,  o  França  era  uma  íera».  «//  fétrangle- 
rait.  Après  les  liqiuurs,  surtout,  Fumichon  ne  se  connaissait 
plus^. 

Estas  infhiências,  num  escritor  medíocre,  levariam  ao 


47 


plaj^iato.  Um  grande  escritor,  como  Eça  de  Queiroz,  liber- 
ta-se  do  que  ha  de  mesquinho  nelas,  pela  brilhantíssima 
originalidade  das  suas  obras. 

Numa  carta  a  Theophilo  Braga,  publicada  nos  Quarenta 
annos  de  vida  Utteraria,  Eça  de  Queiroz  diz,  pouco  mais  ou 
menos,  agradecendo  uma  crítica  sobre  O  Primo  Basílio: 
«<Sinto  que  possuo  a  técnica  de  romancista,  como  ninguém, 
mas  faltam-me  os  assuntos».  Não  sei  se  algum  crítico,  numa 
intenção  malévola,  como  a  que  filiou  absurdamente  a  inspi- 
ração do  Crime  do  Padre  Amaro  na  Faute  de  l'abbé  Mouret, 
se  lembrou  alguma  vez  de  acentuar  a  influência  de  Flaubert 
não  só  na  orientação  da  escola  e  processos  de  estilo,  mas 
nas  pequeninas  cópias  de  minúcias  e  frases.  Era  fácil,  ain- 
da que  injusto,  explorar  essas  imitações  superficiais,  que 
em  nada  atenuam  a  originalidade  dos  seus  romances. 

Que  importa  a  semelhança  de  Madame  Bovary  e  de  O 
Primo  Basílio,  se  Eça  de  Queiroz  nos  evoca,  por  uma  for- 
ma tão  perfeita,  o  meio  lisboeta,  os  seus  tipos,  as  suas 
scenas,  os  episódios  familiares  e  da  rua?  A  criada  Juliana 
é  uma  figura  que  nunca  mais  esquece;  e  o  seu  relevo  é 
talvez  mais  vivo,  mais  impressivo  ainda  que  o  do  conse- 
lheiro Acácio,  do  Sebastião  e  do  Paula  dos  moveis.  N'Os 
Maias  também  a  série  dos  quadros,  embora  semelhantes  a 
alguns  da  Educação  Sentimental,  tem  esse  acentuado  cunho 
alfacinha  que  é  uma  das  caraterísticas  e,  ao  mesmo  tempo, 
uma  acanhada  limitação  da  sua  obra,  quando  o  artista  tro- 
ca a  ampla  visão  dos  sentimentos  humanos  pela  troça  de 
cronista  desenfastiado,  em  caricaturas  efémeras. 

Flaubert  escrevia  os  seus  livros  entremeiando  as  obras 
de  imaginação  com  as  de  observação.  Eça  de  Queiroz  as- 
sim fez,  em  parte.  Nos  livros  de  imaginação  tem  êle,  tal- 
vez, as  páginas  mais  belas  e  mais  duradoiras  da  sua  obra. 
O  Mandarim  e  A  Relíquia  são,  na  prosa  portuguesa,  duas 


48 


obras-primas.  Ha,  nas  páginas  de  pura  imaginação,  um 
brilho  de  iluminura,  uma  suave  e  festiva  riquesa  de  ritmo 
e  de  côr,  um  relevo  incomparável,  que  lembram  a  frase  de 
Qautier  caraterisando  a  prosa  de  Hugo,  <^a  um  tempo  pin- 
tada e  esculpida».  Quem  esquecerá  jamais,  depois  de  a  lêr 
uma  vez,  essa  scena  do  pavilhão  de  Madame  Camiloff,  em 
que,  no  ar  perfumado  e  cálido,  perpassa  como  que  o  arre- 
pio subtil  dum  desmaio  amoroso ?. . . 


1911. 

Camará  Reys, 


Eça  de  Queiroz  e  o  humorismo 


Os  géneros  literários  procedem  por  evolução.  Successi- 
vos  tentamens  se  vão  acumulando,  sobrepondo,  completan- 
do, até  que,  de  periodo  em  periodo,  surge  o  que  se  fica 
chamando  um  molde.  Obtido  esse  molde,  vasam-se  n'elle 
centenas,  milhares  de  obras,  até  que  o  molde  envelheça, 
se  transforme  e  nos  apareça  completamente  outro  á  pri- 
meira vista. 

Ha  quem  acredite  em  moldes  novos  e  falle  n'el!es.  Eu 
partilho  a  opinião  de  que,  á  semelhança  das  luas  novas, 
que,  segundo  diz  o  poeta,  são  feitas  de  bocados  de  luas 
velhas,  os  moldes,  que  marcam  transições  no  caminhar  da 
literatura,  tem  sempre  inspirações  remotas.  Estou  conven- 
cido de  que  não  ha  nada  de  novo  debaixo  do  sol  da  litera- 
tura e  cada  vez  mais  me  convenço  á  medida  que  vejo  cami- 
nhar as  letras  no  sentido  da  simplificação.  O  que  ha  são 
expressões  novas,  condizentes  com  o  tempo  em  que  apare- 
cem e  harmonisadas  com  a  moda  das  ideias.  Foi  sempre  um 
passatempo  erudito  encontrar  a  filiação  longinqua  dos  fa- 
ctos literários,  que  mais  modernos  e  originaes  se  nos  afi- 


50 


gurem.  Já  leram  o  artigo  de  Pawlowsky  em  que  se  demons- 
tra que  a  ideia  e  a  philosophia  do  Boiíbourocfie  de  Courte- 
line  estão  na  Biblia? 

Eça  de  Queiroz  fixou  um  molde  no  romance  português, 
pois  os  seus  livros  não  se  assemelham  —  creio  eu — nem  ao- 
Arco  de  SanfAnna,  nem  ao  Amor  de  Perdição,  nem  á  Mor- 
gadinha dos  Cannaviaes.  Esse  molde,  novo  na  nossa  litera- 
tura, não  era  novo  afinal.  Se  não  buscou  a  sua  inspiração 
nos  escriptores  da  nossa  terra,  não  nega  Eça,  nem  o  negam 
os  espíritos  do  seu  convívio,  a  influencia  sobre  elle  exerci- 
da pelas  novas  escolas  francesas  da  sua  época.  Mas  o  que 
lia  de  extraordinário  em  Eça  e  é  um  dos  aspectos  mais 
admiráveis  do  seu  génio,  é  que,  emquantoem  França  se  he- 
sitava, se  apalpava  terreno  na  fixação  de  uma  fórmula, 
que  em  absoluto  não  se  chegou  a  formar,  elle  sem  um  em- 
baraço, nem  um  recuo,  encontrou  uma  adaptação  portugue- 
sa, perfeita,  completa,  caracteristicamente  nacional  aa 
ponto  que  podemos  esquecer  sem  rebuço  as  influencias  es- 
trangeiras, tanta  originalidade  na  sua  assimilação,  se  nos 
é  permittido  exprimir-nos  assim. 

Eça  creou  um  molde  no  romance  português.  Esse  molde 
permanece  o  ultimo  que  tenhamos  tido.  Ainda  se  não  avan- 
çou um  passo.  As  rasões  são  várias,  alem  da  medida  do  ta- 
lento dos  autores;  mas  a  superioridade  absoluta  do  Mes- 
tre, não  só  sobre  os  que  se  confessam  abertamente  seus 
discípulos,  mas  ainda  sobre  os  que  tem  tentado  frouxas 
imitações  de  esboços  de  fórmulas  importadas  do  estrangei- 
ro deriva,  a  meu  ver,  de  um  facto  simples:  Eça  de  Queiroz, 
era  um  humorista  e  os  que  os  seguiram  não  o  são. 


51 


Faço  a  justiça  a  todos  que  me  leem  de  supor  que  teem 
uma  ideia  nítida  do  que  é  o  humorismo.  Se  estas  linhas  ca- 
hirem  sob  os  olhos  de  alguém  que  ainda  julgue,  n'estas  épo- 
cas de  Anatole  France  e  de  Jules  Renard,  que  um  caixeiro 
viajante  contando  anedoctas  de  padres  à  mesa  de  um  hotel 
de  provincia  ou  um  mancebo  alegre  escrevendo  uma  farça 
para  o  Ginásio  são  humoristas,  dir-lhe-hei  respeitosamente 
.'ue  se  illude  com  palavras,  que  deve  aprender  a  fazer  a 
distinção  entre  bom  humor  e  humorismo,  que  o  primeiro  é 
lima  questão  em  grande  parte  physiologica  e  dependente 
do  bom  funccionamento  do  estômago,  dos  intestinos  e  do 
figado  e  o  segundo  uma  feição  moral  do  espírito,  não  sen- 
do, aliás,  inconipativeis. 

Conheço  entre  nós  vários  escriptores  de  bom  humor.  He- 
sitaria muitíssimo  se  me  mandassem  citar  um  humorista. 
Perdoem-me  f  aliar  de  mim  quando  devia  f  ai  lar  de  Eça  de 
Queiroz;  mas  verão  que  o  que  vou  dizer  se  aplica  como 
exemplo  e  portanto,  é  mais  natural  que  eu  seja  desagradá- 
vel a  mim  próprio  do  que  ao  meu  confrade  do  lado.  Não 
posso  deixar  de  protestar  muito  amável  e  reconhecidamente 
contra  os  que  me  teem  ciiamado  humorista,  quando,  a  par 
de  umas  peças  alegres,  tenho  publicado  alguns  livros  de 
anedoctas  literariamente  apresentadas,  e  não  assignalaran» 
para  justificarem  a  sua  classificação  as  tentativas  de  ver- 
dadeiro humorismo,  que  n'outras  paginas  esbocei  ou  que 
deixei  vincadas  em  detalhes  dos  trabalhos  que  o  publico  e 
a  critica  aceitaram  em  globo  como  humorísticas. 

Humorista  não  é  quem  faz  rir:  é  quem  faz  pensar.  Note- 
í=e  que  digo  pensar  e  não  sonhar.  O  humorismo  chama  os 
tspiritos  á  realidade  da  vida  sem  todavia  ter  também  o 


52 


amargo  dos  pessimistas.  Entre  estes  e  os  floricultores  de 
íllusões,  que  são  os  poetas  e  os  prosadores  descendentes 
das  escolas  românticas  e  annexas,  ha  o  verdadeiro  logar 
do  humorista.  A  vida  não  é  tão  feia  como  aquelles  a  des- 
crevem, nem  tão  linda  como  estes  a  pintam.  E'  —  como  os 
humoristas  a  apontam  —  uma  série  de  equilíbrios  entre  o 
mau  e  o  bom,  entre  o  vicio  e  a  virtude,  entre  a  alegria  e  a 
tristeza,  entre  o  azar  e  a  sorte.  O  homem  não  é  um  mons- 
tro, nem  um  santo;  a  mulher  não  é  uma  vibora,  nem  um 
anjo.  Somos  um  pouco  de  tudo,  andamos  guiados,  ou  — 
para  melhor  dizer  —  impellidos,  desde  o  berço  até  á  cova, 
por  forças  resultantes  de  concorrentes  varias  que  vão  des- 
de os  nossos  instinctos  moraes  e  physicos  até  ás  leis  inne- 
gaveis  das  convenções,  dos  hábitos,  das  tradições.  É  essa 
vida  que  os  humoristas  observam  sem  acrimónia  e  sem 
condescendência  e  nos  indicam  umas  vezes  com  sorrisos 
que  são  tristes,  outras  com  mágoa  que  não  exclue  a  malícia. 

Porque  o  humorismo  é  a  verdade  dentro  da  Arte  da  es- 
cripta,  a  sua  forma  de  expressão  tem  de  ser  clara,  limpida, 
exacta,  despida  dos  artifícios  da  literatice  e  dos  prehisto- 
ricos  clichés  que  vêm  de  mão  em  mão  ha  séculos  e  que  são 
sempre  os  mesmos  por  mais  que  os  disfarcem. 

O  humorismo  — na  nobre  accepção  e  amplo  significado  do 
termo  —  ha-de  vir  a  ser  o  fundo  definitivo  da  literatura. 
Não  sou  eu  que  o  digo:  é  a  lógica  de  toda  a  historia  lite- 
rária. Quando,  passados  os  dias  tormentosos  em  que  se 
está  regenerando  a  humanidade  á  custa  da  Dôr  e  do  San- 
gue, decorridos  os  períodos  de  transformações  sociaes 
que  lhes  vão  succeder,  a  literatura  caminhar  a  direito  para 
exprimir  o  espirito  desses  tempos  futuros,  como  é  a  sua 
eterna  funcção,  o  humorismo,  ainda  hoje  mal  compreendido 
em  meios  de  restricta  intellectualidade  e  boa  boca  literária 
como  o  nosso,  impor-se-ha  definitivamente.  A  literatura 


5à 


deixará  de  ser  o  logro  da  imaginação  que  tem  sido,  e,  com 
o  brilho  de  forma  a  que  tem  tendido  os  esforços  dos  es- 
tylistas,  voltará  no  seu  fundo  ás  normas  de  rigida  sinceri- 
dade, que  respiraram  as  fórmulas  primitivas  e  são  a  base 
do  humorismo. 


Eça  de  Queiroz  encontrou,  no  seu  tempo,  um  molde  de  ro- 
mance, que  ainda  ninguém  melhorou  entre  nós  e  que  pode 
sofrer  sem  receio  comparação  com  os  estranhos.  Mas  deve- 
mos admirá-lo  mais  porque  soube  ser  um  humorista  na  épo- 
ca em  que  o  humorismo  se  ignorava  ainda  um  pouco  a  si 
próprio  e  se  chamava  no  boulevard  a  ironia  e  o  paradoxo. 
Eça  foi-o  de  um  só  jacto,  ainda  hoje  o  é  e  sê-lo-ha  sempre, 
pois  não  vejo  que  muito  se  possa  ganhar  de  futuro  sobre 
o  que  elle  fez. 

Se  não  confiasse  na  Eternidade  que  ha-de  dar  á  humani- 
dade infindáveis  milhares  de  annos,  e  dado  o  galopar  de  cá- 
gado com  que  a  vida  portuguesa  caminha,  quasi  me  atre- 
veria a  dizer  que  Eça  é  definitivo. 

Em  verdade  não  podemos  pasmar  da  concepção  dos  ro- 
mances de  Eça  de  Queiroz.  Posta  de  parte  A  Relíquia,  que 
até  na  sua  essência  é  humorística,  o  entrecho  dos  outros, 
especialmente  dos  primeiros,  roçando  às  vezes  pelo  melo- 
drama, entra  no  caso  como  a  espinha  necessária  e  a  carcas- 
sa indispensável.  O  que  prende  em  Eça  é  o  detalhe,  o  dese- 
nho das  figuras,  a  minúcia  das  peripécias,  o  dialogo  e  as 
ideias  expostas  no  correr  da  acção  sem  serem  as  determi- 
nantes d'ella.  E  isso  —  digo-o,  repito-o  e  sinto  não  ter  o 
talento  de  o  demonstrar  como  o  penso  —  é  admirável  por- 
que é  deduzido,  é  exposto,  é  rematado  dentro  do  que  se 
pode  tomar  como  regras  e  principies  do  humorismo. 


54 


Com  elle  deu  um  formidável  relevo  ás  figuras  cómicas 
dos  seus  livros  —  o  Accacio,  o  Raposão,  o  Alencar,  e  foi  ain- 
da guiado  pelos  seus  processos  de  observação,  de  analyse 
e  de  expressão,  que  encontrou  a  maneira  de  tornar  vivas 
e,  portanto,  imniortaes  todas  as  outras  figuras.  Ha  nos  ro- 
mances de  Eça,  á  margem  das  principaes  personagens,  crea- 
turas  que  passam  um  instante  por  necessidade  de  acção. 
Sob  a  penna  de  outros  escriptores  seriam  baças,  apagadas 
como  a  sua  funcção.  Eça,  com  dois  toques  de  humorismo, 
com  um  detalhe  de  vestuário,  com  um  dito,  põe-nos  de  pé. 
Elias  saem;  mas  já  não  esquecem. 

Não  ha  nos  livros  de  Eça,  que  eu  admiro  como  Victor 
Hugo  admirava  Shakespeare  —  conwie  une  brute— uma  pa- 
gina que  sôe  a  ôco,  a  inventado,  a  contrafeito,  a  desneces- 
sário, a  encaixado.  Toda  a  sua  obra  de  romancista  é  de 
uma  espontaneidade,  de  uma  sinceridade,  de  uma  honesti- 
dade que  só  podem  provir  de  um  verdadeiro  humorista.  Os 
seus  romances  são  a  vida  bem  contada  e  tanto  assim  que 
a  gente  d'elles  nós  conhecemo-la  e  os  entrechos  quasi  que 
iriamos  dizer  que  assistimos  a  elles. 

Ha  annos  desembarcou  em  Lisboa  um  rapaz  de  letras, 
brasileiro.  Escuso  de  lhes  revelar  que  no  Brasil  se  ama 
apaixonadamente  Eça  de  Queiroz.  Pois  á  porta  de  uma  li- 
vraria da  rua  do  Ouro  dizia-me  o  nosso  hospede  recente- 
mente desembarcado :  —  <'Sabe  o  que  estou  aqui  fazendo  ha 
duas  horas?  Estou  vendo  passar  os  romances  de  Eça  de 
Queiroz.  Tenho  visto  desfilar  aqui  o  Basilio,  a  Luisa, 
aquelle  dr.  Margaride  incomparável  em  questões  de  sabo- 
rear o  grandioso,  esses  padres  a  quem  o  Mestre  votava 
uma  tão  justificada  phobia...  Olhe:  repare!  Além  vae  a 
Juliana.»  E,  no  outro  passeio,  effecti vãmente,  passava  a 
creada  immortal. 

Quem  tenha  bem  presentes  ao  espirito  os  livros  de  Eça 


1 


55 


não  vê  decorrer  um  dia  da  sua  existência  sem  que  uma  peri- 
pécia da  vida  commum,  uma  attitude,  um  gesto,  um  dito  de 
um  amigo  ou  indifferente  lhe  não  façam  recordar  qualquer 
pormenor  da  obra  do  grande  morto. 

Isto  explicava-se  e  ainda  hoje  se  exph'ca  dizendo-se  que 
elle  foi  um  grande  observador.  Mas  uma  machina  photogra- 
fica  não  se  recommenda  apenas  pela  limpidez  da  objectiva. 
Necessita  que  a  placa  e  os  cuidados  que  se  lhe  dêem  se- 
iam  perfeitos.  Observar,  é  evidentemente  indispensável  a 
um  escriptor  do  género;  mas  é  pouco.  O  que  completou  e 
fez  grande  Eça  de  Queiroz  foi  o  seu  temperamento  intelle- 
ctual  e  foram  os  seus  processos  de  expressão.  E  estes,  como 
aquelle,  eram  os  de  um  grande  humorista. 


É  possível  que  eu  não  deixasse  o  caso  claramente  de- 
monstrado n'estas  linhas  que  sou  forçado  a  escrever  á 
pressa.  É  provável  mesmo  que,  como  o  macaco  da  fabula, 
eu  gabasse  a  luz  da  lanterna  e  me  esquecesse  de  a  accen- 
der.  Alguns  espíritos  me  terão  comprehendido  em  absolu- 
to, suprindo  a  deficiência  da  minha  exposição.  Aos  outros, 
rogo  que  dividamos  as  causas  da  incomprehensão  em  dois 
quinhões:  um  muito  maior  que  tomo  sobre  mim  e  sobre  as 
falhas  do  meu  talento.  O  outro  recahirá  sobre  a  resistên- 
cia muito  grande  que  tem  encontrado  o  humorismo  para  se 
impor.  Ha  quem  o  ame  sem  saber  como  elle  se  chama. 


André  Brun'. 


Eça  de  Queiroz 


Creador  d'uma  lingoa  harmoniosa,  fluida,  transparente, 
—  Eça  de  Queiroz  retocou  a  prosa  portuguesa,  aligeiran- 
do-a  das  velhas  imagens  pesadas,  da  graça  compacta  do 
seu  tempo,  ajoujado  debaixo  das  quaes  cada  artista  tinha 
mais  o  ar  de  trazer  ás  costas  um  frete  —  do  que  umas  azas. 

Quando  a  arte  empolada  de  Herculano,  a  prosa  janotinha 
de  Garrett,  e  aquela  ironia  sólida,  de  duas  solas,  que  Ca- 
millo  riscou  grossa  com  o  seu  cacete,  tiverem  desapare- 
cido completamente,  enlisadas  na  areia  movediça  das  gera- 
ções, ha  de  ficar  de  pé  esta  figura  de  mármore,  como  um 
marco  erecto  na  sua  Raça. 

E  as  centenas  de  milhões  de  homens  que  de  hoje  a  cen- 
tenas de  anos  falarem  a  lingoa  vencedora  de  Portugal,  hão 
de  ter  sempre  o  imortal  encanto  de  ouvir  este  artista  má- 
ximo, que  com  o  Padre  António  Vieira,  com  Fialho  —  nas 
suas  horas  de  génio  —  e  com  Coelho  Netto,  afinaram  na 
prosa  portuguesa  uma  orquestra  maravilhosa  de  sons. 

IV  — 1917. 

Nunes  Claro. 


I 


o 

o 

IL) 

Q 

S 
tu 

o 

2 

N 
O 

D 
C 

bJ 
Q 

O 


u 

S 
O 

o 

u 
Q 

< 

D 

z 

ee 

gf 
u 


Cí 

-E. 
do-a 
seu 
mais 

Qi 
deG 

millo 
eido 
ções, 
marc 
E  ; 
tenas 
de  te 
ximo 
suas 
pros2 

IV- 


Duas  palavras  sobre  Eça  de  Queiroz 


Os  escritores  portugueses  contemporâneos  não  teem  es- 
capado á  influência  deletéria  de  certa  má  literatura  fran- 
cesa^  envenenadora  d'almas,  como  a  também  famosa  enve- 
nenadora de  corpos  Marquesa  de  Brinvilliers,  de  braço 
dado  com  o  seu  amante,  o  celebrado  cavalheiro  de  Sainte- 
Croix. 

Théophile  Gautier  —  o  grande  Théo  —  como  o  apelida- 
vam os  seus  admiradores,  também  escreveu  um  dia  certo 
livro  afrodisíaco,  intitulado  Madenioiselle  de  Maupin,  um 
livro  na  realidade  de  muito  máo  gosto,  e  pecando  contra  a 
decência  pública  e  os  bons  costumes.  Este  genial  escritor, 
porém,  à  hora  da  morte  chamou  sua  estremecida  filha,  e 
disse-lhe  apontando  os  volumes  da  sua  biblioteca: 

—  Querida  filha,  podes  ler  todos  os  meus  livros  e  tam- 
bém todos  os  dos  outros  autores,  excepto  aquele  que  à 
hora  da  morte  teu  pai  te  roga  que  não  leias  nunca,  nunca! 

Este  livro  proibido  intitulaVa-se  A  Menina  de  Maupin. 

Parece  inacreditável,  decerto,  que  poetas,  literatos,  ro- 
mancistas, escritores,  emfim,  da  mais  sublime  notoriedade, 


58 


se  não  lembrem  jamais  sequer,  que  por  acaso,  é  possível 
que  suas  mais,  suas  esposas,  suas  filhas  ou  suas  irmans, 
também  sintam  um  dia  curiosidade  de  lerem  os  seus  livros, 
e  de  se  quererem  gloriar  decerto,  como  é  natural,  com  os 
seus  triunfos  e  os  seus  louros. 

Mas,  ai!  -  que  tristes  louros  colhidos!  exclamarão  elas, 
por  certo  desapontadas  depois  de  os  lerem. 

O  genial  Eça  de  Queiroz,  porém,  salvou-se  a  tempo  do 
declive  sensualista  em  que  ia  resvalando  com  os  seus  cé- 
lebres romances  O  Primo  Bazilio,  O  Crime  do  Padre 
Amaro,  A  Reliqiiia,  e  mais  alguns,  compondo  mais  tarde 
outros  livros  que  lhe  grangeram  justa  e  perdurável  me- 
mória. Tal  como  Balzac  e  Qautier,  e  outros  franceses  con- 
temporâneos que  compuzeram  niáos  livros  na  mocidade, 
êle,  escrevendo  o  seu  Fr.  Gil  de  Santarém,  o  seu  Santo 
Onofre,  e  alguns  mais,  reabilitou  e  glorificou  mais  tarde, 
não  só  o  seu  talento,  mas  a  sua  memória,  e  a  sua  cons- 
ciência. 

Foi,  desde  então,  um  dos  nossos  maiores  e  mais  puros 
génios  literários. 


Gomes  Leal. 


Eça  de  Queiroz 


Oeux  génies  d'un  tempéranient  parfaitement  opposé  ont, 
au  cours  du  siècle  dernier,  illustré  la  prose  portugaise,  et, 
sur  des  plans  différents,  réalisé  Tunion  merveiUeuse  de 
deux  facultes  en  apparence  inconciliables:  Tironie  et  la 
fantaisie.  Ces  deux  génies  sont  Camíllo  Castello-Branco 
et  Eça  de  Queiroz.  Mais  tandis  que  Tauteur  á'Amoiirde 
perdition  tire  de  Tlmagination  ses  ressources  principales  et 
reste  en  quelque  sorte  cnchaíné  au  Passe,  jusqu'à  se  servir 
avec  prédilection  de  tours  archaiques  pour  Tenrichisse- 
ment  de  sa  langue,  Eça  de  Queiroz  s'affirme  essentielle- 
ment  moderne  par  la  prépondérance  qu 'exerce  dans  son 
art  la  faculte  du  goOt. 

Une  puissante  discipline  intérieure  fit  de  lui  le  plus  clas- 
sique  des  écrivains  de  Portugal,  et,  même  lorsqu'il  setnble 
sacrifier  à  son  tour  au  vieux  romantisme  atavique  de  la 
Race,  dans  La  Reliqtte  et  dans  Le  Mandaria  par  exemple, 
sa  nature  éminemment  artistique  manifeste  peut-être  plu> 
intensément  encore  ce  qui  constitue  le  trait  essentiel  de 
ses  dons  géniaux:  la  justesse  évocatrice  du  mot,  Texpres- 


60 


sivité  des  gestes,  des  figures,  Je  parfait  equilibre  des  li- 
gnes  et  des  tons,  la  plasticité  du  verbe.  II  crée  sa  langue; 
il  vit  ses  peintures.  Chez  lui,  Teffet  émotionnel  ne  resulte 
jamais  d'un  certain  abandon  aux  entrainements  de  Ten- 
thousiasme,  mais  bien  du  sentiment  précis  des  ressources 
de  son  art  et  de  leur  utilisation  raisonnée.  De  là  la  qualité 
profondément  dramatique  de  ses  créations,  la  portée  hu- 
maine  et  en  quelque  sorte  universelle  de  chefs-d'oeuvre 
comme  Le  crinie  de  Vahhê  Amaro  ou  Le  cousin  Bazilio.  Nul 
autre  avant  lui,  en  Portugal,  n'avait  possédé  à  égal  degré 
la  science  difficile  de  la  composition,  ainsi  que  Ta  fort  bien 
discerne  Tun  de  ses  meilleurs  disciples,  M.  João  Chagas; 
c'est  pourquoi  Ton  a  pu  dire  que  Tart  d'Eça  de  Queiroz 
était  aussi  peu  portugais  que  possible. 

Au  fait,  il  s'était  assimile,  avec  une  surprenante  maítri- 
se,  les  plus  difficiles  conquêtes  de  la  culture  française,  et 
il  a  presque  dépassé  Flaubert,  son  modele,  non  pas  préci- 
sément  par  Téclat  du  style,  mais  pour  la  souplesse  de  la 
phrase  et  la  variété  des  formes  plastiques  du  verbe,  aussi 
bien  que  pour  IMntensité  dramatique. 

Peut-être  est-il  juste  d'ajouter  qu'il  n'eut  guère  de  pré- 
curseurs  dans  son  pays,  et  que  nul  de  ceux  que  ont  voulu 
jusqu'ici  rimiter  n'a  réussi  à  lui  dérober  son  secret.  Et 
pourtant,  je  suis  prêt  à  soutenir  qu'il  est  bien  de  la  lignée 
de  Gil  Vicente  et  des  grands  chroniqueurs  de  Portugal, 
c'est  à  dire  que  le  raffinement  de  la  culture  est  loin  d'avoir 
supprimé  en  lui  les  dons  de  la  race.  La  qualité  de  son  iro- 
nie,  d'allure  très-particulière,  presque  sentimentale,  témoi- 
gne  surabondamment  de  ce  fait.  Cest  la  revanche  du  tem- 
pérament.  Par  réaction  contre  le  milieu  hostile,  la  passion 
s'éveille  et  devient  sarcasme.  «11  faut  rire  pour  n'être  pas 
obligé  de  pleurer),  disait  déjà  Tun  des  nôtres.  Mais  la 
sensibilité  lusitanienne,  plus  directe  et  plus  riche,  trouve, 


61 


fnêttie  poiír  railler,  des  accents  d'oú  la  saudade  n'e3t  ja- 
mais complètement  absente,  et  oíi  la  volupté  du  reíjret 
<levient  de  rhumour  amer.  Et  puis,  il  y  a  le  point  d'hon- 
«eur  qui  fait  plus  ardemment  sursauter  l'indiíjnation. 

De  là,  le  caractere  inimitable  des  Maias,  le  côté  f>oi- 
gnant  de  certaines  caricatures. 

Et  la  nostalgie  qui  se  cache  au  fond  de  tout  cneur  portu- 
gais,  le  songe  idyllique  qui  donne  au  lyrisme  lusitanien 
son  caractere  si  particulier,  ne  reconquièrent-ils  pas  tous 
leurs  droits  dans  La  VUle  et  Us  Montagnes?  Là,  Eça  de 
Queiroz  retourne  vers  la  simplicité  agreste  de  la  nature. 

Certes,  comme  de  tant  d'autres  de  ses  compatriotes  let- 
trés,  la  France  a  bien  été  sa  marraine  spirituelle  -  cela 
date  des  origines  —  mais  il  n'en  est  pas  moins,  par  les  ca- 
racteris tiques  essentielles  de  la  sensibilité,  un  gt^nie  portn- 
gais.  Son  grand  mérite  est  d'avoir  su  discipliner  ses  facul- 
tes pour  mieux  dominer  son  milieu.  II  a  ceuvré  sub  specie 
aternitatis,  et  le  jour  n'est  peut-être  pas  éloigné,  ou  Le 
crime  du  père  Amaro  et  la  La  Reliqne,  sans  parler  de  la 
merveilleuse  galerie  de  portraits  que  Ton  peut  extraire  de 
ses  livres,  prendront  place  parmi  les  cents  chefs-d'oeuvre 
de  Ia  Littérature  universelle.  A'  la  France,  dont  il  procla- 
ma la  suprématie  culturelle,  devrait  revenir  Thonneur  de 
lui  faire  rendre  justice. 

La  Neuville-Vault,  (Oise)  —  Janvier  1918. 

Philkas  Lebesouf.. 


Eça  de  Queiroz 


(EXCERPTO) 


Eça  de  Queiroz  —  rebento  novo  e  mais  lidinio  dessa  pro- 
génie monstruosa  em  que  culminam  divinamente,  com  raí- 
zes eternas  no  vasto  solo  dos  gregos  e  latinos,  Shakespeare, 
Cervantes,  Voltaire,  Rabelais,  Goethe,  Balzac  —  foi  o  pri- 
meiro e  único  escriptor  portuguez  que,  simplesmente  com 
os  seus  livros,  conseguiu  internacionalizar  Portugal.  Mais 
do  que  certos  feitos  históricos,  que  através  de  tão  longa  e 
ennevoada  distancia  já  nos  parecem  ficções  históricas  (por- 
que, historicamente,  de  ha  muito,  desde  a  implantação  do 
constitucionalismo,  Portugal  deixou  de  nos  interessar) ; 
mais  do  que  isso,  encontrou,  afinal,  a  pátria  dos  navega- 
dores um  homem  de  génio  para  nelle  reviver,  universali- 
zando-se.  Eça  de  Queiroz  é  o  autor  deste  milagre  interna- 
cional. O  paiz  se  anniquillava :  Eça  de  Queiroz  é  uma 
compensação  da  Natureza  á  decadência  de  Portugal.  Oito 
scculos  de  historia,  de  cultura,  produziam,  finalmente,  na 
hora  dolorosa  do  seu  eclypse,  um  homem  de  génio  e  de 
bom  gosto. 


tô 


Antes  delle,  a  literatura  portugueza,  em  conjunto,  era, 
«pesar  de  pura  e  rica,  principalmente  regional.  E  o  era  não 
só  pela  essência  como  pela  forma.  De  Camões  a  Herculano, 
com  escala  pelos  maiores  cultores  da  lingua  opulenta  e 
barbara,  as  letras  portuguezas  mantêm  um  caracter  de 
austero  regionalismo,  que  por  vezes  chega  a  ser  ingenua- 
mente pretencioso.  Aliás,  sempre  foi  notada  a  incapacidade 
do  portuguez  para  as  idéas  geraes.  Em  vão  se  procurará 
através  das  letras  portuguezas  uma  dessas  creações  uni- 
versaes,  um  desses  typos  de  integração  social  ou  senti- 
mental, que  se  accommodam  em  todas  as  literaturas  do  mun- 
do —  Rei  Lear  ou  D.  Quixote,  Hamlet  ou  Candide,  lago  ou 
Mephistopheles,  o  doce  Hermann  <  sorrindo  á  imagem  espi- 
ritual da  formosura»,  ou  o  truculento  Vautrin  «violando  as 
açucenas  mortas  á  beira  das  estradas».  Porque  a  tragedia 
commovente  de  Ignez  de  Castro  é  mais  o  producto  de  uma 
intriga  politica  de  aldeia,  sem  a  larga  irradiação  de  uma 
these  profundamente  humana,  e  as  sombrias  façanhas  de 
Eurico  representam  apenas,  sem  o  estudo  fixo  de  um  ca- 
racter, um  episodio  vago  da  cavallaria.  Ainda  no  grande, 
no  formidável  Camillo,  quando  o  seu  génio  atormentado, 
combatido  por  toda  a  sorte  de  adversidades,  se  não  disper- 
sava em  novellas  desiguaes,  mal  acabadas,  escravizava-se, 
espremia-se  furiosamente  nas  moendas  das  polemicas  des- 
fibradoras,  no  exaspero  trágico  de  campanhas  pessoalissi- 
mas  isto  numa  lingua  que,  de  tão  barbaramente  clássica 
e  contundente,  jamais  foi  excedida  no  representar  a  velha, 
a  genuína,  a  grossa  chalaça  portugueza. 

A  lingua  em  que  se  escrevia  em  Portugal  era  um  instru- 
mento áspero,  solemne  e  duro:  não  se  lhe  conheciam  nuan- 
ças delicadas  para  esboçar  os  sentimentos  mais  subtis, 
nem  ondulação  ampla  e  sonora  para  abranger  o  vasto  e 
complexo  surto  das  idéas:  numa  palavra  —  ignorava-se-lhe 


64 


o  verdadeiro  espírito.  Era  a  lingua  secca,  espartilhada,  ta- 
belliôa,  dos  clássicos  primeiros,  muito  preciosa  e  justa 
para  o  seu  tempo  e  seu  meio,  mas  archaica,  insubsistente, 
provinciana,  nestas  idades  praticas  da  maior  expansão  in- 
teliectual  e  económica  —  quando  não  era  a  lingua  donai- 
rosa,  flácida,  rotunda,  dos  últimos  românticos,  resumindo 
a  Vida  e  o  Universo  em  apologias  de  creaturas  celestiaes 
e  em  descripções  de  mundos  encantados. 

Certo,  os  Sermões  de  Vieira  são  esculpturaes  e  a  Nova 
Floresta  de  Bernardes  é  lapidar;  mas,  apesar  de  toda  a  sua 
divina  eloquência  e  de  toda  a  sua  pureza  clássica,  não 
constituem  uma  literatura.  E  —  sem  que  isto  pareça  um 
prurido  infantil  de  irreverência  innocua  —  o  próprio  Ln- 
siadas,  tão  grande,  tão  bellicoso,  tão  suggestivo,  se  con- 
serva a  sua  gloria  através  dos  séculos,  não  é  tanto  pelo 
padrão  de  vernaculidade  que  o  sonneliza  e  lhe  dá  a  gloria 
incontestável  de  código  da  lingua,  nem  pelas  descripções 
geographicas  e  evocações  mithologicas  que  o  perturbam, 
mas,  principalmente,  pelo  largo  e  sadio  sopro  lyrico  que  o 
atravessa  e  anima.  Se  eu  ousasse  abrir  uma  despretenciosa 
excepção  no  meio  desse  monumental  atravancamento  clás- 
sico e  romântico,  esta  seria,  entre  os  modernos  escriptores 
portuguezes,  para  Garrett,  que,  pela  universalidade  e  cla- 
reza do  pensamento,  pela  flexibilidade  da  linguagem,  a  so- 
briedade dos  tons,  a  distincção  das  maneiras,  e,  sobretudo, 
pela  sabia  ironia  gauleza  que  lhe  corria  nas  veias,  é  o  pre- 
cursor da  nova  arte  de  escrever  em  nossa  lingua. 

Eça  de  Queiroz,  o  creador  supremo,  veio  revelar  á  lite- 
ratura portugueza  o  segredo  das  cousas  eternas.  Elle  é  o 
artista  por  excellencia.  E'  o  creador  do  romance  portu- 
guez,  o  romance  de  caracteres,  como  Balzac  é  o  grande 
renovador  de  processos  no  romance  francez.  Com  os  ty- 
pos  que  creou  em  meia  dúzia  de  romances,  representando 


65 


Integralmente  a  vida  portugueza  contemporânea,  realizou 
este  milagre  inédito:  universalizar  Portugal. 

Esses  typos  são,  na  verdade,  maravilhosos  de  expressão, 
de  realidade,  de  vida.  Não  ha  para  elles  fronteiras  de  idéas, 
de  sentimentos,  de  costumes,  de  aspirações:  todas  as  civi- 
lisações  illustres  os  disputam,  porque  elles  participam  de 
todas  ellas,  integrando-se  na  communhão  humana,  sem  per- 
derem, entretanto,  a  particularidade  regional  que  lhes  é 
própria.  Resaltam  dessa  prodigiosa  galeria  a  mais  rigorosa 
preoccupação  do  detalhe  e  a  mais  perfeita  visão  do  con- 
junto: o  apuro  da  expressão  e  o  pathetico  da  idéa.  Acca- 
cio,  o  padre  Amaro,  o  cónego  Dias,  Bazilio;  João  da  Ega, 
Qouvarinho,  o  Dâmaso  e  toda  a  espantosa  galeria  dos 
Maias;  Raposo,  Jacintho,  José  Mathias,  Fradique  Mendes, 
Pacheco,  o  Gonçalinho,  installaram-se  para  sempre  na 
nossa  intimidade,  vivendo  humanamente  a  nossa  vida. 

Ha  escriptores  que,  cercados  de  conforto  material  e 
prestigio  social,  escrevem,  methodicamente,  cincoenta  li- 
vros, e  ninguém  lhes  cita  uma  personagem,  nem  lhes  decora 
uma  phrase.  E  os  ha,  em  compensação,  devida  tormentosa 
e  errante,  que,  na  degradação  dos  cárceres  ou  no  desali- 
nho das  estalagens,  como  Cervantes,  como  Shakespeare, 
compõem  três  ou  quatro  volumes  que  se  tornam  a  gloria 
úe  uma  raça  e  de  uma  época,  e  em  que  se  louva,  eterna- 
mente, a  humanidade  agradecida.  A  immutavel  caracterís- 
tica do  génio  é  a  adaptabilidade  universal  das  suas  crea- 
ções.  Todos  nós  sabemos  o  que  significam  Sancho  Pança, 
Othello,  o  mercador  de  Veneza,  Macbeth,  Romeu  e  Ju- 
lieta, como  já  nos  familiarizámos  com  as  figuras  secunda- 
rias, accessorias,  e  até  com  as  mais  insignificantes  da 
extensa  e  palpitante  nomenclatura  eçaneana  —  o  João 
Eduardo,  o  doutor  Topsius,  o  Grillo,  o  Villaça,  o  Tito, 
com  o  seu  vozeirão  de  athleta  preguiçoso  de  Villa  Clara, 

KÇA   DE   4USIR0Z  C 


66 


e  o  Videirinha,  com  o  seu  violão  de  fadista  épico  de  Santa 
Irinéa. 

Entre  uns  e  outros  existe  apenas,  a  distancial-os  appa- 
rentemente,  a  differença  de  idades  e  de  temperamentos; 
no  fundo,  porém,  anima-os,  arrasta-os,  vincula-os,  a  mes- 
ma fatalidade,  o  mesmo  destino.  Depois,  a  nossa  época  já 
não  comporta  a  tragedia,  pelo  menos  como  era  concebida 
e  representada  antigamente.  E  attendendo  a  que  (mesmo 
sem  accrescentar  neste  caso  o  argumento  básico  da  pre- 
disposição orgânica  do  escriptor),  attendendo  a  que  a  Iro- 
nia é  o  melhor,  o  mais  seguro,  o  mais  definitivo  expoente 
das  civilizações  decadentes,  tem-se  a  razão  por  que  Eça 
de  Queiroz,  ao  envez  de  pintar  grandes  telas  trágicas» 
traçou  prodigiosas  caricaturas. 

Como  escriptor  mais  critico  de  acção  social  que  explo- 
rador de  themas  passionaes,  a  mulher  desempenha  na  sua 
obra  um  papel  bastante  secundário  —  para  não  salientar- 
mos a  sordidez  pathologica  de  Juliana  e  a  loucura  mystica 
de  D.  Patrocínio  das  NeVes.  Com  excepção  de  Maria 
Eduarda,  a  mais  enérgica  das  suas  heroinas  (typo  de  ho- 
nestidade soffredora  e  heróica,  máo  grado  a  fúria  arrasa- 
dora de  Fialho  de  Almeida,  quando  affirma  que  nos  Maias 
não  ha  uma  só  mulher  honesta),  o  amor  nas  outras,  quando 
não  é  a  carne  que  se  entrega,  physiologicamente,  na  hora 
precisa,  sem  arrebatamentos  lyricos,  como  em  Luiza  e 
Amelinha,  é  a  passividade  dolorida  e  resignada  de  Graci- 
nha, ou  a  estima  delicada,  ingénua,  quasi  insexual,  de  Joan- 
ninha. 

Mas,  para  compensar  esta  ausência  de  paixão,  de  cálida 
vibração  affectiva  entre  as  suas  creaturas  femininas,  elle  é 
o  glorificador  commovido  da  amizade,  da  solidariedade  mo- 
ral e  inteliectual  entre  os  homens.  Eça  de  Queiroz  tinha  o 


67 


culto  dos  seus  amigos.  Vede,  por  exemplo,  a  constante 
correspondência  psychica,  intima,  fraterna,  que  une  Jorge 
a  Sebastião,  João  da  Ega  a  Carlos  da  Maia,  Zé  Fernandes 
a  Jacintho,  fundindo-os  na  mesma  ordem  de  sentimentos  e 
de  idéas,  sem,  comtudo,  annuUar  em  cada  um  a  individua- 
lidade própria,  que  se  conserva,  ao  contrario,  inconfundí- 
vel e  flagrante. 

Este  culto  dos  amigos,  não  o  celebrou  apenas  Eça  de 
Queiroz  através  das  suas  ficções  literárias,  porque  era  um 
prolongamento  da  sua  conducta  particular  na  vida.  E'  uma 
grande  sympathia  irradiando  de  todo  o  seu  ser.  Ahi  estão 
como  provas,  entre  outros  documentos  fidelíssimos,  esses 
magníficos  retratos  psychologicos  de  Ramalho  Ortigão, 
Eduardo  Prado,  Anthero  de  Quental,  considerando-se  mais 
que,  na  apologia  deste  ultimo,  Eça  de  Queiroz  attinge  a 
perfeição  sobrehumana  de  se  diminuir  publicamente  para 
louvar  o  seu  amigo,  traçando  um  perfil  que  está  para  a 
moderna  literatura  portugueza  como  na  religião  os  evan- 
gelhos estão  para  Christo. 

Estes  e  outros  ensaios  de  critica  literária,  histórica  e 
social,  como  os  sobre  Victor  Hugo,  Guilherme  II,  o  Conde 
de  Paris,  Beaconsfield,  a  Rainha,  Joanna  d' Are,  os  Ingle- 
zes  no  Egypto,  os  Três  Prefácios,  o  Francesismo,  vieram  re- 
velar novas  faces  do  seu  espirito  de  commentador  genial 
e  de  creador  equilibrado:  ahi,  as  suas  faculdades  de  ana- 
lyse  e  de  synthese  ganham  um  vigor  rejuvenescido  e  uma 
idealização  desafogada.  Neste  contacto  directo  com  a  crea- 
tura  viva,  com  o  facto  objectivado  —  é  o  mesmo  que  se 
observa  com  outros  artistas  profissionaes,  como,  por  exem- 
plo, Anatole  France,  o  sábio  atheniense,  muito  mais  inte- 
ressante na  Vie  Litteraire  que  em  algumas  das  suas  obras 
de  ficção ;  e  até  com  alguns  escriptores  medianos,  como 
esse  venturoso  Paul  Bourget,  incontestavelmente  o  mais 


68 


insigne  dos  actuaes  medianos  francezes,  e  decerto  muito 
menos  irritante  nos  seus  estudos  de  critica  do  que  nos  ro- 
mances preciosissimos  que  urde  como  bom  parisiense  — 
«um  parisiense  com  um  ligeiro  toque  de  inglezismo,  como 
pede  a  moda,  que  leva  para  o  faubourg  Saint  Qermain, 
num  fiacre,  os  seus  methodos  de  psychologia,  de  uma  psy- 
chologia  que  cheira  bem,  que  cheira  a  opoponax,  e  toman- 
do uns  ares  infinitamente  profundos,  remexe  os  corações 
e  as  sedas  das  senhoras,  para  nos  revelar  segredos  que 
todo  o  mundo  sabe,  num  estylo  que  todo  o  mundo  tem.» 

Se  fosse  possivel  destacar  das  obras  primas  do  natura- 
lista horaciano  da  Cidade  e  as  Serras  (livro  que  é,  com  a 
Correspondência  de  Fradique  Mendes,  o  mais  pittoresco  re- 
sumo, a  satyra  mais  fina  do  septicismo  elegante  do  fim  do 
século  XIX);  se  fosse  possivel  destacar  das  obras  primas 
de  Eça  de  Queiroz  uma  única  obra  prima,  em  que  todas  as 
outras  se  resumam  e  condensem,  esta  seria,  forçosamente, 
a  lltustre  Casa  de  Ramires.  Este  livro  é  o  mais  bello  monu- 
mento da  lingua  portugueza,  nos  últimos  tempos :  é  um 
Lusíadas  em  prosa,  é  o  poema  límpido  e  sonoro  do  deca- 
hido  Portugal  contemporâneo  em  contraste  com  o  poderoso 
Portugal  medievo.  Producto  de  plena  e  sadia  maturescen- 
cia  intellectual,  dessa  tristeza  consolada  e  luminosa  do 
envelhecer,  livre  de  preconceitos  de  escolas,  repousado  e 
sereno,  tudo  nelle  é  forte,  suggestivo,  emocionante,  for- 
moso, harmónico,  preciso,  igual,  porque  ahi,  de  principio 
afim,  um  perfeito  senso  de  historiador  acompanha  e  regula 
a  alcandorada  fantasia  do  artista. 

Tenho  ouvido,  com  uma  insistência  devastadora,  que  em 
Eça  de  Queiroz  o  minucioso  narrador  de  factos  esmaga  o 
philosopho  semeador  de  idéas  ou  diminue  o  artista  evoca- 
dor de  imagens.  E'  que  estas,  muitas  vezes,  só  dão  na  vista 


69 


quando  são  impostas  a  muque,  aos  saltos  e  aos  berros:  a 
discreçào,  a  finura,  a  subtileza,  prejudicam-n'as  na  maio- 
ria dos  casos. 

Para  embaraçar  o  asserto  que  se  funda  na  supposta  au- 
sência de  suggestividade,  de  surto,  de  força,  de  que  se  ac- 
cusa  o  autor  da  Perfeição  (se  uma  tão  fácil  tarefa  tem  al- 
gum valor),  basta  lembrar  aquelle  inesquecível  epilogo  dos 
Maias  (um  livro  que  ainda  se  não  tinha  escripto  e  que  se 
não  escreverá  mais  em  lingua  portugueza),  pagina  que  vale 
por  alguns  tratados  de  philosophia,  onde  Carlos  e  Ega, 
depois  de  bravamente  philosopharem,  ao  mesmo  tempo  que 
assentam  numa  theoria  fatalista  da  existência,  proclamando 
a  inutilidade  de  todo  o  esforço,  correm  desesperadamente 
para  apanhar  o  «americano»  que  os  deve  levar  ao  Hotel 
Braganza;  ou  evocar  aquelle  maravilhoso  final  da  Illustre 
Casa,  superior  a  muito  compendio  de  historia,  em  que  ao 
lado  de  Villa  Clara  e  ao  pé  da  Torre  de  D.  Ramires,  na 
doçura  da  tarde  agonizante,  «por  todo  o  fresco  valle  até 
Santa  Maria  de  Craquede»,  uma  voz  inspirada  traça  ge- 
nialmente a  psychologia  de  Portugal,  emquanto  a  silhueta 
melancólica  do  padre  Soeiro,  destacando-se  no  «silencio 
ainda  claro,  de  immenso  repouso,  tão  doce  como  se  des- 
cesse do  céo»,  pede  a  paz  de  Deus  para  Gonçalo,  para  to- 
dos os  homens,  para  campos  e  casaes  adormecidos. . . 

Não,  meus  amigos!  Eça  de  Queiroz  é  um  artista  comple- 
to: aquillo  que  não  encontramos  nos  outros,  um  quer  que 
seja,  talvez  um  quasi  nada,  é  justamente  nelle  que  vamos 
encontrar.  Por  mim,  confesso  que,  em  prosa  portugueza, 
foi  nelle  que  aprendi  a  ler.  Repugna-me,  por  uma  questão 
de  pudor  esthetico,  apontar  as  pequeninas  falhas  desse  ar- 
tista, em  quem  os  defeitos  são  qualidades:  isso  é  com  os 
críticos,  os  letrados,  os  homens  de  rigido  bom  senso  e 
convicções  rigidas.  Guardadas  as  devidas  distancias,  ac- 


70 


ceito-o,  na  minha  admiração  apaixonada,  mas  consciente, 
como  elle  acceitava  Victor  Hugo,  e  como  Victor  Hugoac- 
ceitava  Shakespeare :  comme  une  brute. 

E'  que  elle,  como  nenhum  outro  escriptor  do  seu  tempo, 
soube  visionar  integralmente  a  vida  humana  em  todas  as 
suas  ridiculas  baixezas  e  em  todos  os  seus  bens  consola- 
dores. E'  que  elle  fixou  maravilhosamente  a  Vida.  E,  para 
fixal-a,  teve  ainda  este  grande  mérito:  transformou  uma 
lingua  barbara,  dura,  áspera,  fradesca,  solemne,  hostil, 
num  instrumento  plástico,  sonoro,  dúctil,  ondeante,  dia- 
phano,  subtil :  numa  palavra  —  foi  o  primeiro  escriptor 
portuguez  que  fez  paradoxos  com  a  nossa  lingua.  Elle  é  o 
mestre  — e  depois  delle,  ninguém,  que  se  preze,  tem  mais 
o  direito  de  escrever  mal  a  lingua  portwgueza. 


Matheus  de  Albuquerque. 

Brasileiro. 


As  rosas  votivas 


Meu  caro  camarada: 

A  amável  carta  que  me  enviou  d'essa  saudosa  Lisboa, 
d'onde  os  azares  da  minha  vida  errante  ha  tanto  me  trazem 
arredado,  exprime-me  o  desejo  de  juntar  a  minha  colabora- 
ção á  dos  escritores  de  Portugal  e  do  Brazil,  que  um  grupo 
de  admiradores  resolveu  reunir  n'um  volume  de  homenagem 
á  grande  memória  do  Mestre  de  todos  nós  que  foi  Eça  de 
Queiroz. 

Tenho,  n.':?5te  momento,  diante  dos  olhos,  entre  os  retra- 
tos de  Camilo,  de  Antero,  de  Junqueiro,  de  Fialho  e  de 
António  Nobre,  que  formam  a  galeria  espiritual  do  meu 
nativismo  literário,  a  fotogravura  do  monumento,  em  que 
Teixeira  Lopes  animou  maravilhosamente  de  vida  a  imagem 
marmórea  do  romancista  genial  dos  «Maias». 

Aureolada  pelo  sol  d'esta  manhã  de  inverno  carioca,  do- 
cemente azul  e  dourada  como  as  das  nossas  primaveras,  a 
aristocrática  figura  emaciada,  franzida  pelo  fino  sorriso  do 
idealista  que  a  áspera  observação  da  realidade  transformou 
no  melancólico  sorriso  do  sarcasta,  parece  ressuscitar  tão 
esculturalmente  como  entre  a  frescura  verde  das  palmei- 


72 


ras  d'esse  discreto  larguinho  lisboeta,  a  dois  passos  do  ele- 
gante e  fútil  Chiado,  onde  o  seu  monóculo  tantas  vezes 
faiscou  de  ironia,  ao  vêr  desfilar  o  cortejo  triunfal  dos  gro- 
tescos a  que  o  seu  génio  vingador  deu  a  imortalidade  do 
riso. 

E  é  com  enternecida  emoção  que  agora  estou  relembrando 
o  lindo  gesto  d'uma  das  mais  gentis  senhoras  brasileiras  de 
meu  conhecimento,  que  ao  passar  ha  anos  no  Tejo,  de  re- 
gresso da  França  ao  Rio,  desembarcou  em  Lisboa  exclusi- 
vamente para  depor  deante  d'êle,  como  outr'ora  as  mulheres 
da  Hellade,  deante  das  estátuas  dos  deuses  olímpicos,  um 
viçoso  ramo  de  rosas  vermelhas.  Suave  exemplo,  tão  cheio 
de  profundos  ensinamentos,  que  eu  desejaria  vêr  seguido 
pelas  mais  lindas  mulheres  de  Portugal !  Mais  que  nenhuma 
outra,  a  púrpura  das  rosas  resplandece  sobre  a  brancura 
dos  mármores  imortaes. 

Na  muda  graça  votiva  d'esse  tocante  gesto  feminino,  não 
acha  o  meu  ilustre  confrade,  uma  significação  de  bem  mais 
frisante  eloquência  do  que  em  todos  os  julgamentos  dos 
críticos?...  Por  mim,  profundamente  creio  que  nenhuma 
homenagem  valeria  mais  para  o  amoroso  creador  de  Maria 
Eduarda,  de  Luisa  e  de  todas  as  adoráveis  fi-^-jras  de  mu- 
lheres que,  na  sua  obra,  vivem  nimbadas  da  suprema  beleza 
que  a  dôr  dá  ao  amor,  do  que  a  das  rosas  espalhadas  so- 
bre a  sua  memória  pelas  lindas  mãos  d'essa  passageira  de 
um  transatlântico.  A  uma  alma  tão  aristocraticamente  hos- 
til, como  a  d'êle  foi,  a  todas  as  exterioridades  enfáticas,  as 
sagrações  que  melhor  convém  serão  sempre  as  que  vierem 
impregnadas  do  perfume  d'essaamoravel  ternura,  que  só  as 
mulheres,  que  são  as  maiores  artistas,  pelo  instincto,  sabem 
pôr  espontaneamente  na  sua  admiração. 

Imagino  a  escandalisada  surpreza  dos  Dâmasos  e  dos  Gou^ 
varinhos,  que,  da  porta  da  Havaneza,  de  certo  seguiram 


73 


com  08  olhos  gulosos  a  elegante  estrangeira,  e  a  viram  fa- 
zer aquela  romagem  extravagante.  Como  não  haviam  eles 
deixar  de  a  considerar  chocante?. . . 

A  divindade  do  génio  foi  sempre  incompreendida  pelos: 
homens.  E  mais  que  nenhum  outro,  Eça  foi  fidalgamente 
odiado  pela  Lisboa  conselheiral  e  janota  do  Constituciona- 
lismo, de  que  era  o  analista  implacável.  Na  sua  vida,  uni- 
camente consagrada  á  Beleza,  repugnaram-lhe  sempre  as. 
consagrações  oficiaes. 

Desdenhando  os  preitos  vãos  das  maiorias,  os  que  apenas 
ambicionou  foram  os  das  elites,  que,  em  todos  os  paizes 
constituiram  sempre  essa  minoria,  isolada  da  turba,  que, 
no  seu  realismo,  só  via  imoralidade,  e  na  sua  irreverência 
a  abominável  revolta  de  um  anarquista  das  letras,  contra 
todos  os  preconceitos  tradicionaes  que  formam  os  alicerces 
das  sociedades  burguesas. 

Apenas  as  gerações  novas,  que  êlê  ensinou  a  entrever 
o  que  fulgurava  no  horizonte,  para  alem  da  baixeza  am- 
biente, o  amaram  sinceramente,  e  as  mulheres,  que,  sob  a 
ironia  que  nunca  compreendem,  tiveram  sempre  a  intuição 
do  sentimento  e  da  vibração  profunda  da  poesia  humana, 
que  a  sua  fantasia  Velava,  á  maneira  daquele  manto  diáfano 
que  reveste  a  beleza  da  Verdade  nua. 

Quantos  d'aqueles  que  herdariam,  ecíin  í.  ff.i:ompreensão, 
o  surdo  rancor  qt'e  êle  inspirava,  se  não  insurgirão  ainda, 
no  íntimo,  conVia  a  idéa  da  sua  glorificação  póstuma?  Só 
os  que  verdadeiramente  amam  a  sua  pátria,  como  êle  a 
amou,  depurada  e  regenerada,  podem  compreender  a  ne- 
cessidade de  exaltar  n'êle  o  que  mais  vale  para  um  povo  — 
o  seu  esplendor  moral  e  mental. 

As  comemorações  de  caracter  essencialmente  literário, 
e,  sobretudo,  de  celebridades  autenticamente  dignas  d'es  te 
título,  eram  raras  n'uma  terra  que  apenas  se  afizera  a  imor- 


74 


talizar,  pelo  bronze  e  pelo  mármore,  os  Conselheiros  de 
Estado.  Ao  passo  que  nas  outras,  onde  o  valor  intelectual 
se  sobrepõe  ao  dos  políticos,  a  memória  dos  que,  pela  arte 
ou  pela  sciência,  dominaram  o  tempo,  era  assinalada  pelo 
culto  sucessivo  das  gerações,  dir-se-ia  que  a  nossa  se  com- 
prazia em  ostentar  indiferença  e  desdém  pelos  que  desta- 
cavam da  vasta  mediocridade  dominante. 

Por  ter  sido,  no  seu  sarcasmo  juvenalesco,  o  comentário 
amargo  da  vida  portuguesa  da  sua  época,  é  que  a  obra  de 
Queiroz  justamente  mais  merece  devoção  dos  que  hoje  con- 
jugam os  seus  esforços  para  o  ideal  de  um  Portugal  mais 
nobre  e  redimido. 

Saido  da  Universidade  de  Coimbra  entre  a  plêiade  que, 
cheia  de  galhardia,  se  apaixonou  pelas  grandes  idéas  so- 
ciaes  que  da  França  irradiavam,  Eça  veiu  encontrar  no 
Passeio  Público  e  em  S.  Bento,  nas  sacristias  e  nos  salões 
de  então,  uma  sociedade  burlesca,  anacrónica  e  casquilha, 
vivendo  ainda  á  sombra  bolorenta  do  Passado  fradesco, 
entre  os  desvairamentos  beatos  das  procissões  do  Senhor 
do  Passos  da  Graça  e  os  êxtases  mórbidos  de  uma  poesia 
lírica,  afrodisíaca  e  alambicada,  enaltecendo  ao  piano  os 
olhos  meigos  e  as  fraldas  brancas  das  Elviras  da  Baixa. 

Foi  essa  sociedade  ronceira  que  o  crítico  de  tendenciais 
revolucionar^*?,  do  CasinOj  que,  n'essa  fase,  dominava  í- 
artista,  quiz  demolir  a  golpes  flamejantes  de  sarcasmo  e 
varrer  a  lufadas  salubres  de  ironia,  ^  et -'-'depurar  a  terra 
que  amava,  de  tudo  o  que  nela  jazia  de  torpe  e  de  falso. 
Ter-Ih'o-ão  perdoado  os  que  ainda  lá  jazem  enraizados  ao 
passado  em  que  triunfaram?. . .  Penso  que  não.  O  ódio  dos 
nulos  é  mais  tenaz  ainda  pelos  que  morreram  —  porque  já 
nada  teme. 

Agora  vejo,  meu  bom  amigo,  que  não  lhe  escrevi  o  ar- 
tigo crítico  que  certamente  esperava. 


75 


Mas  não  acha,  em  verdade,  que  mais  que  tudo  o  que  so- 
bre êle  está  já  dito  e  sempre  haverá  a  dizer,  em  palavras, 
valem  em  significação  as  rosas  vermelhas  silenciosamente 
depostas  sobre  o  seu  monumento  por  aquela  gentil  senhora 
d'e8te  Brazll  que,  muito  antes  d'êle  começar  a  ser  um  con- 
sagrado em  Portugal,  ainda  em  vida  o  venerava  já,  como 
um  imortal?... 

Justino  de  Montalvão, 


^O  !< 


Ha  vinte  annos 


Eça  de  Queiroz,  quando  eu  o  conheci  e  com  elíe  convivi, 
mezes  a  fio,  na  intimidade  do  seu  espirito  e  do  seu  lar,  era 
já  um  convertido  ás  belJezas  da  sua  terra  nata?. 

Andara  por  esse  mundo,  —  por  quasi  todo  o  mundo  - 
com  a  sede  de  tudo  conhecer  e  tudo  observar ;  e  como  era 
o  mais  fino  e  subtil  observador  dos  nossos  tempos  e  um 
cronista  á  maneira  franceza  ou  unj  humorista  á  maneira 
americana,  trouxe,  na  sua  prosa  inc^^-^lavel,  para  a  sua 
obra,  toda  a  forte  emoção  visual  da  sua  arte,  que  era  a  sua 
tortura  constante  de  illuminado. 

Escrevia  por  esse  tempo— era  ahi  por95— >4  Cidade  e  as 
Serras,  que  é  o  grito  d'alma  de  um  portu^uez,  transviado  em 
sendas  da  civilisação,  ^asto  de  todos  os  prazeres,  saturado 
de  todos  os  luxos,  no  regresso  ao  so!  bemdito  da  sua  Pá- 
tria, em  que  se  aquece  e  se  expande,  como  se  outro  não 
houvesse  igual  em  toda  a  terra.  As  provas  d'esse  livro 
admirável  arrastavam  por  cima  da  sua  meza  de  trabalho,  á 
espera  das  correcções.  Os  editores  escreviam  cartas  sobre 
cartas  pedindo  a  sacramental  autorisação  que  Eça  punha 


77 


no  alto  de  todas  as  paginas,  quando  as  jul(^aVa,  finalmente, 
depuradas:  cPóde  impriniir-se».  Mas  elle  nunca  se  satisfa- 
zia. A  sua  prosa  tinha  de  sofrer  todas  as  torturas  do  seu 
espirito;  e  nem  sempre  era  occasião  de  proceder  a  esse 
trabalho  de  forja  mental,  que  o  queimava,  o  lacerava,  o 
deixava  exhaurido. 

Lembro-me  que,  durante  cinco  mezes,  vi  as  provas  pas- 
sarem por  transformações  inconcebiveis;  e  quando,  mais 
tarde,  as  li  na  obra  definitiva,  -  não  as  reconheci! 


Eça,  como  todos  os  escriptores  que  vivem  da  emoção 
das  artes  plásticas  e  só  na  conquista  de  um  adjectivo  gas- 
tam horas  intermináveis,  não  era  um  conversador  brilhant€. 
A  sua  palestra  derivava  simples,  terra-a-terra,  marcada 
aqui  e  ali  por  traços  fugidios  de  humorismo,  —  de  pessoa 
muito  viajada  e  de  intelligencia  arguta,  que  sabe  contar  o 
que  viu,  6em  grande  dispêndio  de  imaginação. 

Sob  os  grandes  castanheiros  de  Cintra,  sentados  n'um 
banco,  —  emquanto  seus  filhos  brincavam,  ali  perto  de  nós, 
—  eu  passei  horas  ouvindo-o  narrar  episódios  da  sua  vida 
viajeira  de  cônsul,  —desde  a  Havana  a  Paris,  com  inter- 
mittencia  por  terras  inglezas,  —  as  que  deixaram  no  seu 
espirito  mais  funda  e  duradoura  impressão.  Effectivamente, 
elle  tinha  affeiçoado  os  costumes  britannicos,  rigidos,  seve- 
ros, -  mas  elegantes  e  distinctos.  Antes  do  almoço,  eu  en- 
contrava-o  de  roupão  por  cima  das  ceroulas,  trabalhando ; 
mas,  a  certa  altura,  depois  de  uma  hora  ou  hora  e  meia  na 
pesquiza  de  recheio  para  o  Almanach  Encyclopedico  em  que 
eu  era  seu  modesto  collaborador,  Eça  levantava-se  e  des- 
apparecia.  Ia   tomar  o  seu  banho,  perfumar-se,  frisar-se, 


78 


aperaltar-se.  Era  uma  metamorphose :  renascia  n^elle,  assim 
preparado,  o  verdadeiro  gentleman. 


Supersticioso  como  um  árabe,  nunca  transpunha  os  hum- 
braes  de  uma  porta  sem  pôr  primeiro  o  pé  direito ;  e  tinha 
por  todos  os  perfumes  uma  idolatria  pagã  e  sensual.  Já  lá 
vão  vinte  annos,  que  n'esta  galé  das  lettras  contam  a  do- 
brar :  pois  desde  a  hora  em  que  communguei  a  sagrada  par- 
tícula da  sua  convivência,  eu  nunca  mais  deixei  de  lêr 
e  reler  sempre  que  na  minha  vida  se  abrem  alguns  minutos 
de  repouso,  uma  pagina  de  Eça,  que  é  o  meu  breviário  de 
emoções  artísticas,  —  a  nova  Biblia  do  meu  dolorido  e  sau- 
doso coração  de  portuguez. 

Lisboa,  25-IV-916. 

José  Sarmento. 


Eça  de  Queiroz 

Pâoina  do  «Álbum  das  Glorias»,  de  Rafael  Bordalo,  (1880) 

onde  vem  acompanhada  por  um  artigo  de  joão  rialto 

(Guilherme  de  Azevedo) 


« 


Eça  de  Queiroz  e  Rafael  Bordalo 


(CARTA) 


Meu  prezaex)  colega 

Eu  bem  o  preveni.  Sobre  uma  individualidade  proemi- 
nente como  a  de  Eça  de  Queiroz,  não  é  decente  alinharem- 
se  a  esmo  meia  dúzia  de  estafados  epítetos.  E  eu,  embora 
sentindo  desproporcionada  á  grandeza  do  preito  a  tibieza 
do  meu  engenho,  ambicionaria  produzir  ao  menos  um  afo- 
rismo inédito,  se  as  minhas  ocupações  me  permitissem  o 
deleite  de  percorrer  de  novo  a  obra  do  grande  escritor. 

Ao  acaso  das  minhas  reminiscências  ocorre-me  uma 
observação  que  talvez  já  corra  mundo.  É  que  as  criações 
de  Eça  vivem  principalmente  pelo  seu  aspecto  caricatural. 
Afigura-se-me  que  o  monóculo  do  romancista  era  o  mesmo 
que  se  adaptou  na  arcada  orbicular  de  Rafael  Bordalo.  E 
é  extranho  que  estes  dois  Demócritos  houvessem  passado 
a  vida  quase  ombro  a  ombro  sem  jamais  buscarem  a  con- 
junção dos  seus  risos. 

Talvez  isto  se  explique  pela  divergência  dos  intuitos, 


80 


por  maior  que  seja  a  analogia  dos  resultados.  No  Rafael, 
era  absolutamente  propositada  a  deformação  das  fisiono- 
mias, afim  de  avultar  a  feição  característica  das  persona- 
gens. Suponho  que,  em  grande  número  de  casos,  a  pena 
do  Eça,  querendo  traçar  os  contornos  reais  das  figuras, 
deslizava  inconscientemente,  exagerando  as  proporções  até 
perder  de  vista  a  natureza.  Quer  dizer,  para  o  primeiro  a 
caricatura  era  sempre  voluntária  e  pessoal ;  para  o  segun- 
do, sendo  frequentemente  imposta  pelas  incontinências  de 
Visão  artística,  resultava  típica.  Rafael  Bordalo  é  um  des- 
cendente longínquo  de  Aristófanes,  Eça  de  Queiroz  pro- 
cede de  Menandro,  pertence  á  excelsa  genealogia  espiri- 
tual que  deu  ao  mundo  Molière. 

Curiosa  anomalia,  onde  bem  se  mostra  a  força  impulsiva 
que  dominava  o  grande  espírito  de  Eça  de  Queiroz !  Quan- 
do, como  nas  Farpas,  êle  aspira  a  «uma  transbordante 
alegria»,  a  <um  riso  que  pelejai,  a  indignação  arrasta-o 
por  vezes  a  fúrias  juvenalescas.  Transforma  em  látego  a 
marote  e  os  cascavéis  em  puas.  Quando,  pelo  contrário, 
propende  para  analista  impassível,  cria  num  relance  a  ca- 
ricatura formidável  de  Pacheco,  e  faz-nos  rebentar  de  riso 
perante  a  severa  compostura  do  conselheiro  Acácio.  Nem 
a  si  próprio  se  poupa,  reproduzindo  do  espelho  curvo  a 
imagem  esgalgada  do  Ega. 

Assim,  este  rude  espancador  do  romantismo  não  se  pode 
dizer,  em  boa  lógica,  um  naturalista.  Aos  processos  ro- 
mânticos que  estilizavam  a  natureza,  êle  opõe  processos 
de  estilização  grotesca.  Bastas  vezes,  longe  de  diáfano,  o 
manto  com  que  a  sua  fantasia  entraja  a  Verdade,  á  força 
de  espesso,  turge-lhe  os  boleados  em  gibas.  Na  ânsia  de 
fugir  ao  heróico,  resvala  a  miúdo  para  o  heroi-cómíco. 

Eis  o  que  justifica  a  minha  tentativa  de  crítica  com- 
parada dos  dois  maiores  humoristas  portugueses  do  sé- 


81 


culo  XIX.  Se  ela  sugerir  estudos  de  maior  monta,  não  será 
de  todo  perdido  o  meu  insignificante  tributo  á  consagra- 
ção nacional,  de  que  o  meu  amigo  assumiu  a  meritória 
inicia liva.  E  só  em  tal  caso  não  se  arrependerá  de  o 
haver  solicitado  áquêle  que  com  toda  a  consideração  se 
subscreve 

De  V.  Ex.a 
adm.or  e  grato  amigo, 
26-1-918. 

Henrique  Lopes  de  Mendonça. 


EÇA  DE  ()UtIROZ 


Carta 


Amigo: 

Porque  a  Obra  de  Eça  de  Queiroz  me  despertou  e  des- 
perta, sem  prejuízo  dos  reparos  críticos  a  fazer-lhe  e  das 
falhas  a  notar-lhe,  o  mais  elevado  interesse  e  a  mais  alta 
admiração,  o  meu  dever,  perante  tão  bela  Obra,  é  manter- 
me  num  respeitoso  silêncio  e  numa  recolhida  atitude  — 
desde  que  não  possa  justificar  a  quebra  de  tal  reserva  com 
a  produção  de  algum  comentário  sério,  donde  resultassem 
vantagens  efectivas  para  a  sua  exegese,  para  o  descoberta 
conhecimento  da  forma  de  espírito  e  das  faculdades  do  Ar- 
tista, para  a  verificação  e  documentação  da  influência  lite- 
rária e  social  dos  livros  e  do  Escritor. 

E  não  poderia  justificá-la  assim,  visto  que  um  estudo 
dessa  natureza  —  admitida  a  grata  hipótese  de  ser  eu  ca- 
paz de  o  conceber  e  executar  —  me  viria  exigir  longo  e  se- 
quente curso  de  tempo. 

Exigi-lo-hia,  sem  dúvida:  não  só  por  se  me  tornarneces- 
sário  reler  com  miúdo  cuidado  as  obras  do  autor  e  reco- 
lher —  através  outros  escritores  e  através  mesmo  domínios 
d'Arte  extra-literária  —  diversos  elementos  e  dados  de  re- 


83 


ferência,  de  exemplificação,  de  comparação,  oposição  e 
confronto;  mas  também  pela  circunstância  de  (uma  vez 
reunido  e  possuído  tudo  quanto  constituisse  esta  prepara- 
ção indispensável,  e  ordenados  os  especiais  recursos  té- 
cnicos de  Crítica  a  pôr  em  jogo)  ter  de  aguardar  que  o 
meu  espírito  se  encontrasse  e  identificasse,  em  certos  pon- 
tos e  momentos,  com  o  do  próprio  Escritor,  que  o  sur- 
preendesse ressurgindo  vivo  e,  a  bem  dizer,  entrasse  na 
sua  dinâmica  criadora  —  para  então,  e  só  então  lhe  com- 
preender a  fundo  e  lhe  poder  explicar,  afinal,  o  modo  de 
ser  e  a  maneira  de  criar. 

Ora,  não  conseguiria  eu,  dentro  do  prazo  relativamente 
curto  concedido  aos  colaboradores  do  In-memoriam,  obter 
aquela  preparação  suficiente;  e  seria  duvidoso  e  de  mero 
acaso  que  se  desse  semelhante  sucesso  de  conjunção  e  en- 
contro reveladores.  Não  lograria,  portanto,  á  falta  de  va- 
gar e  de  espera  propícia,  planear,  dispor  e  urdir  estudo 
crítico  digno  —  na  sua  intenção  honesta,  quando  não  mais 
—  da  Obra  literária  de  Eça  de  Queiroz.  Acresce  que  só  a 
ideia  e  preocupação  dum  prazo  a  ter  em  vista,  dum  termo 
de  tempo  a  atender,  exercem  sobre  mim  a  mais  perturba- 
dora acção  —  verdadeiramente  inibitória,  muitas  vezes: 
que  me  domina  e  tortura,  cada  dia  com  maior  força,  a  ter- 
rivel  fobia  das  datas. 

Pondere  ainda,  meu  Amigo,  que  ando  actualmente  inte- 
ressado e  envolvido  numa  série  de  estudos,  cuja  realização 
me  absorve  de  todo.  E  reconhecerá,  dado  isto,  quanto  seria 
dificil  que,  de  salto,  o  meu  espírito  passasse  a  uma  outra 
ordem  de  trabalhos  com  disposição  equivalente,  correspon- 
dente destreza  e  maleabilidade,  igual  facilidade  de  pene- 
tração e  perscrutação;  quanto  seria  dificil  dar  esse  passo 
sem  prejudicar  mesmo  a  nova  tarefa  tomada. 

Também  aqui  deixo  ao  meu  bom  Amigo  o  decidir  se  não 


84 


procederei  como  me  cabia  proceder  declinando  o  seu  gen- 
tilfssimo  convite. 

Por  mim,  entendo  que  —  havendo-me  recusado,  com  idên- 
ticos fundamentos,  a  colaborar  no  In-memoriam  de  Camilo 
—  me  cumpria  excusar-me  também  agora,  devido  a  um  es- 
crúpulo tanto  maior,  se  é  possível,  quanto  admiro  ainda 
mais  o  Autor  da  Ilustre  Casa  de  Ramires  do  que  o  Autor 
do  Amor  de  Perdição. 

Não  devo,  no  entanto,  fugir  a  confessar-lhe  —  a  propósito 
desta  declaração  de  preferência  —  que,  se  escrevesse  algum 
estudo  largo  ácêrca  de  Eça  de  Queiroz  (para  o  In-memo- 
riam ou  com  diverso  destino)  tomaria  o  encargo  melin- 
drozo  de,  além  de  outros  paralelos  a  estabelecer  dentro  e 
fora  das  fronteiras,  aproximar  e  opor  os  nossos  dois  Ro- 
mancistas. 

Porque  esse  encargo  impunha-se-me  iniludivelmente,  não 
obstante  o  que  implicasse  de  espinhoso  e  de  delicado. 

Impunha-se-me,  não  apenas  pelas  luzes  a  obter  do  em- 
prego de  tal  processo  para  melhor  compreensão  e  aprecia- 
ção do  Escritor  comentado;  não  ainda  apenas  por  um  mo- 
tivo de  ordem  ética  (importante  para  quem,  como  eu,  não 
prescindisse  de  fazer  valer  as  últimas  e  decisivas  conclu- 
sões a  apurar  do  exame  das  duas  Obras  e  da  comparação 
entre  as  personalidades  e  biografias  dos  Autores  debaixo 
do  ponto  de  vista  dos  valores  sociais) ;  mas  por  uma  razão 
de  pura  consciência  estética,  muito  de  atender  num  meio 
de  gente  impressionavel,  qual  é  o  nosso:  pela  obrigação 
intelectual  de  —  tratando  de  Eça  de  Queiroz  —  varrer  ou 
tentar  varrer  certas  afirmações,  ai  correntes,  que  terão  in- 
duzido e  arrastado  criaturas  de  menor  senso  crítico,  infe- 
rior gosto  e  falivel  instinto  da  Beleza,  a  concluírem  no 
sentido  de  reservar  lugar  secundário  ao  admirável  artista 
do  5.  Cristóvão. 


85 


Zêlo  já  talvez  desnecessário  hoje,  quanto  a  este  último 
aspecto!  Pura  devoção,  por  ventura!. . .  Pois  a  contínua  e 
aumentada  estima  dos  seus  livros  e  o  crescente  número  dos 
seus  leitores  entusiastas  com  vantagem  respondem,  só  por 
si,  àqueles  parciais  distribuidores  de  lugares  de  eleição  no 
anfiteatro  das  glórias  pátrias  —  onde,  aliás,  Camilo  mar- 
cará sempre  como  grande,  mercê  duma  vasta  Obra,  restricta 
de  quadro  significativo  mas  notavelmente  vigorosa  no  de- 
senho das  figuras  e  na  descrição  dos  episódios  da  vida  rús- 
tica; e  reveladora,  em  grau  sumo,  de  intensa  energia  patética 
e  de  vulnerante  espírito  sarcástico. 

E  não  se  diga  que  invoco  como  prova  e  sinal  de  mérito 
das  obras  literárias  o  simples  sucesso  da  leitura  em  número, 
o  êxito  material  da  livraria,  o  rendoso  sufrágio  admirativo 
da  multidão!  Falharia  aqui  o  argumento,  sabendo-se  que 
entre  os  mais  francos  admiradores  de  Eça  de  Queiroz  fi- 
gura bôa  parte  da  elite  portuguesa  conhecida;  não  falando 
de  muitas  almas  que  nela  merecerão  contar,  que  nela  con- 
tam, em  suma,  posto  guardem  discreto  silêncio  e  se  man- 
tenham num  modesto. . .  ou  altivo  retraimento. . . 

Embora  dispensável,  não  julgo  todavia  que  pudesse  fur- 
tar-me  ao  cumprimento  desse  dever  se,  de  facto,  tivesse 
ocasião  e  ensejo  para  escrever  o  meu  estudo. 

Semelhante  dever  envolvia  porém,  infere-se,  aquela  obri- 
gação que,  sobrelevando  a  muitas,  acima  de  todas  se  me 
havia  de  apresentar  como  sendo  de  mais  necessária  justiça 
e  de  mais  oportuna  conveniência  cumprir  (quer  eu  conti- 
nuasse pelo  caminho  do  paralelo  traçado,  quer  dele  me 
afastasse,  diplomaticamente):  a  obrigação  de,  na  verdade, 
apontar  e  acentuar  o  significado  moral  da  vida  e  da  Obra 
de  Eça  de  Queiroz. 

Seria  nesse  ponto  que  eu  mais  porfiaria  e  haveria  de  in- 
sistir, por  me  parecer  justo  fazê-lo,  sem  dúvida;  e  também 


86 


porque  —  pertencendo  ao  numero  das  pessoas  para  as  quais 
os  sibaríticos  cultores  e  estetas  da  pura  Arte  pela  Arte  só 
encarnam  e  constituem  curiosas  excepções,  casos  precio- 
sos de  original  psicologia,  esporádicas  singularidades  indi- 
viduais —  entro,  consequentemente,  na  categoria  geral  dos 
leitores  e  críticos  a  quem  as  invenções  literárias  interessam 
como  verdadeiras  manifestações  e  conjuntos  da  vida  viva 
—  real  ou  ideal  — ,  como  criações  donde  se  espera  ou  deve 
de  preferência  esperar-se  sàdía  influência  exaltante,  im- 
pressiva eficácia  de  natural  elevação.  Porque  entro  na  ca- 
tegoria dos  que,  de  acordo  com  esta  noção  normal  e  activa, 
com  este  vital  sentimento  da  Arte  hão  de  sempre  —  não  es- 
quecendo nem  menosprezando  as  outras  condições  de  toda 
a  lídima  obra  artística  —  ligar  a  um  tal  significado  moral  a 
maior  importância  e  tirar  dele  critério  de  apreciação  e  juizo 
quanto  aos  autores,  homens  entre  os  homens,  e  quanto 
ás  obras :  produtos  sociais  a  considerar,  evidente  é,  no 
seu  valor  social,  debaixo  de  variados  aspectos  e,  de  modo 
particular,  sob  o  da  natureza  da  sua  eficiência  —  nociva 
ou  benéfica. 

Seria  nesse  ponto  que  eu  mais  havia  de  insistir:  olhando 
á  Obra  e  á  influência  da  personalidade  do  Escritor, 

E  sustentaria  sem  grande  dificuldade,  contra  o  equívoco 
de  muita  gente,  que  a  Obra  de  Eça  de  Queiroz  deverá  exer- 
cer, afinal,  uma  acção  social  de  efeito  benéfico,  embora  na 
maior  parte  das  suas  páginas  mais  como  agente  de  sanea- 
mento do  que  como  estímulo  de  edificação. 

Sustentaria  que  ela  deverá  exercer  uma  acção  desta  na- 
tureza em  virtude  de  três  condições: 

—  da  salutar  aspiração  ao  melhor,  intrínseca,  visceral  no 
Autor,  e  frequentes  vezes  manifestada  ou  traída,  quando 
mais  não  seja  de  maneira  indirecta,  pelo  tom  de  certas  passa- 
gens, pelo  traço,  denunciativo,  de  certos  caracteres  e  perfis ; 


87 


—  da  sua  própria  estética,  na  acepção  ampla  do  termo  ; 

—  da  definitiva  moralidade  que  se  nos  insinua  e  somos 
levados  a  apurar  através  a  marcha  e  perante  a  solução  de- 
cisiva de  quasi  todos  os  seus  romances. 

Não  me  seria  preciso  sair  íóra  da  Obra  do  Escritor  para 
demonstrar  que  nele  se  verificavam  as  condições  apontadas 
em  primeiro  e  terceiro  lugar. 

Provaria  que  a  minha  tese  era  verdadeira  em  relação  á 
segunda  condição  — procedendo  ao  confronto  do  nosso  Ro- 
mancista com  alguns  escritores  representativos  da  estética 
amoral;  não  duvidando  eu,  nesse  intuito,  transpor  as  fron- 
teiras nacionais,  a  bem  duma  eloquente  exemplificação. 
Confrontá-lo-hia,  bastava,  com  um  T.  Gautier,  com  um 
Oscar  Wilde  e,  se  quizesse  descer  do  elevado  plano  destes 
ao  dos  medíocres  irritantes,  com  qualquer  artificioso  e  por- 
nográfico P.  Louys.  E  havia  de  tornar  evidente,  mediante 
este  confronto,  a  diferença  profunda  que  de  facto  existe 
entre  a  este'tica  do  autor  dos  Maias  e  a  desses  outros  escri- 
tores. 

Mostraria  a  claro  como  para  êle  e  para  os  de  igual  feitio 
mental,  ético  e  emotivo,  a  Arte,  por  essência  —  ou  resuma 
uma  transfiguradôra  e  comovida  visão  do  mundo  exterior, 
ou  efectue  uma  síntese  viva  de  fundamentais  elementos  in- 
teriores :  de  razão,  sentimento  e  energia  volitiva,  sob  a 
espécie  de  cores  e  formas,  sons  e  ritmos,  imagens  e  símbo- 
los verbais  (e  seja  qual  fôr,  na  obra,  o  aspecto  ou  elemento 
predominante,  á  volta  de  que  tudo  se  mova)  — funde  sem- 
pre, integra,  moraliza  no  último  e  significativo  sentido,  jus- 
tifica na  definitiva  intenção  de  cada  criação  sua  todas  as  li- 
cenças de  expressão  e  forma,  todos  os  detalhes  impuros, 
todas  as  linhas  e  notas  ambíguas,  todas  as  passagens  e  epi- 
sódios escabrosos;  conforme  sucede  com  certas  anomalias, 
aleijões,   abortos  da  realidade  dentro  da  sagrada,  nobilita- 


dôra  e  imaculavel  magestade  da  Natureza.  Mostraria  como 
para  os  da  sua  família  de  espírito  a  maior  parte  dos  traços 
equívocos,  das  manchas  suspeitas,  das  locuções  e  termos 
livres  ou  crus  não  são  mais  do  que  incidentes  e  acessórios, 
do  que  notas  de  reforço,  do  que  simples  meios,  posto  sejam 
de  discutível  admissibilidade. 

E  mostrando-o,  d'aí  faria  vêr  como  êle  e  os  de  idêntica 
feição  se  distinguem,  efectivamente,  e  se  extremam  daque- 
les para  quem  a  obra  d' Arte,  àlêm  do  mais,  resume  e  ultima 
sobretudo  uma  propositada  ou  instintiva  exploração  e  em- 
prego das  melhores  energias  d'alma  e  dos  melhores  recur- 
sos de  técnica  especial  na  complacente  revelação  e  na  des- 
crição extasiada  da  excepção  e  da  anormalidade,  interior  e 
exterior,  monstruosa  ou  requintada;  na  exibição  voluntária 
ou  no  registo  voluptuoso  de  todas  as  curiosidades  perver- 
sas e  pecaminosas;  —  como  se  distinguem  e  extremam  da- 
queles para  quem  tudo  quanto  refranja  em  singularidade 
oblíqua,  deforme  em  atormentada  projecção  e  retinja  de 
alucinantes  tonalidades  a  direita,  regular  e  clara  imagem  do 
natural,  constitúe  e  representa  o  motivo-centro  e  o  fio  mes- 
tre, o  intuito  ou  sentido  substancial,  o  verdadeiro  e  deter- 
minante fim  do  total  realizado. . .  Feita  a  distinção  —  teria 
eu  comprovado  ainda,  pelos  livros,  que  o  nosso  Romancista 
figura  como  glorioso  exemplar  na  primeira  daquelas  duas 
famílias  de  artistas,  que  a  sua  Obra  encerra  uma  lição  van- 
tajosa —  ou  esta  nos  amargue,  através  quasi  toda  essa  Obra, 
ou  nos  seja  consoladora  e  tonificante  quando  o  acompa- 
nhemos na  derradeira  fase  e  nos  manifeste  tão  directo  e 
enternecido  interesse  pelas  coisas  pátrias,  tão  carinhosa 
veneração  pelas  sãs  e  tradicionais  virtudes  da  vida  sim- 
ples. 

Entraria,  por  último,  no  capítulo  especialmente  agradá- 
vel para  mim :  naquele  em  que,  resumindo  todo  o  estuda 


89 


feito,  todo  o  comentário  já  desenvolvido,  me  cabia  —  na 
altura  do  balanço  crítico  final,  quando  firmasse  as  minhas 
ideias  e  impressões  sobre  a  matéria  e  fundo  dos  seus  ro- 
mances, sobre  a  índole  e  características  das  suas  figuras  e 
tipos  —  falar  ou  tornar  a  falar,  de  modo  mais  seguro,  da 
própria  existência  e  individualidade  do  Escritor.  Não  per- 
dendo nunca  o  fio,  está  claro,  ao  meu  primeiro  e  particular 
intento;  não  esquecendo  nunca  a  principal  e  confessada 
obrigação  de  lhe  acentuar  o  significado  moral  da  vida  e  da 
Obra. 

Constaria  este  capitulo,  essencialmente,  do  desdobra- 
mento a  dar  a  uma  nota  que  não  é  de  todo  nova,  mas  que 
devia  completar-se ;  —  a  da  superioridade  de  Eça  de  Quei- 
roz sob  três  importantes  aspectos  a  considerar-lhe : 

—  sob  o  aspecto  do  seu  culto  da  Arte; 

—  sob  o  aspecto  da  sua  atitude  perante  o  meio  social ; 

—  sob  o  aspecto  da  sua  conducta  de  Autor  em  frente  da 
própria  Obra. 

Tentaria  eu  pois  fazer  lembrar  agora  e  tornar  saliente 
como  êle  foi  na  verdade  superior,  entre  todos,  em  relação 
a  qualquer  desses  três  pontos  de  vista  indicados. 


Sublinharia  como  êle  realizou  o  mais  nobre  e  elevado 
ideal  do  Artista :  aliando  ao  escrúpulo  severo  da  profis- 
são o  alto  sentimento  da  missão  —  da  sua  missão  de  cria- 
dor e  apóstolo  da  Beleza;  conciliando  a  insatisfeita  aspira- 
ção da  perfeição  e  o  interesse  honesto  da  verdade,  o  amor 
da  Arte  e  a  noção  da  realidade;  como,  neste  primeiro  do- 
mínio, nos  deu  já  e  nos  legou  o  ensinamento,  a  tomar,  do 
sagrado  respeito  por  todo  o  trabalho  empreendido  —  ensi- 
namento que  envolve  a  reprovação  sensata  da  indolente 


90 


confiança  nos  impulsos  e  inspirações  da  improvisação ; 
como  provou  possuir  aqui  a  consciência  clara  de  que,  na 
concepção  e  execução  da  obra  literária  — afora  os  milagro- 
sos e  imprevistos  achados  do  subconsciente  —  tudo  é  e  tem 
de  ser  labor  intenso  e  atento:  no  vigilante  exercício  do  es- 
pírito, na  constante  e  paciente  adestração  da  técnica  e  da 
forma;  exactamente  para  podermos  colher  e  fixar,  duradoi- 
ros de  vigor  e  de  viço  —  mediante  certos  vocábulos  ou  lo- 
cuções, e  não  mediante  outros  diversos,  experimentados  e 
rejeitados  — a  pulsante  impressão  da  Vida,  a  imagem  trans- 
lúcida do  Sonho,  o  traço  nítido  da  Ideia. 

Porque  manifesta,  com  efeito,  haver  possuído  mais  do 
<iue  ninguém  essa  clara  consciência  de  quanto  devemos 
porfiar  num  tão  paciente  esforço  e  exercício  —  precisa- 
mente para  conseguirmos  prender  viva,  em  correspondente, 
vibratil,  sempre  animada  e  sensível  rede  verbal,  a  móbil 
teia  feita  e  desfeita,  a  urdidura  subtil  e  fugaz  de  muitas 
representações,  e  associações  mentais,  de  muitos  estados  e 
cambiantes  emotivos,  de  muitos  movimentos  e  pausas  de 
energia  volitiva,  quer  se  trate  de  nós  mesmos,  quer  da 
revelação  de  almas  estranhas,  reais  ou  de  ficção...  verda- 
deira. 


Vincaria  logo  depois  como,  na  vida  e  na  Arte,  êle  pro- 
vou ser,  socialmente,  antes  uma  unidade  de  valor  afirmativo 
do  que  um  elemento  e  estímulo  dissolvente.  Faria  eu  ver, 
efectivamente,  que,  nele,  o  Homem  mostrou  possuir  a  com- 
preensão de  todas  as  exigências  e  reunir  todas  as  qualida- 
des donde  depende  a  adaptação  normal  de  cada  indivíduo 
ao  teor  e  condições  da  existência  comum,  á  realização  dos 
destinos  colectivos;  sem  embargo  da  crítica  e  do  comentá- 
rio duro  aos  erros  e  aos  ridículos  do  meio  —  melhor  obser- 


91 


vados  e  apreciados  por  ter  podido  o  nosso  romancista 
observá-los,  durante  anos  seguidos,  de  fora  e  a  distância, 
com  favorável  espaço  de  perspectiva  e  em  face  de  outros 
(juadros  sociais  de  comparação  e  referência.  Faria  ver  que 
êle  nunca  foi  um  sedicioso  e  um  revoltado  anárquico  —  es- 
perando, absurdamente,  do  ataque  e  destruição  radical  de 
todos  os  órgãos  e  tecidos  de  cada  instituição  ou  classe  a 
melhor  condição  e  processo  para  a  reconstituição  e  forta- 
lecimento duma  sociedade  inteira.  Faria  ver  que  jamais,  do 
espectáculo  das  inferioridades,  loucuras,  misérias  e  vile- 
zas dos  homens  do  seu  tempo  e  do  seu  país  tirou  motivo 
ou  pretexto  para  a  si  próprio  se  emancipar  e  se  libertar, 
indisciplinado,  da  noção  e  da  prática  do  dever,  mesmo 
<]uando  se  tratasse  de  fastidiosas  e  desinteressantes  fun- 
ções, em  cujo  exercício  tivesse  de  considerar-se  subordi- 
nada peça  duma  vasta  engrenagem;  tudo,  porque  soube 
como  a  realização  de  obrigatórios  trabalhos  e  tarefas  pode 
também  conciliar-se  com  o  nosso  mais  aprumado  brio  e  a 
nossa  mais  rasgada  independência  de  espirito  e  de  cara- 
cter, como  essa  conciliação  depende  duma  coisa  bem  sim- 
ples :  do  impecável  e  escrupuloso  desempenho  da  obrigação 
contraída.  Muito  propositadamente  me  havia  de  deter  um 
momento  nesta  altura  para  perguntar  (deixando  talvez  en- 
trever algumas  figuras  na  névoa  de  leves  alusões)  se  te- 
riam dado  e  darão  sempre  prova  de  tão  nobre  aprumo  e  de 
isenção  tão  independente  aqueles  que,  orgulhados  da  sua 
liberdade  e  fora  de  todo  o  jugo  oficial,  fizeram  e  fazem 
da  penna  —  comparável  á  espada  assalariada  dos  velhos 
òravi  —  arma  mercenária  a  serviço  de  quem  mais  prometa; 
quando  não  suceda  ser  ela,  em  tais  mãos,  afiada  navalha 
de  ponta  e  mola.. . 

E  não  proseguiria  sem  deixar  fortemente  acentuado,  em 
relação  ao  Homem  e  ao  Artista,  quanto  um  e  outro  —  mer- 


92 


cê  da  distinção  natural,  da  educação  perfeita,  da  límpida' 
visão  das  realidades,  do  ingénito  e  apurado  bom  senso  — 
fugiram,  com  efeito,  aos  excessos  ridículos  e  funestos  da 
espirito  anti-gregário,  escaparam  á  furiosa  mania  da  vin- 
gadora justiça  destrutiva,  e  ainda  á  celebreira  da  superior 
incompatibilidade  com  os  outros,  á  espécie  de  delírio  per- 
secutório das  nobres  almas  incompreendidas . . . 

Não  proseguiria  sem  deixar  fortemente  acentuado  quan- 
to um  e  outro  evitaram  —  devido  a  essas  raras  qualidades 
—  as  exageradas,  comico-trágicas  atitudes  de  protesto  con- 
tra a  Fatalidade,  os  grandes  gestos  e  brados  contra  a  Des- 
graça, as  desgrenhadas  invectivas  contra  as  condições  do- 
Universo  e  do  Mundo  humano,  adversas  ao  Génio;  quanto 
um  e  outro  evitaram  as  restantes  manifestações  e  desman- 
dos de  tanto  megalómano  do  Infortúnio,  de  tanto  esfor- 
çado cavaleiro  do  Negro-Fado,  de  tanto  tenebroso  pre- 
destinado da  Má-sina  —  vítimas  apenas,  todos  ou  o  maior 
número,  das  próprias  faltas,  defeitos  e  incapacidades:  da 
imprevidência,  da  irregularidade,  da  absoluta  ausência  de 
senso  comum,  de  insuficiente  noção  das  possibilidades  e 
das  proporções. 

Não  proseguiria  sem  deixar  fortemente  acentuado  quan- 
to um  e  outro  contribuíram,  pelo  seu  lado,  para  o  melhor 
das  duas  últimas  gerações  poder  já  considerar  menos  acei- 
táveis —  e  de  todo  inconvenientes  na  área  da  realidade  — 
certos  caprichos  e  liberdades  do  romantismo  estúrdio,  cer- 
tas demonstrações  extravagantes  do  Talento  opresso  e  des- 
venturôso,  certas  violências  líricas  do  Amor...  ideal  — 
(sobrevivências  de  1850...  mais  duradoiras  do  que  se  julga, 
pois  ainda  influem  na  preferência  e  concorrem  para  a  ro- 
manesca simpatia  votada  por  muita  gente  a  alguns  auto- 
res); quanto  um  e  outro  contribuíram  para  os  espíritos 
novos  aceitarem  e  alimentarem  a  sensata  ideia  da  humana 


93 


•coexistência  da  Arte  e  da  Vida,  a  justa  compreensão  do 
sís^nificado  e  do  destino  activo  da  obra  literária,  e  portanto 
das  qualidades  e  virtudes  sociais  a  exigir  no  escritor  ; 
quanto  um  e  outro,  em  suma,  contribuíram  para  moderar 
€  calmar  esse  prurido  separatista,  esse  ingénuo  horror  á 
confusão  com  o  vulgo,  levando-nos  a  concluir  —  em  face 
da  sua  própria,  inconfundivel  individualidade  de  Artista  e 
de  Homem  —  que  só  deverá  ter  medo  de  parecer  burguês, 
por  fora,  quem  realmente  o  seja. . .  por  dentro. . . 

Procuraria,  porém,  dar  a  medida  da  superioridade  de  Eça 
de  Queiroz  —  debaixo  deste  segundo  aspecto  considerado 
—  principalmente  em  vista  da  sua  Obra  litterária,  em  vista 
da  maneira  como  o  escritor  se  revelou  e  comportou  quanto 
aos  mais  graves  assuntos  e  problemas,  aos  temas  e  motivos 
mais  melindrosos  da  actualidade  portuguesa:  com  relação 
ás  realidades,  formas  e  manifestações  do  Existente  social  e 
político  e  da  Vida  religiosa;  com  relação  ao  modo  de  ser,  si- 
tuação e  hábitos  da  Familia;  com  relação  ainda  a  Figuras 
vivas,  a  contemporâneas  personalidades  do  meio  nacional. 
Individualmente  visadas  e  criticadas. 

Forçoso  me  seria  confessar,  de  entrada,  com  referência 
ao  primeiro  ponto:  que  essa  Obra  revestiu  sem  dúvida,  e 
em  grande  parte,  caracter  negativo ;  que  bateu  e  abalou 
pelo  ridículo  e  pela  crítica  irreverente  alguns  dos  elemen- 
tos preponderantes,  das  molas  visíveis  do  Constituído  (re- 
velando-se  aqui  a  inteira  independência  e  desassombro  do 
Autor). 

Prestes  faria,  no  entanto,  notar  que  uma  Obra  de  obser- 
vação e  comentário  do  vivo  —  como  é,  em  larga  proporção, 
a  de  Eça  de  Queiroz  —  tinha  de  ser  obra  de  nua  e  descar- 
nada verdade.  E  o  Constituído,  pelo  menos  nos  principais 
centros — demonstraria  eu  — apenas  lhe  ostentava  um  mun- 
do político  e  social  decadente,  com  quasi  todas  as  causas. 


94 


da  decadência  descortináveis  á  vista,  e  com  todas  as  cara- 
cterísticas e  sinais  dela  reconheciveis  e  avultantes  nas  coi- 
sas e  nos  homens  públicos. 

Só  lhe  oferecia  o  espectáculo  d' uma  sociedade  desviada 
das  velhas  tradições  e  costumes,  artificialmente  recons- 
truída, ao  de  cima,  segundo  desenhos  e  moldes  importados, 
estranhos  e  abstratos  planos  de  improvisadas  edificações 
e,  assim,  sobreposta  ao  preexistente;  em  vez  de  assentar 
e  de  se  reerguer  dos  fundos  alicerces  antigos,  sobre  as  ver- 
dadeiras bases  do  seu  desenvolvimento  histórico. 

Só  lhe  oferecia  o  espectáculo  duma  sociedade  que  —  ne- 
cessitando, como  sempre,  do  estrangeiro,  pelos  limites  do 
torrão,  míngua  de  recursos,  e  de  acordo  com  a  dupla  feição 
da  sua  antiga  índole  e  da  sua  história  (reveladoras  e  ates- 
tantes  de  opostas  e  combinadas  tendências  gerais  e  regio- 
nais, da  equilibradôra  coexistência  do  mais  cioso  retraimen- 
to e  da  receptividade  a  mais  pronta,  da  vantajosa  presença 
do  nacionalismo  mais  resistente  e  da  mais  elástica  adapta- 
bilidade, da  acção  e  reacção,  provadamente  fecundas,  de 
elementos  próprios  e  alheios)  perdera,  contudo,  ou  pare- 
cia ter  perdido  toda  a  força  activa  e  reactiva  dos  primei- 
ros desses  elementos. . . 

Só  lhe  oferecia  o  espectáculo  duma  sociedade  falha  de 
ideais  norteadores  —  fora  certas  ideologias  que,  por  trape- 
jarem  no  ar,  não  opunham  resistência  aos  movimentos  dos 
astuciosos  sobre  o  terreno  da  feira  politica  e  lhes  cobriam 
as  manobras  com  a  aparência  de  bandeiras  de  princípios — ; 
o  espectáculo  duma  sociedade  do  mesmo  modo  falha  de 
concretas  noções  vitais;  duma  sociedade  desenraizada,  em- 
fim,  e  onde  portanto  podia  dominar  —  devido  á  desmora- 
lização e  corrupção  das  classes  desenquadradasefluctuan- 
tes  — uma  politica  híbrida,  de  vago  e  artificial  compro- 
misso entre  fórmulas  contraditórias  e  inajustaveis :  poli- 


95 


tica  sucessivamente  complicada,  e  dia  a  dia  mais  pertur- 
badôramente  explorada  pelos  filhos,  carnais  e  espirituais, 
dos  implantadôres  do  sistema  e  responsável,  em  muito,  da 
sorte  reservada  aos  netos  e  aos  bisnetos.  E,  feita  a  demons- 
tração, ser-me-hia  lícito  ponderar  á  face  de  tal  quadro  e 
de  tal  espectáculo  —  projectados  ou  reflectidos  nos  seus  li- 
vros—que ao  Escritor  somente  restava:  fugir  magoado, 
ou  então  fustigar  em  roda  como  fustigou,  a  sério  e  a  rir , 
embora  algumas  vezes  risse  com  entranhada  amargura. 

Lícito  me  seria  ponderar  que  não  era  o  Escritor  o  verda- 
deiro agente  de  demolição;  e  sim  aqueles  que,  adentro  das 
fachadas  da  ordem,  só  fomentavam  desordem:  uns  pela  in- 
competência, outros  pelas  audácias,  definitivamente  alui- 
dôras,  destrutivas...  do  Construído  ou  armado... 

Lícito  e  oportuno  me  seria  ponderar,  com  insistente  pro- 
pósito, que  o  Ironista  poderoso  —  implacável  em  frente 
desse  mundo  artificial  e  falso  da  sociedade  e  da  politica 
suas  contemporâneas,  em  frente  dos  figurantes  e  títereg 
desse  tablado  —  nunca  deixara  de  sentir  e  de  alimentar  en- 
ternecido amor  e  interesse  carinhoso  por  tudo  quanto,  nos 
recuados  planos  e  nos  distantes  scenários  da  vida  nacional 
ainda  persistisse  puro  de  mentira  e  de  reboco  postiço, 
por  tudo  quanto  se  mantivesse  genuinamente  português  ou 
fosse,  talvez,  susceptivel  de  remoçar  como  tal...  E  todos 
conviriam  em  que,  lida  e  entendida  a  fundo,  a  sua  Obra 
provará  encerrar,  aqui,  largo  sentido  moral  —  no  que  con- 
tenha de  saneadoramente  justiceiro  e  até  no  que  deva  su- 
gerir de  edificante. 

Mais  difíceis  poderiam  parecer  a  defesa  e  a  apologia  da 
sua  Obra  —  sob  o  critério  da  significação  moral  —  no  to- 
cante ás  coisas  da  Vida  religiosa. 

Efectivamente:  encontram-se  na  Relíquia  e  em  passagens 
doutros  romances  certas  notas  que  deverão  duramente  mo- 


96 


lestar  e  maguar  de  chofre  os  ouvidos  e  as  almas  dos  cren- 
tes delicados. 

Não  me  levaria,  contudo,  muito  tempo  o  fazer  ver  que— 
á  parte  essas  palavras  lamentáveis,  quasi  sempre  aliás  da 
responsabilidade  de  personagens  inferiores  ou  menos  simpá- 
ticas —  os  pensamentos  e  as  obras  do  Escritor  se  furtarão 
afinal,  segundo  o  melhor  juizo  cristão,  a  uma  reprovação 
absoluta  e  inapelavel. 

De  facto  —  jamais  toca  ou  deixa  transparecer  a  intenção 
de  tocar  na  essência  e  na  substância  de  tudo  o  que  consti- 
tua íntimo  motivo  de  crença,  firme  verdade  de  Fé,  princí- 
pio e  artigo  de  Lei  fundamental ;  e  quando  —  directamente 
ou  mediante  ditos  e  feitos  de  alguma  das  ?,yxd&  figuras  —  o 
Autor  do  Crime  do  Padre  Amaro  visa  e  fere  pessoas  da  Igre- 
ja, quem  êle  visa  e  fere,  ao  comentar  e  criticar  actos  e  prá- 
ticas, escândalos,  abusos  e  crimes,  são  apenas  os  falsos 
servidores  do  culto,  os  impostores  e  os  hipócritas,  ordena- 
dos ou  leigos,  do  nosso  mundo  religioso,  os  grotescos  e 
indignos  representantes  duma  grande  e  sagrada  Instituição 
—  tristes  exemplares  humanos  e  lógicos  produtos  do  meio 
social  e  político.  Nunca  visa  e  fere,  em  si,  essa  Instituição 
que  eles  aparentam  representar;  e  nunca  joga  com  as  ideias 
e  sentimentos  dos  que  sinceramente  creiam  e  consciencio- 
samente pratiquem. 

Concedendo,  todavia,  que  teria  sido  talvez  preferível 
abster-se  êle  de  tratar  com  tanta  irreverência  e  com  tanta 
crueza  tipos  e  figuras  do  mundo  religioso  — breve  eu  havia 
de  conduzir  quem  me  lesse  a  classificar  de  menos  grave  o 
seu  procedimento  quando  referido  ao  de  outros  escritores, 
de  além  e  de  aquém  fronteiras :  quando  comparado  com  o 
procedimento  daqueles,  cujo  intemperante  espírito  de  dis- 
cussão imprudentemente  invade  os  melindrosos  domínios 
da  Fé ;  com  o  daqueles,  cujo  criticismo  sarcástico  se  não 


' 


97 


exerce  e  satisfaz  apenas  no  comentário  duro  e  zombeteiro 
dos  delictos,  fraquêsas  e  ridículos  dos  maus  sacerdotes,  e 
desvia  de  encontro  aos  mistérios  do  próprio  santuário; 
com  o  daqueles,  em  especial,  a  cujo  mórbido  capricho  e  la- 
mentáveis incoerências  de  razão  e  de  consciência  devere- 
mos, hoje,  ardentes  glorificações  da  Divindade,  e  amanhã 
odiosas  páginas  ímpias,  donde  diríamos  espirrar  lama  para 
cima  das  pedras  d' Ara. . . 

Por  igual  sustentaria  a  moralidade  da  Obra  de  Eça  de 
Queiroz  com  relação  ao  terceiro  ponto  —  ao  modo  como  a 
vida  e  costumes  da  Família  são  descritos  e  tratados  nessa 
Obra.  E  aqueles  que,  de  princípio,  estranhassem  a  minha 
tese,  adoptá-Ia-hiam  apenas  eu  lhes  fizesse  notar  a  origem 
€  a  natureza  dos  exemplares  em  geral  observados  e  repro- 
duzidos pelo  Autor  do  Primo  Basílio 

Porque  reconheceriam  que  tais  exemplares  são  repre- 
sentativos, não  da  enraizada  e  honesta  família  da  nossa 
terra,  da  lídima  e  tradicional  família  portuguesa  —  pequeno 
mundo  de  plena  vida  afectiva  e  mútuos  sacrifícios,  banha- 
do e  perpetuado  na  graça  de  Deus ;  mas  sim  doutras  espé- 
cies e  tipos  de  formação  familiar  —  sobretudo  gerados  e 
nutridos  das  aluviais  e  movediças  camadas  urbanas.  Por- 
que reconheceriam  que  tais  exemplares  representam  com 
efeito :  quer  uma  vulgar  espécie  de  associação,  onde  duas 
meras  sexualidades  —  casualmente  encontradas  e  lasciva- 
mente atraídas  pelas  práticas  livres  do  namoro  fácil  —  se 
acharam  comprometidas  e  forçadas  a  levarem  juntas  a  mais 
deprimente  existência  de  miséria  moral  e  fisica,  de  penúria 
e  abjecção,  com  todas  as  suas  consequências  e  riscos;  quer 
ainda  —  num  pé  diverso  —  algumas  dessas  fortuitas  uniões, 
quasi  tão  precárias  de  segurança,  originadas,  por  via  de 
regra,  em  simples  impressões  exteriores,  considerações  de 
vaidade,  cálculos  de  puro  interesse  material... 


98 


Concordariam  em  que,  para  ser  verdadeiro,  tinha  o  Es- 
criptor  de  reproduzir  e  descrever  como  reproduziu  e  des- 
creveu. 

Não  ficaria  eu  satisfeito,  contudo,  antes  de  lhes  mostrar 
como,  a  par  desses  tristes  e  sombrios  quadros,  outros  nos 
dá,  no  género,  gratamente  compensadores  dos  primeiros 
pelo  seu  luminoso  e  resgatante  contraste;  antes  de  lhes 
lembrar  como,  por  exemplo,  o  autor  de  «/l  cidade  e  es 
serras*  nos  deixa  entrever,  cheio  de  claridade  feliz  e  tran- 
quila, o  lar  virtuoso  e  simples  aonde  irá  acolher-se  e  re- 
mir-se  de  todo  —  amavelmente  desenganado  dos  artifícios 
e  complicações  do  mundo  —  o  invejável  Príncipe  da  Gran- 
Ventura. 

Nem  me  esqueceria  tão  pouco,  ao  dobrar  esta  volta  do- 
meu  estudo,  de  chamar  a  atenção  dos  leitores  para  um 
traço  de  singular  importância,  a  destacar  no  meio  dos  mais 
salientes  do  escritor:  o  do  cinismo  repugnante  de  que  dota 
e  reveste  os  seus  heróis  de  conquista  adulterina  ou  aven- 
tura sacrílega,  provocando-nos  sempre  viva  repulsa  comi 
as  palavras  de  indiferença  egoísta  ou  de  desfaçatez  cruel 
em  que  eles  se  referem  ás  próprias  vítimas,  abandonadas 
e  desprezadas...  E  uma  aproximação  oportuna  me  ajuda- 
ria a  prestar-lhe  justiça  quanto  ao  sentido  definitivamente 
moral  dos  seus  livros,  debaixo  deste  ponto  de  vista:  a  apro- 
ximação entre  o  episódio  em  que  Mr.  de  Camors  —  o  irre- 
sistível herói  do  doce  Feuillet  —  soluça  prostrado  o  seu 
nobre  remorso  por  haver  seduzido  a  mulher  do  melhor  ami- 
go, e  o  caso  do  Primo  Basílio  lamentando  a  frio  não  ter 
trazido  a  Alphonsine,  quando  recebe  a  notícia  da  morte 
de  Luiza. . . ;  pois  ninguém  hesitaria  em  afirmar  que  do 
primeiro  distila  muito  mais  veneno  que  do  segundo... 

Como  outro  belo  traço  a  fixar,  sob  o  ponto  de  vista 
da  sua  atitude  perante  o  sociedade,  enalteceria  eu  o  do 


i! 


99 


respeito  individual  —  traço  que  se  lhe  descobre  e  lhe  so- 
bresai  nas  mais  vivazes  e  combativas  páginas,  e  que  en- 
cerra uma  impressiva  lição.  Poria  em  relevo  —  contra  o 
precipitado  juizo  de  alguns  —  que,  nele,  o  comentador  e  o 
polemista  nunca  ultrapassaram,  com  relação  ás  individuali- 
dades comentadas  ou  atacadas,  os  limites  para  álêm  dos 
quais  a  crítica  degenera  numa  grosseira  discussão  de  qua- 
lidades e  defeitos  de  toda  a  ordem,  e  a  polémica  se  permite 
devassar  coisas  da  própria  vida  intima;  que  — deixando  por 
vezes  ficar  dolorosamente  experimentados  os  adversários 
—  jamais  os  deixava  tocados  e  feridos  em  certas  fibras  onde 
os  golpes  fossem  de  efeito  irremediável;  jamais  os  deixava 
prejudicados  como  homens,  lacerados  e  invalidados  na  sua 
dignidade  pessoal.  E  permitir-me-hia  perguntar,  a  talho  de 
foice,  se  poderiamos  dizer  o  mesmo  de  todos  os  nossos 
polemistas,  incluindo  alguns  dos  mais  admirados? 

Que  uma  superior  noção  e  um  fundamental  sentimento  de 
respeito  pelos  outros  se  revelam  em  todas  as  suas  Obras, 
relativamente  ao  mundo  dos  leitores  —  não  teria  eu  neces- 
sidade de  o  provar. 

Toda  a  gente  convirá  em  que  o  Autor  da  Correspondência 
de  F radique  Mendes  se  mantêm  a  igual  distância  dos  su- 
bmissos lisongeadôres  do  publico  e  dos  impertinentes  que 
se  lhe  recomendam  descompondo-o ;  e  toda  a  gente  dirá 
que,  compreendendo  a  conveniência  prática  de  se  fazer  en- 
tender e  a  vantagem,  natural,  de  se  fazer  desejar,  tem  tam- 
bém o  segredo  de  sempre  deixar  transparecer  ou  adivinhar 
deferente  contemplação  por  aqueles  com  quem  comunica 
através  dos  seus  hvros. 


Chegado  a  esta  altura  —  e  cumprido  o  dever  grato  de 
exaltar  o  mais  artista  dos  nossos  grandes  prosadores  mor- 


100 


tos  como  um  dos  mais  beneinerentes  entre  todos  —  poucas 
linhas  eu  teria  de  acrescentar  para  concluir  o  meu  estudo, 
ao  considerar  Eça  de  Queiroz  sob  o  aspecto  da  sua  conduta 
de  Autor  em  frente  da  própria  Obra. 

Apenas  reforçaria  o  louvor,  dizendo:  que,  se  êle,  quanto 
aos  outros  dois  aspectos,  encarnou  entre  nós  o  mais  belo 
exemplar  da  superioridade  —  quanto  a  este  último  foi  a 
personificação  perfeita  do  recato  e  do  pudor  intelectual, 
no  seu  grau  mais  elevado;  e  que  nos  deu,  assim,  a  melhor 
lição  a  fixar  e  a  tomar,  para  correção  e  emenda  duma  so- 
ciedade onde  á  vista  abundam  e  florescem,  pujantes,  os  de- 
feitos e  pechas  antagónicas  de  tais  qualidades... 


E  aqui  tem,  meu  Amigo,  os  pontos  que  eu  mais  desen- 
volveria a  respeito  desse  inventor  de  Beleza,  cujo  poder 
de  comovida  imaginação  (tão  notável  como  a  sua  lucidez 
crítica  e  as  suas  faculdades  de  observador)  havia  de  en- 
contrar por  fim  largo  campo  e  azado  ensejo  para  se  mani- 
festar plenamente  ;  a  respeito  desse  criador  de  Ideal,  cuja 
alma,  doída  da  existência  áspera  dos  homens—  e  molestada 
do  seu  contacto  —  já  lograva  alar-se  ao  convívio  pacifica- 
dor dos  Santos  e,  com  arte  macia  e  viçosa  de  sábio  ilumi- 
nador,  banhar-lhes  a  terrena  humildade  em  suaves  clarida- 
des de  cima. 

Aqui  tem  os  pontos  que  eu  de  preferência  trataria  a  pro- 
pósito do  Artista  e  do  Homem  a  quem  a  aberta /«>a  de 
vaidades  do  seu  tempo  e  do  seu  país  provocou,  sem  dúvida, 
duras  palavras  de  comentário  e  agudos  golpes  de  ironia; 
mas  a  quem  uma  nativa  nostalgia  da  verdadeira  Pátria  ins- 
piraria ainda,  para  desconto  de  algum  velho  pecado,  pági- 


101 


nas  ungidas  do  sagrado  amor  ao  torrão,  merecedoras,  por 
certo,  de  lhe  haverem  ganho  a  absolvição  e  a  bênção  do 
bom  e  enternecido  Padre  Soeiro. . . 

Aqui  tem  os  pontos  que  depois  de  estudada  a  Obra  e 
analisado  o  espírito  do  Autor  eu  desdobraria  com  maior 
interesse,  na  minha  devoção  admirativa  e  saudosa  pela 
mais  simples,  mais  aristocrática  das  nossas  grandes  indivi- 
dualidades literárias. 

Mas  pensando  bem,  caro  Amigo,  venho  a  dizer-lhe  que 
sempre  foi  melhor,  afinal,  não  ter  eu  podido  escrever  um 
tal  estudo,  á  falta  de  mais  folgado  vagar ;  pois,  dado  o 
temperamento  impulsivo  e  o  feitio  disputadôr  da  nossa 
grei,  talvez  o  meu  trabalho  concorrêse  para  levantar  ba- 
rulho e  desordem,  senão  pelo  seu  valor  intrínseco,  a  título 
de  mero  pretexto  de  discussão  brava,  de  puro  motivo  a 
demonstrativos  protestos  e  a  contestações  agressivas.  Por- 
que seria  de  esperar  que  aquele  confronto  e  paralelo  entre 
os  dois  Romancistas  provocassem  rija  celeuma  quasi  a  cada 
conclusão  por  mim  tirada  dessa  aproximação  comparativa. 
Da  pedrada  furtiva  do  noticiarista  anónimo  e  da  bordoada 
rancorosa  de  certos  vernaculistas  apaixonados  até  á  esto- 
cada descoberta  dalgum  velho  camarada  —  nada  me  faltaria 
nesse  alevantamento,  imprudentemente  suscitado. 

Devia  também  contar  com  os  defensores  da  Arte  pela 
Arte  se,  em  vez  de  haver  feito  apenas  ligeiras  referências 
ao  impecável  T.  Gautier,  ao  perturbante  Oscar  Wilde  e 
ao  soprado  autor  da  orgástica  Aphrodite  (mal  oferecendo 
ensejo  e  motivo  á  possível  investida  dos  soberbos  voluntá- 
rios da  Estética  amoral)  eu  me  tivesse  alargado  num  tão 
perigoso  capítulo.  E  era  de  supor  que  um  mais  rasgado, 
longo  e  comovido  elogio  das  raras  qualidades  de  recato  e 
de  pudor  literário  do  Autor  d' O  Mandarim  —  da  sua  dis- 
tinta e  fidalga  reserva  ante  a  própria  Obra  — fosse  logo  to- 


102 


mado,  e  castigado,  como  insinuada,  pérfida  indirecta  a  muita 
gente  bôa... 

Veria  o  meu  amigo ! 

Por  mim,  pouco  me  importaria  —  ainda  que  ficasse  mise- 
ramente  contundido. 

Importar-me-hia  muito,  porém,  pela  piedosa  consagração 
que  promovem  ao  grande  Romancista.  Nunca  me  absolve- 
ria de  ter  perturbado  esse  comovente  cortejo  de  homena- 
gem com  um  tumulto  a  que  eu  houvesse  dado  origem.  E 
contribuir  para  semelhante  barulho  e  poeira  de  discussão 
á  volta  do  nome  de  Eça  de  Queiroz  não  seria  até  desaca- 
tar a  nobre  memória  desse  Artista,  desse  Homem  entre  to- 
dos delicado  e  discreto?. . . 

Seu  muito  grato 

Coimbra,  24  de  abril  de  1917. 

Manuel  da  Silva  Gaio. 


Uma  carta 


Meu  caro  Cardoso  Marta: 

Também  desejava  ir  á  romaria.  Não  posso.  Estou  con- 
denado por  uma  canelada  e  pelos  médicos  á  invalidez  do- 
lorosa de  cincoenta  ou  sessenta  dias  de  imobilidade.  Con- 
tinuo e  continuarei  sepultado  entre  duas  poltronas,  nesta 
sua  conhecida  oficina,  meditando  tristemente  duas  verda- 
des amargas.  Uma,  a  primeira,  que  me  sabe  á  esponja  com 
fel  e  vinagre  do  grande  Sacrificado  —  diz-rae  que  as  mi- 
nhas pernas,  tão  altas,  são  afinal  bem  mais  frágeis  do  que 
a  consciência  de  muito  bôa  gente,  capaz  de  resistir  á  pró- 
pria clava  de  Hercules,  se  ela,  ressuscitando,  fosse  capaz 
de  atingir  consciências.  E  a  outra,  a  segunda,  que  me  pa- 
rece o  ultimo  dia  dum  condenado  á  fogueira  —  lembra-me 
os  suplicios  da  velhice  que  se  aproxima,  piores  do  que  o 
escrever-lhe  dobrado  em  triptico,  numa  posição  que  faria 
dó  aos  incertos  mártires  dos  chumbos  de  Veneza. 

E  não  podendo  ir  á  romaria,  não  podendo  acompanha-lo, 
venho  pedir-lhe,  meu  amigo,  o  favor  de  me  representar. 

Autoriso-o  a  ajoelhar  por  mim.  Se  quizer  erguer  as  mãos, 
não  lho  levarei  a  mal.  Como  lhe  agradecerei  até  se  rezar, 


104 


em  meu  nome,  a  minha  devoção  pelo  Mestre  da  Ilustre 
Casa  de  Ramires. 

Todos  os  cultos  são  veneráveis,  são  merecedoras  de  res- 
peito todas  as  devoções,  desde  que  as  avivente  o  veio  de 
graça  do  sentimento.  Ora  o  sentimento  máximo  dum  homem 
do  meu  tempo,  mesmo  quando  dobrado  em  trêz,  deve  ser 
o  da  admiração  religiosa  pelo  dogma  da  Imaculada-Be- 
lêza.  E  eu,  por  mais  que  procure,  não  vejo  escultor,  pin- 
tor, musico  ou  poeta  que  melhor  tenha  surprendido,  que 
melhor  tenha  materialisado  o  eterno  enigma  e  a  forma  pre- 
cisa dessa  divindade.  S.  Frei  Gil  lembra  o  cinzel  de  Fi- 
dias,  docemente  afagado  pelo  sol  do  ocidente,  depois  da 
era  de  Cristo.  Os  arredores  de  Tormes  são  Silva  Porto,  a 
tela  ressumando  a  alma  e  a  frescura  da  paizagem  da  nossa 
terra.  E  a  sinfonia  admirável  de  todas  essas  paginas,  das 
paginas  do  Cidade  e  as  Serras,  obriga  a  pensar  em  certas 
passagens  descritivas  de  Wagner,  e  em  certas  éclogas  ani- 
madas de  Virgílio.  Repare  Você  na  roupagem  helénica, 
tão  sóbria,  e  no  gesto  cristão,  fremente  de  ansiedade,  do 
bruxo  beatificado.  Recorde  a  solenidade  olímpica  das  ser- 
ranias do  Douro  ao  subir  para  Tormes  —  e  a  grandeza 
orquestral,  e  a  ternura  lirica  da  maior  das  nossas  partitu- 
ras e  dum  dos  maiores  dos  nossos  poemas.  E  diga-me,  na 
Verdade,  se  é  possível  ficar  de  pé,  sem  o  calafrio  do  êx- 
tase, ao  aproximarmo-nos  de  Eça  de  Queiroz  —  do  Mago 
excelente  que  da  pena  e  da  tinta,  do  papel  e  dos  nervos 
extraiu  a  luz  e  o  som,  a  dôr  e  o  riso,  toda  a  Arte  subtil  e 
toda  a  Beleza  imortal  que  Você  celebra  com  a  sua  roma- 
gem. 

Eça  amou  a  Beleza  sobre  todas  as  coisas  e  a  Arte  mais 
do  que  a  si  mesmo. 

Acuzam-no  de  pouca  imaginação  criadora  —  de  se  ins- 
pirar na  M.^»''  de  Bovary  para  escrever  o  Primo  Bazilio,  na 


iV 


N    ^<J     ■     '    1 


■^ 


\ 


^ 
\ 


f^ 


ee 

< 

Cl. 

S 

UJ 

>J 

«í 

O 

Í3 

H 

ai 

O 

Du 

ttJ 

o 

Q 

y 

J 
3 

Zj 

Z 

OQ 

O 

O 

u 

a. 

o 

s 

O 

o 
u 

et: 

N 

-< 

c 

z 

g 

o 

LU 

D 

u 

a 

z 

tu 

D 

Q 

lu 

*< 

u- 

o 

U 

c; 

O 

a. 

Q 
ar 

(U 

O 


105 


Education  Sentimentale  para  escrever  os  Maias,  e  não  sei 
se  nas  eças  funerárias  para  escrever  o  seu  nome  -  esse 
nome  que  lembra  a  morte  e  é  uma  fonte  luminosa  de  vida. 

Admitamos  a  legitimidade  do  reparo.  Que  escrevam  ou 
recortem  os  que  o  acuzam,  dentro  ou  fora  desses  moldes 
francezes,  livros  tão  acentuadamente  portuguezes  como 
aqueles  dois  livros,  figuras  tão  tipicamente  portuj^uezas 
como  as  figuras  daqueles  dois  romances. 

Tinha  fraca  imaginação  criadora?  Pelo  contrario.  A  sua 
imaginação  lembra  o  poder  milagroso  do  Cristo  na  multi- 
plicação dos  pães.  De  meia  dúzia  de  palavras  de  Chateau- 
briand  no  Génie  de  le  Christianisrne  —  Conscience  e  Reinords 

fez  os  centos  de  paginas  encantadoras  do  Mandarim. 
Dam  nada,  duma  idea  colhida  ao  acaso,  duma  impressão 
apanhada  no  ar,  tirou  ideas,  impressões,  capitulos,  volu- 
mes que  hão-de  dar  de  comer  á  fome  intelectual  das  gera- 
ções. 

Como  Você  sabe,  ha  quem  o  acuze  também  de  não  ter 
feito  romance  psicológico. 

Porque?  Porque  não  se  debruçou  sobre  as  almas,  des- 
crevendo, em  minuciosos  desdobramentos,  no  limpido  e  so- 
noro murmúrio  da  sua  prosa,  os  seus  estados  afectivos, 
ternos  ou  dolorosos.  .Vias  será  este  processo  literário  o 
que  corresponde  ás  exigências  do  romance  psicológico?  A 
mim  quer-me  parecer  que  esse  será  antes  romance  descri- 
tivo. Olha-se  a  alma,  e  fica-se  a  desfiar-lhe  a  bondade  ou 
a  maldade,  e  passa-se  a  descrever,  em  lentos,  em  tortura- 
dos periodos,  a  dôr  que  a  alanceia  ou  a  alegria  que  a  des- 
vaira, a  duvida  que  a  ensombra  ou  a  certeza  que  a  escla- 
rece. O  romance  deve  ser,  acima  de  tudo,  literatura  de 
acção.  E  os  estados  psicológicos  em  acção,  no  romance 
como  na  vida  — pois-que  o  romance  não  pôde  deixar  de  ser 
a  cristalisaçSo  quente  e  animada  da  vida  —  exprimem-se. 


106 


não  se  descrevem,  são  duma  eloquência  suprema  nos  mo- 
vimentos que  os  efectivam,  sendo  duma  insuficiente  frou- 
xidão sempre  que  pretendamos  encaixilha-los  em  palavras. 

Um  gesto,  um  grito,  uma  sacudidela  brusca,  um  desfale- 
cimento inesperado,  dão  com  muito  maior  vigor  a  cólera  e 
o  perdão,  o  sobressalto  e  o  desalento  do  que  paginas  ma- 
cissas  e  belas  de  perfurações  pesquizadoras,  de  analises 
pacientes  —  estorvo  á  marcha  dos  episódios  mestres  do 
romance,  que  não  devendo  ter  a  nudez  rigida  do  galho 
seco,  não  devem  exceder  na  exuberância  de  forma  o  ramo 
que  agasalha  sem  esconder  os  frutos. 

Eça  de  Queiroz,  dando-nos,  como  nos  deu,  a  vida  em 
acção  —  na  sua  dinâmica,  que  representa  o  ritmo  e  a  ex- 
pressão da  sua  animica  — deu-nos,  evidentemente,  romance 
psicológico.  Almas  verdadeiras  em  atitudes  vívidas.  Esta- 
dos Íntimos  em  gestos  exteriores.  Era  o  seu  processo,  como 
era  o  de  Balzac  —  por  ninguém  até  hoje  apeado  da  sua  cá- 
tedra gloriosa  de  psicólogo. 

Um  bandido  não  se  revela  por  palavras  —  revela-se  por 
actos.  Um  santo,  para  mostrar  a  austeridade  ou  a  brandura 
do  seu  intimo  não  precisa  agitar  o  verbo  de  Lacordaire  — 
basta  que  semeie  o  seu  caminho  de  flores  de  santidade. 

Não  lhe  parece,  meu  caro  amigo? 

Em  Portugal,  paiz  onde  em  regra  se  não  faz  nada,  ha  o 
sestro  inveterado  de  malsinar,  sistematicamente,  os  raros 
<]ue  fazem  alguma  coisa  —  e  em  especial  os  raríssimos  que 
muito  fazem.  Porisso,  se  o  que  se  faz  é  bom,  ou  se  duvida 
da  sua  autoria,  ou  devia  ser  melhor.  E  se  o  que  se  faz  é 
otimo,  com  certeza  é  de  outrem,  ou  seria  ainda  melhor. . . 
se  fosse  deles. 

Pois  se  até  o  acusaram,  ao  nobre  romancista,  de  haver 
decalcado  o  Crime  do  Padre  Amaro  sobre  La  Faute  de 
VAbbé  Moret. . .  só  porque  ambos  os  títulos  teem  um  crime 


107 


e  um  padre,  embora  o  livro  do  Eça  tenha  sido  publicado 
dois  anos  antes  do  de  Zola! 

A  sombra  dos  vivos,  desde  que  a  sua  estatura  exceda  a 
marca  do  costume,  incomoda  como  uma  humilhação.  Pelo 
<\\xe,  para  se  ser  de  facto  grande,  com  consentimento  ge- 
ral, é  preciso  não  fazer  sombra.  A  gloria,  entre  nós  ao  me- 
nos, é  sempre  justiça  póstuma. 

Vou  terminar,  que  são  horas,  com  uma  observação  que 
me  não  parece  descabida  acerca  do  Mestre  do  romance 
contemporâneo  —  pondo  de  parte  os  seus  acusadores,  que 
não  passam  de  efémero  cisco  humano,  emquanto  êle  é  per- 
petua luz  criadora. 

Ha  tempos,  escrevendo  duas  paginas  a  respeito  de  Ca- 
milo, anotei  o  grau  de  parentesco  do  seu  temperamento  de 
escritor  com  o  caracter  da  paisagem  da  sua  região  —  a 
paisagem  trasmontana,  nos  tesos  da  serra  do  Mezio. 

Paisagem  brusca,  sacudida,  ousada,  abundante  de  altos 
e  baixos,  de  cerros  ponteagudos  e  de  leiras  bucólicas  — 
com  o  Corgo,  enroscado  na  falda  das  vertentes,  gemendo 
e  rugindo  por  entre  fragas  e  hortas  —  produziu  aquele 
temperamento  formidável  de  contraste,  arrogante  e  doce, 
trágico  e  lirico,  tendo  por  fundo  a  emoção  com  todos  os 
seus  impulsos  desordenados,  com  todas  as  suas  delicade- 
zas enternecidas. 

Você  conhece  a  paisagem  das  cercanias  da  Povoa-de- 
Varzim  —  a  terra  de  Eça.  E'  suave.  E'  idilica.  E'  repou- 
sada e  fresca.  Lembra  uma  iluminura  de  mestre  estilisada 
em  livro  de  horas  manuelino.  Quasi  toda  ela  em  planura, 
quando  aqui  ou  alem  o  solo  ondeia,  semelha  alguém  que 
se  espreguiça  —  nunca  os  que  levantam  o  dorso  em  arre- 
meços  de  ódio.  E'  cortada  de  riachos,  de  veias  azues  e 
heráldicas,  em  que  se  revêem  casais  e  tufos  de  arvoredo, 
em  que  ha  murmurações,  segredos  e  preces.  E  nos  campos 


108 


ajardinados,  o  camponez  minhoto  moureja,  semeia  e  colhe, 
rindo  e  cantando. 

Como  nota  de  cólera,  em  frente  desta  serenidade  bí- 
blica, apenas  o  mar  —  que  tão  depressa  é  Otelo  em  fúria, 
como  se  se  roja,  Romeu  amoroso,  em  beijos  e  afagos. 

Repare  em  tudo  isto,  nesta  brandura  macia,  nesta  suavi- 
dade fecunda,  nesta  cólera  passageira,  tão  vincada  no  ca- 
racter hesitante  do  Sebastião,  nas  indecisões  do  Carlos  da 
Maia,  nos  arrancos  frustes  do  Gonçalinho  Ramires,  e  ob- 
serve se  não  ha,  de  facto,  entre  a  literatura  do  Eça  e  a 
paisagem  da  sua  terra  um  vivo  traço  de  parentesco. 

Mas...  perdão,  meu  Amigo.  Disse-lhe  que  não  ia  á  ro- 
maria —  e  sem  querer,  sem  dar  porisso,  puz-me  a  arrastar 
a  canela  heresipelada  atraz  de  si,  no  desejo  de  acender 
também  a  minha  vela  ao  orago.  Não  cheguei  lá.  Era  de  es- 
perar. Nem  a  fé  me  deu  pernas  —  ela  que  dá  a  tanta  gente 
olhos  de  vêr  e  almas  satisfeitas.  Você  representar-me-ha, 
porem,  como  lhe  pedi.  O  Mestre  ganhará  com  isso  e  eu 
não  me  esfalfarei  em  vão.  E  assim,  abraça-o  deste  pelou- 
rinho estofado  o  seu  velho  amigo  e 

ad.tJor  m.to  grato 

Lisboa  —  Fevereiro  —  1916. 


Sousa  Costa. 


Eça  de  Queiroz 


As  I  do  not  pretend  to  be  a  litterary  critic,  what  little  I 
have  to  say  about  Eça  will  be  concerned  with  the  moral 
aspect  of  his  Work  &  its  appreciation  in  England :  I  shall 
leave  to  others  the  task  of  setting  forth  his  merits  as  an 
imaginative  artist  and  a  prose  writer. 

The  influence  of  France  over  Portugal  has  I  think  for  the 
last  tu'o  hundred  years  been  anti-national  and  anti-moral, 
vvhether  in  the  sphere  of  politics  or  in  that  of  letters.  For 
six  centuries  Portugal  ledan  enviable  existence,  due  in  part 
to  its  geographical  position  :  its  domestic  crises  were  fev; 
&  brief,  &  there  was  nothing  in  its  history  like  the  Wars 
of  the  Roses  in  England,  or  the  Hundred  Years  V/ar  in 
France,  or  the  Thirty  Years  War  in  Germany.  Portuguese 
Kings,  vvith  few  exceptions,  cared  for  the  common  weal, 
and  enjoyed  the  respect  and  esteem  of  their  subjects ;  hence 
they  nearly  ali  died  peacefully  in  their  beds,  which  didnol 
always  happen  to  the  rulers  of  other  lands.  But  the  intro- 
duction  of  «French  ideas»  in  the  ISt^»  century  changed  ali 
this  and  since  1817,  thanks  largely  to  French  Freemasonry, 


110 


Portugal  has  lived  in  almost  contintíal  unrest,  and  has  of 
late  been  on  the  verge  of  anarchy. 

At  the  same  period  the  language  became  infected  AVith 
gallicisms,  and  though  Garrett  and  Herculano  strove  to  re- 
generate  literature  by  going  back  to  the  old  traditions  for 
their  subjects,  French  influence  reasserted  itself  \vhen  Rea- 
lism,  or  rather  Naturalism,  took  hold  of  men  of  letters.  Eça 
de  Queiroz  displaced  Camillo  Castello  Branco  &  the  school 
he  founded  was  carried  to  extremes  by  Abel  Botelho. 

France  has  always  been  the  great  vulgariser  of  ideas^ 
but  often  exports  its  worst  in  philosophy,  art  and  morais^ 
keeping  its  best  at  home  hidden  from  the  foreigner,  who 
copies  what  he  sees  in  Paris.  But  Paris  does  not  reflect  the 
life  of  France,  any  more  than  Lisbon  reflects  that  of  Por- 
tugal. There  is,  even  in  Paris,  &  still  more  in  the  provin- 
ces,  a  nobler,  saner  France  that  thinks,  works  and  prays, 
and  of  late  years  it  has  found  increasing  expression  in  let- 
ters, while  some  incidents  of  the  present  ^var  have  revived 
the  memories  of  the  «Gesta  Dei  per  Francos». 

The  generation  to  which  Eça  de  Queiroz  belonged  only 
knew  one  side  of  French  life  and  that  a  superficial  one. 
Nominally  Catholic  or  openly  freethinking,  it  prided  itself 
on  its  Liberalism  in  politics  &  A«as  not  strict  in  morais;  nor 
can  this  be  wondered  at,  seeing  that  it  had  received  no  so- 
lid  religious  instruction.  It  was  not  even  distinctively  Por- 
tuguese,  because  the  founders  of  the  Constitutional  regime 
had  broken  with  tradition  and  endeavoured  to  createanew 
Portugal  on  French  lines,  &  their  descendants  were  satis- 
■fied  with  their  vcork.  The  Portuguese  of  olden  times  AVould 
not  have  recognised  their  great  grandsons.  The  former, 
■with  ali  their  faults,  possessed  great  qualities,  or  they  could 
never  have  built  up  and  sustained  the  overseas  empire. 
They  were  moreover  strong  nationalists,  otherAVise  asmall 


111 


country  like  Portugal  could  never  have  preserved  its  inde- 
pendence.  They  showed  this  as  late  as  the  IT^h.  century, 
when  ali  classes  resisted  the  efforts  of  Peter  II  &  his  Je- 
suit  advisers  to  reform  the  Inquisition.  Public  opinion,  both- 
in  Paris  &  Rome,  rfghtly  condemned  this  intolerant  attitude, 
but  the  Portuguese  AVere  not  moved  thereby;  they  insisted 
on  being  masters  in  their  own  house  &  in  showing  them- 
selves  more  papal  than  the  Pope. 

Compare  this  mentality  with  that  of  the  19'^-  century 
which  consisted  in  copying  foreign  ideas  and  ways,  without 
reference  to  their  value  &  suitability. 

In  youth  Eça  "Was  intellectually  a  Frenchman  &  his  ear- 
lier  publications  are  more  French  in  sentiment  than  Portu- 
guese. England,  where  he  spent  so  many  years,  had  no  in- 
fluence  on  him,  which  is  to  be  regretted,  because  a  dose 
of  Anglo-Saxon  serenity  and  sobriety  of  diction  would  have 
steadied  his  pen  &  led  him  to  be  moresparing  of  adjectives 
and  elaborate  description.  His  prose,  while  preserving  its 
conspicuous  merits,  might  have  become  simpler  and  more 
natural,  qualities  it  often  lacks. 

What  is  really  curious  is  that  when  he  went  to  live  in 
Paris  he  was  reborn  a  Portuguese.  The  France  he  had  ido- 
lised,  when  seen  at  close  quarters,  produced  a  natural  dis- 
illusionment,  &  in  Paris  the  novelist  wrote  A  Cidade  e  as 
Serras  &  other  books  full  of  the  poetry,  purity  and  fra- 
grance  of  his  native  country  side. 

The  ideal  of  ali  of  us  is  I  suppose  that  of  the  ancients  : 
«mens  sana  in  corpore  sano».  Judged  by  this  standard,  for 
it  is  not  necessary  to  invoke  Christian  morality,  Padre 
Amaro  and  the  ReUquia  are  unwholesome  books,  &  the  ta- 
lent  they  display  does  not  suffice  to  redeem  them. 

Works  that  have  to  be  considered  as  «for  men  only»  stand 
self-condemned,  for  there  are  not  two  standards  of  morality^ 


112 


one  for  each  sex.  After  ali  we  are  strangely  illogical ;  the 
law  in  most  countries  forbids  the  sale  of  certain  poisons 
u'ithout  a  doctors  certificate,  yet  it  allows  a  wide  margin 
to  publishers  of  noxious  books  and  prints,  though  the  mind 
is  superior  to  and  more  deserving  of  protection  than  the 
body.  Probably  the  natura  of  these  books  of  Eça  preven- 
ted  their  translation  in  England,  because  at  the  time  they 
uere  written  a  higher  standard  prevailed  there  than  exists 
at  present.  The  fact  that  Eça's  last  masterpieces  have  no 
English  translation  is  more  difficult  to  account  for.  I  only 
know  of  a  short  study  on  Fradique  Mendes  with  a  version 
of  the  letter  on  Pacheco,  but  some  of  the  romantic  short 
stories  have  been  translated  &  one  of  these,  Suave  Mila- 
gre, has  had  a  remarkable  success.  It  first  appeared  in  1904 
and  has  gone  through  five  aditions  in  England  &  one  (pi- 
rated !)  in  America.  The  fifth  English  edition  is  a  trumph 
of  artistic  production,  having  been  printed  at  the  Oxford 
University  press  on  linen  paper,  with  red  capitais.  The  dra- 
matised  version  of  Alberto  d'01iveira  was  translated  by  the 
nuns  of  Notre  Dâme  &  issued  in  1910,  with  music,  for  per- 
formance as  a  mystery  play,  &  it  has  an  eulogistic  preface 
by  the  well-known  Orientalist  Dr.  Casartelli,  bishop  of 
■Salford. 

Another  story,  O  Defunto,  published  in  1906  under  the 
title  of  Our  Lady  of  the  Pillar,  had  an  excellent  reception 
from  the  press.  As  in  England  authors  &  reviewers  are 
usually  strangers  to  one  another,  the  criticisms  of  a  book 
may  be  taken  as  a  sincere  expression  of  opinion.  I  will  there- 
fore  quote  from  some  reviews  to  show  the  impression  the 
story  caused,  &  may  add  that  the  poet  Douglas  Ainslie 
turned  it  into  verse  &  printed  it  under  the  title  A  friend  in 
need  in  his  book  of  poems  Mirage  in  1911. 

The  critic  of  the  5'  James  Gazette  considered  it  one  of  the 


113 


best  short  stories  he  had  ever  read  and  added:  «It  is  a  lit- 
tle  masterpiece  of  mysticism  and  matter-of-fact  religious 
enthusiasm  and  passion  in  harmonious  combination.  Grue- 
some  moments  it  has  in  plenty,  but  they  are  conveyed  with 
fine  unforced  art».  The  Academy  AVrote  of  it  as  «a  work  one 
cannot  forget;  a  ^veird  and  enthralling  story,  with  passion- 
ate  love,  hideous  jealousy  and  iofty  honour  in  every  iine; 
and  over  ali  the  blaze  of  the  Spanish  sun  and  the  glowing 
depths  of  the  Spanish  night».  Another  journal  said  that  only 
one  English  author  couid  have  written  it  and  that  was 
Dante  Gabriel  Rossetti. 

A  master  of  realism,  with  a  pronounced  vein  of  subtle 
irony,  Eça  de  Queiroz  was  also  a  great  romanticist.  As 
singularidades  de  uma  rapariga  loura  and  the  Defunto  are 
examples  of  his  best  in  the  two  departments.  I  am  not  sure 
that  he  will  not  live  longer  by  his  short  stories  than  by  his 
more  voluminous  Works,  though  Primo  Basilio,  as  a  faithfui 
picture  of  a  phase  of  Lisbon  life  in  the  last  quarter  of  the 
19'h.  century,  has  almost  the  value  of  an  histórica]  do- 
cument. 

Lisbon,  24th-  August  1918. 


Edgar  Prestaoe. 


EÇA   DE  QCBISOZ 


Dois  improvisos  de  Eça  de  Queiroz 


De  que  em  Eça  de  Queiroz  houvesse  o  dom  da  poesia, 
no  sentido  artístico  do  vocábulo,  só  poderão  duvidar  os 
insensíveis,  rebeldes  ao  encanto  da  sua  prosa,  que  em  cer- 
tos trechos  de  A  Relíquia,  e  sobretudo  nesse  extraordiná- 
rio cântico  do  nascimento  de  S.  Frei  Gil,  deixa  de  ser  pri- 
mor escrito,  para  se  tornar,  pelo  perfume,  pelo  sabor  e 
pelo  aveludado,  a  flor  pulquérrima  duma  cantante  roseira 
de  luz  e  de  mel. 

São  um  «suave  milagre»  do  estilo  estas  páginas  derra- 
deiras. Nunca  me  dou  ao  dever  de  as  reler,  sem  recordar, 
levado  da  simpatia  do  joalheiro  pelos  feitos  da  santidade, 
um  milagre  viçoso  do  agiológio,  dantes  conseguido  anual- 
mente, numa  ermida  montesina,  por  S.  Luís  de  Tolosa. 

Seja  o  Padre  Manoel  Conciencia  a  reportá-lo  na  sua 
Academia  universal,  que  não  a  minha  pena  descrente  de 
moderno !  «De  tempo  immemoriavel  a  esta  parte  em  todos 


115 


os  dias  da  sua  mesma  festa,  quando  se  canta  a  Missa  prin- 
cipal, e  na  presença  da  muyta  gente  que  alli  concorre,  co- 
meçam a  florecer  as  pedras  das  paredes,  os  seccos  madey- 
ros  do  tecto,  os  ladrilhos  do  chaõ,  e  atè  a  fechadura,  e 
ferrolho  da  mesma  Ermida,  coalhando-se  tudo  de  humas 
floreszinhas  brancas,  as  quaes  por  serem  milagrosas  como 
Relíquias  de  muyta  devoção,  e  estima,  levam  os  que  as  po- 
dem colher». 

Igualmente,  das  carunchosas  traves  e  dos  emperrados 
ferrolhos  da  língua,  escravizada  ao  lugar-comum,  fêz  o 
nosso  elegante  S.  José  Maria,  renovando-lhe  os  modelos, 
brotar  uma  fecunda  primavera.  Que  lhe  atire  a  segunda 
pedra  —  a  primeira  trazia  gravado  o  grande  nome  de  Fia- 
lho—aquele dos  escritores  de  Portugal  ou  do  Brasil  que 
não  tenha  ido  buscar  á  obra  dêle  alguma  maneira  de  ver 
ou  de  dizer  as  coisas ! 

Poeta  também  na  acepção  formal,  são  do  autor  da  xá- 
cara  de  Santa  Ireneia,  de  A  Ilustre  Casa  de  Ramires,  algu- 
mas produções  metrificadas,  como  a  Serenata  de  Satan  ás 
estreitas,  rica  de  imagens  novas: 

Mas  vós,  estreitas,  sois  o  musgo  velho 
Das  paredes  do  Céo  deshabitado. 

Julgo  ser  de  Eça  de  Queiroz  a  versão  da  Bailada  do  Rei 
de  Thule  que  figura  no  Mysterio  da  Estrada  de  Cintra: 

Houve  outr'ora  um  rei  de  Thule 
A  quem,  em  doce  legado. 
Deixou  a  amante  ao  morrer 
Um  copo  d' ouro  lavrado. 

Lendo-as  em  separado,  ninguém  atribuiria  ao  novelista 


116 


de  Os  Maias  a  paternidade  das  seguintes  quadras,  tirantes 
a  populares : 

Queria  ter  uma  camisa 
D' um  tecido  bem  fiado, 
Feito  de  todos  os  ais 
Que  o  teu  peito  já  tem  dado. 

Quem  depenna  um  rouxinol 
E  rasga  uma  triste  flor, 
Mostra  que  dentro  do  peito 
Só  tem  farrapos  d' amor. 

Quando  estudante  em  Coimbra,  o  futuro  ironista  de  O 
Mandarim  gostava  de  poetar  improvisadamente  sobre  os 
mais  disparatados  assuntos.  Ao  iniciar  em  Lisboa  a  sua 
carreira  literária,  não  perdeu  o  costume,  com  o  qual  talvez 
pretendesse  apenas  exercitar,  em  funambulescas  acroba- 
cias, a  sua  opulenta  fantasia  verbal. 

Jaime  Batalha  Reis,  que  na  Introdução  das  Prosas  bar- 
baras alude  á  mania  versificante  do  seu  dilecto  camarada, 
declarou-me  possuir,  entre  os  seus  numerosos  papeis,  al- 
guma versalhada  da  autoria  de  Fradique  Mendes:  pseudó- 
nimo não  exclusivo  de  Eça  de  Queiroz,  mas  que  êle  usou 
para  a  sua  estreia  na  Revolução  de  Setembro.  Felicidade  se- 
ria que,  no  farto  arquivo  da  Quinta  da  Viscondessa,  exis- 
tisse cópia  de  A  Tentação  de  S.Jerónimo,  poemeto  inédito, 
que,  a  outro  contemporâneo  do  harmonioso  agiógrafo  do 
5.  Christovam,  mereceu  a  classificação  de  «tragedia  cor  de 
sangue-de-boi».  (1) 


(1)  Adriano  Pimentel.  Os  versos  de  Eça  de  (Cueiros.  Revista  Portu- 
gueza,  n.»  3.  Porto,  1895. 


117 


Por  os  considerar  interessantes,  quero  dar  notícia  de 
dois  improvisos  de  Eça  de  Queiroz;  preciosos  documen- 
tos, cujo  conhecimento  devo  á  muita  amabilidade  da  famí- 
lia Mayer,  por  intermédio  do  meu  bondoso  amigo  Dr.  Ruy 
Ennes  UIrich. 

Ambas  as  composições  são  de  Paris,  e  dirigidas  a  Car- 
los Mayer,  como  é  sabido,  o  mais  calvo  e  espirituoso  dos 
«vencidos  da  vida». 

Consta  a  primeira,  escrita  em  papel  timbrado  com  os 
dizeres:  Granei  Hotel.  Boulevard  des  Capucities,  12.  Paris, 
de  quatro  oitavas  em  português,  encimadas  pela  data  de 
3  Avril  1896  e  pelo  vocsáÀvo  — Mayer! 

Eça  fora  procurar  o  amigo.  Não  o  tendo  encontrado,  in- 
crepava-o  pela  ausência,  nesta  bem  humorada  maneira: 

Sahiste?  Porquê?  Decerto, 

P'rá  papança  no  Paillard, 

Ou  luxos  no  Boulevard, 

Ou  ganância  em  Moçambique  l . . .  (1) 

Só  para  contentar  a  carne, 

P'ra  crescer  nos  bens  do  mundo, 

P'ra  sulcar  o  mar  profundo 

Onde  a  alma  vae  a  pique! 

Nas  outras  três  estrofes,  refere-se  Eça  a  Mounet-Sully, 
a  Jules  Claretie,  aos  seus  propósitos  de  regenerar  o  amigo 
e  ao  seu  desgosto  por  o  reconhecer  incorrigível,  termi- 


1)  A  Companhia  de  Moçambique,  a  cuja  direcçSo  Carlos  Mayer  per- 
tencia. 


118 


nando  por  se  despedir  dele  com  esta  profissão  de  fé  biblio- 
filística: 


Que  em  quanto  o  Demo  te  assa 
N'esse  barathro  onde  cães 
Eu  cá  vou  direito  ao  Cães 
Ao  nobre  e  puro  alfarrábio! 

Escrita  em  francês,  a  segunda  composição  não  tem  data. 
Está  assinada,  ironicamente,  por  Jozé-Maria  (De  VAcadê- 
mie  Portugaise) ,  e  intitula-se  Simples  Questions,  sendo  en- 
dereçada A  Mr.  Le  Dr.  Charles  Mayer. 

Eis  os  primeiros  versos : 

Voilà  bien  trois  longs  jours  que  je  crie,  sur  mon  aire, 
Regardant  vers  la  Ville:—  «Oú,  donc,  est  ce  Mayer?» 

Depuis  le  doux  soir  à  la  Maison  Dorée, 
Quand,  nourrie  de  morue  et  parfumée  de  pêche, 
Ta  ver\'e  s'envola  dans  des  ors  de  fusée, 
Racontant  la  Patrie,  sa  grandeur  et  sa  dèche, 

Depuis  ce  doux  soir,  aux  douceurs  par  trop  breves, 
Qu'as  tufait,  oh!  mon  Charles,  en  ce  vaste  Paris 
Ou,  parmi  les  Brissons,  les  complots  et  les  greves, 
Tourbillonent  lesjeux,  les  Graces  et  les  Ris? 

Couvert  de  ton  Rapport  comme  d'une  bannière, 
Et  tenant  ton  crayon  comme  on  tient  une  pique, 
Marangues-tu  toujours,  de  faço n  três  altière, 
Ces  messieurs  assemblés  pour  sauver  Mozambique? 

Seguem-se  cinco  quadras  com  alusões  a  financeiros  e 


119 


suas  manobras,  e  vem  logo  esta,  cujo  último  verso  é  en- 
graçado : 

Peut-être,  chez  Paillard,  et  de  blanc  cravatê, 
Oubliant  la  Beira  et  la  baie  de  Tliongá,  (1) 
Tu  verses,  oncle  joyeiix,  de  Vesprit  et  da  thê 
Au  Comte  de  Olivaes  e  de  Penha-Longá! . . . 

Nas  três  quadras  restantes,  deplora  Eça  o  não  saber  que 
é  feito  do  amigo  querido,  nem  mesmo  se  ainda  vive,  ou  se 
algum  deus,  seduzido  pela  calva  famosa: 


Descenda  doucement,  déguisê  sous  des  voíles, 

Et  f  enleva,  Mayer,  pour  inêler  dans  la  nuit, 

La  blanchenr  de  ton  crâne  aux  clartés  des  étoiles! 

Para  um  tão  lento  e  escrupuloso  estilista,  é  muito  curio- 
sa a  espontaneidade  desses  dois  improvisos,  um  deles  em 
língua  estranha,  e  ambos  repassados  da  penetrante  ironia 
<\ne  foi  o  aspecto  primordial  da  bondade  de  Eça. 

Não  conheci,  por  meu  mal,  o  prosador  notável.  Estou 
certo,  porem,  que  êle,  sem  querer,  pensava  em  si  ao  tra- 
cejar Um  génio  que  era  um  santo  para  o  In  Memoriam  de 
Antero  de  Quental.  Pela  confissão  unânime  dos  seus  mais 
íntimos,  Eça  também  possuiu  «uma  alma,  onde,  na  meiga  e 
intraduzível  expressão  de  França  — ///a/sfl//  très-bon^. 


Manoel  de  Sousa  Pinto. 


(1)  Outras  companhias  como  a  de  Moçambique. 


Unum  et  Idem 


A  mais  viva  impressão  que  me  deixa  o  Eça,  sempre  que 
o  releio,  já  por  duas  vezes  a  expressei  em  público:  num 
artigo  datado  de  1915  —  «Hoje,  encarando  o  passado  com 
larga  serenidade,  não  se  pode  negar  que  a  literatura  por- 
tuguesa deva  a  Eça  de  Queiroz  a  pintura,  a  côr  do  epíteto,, 
a  noção  da  luz  e  da  verdade  fotográfica  na  escolha  do  adje- 
ctivo); e  em  1915,  num  livro —  «..  .Eça  de  Queiroz,  para 
quem  o  estilo  era,  apaixonadamente,  a  côr,  o  som,  a  es- 
cultura e,  por  vezes,  o  sonho  doirado  que  diviniza  o  vago 
pensamento.» 

Para  que  repetir  agora  esta  opinião  persistente? 

Por  dois  motivos  obrigantes,  quase  imperativos:  para 
corresponder  a  um  convite  de  pessoa  que  eu  estimo;  e 
para  que  nesta  comemoração  solene  não  falte  um  antigo 
leitor  de  Eça  a  depor  a  sua  contribuição,  ainda  que  des- 
valiosa,  sincera. 

Março,  1918. 

Alberto  Pimentel. 


Eça  de  Queiroz 


(PROBLEMA  BIOGRAPHICO) 


Quando  nasceu  Eça  de  Queiroz?  Onde  nasceu? 

Não  é  indifferente  o  apuramento'  do  anno  e  localidade^ 
porque  a  sua  realidade  leva  a  conhecer  a  situação  que 
actuou  na  organisação  psychica  d'aquelle  espirito  sensí- 
vel, impressionista,  que  se  constituiu  com  um  caracter  iró- 
nico. A  Povoa  de  Varzim,  ao  prestar  a  Eça  de  Queiroz  em 
II  de  Novembro  de  1906  a  homenagem  d'uma  lápide  na 
casa  em  que  nasceu  o  grande  romancista,  acordou  o  ciúme 
de  Villa  do  Conde,  em  cuja  matriz  fora  baptizado  em  1  de 
Dezembro  de  1845.  Reclama-se  ahi  a  gloria  de  ser  Villa  do 
Conde  o  berço  do  genial  escriptor,  filho  de  mãe  incógnita,. 
por  declaração  de  seu  pae  o  Dr.  José  Maria  de  Almeida 
Teixeira  de  Queiroz.  A  commissão  da  Povoa  de  Varzim 
tratou  de  apurar  e  authenticar  os  seus  fundamentos.  Fez- 
ge  a  prova  completa:  em  carta  de  1  de  Setembro  de  1901  o 
Dr.  Queiroz,  então  juiz  do  Supremo  Tribunal  de  Justiça,. 


122 


fornecia  ao  sr.  Eliziario  Luiz  Monteiro  esta  informação 
cathegorica:  «meu  filho  nasceu  n'uma  casa,  onde  em  1845 
morava  o  meu  fallecido  parente  Francisco  Augusto  Perei- 
ra Soromenho,  empregado  que  então  era  da  fiscalisação  do 
pescado.  Ignoro  a  rua».  Na  tradição  corrente,  de  longe  se 
sabia  que  alli,  na  rua  da  Praça,  nascera  Eça  de  Queiroz. 
Em  data  de  6  de  Novembro  de  1906  a  mãe  de  Eça  de 
<^ueiroz,  D.  Carolina  Augusta  Eça  de  Queiroz,  escrevia 
ao  mesmo  cavalheiro:  «Venho  assegurar  que  meu  filho 
José  Maria  Eça  de  Queiroz  nasceu  na  Povoa  de  Varzim». 
Depois  d'estas  duas  provas  irrefragaveis,  ainda  accresce- 
ram  as  declarações  das  matriculas  do  primeiro  ao  quinto 
anno  juridico  da  Universidade  de  Coimbra,  de  1861  a  1866, 
-sempre  com  a  indicação  «natural  da  Povoa  de  Varzim». 


Nas  informações  que  o  Dr.  Queiroz  prestou  acerca  do 
"nascimento  de  seu  filho,  evitou  determinar  a  data:  «meu 
iilho  nasceu  em  uma  casa,  onde  em  1845  morava  o  meu  fal- 
lecido parente  Francisco  Augusto  Pereira  Soromenho. . .» 
Na  carta  de  sua  mãe  D.  Carolina  Augusta  Pereira  d'Eça, 
também  se  allude  á  data  ignorada.  Tornava-se  necessário 
saber  a  data  do  seu  nascimento,  para  a  lápide  commemo- 
rativa  na  casa  da  Povoa  de  Varzim.  Adoptaram  a  data  de 
1845-1900,  evitando  a  fixação  de  25  de  Novembro,  do  termo 
de  baptisado  de  1  de  Dezembro,  na  egrejade  Villado  Con- 
de. Era  impossível  que  uma  criança  nascida  em  25  de  No- 
vembro de  1845,  fosse  levada  seis  dias  depois  á  pia  baptis- 
mal, no  maior  rigor  do  inverno,  e  na  distancia  que  vae  da 
Povoa  de  Varzim  a  Villa  do  Conde. 

Na  carta  do  Dr.  Queiroz,  de  18  de  Novembro  de  1845  a 
D.  Carolina  d'Eça,  escreve:  «meu  pae  novamente  recom- 


123 


menda  a  creação  de  meu  filho  e  se  me  offerece  para  man- 
dal-o  crear  no  Porto,  em  companhia  de  minha  familia...» 

—  «que  no  assento  de  baptismo  se  designe  ser  meu  filho, 
sem  todavia  se  enunciar  o  nome  da  mãey>.  Tratava-se  pois 
em  18  de  Novembro  de  1845  da  creação  da  criança  no 
Porto,  em  casa  da  familia  do  Dr.  Queiroz,  pois  que  ella 
fora  entregue  á  creação  de  uma  pobre  mulher  do  povo. 

Este  drama  amoroso,  esboçado  no  termo  de  «mãe  incó- 
gnita» e  na  data  equivoca  do  nascimento,  fixaram  os  críti- 
cos, adoptando-se  irreflectidamente  a  data  de  25  de  No- 
vembro de  1845!  O  Prior  de  Villa  do  Conde  José  A.  Fer- 
reira, em  carta  de  6  de  Novembro  de  1906,  escreveu-nos: 

—  «Eça  de  Queiroz  nasceu  em  25/11/1845,  e  foi  baptisado 
em  1.V12/1845,  e  não  em  1845,  como  erradamente  informa- 
ram V.  Ex.*»  Esta  affirmação  tem  sido  repetida  por  quaes- 
quer  biographos  de  Eça.  O  absurdo  põe-se  em  evidencia 
pela  exposição  dos  annos  em  que  Eça  de  Queiroz  fez  os 
exames  preparatórios  para  a  matricula  na  Universidade.  O 
Dr.  Mendes  dos  Remédios  enviou  as  datas  d'esses  exames 
a  Rocha  Peixoto,  por  occasião  da  polemica  da  naturalidade 
de  Queiroz.  Essas  datas  dos  exames,  na  hypothese  de 
Queiroz  nascido  em  1845,  dão-nos  o  seguinte  absurdo: 

1858  —  Exame  de  Instrucção  primaria. 

—  »      de  Francez. 

—  »      de  Latinidade. 

—  »      de  Philosophia. 

(Com  treze  annos  de  idade  (!)  em  1845;  mas  com  15,  por 
ter  nascido  em  1845). 

1859  — Exame  de  Oratória,  com  14  annos;  mas  com  16, 
tendo  nascido  em  1845. 

1860  — Exame  de  Rhetorica  (tendo  17  annos,  (n.  1845); 
exame  de  Physica. 

1861  —Exame  de  Mathematica,  com  18  annos  (n.  1845). 


124 


No  primeiro  de  Outubro  de  1861  matriculou-se  no  1.° 
anno  de  Direito  com  18  annos  de  idade  (e  não  com  16,  só 
permittido  por  portaria  especial). 

Na  biographia  de  Eça  de  Queiroz  que  publicámos  em 
1878  na  Renascença,  pg.  93,  começávamos: 

«José  Maria  Eça  de  Queiroz  nasceu  em  25  de  Novembro 
de  1843,  na  terrível  época  de  represálias  politicas  entre  Se- 
ptembristas  e  Cartistas.  Seu  pae  andava  então  refugiado 
por  Vianna  do  Castello».Não  esclarecemos  mais  o  caso,  que 
nos  foi  communicado,  d'esse  amor  do  Delegado  de  Ponte 
do  Lima,  Dr.  Queiroz,  com  uma  menina  D.  Carolina,  filha 
do  Major  Eça,  residente  em  Vianna  do  Castello,  e  da  criança 
nascida  em  casa  d'esse  seu  amigo,  na  Povoa  de  Varzim. 
A  perseguição  dos  Cabralistas  começou  de  1842  a  1844, 
triumphante  em  Torres  Vedras  e  Almeida.  Em  fins  de  1842 
a  Março  de  1843  andou  o  Dr.  Queiroz  fugido  de  Ponte  do 
Lima,  tendo-se  refugiado  nos  moinhos  da  Quinta  de  Caba- 
nas, na  estrada  de  Afife,  pertencentes  a  D.  Maria  Emilia  do 
Rego  Barreto,  filha  do  general  Luiz  do  Rego,  e  casada  com 
o  juiz  Dr.  Thomaz  de  Aquino  Martins  da  Cruz.  O  facto  da 
Dr.  Queiroz  estar  já  em  1845  em  Ponte  do  Lima,  e  baptisar 
o  filho  em  Villa  do  Conde,  é  o  resultado  da  pacificação 
feita  n'esse  anno  pelo  Ministério  do  Duque  de  Palmella. 


Theophilo  Braga. 


Um  episódio 


No  meio  de  tão  notável  companhia,  como  a  que  é  cons- 
tituída pelo  grupo  de  altas  individualidades  litterarias  que 
collabora  n'esta  homenagem  a  Eça  de  Queiroz,  que  vem 
fazer  a  humildade  do  meu  nome?  Simples  amador  de  al- 
farrábios, não  passo  de  modesto  operário  das  lettras.  Uni- 
camente tenho,  para  o  caso,  a  triste  vantagem  de  ser  ve- 
lho, e,  como  tal,  concorre  em  mim  a  circumstancia  de  ter 
conhecido  e  lidado  com  muita  gente,  alguma  d'ella  illustre, 
como,  por  exemplo,  o  escriptor  egrégio  a  quem  o  presente 
livro  é  consagrado. 

Pois  é  certo;  conheci  e  lidei  com  Eça  de  Queiroz,  esse 
elevado  espirito,  quando  da  efabulação  do  Almanach  Ency- 
clopedico,  editado  pelo  meu  inolvidável  amigo  e  exemplo  a 
editores  portuguezes  António  Maria  Pereira.  Fui  um  dos 
seus  collaboradores  n'aquella  publicação,  o  que  me  appro- 
ximou  do  grande  escriptor,  d'aquelle  cujo  talento  eu  admiro 
como  um  dos  maiores  da  sua  geração.  Pois  com  elle  tra- 
balhei, e  tive  n'essa  epochabem  occasião  de  apreciar  como 
era  altíssimo  o  seu  valor.  Mas,  como  bom  portuguez  que 


126 


era,  tinha  Eça  de  Queiroz  o  portuguezissimo  defeito  de 
não  condizerem  os  seus  actos  com  as  suas  palavras;  de- 
feito que  elle  próprio  notara  nos  nossos  queridos  patrícios, 
como  o  leitor  poderá  claramente  ver  nos  últimos  paragra- 
phos  do  seu  inimitável  romance  Os  Maias. 

Carlos  da  Maia  e  o  seu  amigo  Ega  descem  a  rampa  de 
Santos  em  direcção  ao  Aterro.  Vão  de  conversa,  e  em  meio 
das  suas  considerações  diz  o  Carlos: 

—  Não  vale  a  pena  fazer  um  esforço,  correr  com  anciã 
para  coisa  alguma. 

Proposição  que  o  Ega  confirma,  accrescentando : 

—  Nem  para  o  amor,  nem  para  a  gloria,  nem  para  o  di- 
nheiro, nem  para  o  poder. 

De  súbito,  vêem  ao  longe  a  lanterna  vermelha  do  ame- 
ricano e  ambos  correm  açodados  para  o  apanhar. 

Elles,  que  tinham  acabado  de  dizer  que  não  valia  a  pena 
correr  com  anciã  para  coisa  alguma. . . 

Ora  um  dia,  acompanhava  eu  Eça  de  Queiroz  atravez 
do  Rocio,  n'uma  calma  tarde  de  verão,  quando  o  meu  illus- 
tre  companheiro  me  observou: 

—  Não  comprehendo  que  se  procure  viver  fora  de  Lis- 
boa para  fugir  ao  calor.  Onde  é  que  se  encontra  uma  ar- 
vore que  dê  sombra  equivalente  á  que  dá  um  dos  prédios 
da  Baixa? 

Ora  quer  o  leitor  saber  para  onde  se  dirigia  Eça  de  Quei- 
roz? 

Para  a  estação  da  Avenida,  afim  de  tomar  o  comboio 
que  o  devia  conduzir  a  Cintra,  onde,  para  veranear  e  gozar 
a  sombra  das  arvores,  alugara  uma  vivenda  no  sitio  encan- 
tador dos  Castanhaes. . . 

24  —  3  —  917. 

Henrique  Marques. 


Duas  anecdotas 


Corria  o  anno  de  1883  e  frequentávamos  o  Curso  Supe- 
rior de  Lettras,  installado  no  antigo  convento  de  Jesus,  na 
rua  do  Arco.  Um  dia,  encontravamo-nos  á  porta  d'aquelle 
edificio,  em  amena  cavaqueira  com  diversos  condiscipu- 
los,  o  nosso  professor  Theophilo  Braga,  Eça  de  Queiroz  e 
Christovão  Ayres,  quando  passou  o  alferes  Pitta  de  Castro, 
infeliz  rapaz  que  enlouquecera  por  se  entregar  a  um  exa- 
gerado estudo  das  matliematicas.  Christovão  Ayres  contou 
então,  que  haviam  reformado  este  official,  porque,  sendo 
incumbido  do  rancho  do  regimento,  comprara  grande  quan- 
tidade de  certos  comestiveis  em  logar  dos  habituaes,  e  que 
demonstrara  depois,  mediante  formulas  chimicas,  que  os 
primeiros  tinham  qualidades  nutritivas  muito  superiores  ás 
dos  segundos. 

—  Bem  sei,  atalhou  Eça  de  Queiroz.  Como  teve  uma 
idéa. . .  deram-lhe  baixa! 


Os  vencidos  da  vida  —  que  tanto  barulho  produziram  na 
Lisboa  do  ultimo  quartel  do  século  passado  —  costumavam 


128 


realisar  uns  banquetes  periódicos  no  Hotel  de  Bragança, 
hoje  extincto.  Certa  noite,  depois  de  um  d'esses  opimos 
agápes,  Eça  de  Queiroz,  Ramalho  Ortigão,  Carlos  Lobo 
de  Ávila  e  o  Dr.  Mayer  atravessaram  o  largo  das  Duas 
Egrejas,  e,  ladeando  o  Loreto,  entraram  na  rua  de  S.  Ro- 
<]ue.  Ao  passarem  junto  do  adro  d'este  templo,  Eça  de 
Queiroz  reparou  n'um  sachristão,  que  soUicitamente  dei- 
tava azeite  nos  gonzos  da  porta  de  ferro,  que  veda  o  ac- 
cesso  á  escadaria.  De  monóculo  assestado  na  arcada  su- 
perciliar,  Eça  de  Queiroz  approximou-se  d'elle  e  pergun- 
tou-lhe: 

—  Isto  é  que  são  os  Santos  Óleos?. . . 

Ao  ouvir  semelhante  phrase  herética,  o  sachristão  vitu- 
perou o  insigne  romancista,  que,  juntando-se  aos  compa- 
nheiros, continuou  alegremente  o  seu  caminho. 


Pinto  de  Carvalho  (Tinop). 


A 

-  ^ 

.^.J 

■c- 

e-^^ 

^ 

..^ 

^^  ^^í. 

^<\ 

;''^ 

-A.    cinD.A.iDE    : 

Duas  pâqinas  do  manuscri 


A.    ^  ^^ 


5QRAFO   DESTE   ROMANCE 


1 


Eça  de  Queirós  e  a  ortografia  portuguesa 


Se  o  alvo  capital  de  um  escritor  é  ter  leitores,  Eça  de 
Queirós  atingiu  brilhantemente  esse  alvo,  pois  que  as  suas 
obras  são  largamente  apreciadas  em  Portugal,  e  tanto,  ou 
mais,  o  são  no  Brasil.  Pelo  menos,  numa  estatística,  que  há 
tempos  me  chegou  ás  mãos,  do  movimento  comercial  das 
livrarias  do  Rio-de-Janeiro,  vê-se  que,  em  dada  época,  num 
ano  talvez,  Eça  de  Queirós  foi  o  escritor  português  cujas 
obras  mais  procura  e  consumo  ali  tiveram. 

Assim,  não  me  admira  que  as  últimas  edições  daquelas 
obras,  tipografadas  segundo  a  ortografia  oficial  portugue- 
sa, surpreendessem  desagradavelmente  alguns  apreciadores 
brasileiros  do  romancista  português,  mais  ou  menos  alheios 
a  questões  de  forma  literária.  Explicável  era  a  estranheza,  e 
mais  ou  menos  defendivel ;  mas  o  que  eu  não  supunha  é  que 
um  conhecido  diário  fluminense,  em  seu  n.°  de  13  de  Março 
último  (1917),  a  Viesse  defender  com  razões  e  pretextos. 
que  não  são  aceitáveis.  Verdade  é  que,  dois  dias  depois, 
no  mesmo  jornal,  o  Dr.  Medeiros  e  Albuquerque  contes- 
tava brilhantemente,  como  era  de  esperar,  certas  alegações 

EÇA  DE  QUEIROZ  g 


130 


do  outro  articulista,  que,  não  lendo  assinado  a  sua  prosa,, 
representava  talvez  a  Redacção  da  respectiva  folha.  Mas 
a  contestação  não  abrangeu  todas  as  alegações  infundadas; 
e,  como  o  assunto  interessa  a  todos  nós  que  lemos  e  escre- 
vemos, não  será  ocioso  pôr  ainda  em  relevo  o  que  há  de- 
irracional  e  gratuito  nas  afirmações  do  referido  diário. 

A  atestar  a  própria  incompetência  literária,  o  articulista 
abriu  o  seu  libelo  por  estas  palavras : 

—  «Si  Cadmus,  o  príncipe  phenicio...,  apparecesse  em 
Portugal. . .»  — 

O  articulista  viu  Cadmus  em  francês,  e  imaginou  que  o 
nome  do  príncipe  fenício  se  escrevia  também  assim  em  por- 
tuguês. 

Mas  isso  é  o  menos. 

O  mais  grave,  porque  tem  a  responsabilidade  de  uma  Re- 
dacção que  devemos  supor  séria,  é  fazerem-se  afirmações 
deste  jaez  : 

—  «Sabe-se  porém  que  a  culpa,  si  culpa  ha,  não  é  total- 
mente dos  editores,  apezar  da  manifesta  economia  de  typos, 
e  sim  também  do  governo,  que  prohibe  implicitamente  a 
impressão  de  trabalhos  antigos  ou  modernos  sem  a  ortho- 
graphia  official.»  — 

O  Catecismo  cristão  diz  que  um  dos  pecados  que  bradam 
ao  céu  contra  quem  os  comete  é  contradizer  a  verdade, 
conhecida  por  tal. 

Temos  aqui  o  caso.  A  verdade,  que  deve  ser  do  conheci- 
mento de  todos,  é  que  o  Governo  português,  fora  dos  seus 
estabelecimentos,  nunca  proibiu,  nem  poderia  proibir,  a  im- 
pressão de  trabalhos  antigos  ou  modernos  sem  a  ortografia 
oficial ;  e  é  o  próprio  Governo  que,  nos  seus  próprios  esta- 
belecimentos, tem  autorizado,  e  está  autorizando,  a  reim- 
pressão, e  até  a  impressão  de  trabalhos  antigos,  segunda 
a  primitiva  ortografia  dos  mesmos  trabalhos. 


131 


Aqui  tenho  eu  á  mão,  por  exemplo,  publicados  segundo 
a  ortografia  original  dos  respectivos  autores,  e  por  conta 
do  Governo,  as  seguintes  obras  : 

—  Crónica  da  Tomada  de  Ceuta,  por  Gomes  Eannes  de 
Zurara.  (Edição  de  1916). 

—  Anais  de  Arzila,  crónica  inédita  de  Bernardo  Rodri- 
gues. (Edição  de  1915). 

—  Cartas  de  Afonso  de  Albuquerque.  (Edição  de  1915). 

—  Documentos  das  Chancelarias  Reais,  anteriores  a  1531. 
(Edição  de  1915). 

Etc. 

Mas  a  prova  mais  característica  da  incompetência  do  ar- 
ticulista em  assuntos  ortográficos,  de  que  prudentemente 
nunca  deveria  ocupar-se,  está  neste  seu  trecho,  que  tex- 
tualmente reproduzo : 

—  «De  um  dos  escriptores  mais  em  voga  no  Portugal  de 
agora— Júlio  Dantas  — figurava  ha  dias  num  mostruário  de 
livreiro  a  seguinte  obra:  «Figuras  d*ontem  e  d'hoje».  Acaso 
passou  por  nós  um  literato  de  nomeada  e  muito  amante  de 
cousas  de  philologia.  Perguntámos-lhe  então  si  era  possí- 
vel nos  dar  uma  explicação  do  facto  de  se  supprimir  o  «h» 
de  «hontem»  e  conserval-o  na  palavra  «hoje».  O  illustrado 
brasileiro  falou  no  «Hodie»  e  no  «Heri»  do  latim,  desenter- 
rou quanto  era  raiz  de  linguas  vivas  e  mortas  e,  ao  cabo 
de  tanto,  permanecemos  na  ignorância  dos  motivos  do  titulo 
das  «Figuras  d'ontem  e  d'hoje». . .  — 

Pelo  visto,  o  articulista  nunca  viu  as  razões  da  conser- 
vação nem  da  supressão  do  h  em  hontem  ou  ontem,  e  con- 
sultou um  literato,  amante  de  coisas  de  filologia;  e,  des- 
graçadamente, esse  amante  sabe  tanto  de  filologia  como  o 
articulista,  pois  que  até  relaciona  o  português  hontem  ou 
ontem  com  o  latim  heri,  como  se  esta  palavra  latina,  afora 
o  significado,  alguma  relação  ou  parentesco  tivesse  com 


132 


aquela  palavra  portuguesa !  Também  o  latim  ásinus  signi- 
fica barro,  e  ninguém  suporá,  senão  o  articulista  e  o  tal 
amante,  que  o  Vocábulo  barro  provenha  do  latim  ásinas. 

Exposto  isto,  á  maneira  de  prefação  sugestiva,  vejamos 
a  questão. 


Como  já  referi,  o  Sr.  Dr.  Medeiros  e  Albuquerque  respon- 
deu brilhantemente  ao  desastrado  articulista,  que  acusava 
o  Governo  de  têr  ortografia  oficial,  e  acusava  os  editores 
de  aplicarem  essa  ortografia  ás  obras  de  Eça  de  Queirós. 
Vale  a  pena  reproduzir  algumas  palavras  do  laureado  aca- 
démico brasileiro : 

—«Assim,  si  se  exije  dos  alunos  um  exame  oficial  de  por- 
tuguez  e  si  a  ortografia  é  um  dos  elementos  desse  exame, 
o  governo  deve  ter  uma  ortografia  oficial.  E'  o  que  sucede 
na  França,  na  Alemanha  e  na  Espanha.  O  artigo  da  Noite 
assevera  que  ha  muitos  leitores  de  obras  clássicas,  que  se 
indignam  com  a  alteração  da  ortografia  dos  grandes  escri- 
tores. E  cita  Camilo  Castelo  Branco  e  Eça  de  Queiroz. 

«Si  lá  no  assento  etéreo  onde  subiu 
memoria  desta  vida  se  consente», 

Eça  de  Queiroz  ha  de  divertir-se  muito  com  essa  revelação, 
porque  ele  nunca  fez  cazo  da  ortografia,  e  era  o  primeiro 
a  confessá-lo,  zombando.  Era  ele  que  dizia :  «Eu  sei  que 
em  retórica  ha  um  h,  mas  nunca  sei  onde  fica.. .»  E  tanto 
não  sabia  que,  em  vez  de  rhetorica,  escrevia  sempre  retho- 
rica.  A  ortografia,  pela  qual  tanto  fetichismo  manifestam 
alguns  inocentes  maníacos,  é,  portanto,  a  dos  anónimos  re- 
vizores  do  grande  escritor.  Ninguém  hoje  lê  mais  as  obras 
dos  clássicos  de  todas  as  linguas  na  ortografia  do  tempo 


133 


em  que  eles  as  compuzeram.  Shakespeare,  Camões,  Cor- 
neille,  Racine,  Voltaire,  Montaigne,  todos  continuam  a  ser 
perfeitamente  apreciados,  embora  os  seus  livros  sejam  edi- 
tados com  uma  ortografia  radicalmente  diferente  da  que  08 
seus  autores  uzaram.  Fica-se  com  pena  dos  que  têm  tão 
estreitas  ideias  sobre  a  beleza  literária. . .»  — 

Uma  ligeira  restrição  farei  ao  muito  que  há  de  verdade 
no  ponderado  arrazoamento  do  Sr.  Dr.  Medeiros  e  Albu- 
querque. E'  que  inda  hoje  há,  e  haverá,  quem  leia  as  obras 
dos  clássicos  na  ortografia  do  tempo  em  que  eles  as  com- 
puseram :  são  os  estudiosos  da  evolução  da  lingua,  são  to- 
dos os  que  se  dedicam  a  sérios  estudos  de  filologia  histó- 
rica e  comparada.  Sem  a  referência  ás  genuínas  e  primitivas 
formas  dos  clássicos  franceses,  o  grande  Littré  não  teria 
enriquecido  o  seu  assombroso  Dicionário  da  Língua  Fran- 
cesa com  a  abonação  de  milhares  de  antigos  textos. 

Mas,  para  cá  dos  tempos  clássicos,  i  haverá  vantagem 
em  se  manter  nas  reedições  a  caótica  ortografia  dos  mo- 
dernos escritores  portugueses? 

Por  mais  arrojado  que  pareça,  creio  que  não  é  difícil 
mostrar-se  que,  pelo  menos  na  última  metade  do  século  xix, 
e  no  primeiro  decénio  do  presente  século,  a  lingua  portu- 
guesa não  teve  ortografia. 

Com  ligeiras  modificações,  os  escritores  clássicos  usa- 
vam a  ortografia  do  seu  tempo,  geralmente  simplificada.  Com 
a  influência  francesa  do  século  xviii  e  com  o  advento  das 
Arcádias  e  Academias,  a  simplificação  começou  a  sofrer  o 
etimologismo  dos  padres-mestres,  e  a  grafia  portuguesa  en- 
trou no  período  da  maior  desordem.  Debalde  o  sábio  Ver- 
ney  procurava  manter  a  ordem  e  o  bom  senso  ;  debalde  o 
dicionarista  Morais  se  queixava  de  que  os  maus  usos  lhe 
não  permitiam  grafar  os  vocábulos  simplificadamente,  se- 
gundo as  conveniências  e  as  tradições  da  língua ;  debalde 


134 


o  jurisconsulto  e  pedagogo  Dr.  Borges  Carneiro  procurava 
chamar  o  ensino  público  ás  boas  práticas  nacionais ;  de- 
balde o  famoso  gramático  Soares  Barbosa  reagia  contra  os 
novos  costumes,  escrevendo  a  sua  Gramática  Filosófica, 
(com  F),  em  desrespeito  do  ph  e  mais  grupos  helénicos.  A 
ortografia  tornava-se  um  amálgama  inextricável,  que  re- 
dundou em  escrever  cada  um,  segundo  os  seus  hábitos  ou 
os  seus  caprichos.  A'  parte  Alexandre  Herculano,  que,  em- 
bora etimologista,  era  coerente  e  seguro  nas  suas  normas 
gráficas,  e  á  parte  poucos  mais,  os  escritores  portugueses 
não  tinham  ortografia,  ou  tinham  ortografia  privativa  de 
cada  um  deles. 

Castilho  umas  vezes  simplificava  a  escrita  como  enten- 
dia, e  outras  vezes  a  deixava  ir  á  mercê  dos  seus  secretá- 
rios. Garrett  quase  inventou  uma  ortografia  para  seu  uso, 
subscrevendo  enormidades,  como  entrehabrír,  mattar,  fiim- 
mo,  etc.  Camilo  Castelo-Branco  nunca  se  preocupou  de  or- 
tografias, e,  entre  muitíssimos  erros,  de  que  tenho  nota, 
bastará  citar  estes,  que  parecem  de  um  estudantinho  de 
primeiras  letras :  illucidar,  lyrio,  sidreira,  carnapé,  ophenba- 
chiatio,  anty podas,  etc.  Numa  das  cartas,  com  que  me  distin- 
guiu o  grande  escritor,  vê-se  até  o  verbo  sear,  em  Vez  de  cear! 

Se  dos  profetas  maiores  passarmos  aos  menores,  vê-se  a 
mesma  desordem,  a  mesma  incúria:  —  O  estadista  e  roman- 
cista Andrade  Corvo  dificilmente  escrevia  uma  página  sem 
uma  dúzia  de  erros  de  palmatória.  Outro  escritor,  que  co- 
nhecia exemplarmente  a  língua  portuguesa  e  que  contra  a 
vernaculidade  não  perpetrava  um  deslize,  sendo,  além  de 
tudo,  um  dos  primeiros  jornalistas  do  seu  tempo,  Teixeira 
de  Vasconcelos,  aconselhava-me  paternalmente,  como  dire- 
ctor áo  Jornal  da  Noite,  em  que  eu  também  escrevia  (1875), 
que  não  curasse  de  ortografia  e  deixasse  isso  aos  tipógra- 
fos e  aos  revedores ! 


135 


Com  tais  exemplos,  que  partiam  das  sumidades  literárias 
do  século  XIX  em  Portugal,  se  pode  calcular  o  que  faria  a 
arraia-miúda  dos  literatos,  dos  escrevedores  e  dos  curiosos 
das  letras  :  um  horror,  uma  anarquia  em  toda  a  linha  ! 

Consequência :  pugnarem,  durante  muitos  anos,  alguns 
amigos  das  letras  e  da  língua  pela  normalização  e  unifica- 
rão da  ortografia  portuguesa ;  e  como  os  Governos  têm  a 
seu  cargo  a  direcção  e  a  regulamentação  da  instrução  pú- 
blica, houve  um  Governo  que,  tomando  em  conta  aquelas 
reclamações,  incumbiu  uma  Comissão  de  professores  e  lin- 
guistas de  propor  o  que,  a  tal  respeito,  julgasse  oportuno, 
e  aprovou  a  proposta  da  Comissão,  para  que  ela  se  apli- 
casse desde  logo  às  escolas  e  publicações  oficiais. 

Essa  proposta  constituiu  a  ortografia  oficial  de  hoje,  teve 
a  sanção  da  Academia  das  Sciências  de  Lisboa  e  o  acordo 
da  Academia  Brasileira,  e  está  sendo  geralmente  observada 
entre  os  homens  de  letras  e  na  imprensa  periódica  de  Por- 
tugal. 

d  Andam  bem  ou  andam  mal  os  editores  portugueses, 
aplicando  a  ortografia  oficial  às  reedições  das  obras  de 
Eça  de  Queirós  e  de  outros  escritores  modernos,  já  fale- 
cidos ? 

Vejamos. 


Como  já  observei,  não  há  dúvida  que  aos  filólogos  e  aos 
estudiosos  da  língua, —  mas  só  a  eles,  — muito  importa  que 
as  reedições  dos  livros  clássicos  e  documentos  antigos 
mantenham  a  ortografia  autêntica  do  respectivo  escritor; 
€  só  excepcionalmente  uma  obra  clássica,  embora  publi- 
cada com  ortografia  moderna,  se  imporá  á  leitura  do  pú- 
blico em  geral. 

Quanto  a  obras  modernas,  a  hipótese  é  diferente.  Ao 


136 


passo  que  as  clássicas  representam  geralmente  a  ortogra- 
fia de  uma  época,  e  constituem  portanto  valiosos  elementos 
de  estudo  linguístico,  as  obras  modernas  não  podem,  gra- 
ficamente, representar  uma  época  que  não  tinha  ortografia, 
e  só  representam  a  grafia  individual  dos  seus  autores,  visto 
que,  numa  dezena  de  escritores  do  século  findo,  dificil- 
mente se  nos  depararão  dois,  que  ortografem  igualmente. 
Para  os  estudos  da  língua,  nada  interessam  pois  as  normas 
gráficas  deste  ou  daquele  escritor  moderno,  que  se  não  su- 
bordinou a  um  sistema  geral. 

Mas  o  autor  falecido  tinha  o  direito  de  ortografar  como 
queria  ou  entendia,  e  o  seu  direito  transmitiu-se  certamente 
a  quem  o  ficou  representando,  —  a  família,  os  editores  ou 
o  Estado.  E,  assim,  uma  de  duas :  ou  a  família  mantêm  o 
direito  das  reedições  pelo  prazo  legal,  epode  conservar,  ou 
deixar  de  conservar,  a  grafia  do  autor,  até  porque  ninguém 
poderá  afirmar  que  o  autor,  se  hoje  fosse  vivo,  não  altera- 
ria os  seus  processos  gráficos,  pois  é  corrente  que  muitos 
escritores  do  nosso  tempo,  tendo  sempre  seguido  os  pro- 
cessos que  lhe  apraziam,  seguem  hoje  e  praticam  a  orto- 
grafia oficial ;  ou  os  editores  adquiriram  o  direito  das  re- 
edições, e  esse  direito  não  pode  sêr  restringido  pelas  prá- 
ticas que  o  autor  seguia,  e  que  bem  pode  sêr  que  hoje  não 
seguisse. 

De  maneira  que  os  editores,  mais  ou  menos  louvavel- 
mente, poderão  respeitar  a  desordem  gráfica  do  falecido 
autor;  mas,  se  eles  procuram  naturalmente  a  melhoria  das 
edições,  —  e  essa  melhoria  não  importa  só  a  eles,  senão 
também  á  memória  do  autor,  incontroverso  parece  que  as 
obras  reeditadas  só  terão  que  lucrar,  aplicando-se-lhes  um 
sistema  uniforme,  oficial  e  generalizado,  que  deve  sobrele- 
var sempre  á  falta  de  sistema,  á  incoerência  e  á  anarquia» 
que  caracterizam  a  ortografia  portuguesa  do  século  xix. 


137 


E  depois,  tratando-se  de  Eça  de  Queirós,  cuja  gravata^ 
cujo  chapéu  e  cuja  sobrecasaca  irrepreensível  atestavam 
bom  gosto  e  esmero  no  trajar,  tudo  nos  deixa  crer  que  êle 
facilmente  aceitaria  correcções  gráficas,  se  lhe  mostrassem 

—  o  que  nada  custaria,  —  que  a  sua  linguagem  ficaria  mais 
asseada  e  correcta.  E,  de  facto,  entre  o  asseio  no  trajar  e 
o  asseio  no  escrever,  há  talvez  mais  analogia  do  que  se 
pensa. 

Escoimadas  de  incorrecções  gráficas  e  de  costumeiras 
sem  base  séria,  as  obras  de  qualquer  escritor  só  têm  a  lu- 
crar com  a  ligeira  mas  fundada  alteração  de  aspecto.  O  que 
é  para  lastimar  é  que  as  correcções  dos  revedores  poupem, 
ás  vezes,  certos  dislates,  que  o  próprio  autor  corrigiria, 
se  lhe  chamassem  a  atenção  para  eles. 

Assim  é  que,  na  última  edição  de  A  Cidade  e  as  Serras, 

—  um  dos  livros  mais  bem  feitos  de  Eça  de  Queirós,  —  o- 
revedor  não  teve  a  louvável  ideia  de  corrigir  diversos  dis- 
parates gráficos,  tais  como  estes : 

—  Massuda,  (por  maçada),  pág.  49,  248,  etc. ; 

—  Qiiichote,  (por  Quixote),  pág.  234  e  276; 

—  Colecionar,  (por  eoleccionar),  pág.  307; 

—  Vaca  tourina,  (por  tnriíia),  pág.  242; 

—  Supozessem,  (por  supusessem),  pág.  312; 

—  Deminutivos  em  sínho,  (por  zinho),  a  cada  passo ; 
Etc. 

São  disparates,  que  muita  gente  perpetra,  mas,  por  issa 
mesmo,  mais  dignos  são  da  atenção  de  quem  pode  e  deve 
corrigi-los. 

Tais  deficiências  porém  de  revisão  são  pequenas  jacas 
no  esplendor  daquela  obra,  incontestavelmente  melhorada 
na  sua  ortografia,  quase  totalmente  subordinada  aos  pre- 
ceitos oficiais,  sugeridos  e  mantidos  por  quem,  para  isso,, 
tinha  competência  moral,  profissional  e  técnica. 


138 


A  adaptação  das  reedições  de  obras  modernas  á  ortogra- 
fia oficial  portuguesa,  salvante  de  quem  não  permita  essa 
adaptação,  representa,  em  geral,  sensível  melhoria  para 
€ssas  obras,  e  serviço  incontestável  á  memória  dos  autores. 

Assim  os  adaptadores  saibam  o  que  fazem,  e  corrijam  o 
•que  importa  corrigir. 

Com  vista  aos  editores. 

Lisboa,  1— V— 917. 


Cândido  de  Figueiredo. 


De  entre  os  penates . . . 


De  entre  os  penates  que  contemplavam  o  visitante  do  es- 
criptorio  d'aquelle  brilhante  embaixador  da  Intellectuali- 
dade  Portugueza  na  Suécia  que  foi  António  Feijó,  um  lugar 
saliente  pertencia  a  Eça  de  Queiroz.  Emquanto  que  os  ou- 
tros—João de  Deus,  Guerra  Junqueiro,  Conde  d' Arnoso, 
Alberto  d'01iveira,  etc.  —  appareciam  em  simples  fotogra- 
fias, dispersas  no  aposento,  Eça  de  Queiroz  achava-se  ins- 
tallado  na  meza  de  escrever  do  illustre  diplomata-poeta  sob 
a  forma  d'uma  estatueta  em  bronze,  do  esculptor  Silva  Gou- 
veia. A  figura,  frágil  e  inclinada,  era  a  verdadeira  incarna- 
ção, talvez  um  pouco  caricatural,  d'um  observador. 

E  eis  precisamente  o  que  me  parece  ser  o  traço  caracte- 
rístico d'aquelle  escriptor.  Era  com  a  curiosidade  e  a  exacti- 
dão d'um  sábio  que  elle  estudava  os  casos  que  se  propunha 
tratar.  Isso,  porem,  não  obstava  a  que  a  phantasia  desem- 
penhasse também  um  papel  importantíssimo  nas  suas  obras. 
Era  ella  quem  coordenava  os  dados  recolhidos,  de  maneira 
a  produzirem  o  effeito  d'uma  architectura  sempre  bem  pon- 
derada ;  era  ella  também  quem  ornava  essa  architectura  com 
os  brilhantes  azulejos  de  uma  lingua  requintada  e  pittoresca. 

Stockholmo,  11  de  Março  de  1919. 

GORAN  BjORKMAN. 


Eça  de  Queiroz 


o  que  me  interessa  nos  livros  de  Eça  de  Queiroz  é  o 
próprio  Eça.  Estou  tal  qual  como  aquelle  velho  fidalgo  lis- 
boeta que  dizia  assim:  — E'  uma  pena  que  o  Eça  esperdice 
tanto  talento  a  contar-nos  o  que  se  passa  em  Leiria...  — 
E'  o  Eça,  por  traz  da  S.  Joaneira  ou  por  traz  do  conse- 
lheiro Acácio,  que  me  aflige,  me  surprehende  ou  me  en- 
canta. Como  são  também  as  excrescências  do  Camillo  que 
eu  adoro  em  Camillo  e  os  exageros  do  Fialho  que  eu  adoro 
no  Fialho.  Nas  interrupções,  quando  o  auctor  se  esquece 
e  declama  ou  barafusta,  quando  vem  para  o  tablado  dis- 
cutir, é  que  eu  aplaudo  com  delirio.  Absorvo-me.  Talvez 
a  narrativa  perca,  o  fio  corta-se,  augmenta  a  barafunda. 
Bem  me  importa  a  mim  a  barafunda !  Lá  estão  os  aucto- 
res,  muito  mais  vivos  que  as  figuras  dos  livros.  Já  dizia  o 
outro,  um  romance,  um  poema  ou  uma  álgebra,  são  meras 
explicações  do  universo,  e  eu  todo  me  alvoroço  com  o  que 
o  universo  fez  sofrer  ou  fez  rir  ao  Eça,  ao  Fialho  e  ao 
Camillo,  e  só  me  interessa  deveras  a  maneira  como  elles 
reagiram.  O  que  se  passa  em  Leiria,  ou  o  que  se  passa  n'um 


141 


andar  da  Baixa,  é  efectivamente  uma  insignificância,  não 
por  se  passar  em  Leiria,  em  Paris  ou  na  solidão  do  Monte 
—  mas  por  lhe  faltar  grandeza. 

Por  isso  a  primeira  formula  do  Eça  é  peor  que  a  segunda , 
e  d'ella  só  se  aproveita  o  debate  com  a  ninharia,  e  a  ma- 
neira como  elle  consegue,  para  lhe  dar  alma,  revestil-a  de 
ironia. 

Na  segunda  phase  da  vida  do  Eça  sente-se  a  influencia 
feminina.  Alguém  o  levou  pela  mão  até  á  ternura. . .  Eça  de 
Queiroz  percebe  que  ha  na  vida  coisas  simples,  que  são  as 
coisas  eternas  —  a  pobreza,  a  religiosidade  de  certas  almas 
que  conseguem  imprimir  grandeza  a  ideias  e  a  sentimen- 
tos, que  os  críticos  e  os  philosophos  desdenham.  Passa  en- 
tão a  achar-lhes  sabor  e  encanto,  e  fica  um  tipo  interes- 
sante. Não  sabe  se  ha-de  rir  ou  chorar...  O  ironista  pára 
um  momento  deante  de  nós,  atónito,  e  o  Snob  sae  da  vida 
como  aquelle  Ega  celebre  sae  do  baile  do  Qouvarinho,  ves- 
tido de  Mephistopheles,  com  a  penna  partida  e  o  vermelhão 
a  desfazer-se-lhe  na  cara,  derretido  pelas  primeiras  lagri- 
mas . . . 

Raul  Brandão. 


  adjectivãção  na  Obra  de  Eça 


Na  forma  literária  de  Eça  — /z^  varietur—nm  dos  aspectos 
mais  típicos  do  artista  é  inquestionavelmente  a  meticulosi- 
dade da  adjectivãção.  Bizarra,  preciosa,  imprevista?  Coisa 
alguma  que  assim  mereça  ser  denominada. 

Eça,  como  todos  os  espíritos  de  eleição,  ao  culminarem 
na  dose  da  cultura  que  promana  quer  do  estudo,  quer  da 
análise,  esforçou-se  timbrar  na  simplicidade,  marcando  a 
sua  maneira  de  ser  literária.  A  simbologia  da  «Cidade  e  as 
Serras»  não  é  meramente  um  incidente  moral,  e  circuns- 
crito á  ância  de  repousar  entre  o  que  é  plano  e  sereno,  na 
apaziguação  almejada  que  procura  quem  se  sente  ourado 
da  hiper-civilisação  tedienta  dos  nossos  dias.  Tal  maneira 
de  ser  implica  numa  figura,  como  é  a  do  romancista  da  «Re- 
líquia», com  a  faculdade  de  estilizar  o  que  observa  e  pre- 
sente, e,  portanto,  torturando-se  até  á  morte  para  alcançar 
a  simplicidade,  essa  deusa  esquiva  que  só  linhas  firmes  e 
sóbrias  podem  representar  na  pujança  de  que  se  reveste. . . 

Assim,  pois,  na  adjectivãção  a  que  me  refiro,  constatam-se 
com  encanto,  dentro  da  parcimónia  de  vocabulário  em  que 
ela  se  inscreve,  dois  factos  merecedores  de  reparo. 


143 


São  êles,  primeiro  a  categoria  das  palavras  empregadas, 
de  uso  e  acepção  correntia,  segundo  o  caracter  genuina- 
mente português  que  essas  palavras  encerram  no  seu  signi- 
ficado peculiar. 

Teoricamente  seriamos  levados  a  supor  que  maneira  assim 
de  adjectivar  acarretaria  como  consequência  o  quer  que 
fosse  de  apagado  e  mesquinho.  Comtudo,  a  quem  lêr  Eça, — 
sabendo  lê-lo  —  emergirá  o  dom  especial  com  que  êle  sabe 
determinar-se  pelo  adjectivo  o  mais  adequado  e  o  mais  pró- 
prio dentre  tantos  que  a  sinonímia  oferece.  Faiscam  como- 
jóias  límpidas,  clamam  como  gargantas  sadias,  soam  como 
instrumentos  afinados,  conservando-nos  na  fé  que  não  é  o 
tema  que  faz  realçar  o  pintor,  mas  sim  a  maestria  com  que 
este  pinta. 

Depois,  a  localisação  desses  adjectivos,  sujere-nos  sem 
esforço  a  alma  bela  que  acarinha  a  terra  portuguesa  no  seu 
expressar  cheio  de  cor.  Eça  conseguiu  vibrar  um  piparote 
na  civilisação  que  nos  despaíza,  e  ser,  em  sua  ascenção 
para  a  simplicidade,  o  escritor  que  nos  faz  orgulhar  do  que 
é  nosso,  profundamente  nosso. . . 

1916. 

Severo  Portela. 


S.  Chrisíóvani 


<ILUMINURA   PARA   AS    «LENDAS    DE   SANTOS») 

Monstro  e  menino,  quase  sem  instintos, 
juizo  obtuso,  voz  parada  e  baça, 
foste  qual  urso  que  tristonho  passa 
do  bosque  entre  os  cerrados  labirintos. 

Monstro  e  rapaz,  e  de  cabelos  tintos 
em  sangue,  e  cheio  o  olhar  de  luz  e  graça, 
ergueste  um  pau  e  combateste  em  massa 
por  entre  os  «Jacques^>  rotos  e  famintos ! 

Monstro  e  velho,  depois,  num  áureo  engano 
tal  como  o  <;Saint  Julien-  flaubertiano 
—  sendo  pesado  e  rijo  como  um  tronco,— 

mais  leve  do  que  as  penas  duma  ave 
sobes  a  Deus,  serenamente,  —  e  suave, 
peludo,  feio,  espiritual  e  bronco  ! 


João  Cabral  do  Nascimento. 


El  Maestro 


Uno  de  los  prestígios  que  hace  que  todos  los  artistas 
amen  a  Portugal,  es  el  ser  la  pátria  de  Eça  de  Queiroz,  el 
escritor  moderno,  galano,  comparable  solo  con  Anatole 
France,  el  grande  y  puro  ironista,  descendiente  directo  de 
los  grandes  escritores  castellanos  dei  Siglo  de  Oro. 

La  primera  época  de  la  literatura  de  Eça  de  Queiroz  es 
romântica,  sentimental,  casi  mística;  poço  a  poço  evolu- 
ciona y  aparece  una  segunda  época,  la  de  Prosas  Bárbaras, 
con  una  crítica  mordaz,  demolidora,  contra  los  prejuicios 
de  la  família  y  la  sociedad  de  su  pátria. 

Pêro  Ia  tercera  época,  la  definitiva,  algo  influída  por  Ia 
literatura  francesa,  especialmente  por  Zola,  Flaubert  y 
Balzac,  empieza  la  raiz  de  su  viage  a  Oriente. 

La  visión  de  este  viage  aparece  en  todos  sus  libros;  y 
marca  su  evolución  literária,  amplia,  fuerte,  definitiva  y 
magnífica. 

Para  comparar  a  Eça  con  otro  escritor  peninsular  ten- 
driamos  que  recurrir  a  Mariano  José  de  Larra,  Figaro. 
Ambos  tienen  el  mismo  espíritu  satírico,  superior,  apasio- 

XÇA   Da   (}CKIR0Z  IO 


146 


nado,  enamorado  de  todos  los  adelantos  y  de  todos  los  re- 
finamientos.  Para  nosotros  es  aun  mas  interessante  la  obra 
dei  gran  escritor  português,  por  este  paralelo  que  podemos 
establecer  entre  su  génio  y  el  génio  de  los  escritores  lati- 
nos, especialmente  de  los  grandes  escritores  espanoles ; 
síntisis  de  nuestro  espíritu  peninsular,  que  florece  en  el 
mismo  solar  y  lleva  hacia  tierra  lusitana  el  alma  recia  y  po- 
tente de  Castilla  en  las  vivificadoras  aguas  jordánicas  dei 
Duero  y  dei  Tajo. 

Cármen  de  Burgos. 

cC0I,05!BINE». 


f 


Carta 


Meu  caro  Cardoso  Martha: 

Muito  obrigado  pelo  seu  convite  para  colaborar  na  ho- 
menagem que  você,  meu  amigo,  deseja  prestar  a  Eça  de 
Queiroz. 

Diz  o  Cardoso  Martha,  muito  bem,  que  tenho  obrigação 
de  dizer  alguma  coisa  de  Eça  de  Queiroz,  porque  sou  um 
dos  portuguezes  que  o  leram,  lêem  e  lerão  sempre.  É  certo ; 
e  claro  está,  que  desde  que  o  li,  fiquei  sendo  um  dos  seus 
admiradores,  e,  como  tal,  devo  dizer  da  minha  admiração. 

Não  venho  fazer  critica,  nem  elogiar  a  obra  de  Eça  de 
Queiroz,  apesar  de,  como  disse,  a  ter  lido  e  relido,  porque 
não  é  em  meia  dúzia  de  linhas  que  producto  de  tamanho 
talento  pode  caber,  e  estou  em  dizer,  até,  que  essa  tarefa 
não  cabe  em  parte  nenhuma.  Venho  apenas  lembrar  alguns 
episódios  passados  em  torno  do  grande  romancista,  da  sen- 
sibilidade mais  delicada  posta  no  seu  raro  logar  creador. 

Eça  de  Queiroz  parece  ter  vindo  ao  mundo  para  comple- 
tar um  dos  acontecimentos  mais  extraordinários  que,  em 
conjunto,  se  deu  em  Portugal,  no  século  que  findou.  Todas 
as  qualidades  que  contribuem  para  que  uma  sociedade  possa 
ser  considerada  superior,  conjugadas  nas  Sciencias,  nas 


148 


Artes  e  nas  Letras,  acontecimento  que  no  seu  maior  apo- 
geu se  verificou  no  reinado  do  Senhor  D.  Luiz.  — E,  se  não, 
vejamos.  Nas  Sciencias,  onde  alguns  dos  seus  homens  se 
salientaram  por  mais  de  uma  aptidão,  foram  mestres  nas 
escolas,  na  imprensa  e  na  politica :  Visconde  de  Vila  Maior, 
Filipe  Folque,  José  Estevão,  Pereira  da  Costa,  Fradesso 
da  Silveira,  Andrade  Corvo,  Luiz  d' Almeida  Albuquerque, 
Latino  Coelho,  Manuel  Bento  de  Sousa,  Sousa  Martins, 
Serpa  Pimentel,  Barbosa  du  Bocage,  António  Augusto  de 
Aguiar,  Agostinho  Vicente  Lourenço,  Henrique  de  Macedo, 
Conde  de  Ficalho,  Thomaz  de  Carvalho,  Fontes  Pereira  de 
Mello,  Emygdio  Navarro,  Teixeira  de  Vasconcellos,  Eduar- 
do Coelho,  Mariano  de  Carvalho,  José  Júlio  Rodrigues, 
Barjona  de  Freitas,  Francisco  Ponte  Horta,  Matoso  dos 
Santos,  Ressano  Garcia,  Adolpho  Coelho,  etc. 

Nas  Artes,  foram  os  seus  grandes  representantes :  Lupi, 
Anunciação,  Pae  Bordallo,  Christino  da  Silva,  Alfredo  de 
Andrade  (1),  Silva  Porto,  Soares  dos  Reis,  Victor  Bastos, 
Pousão,  Raphael  Bordallo  Pinheiro,  Maria  Augusta,  Ma- 
nuel de  Macedo,  António  Ramalho  e  Alfredo  Keil. 

Visto  que  fallo  de  tão  grandes  artistas  da  nossa  terra,  e 
da  mesma  pátria  onde  nasceram  Machado  de  Castro,  os 
Vieiras  e  Sequeira  (2),  grandes  não  só  em  Portugal,  mas 


(1(  Pintor  e  archltecto,  sabedor  sobre  archeologla  artística,  foi  pro- 
fessor na  Itália.  Reconstituio,  nesse  grande  paiz  das  artes-  em  Turim— 
uma  villa  medieval,  e  por  isso  e  outros  merecimentos  de  que  a  Itália 
tanto  aproveitou,  lhe  foi  dado  o  titulo  de  Cavallelro  de  Turim.  Na  pátria 
de  Dante  e  de  Miguel  Angelo,  por  toda  a  Itália,  quando  se  discutiam 
obras  artísticas,  para  as  quaes  se  chamava  sempre  a  opinião  de  Alfredo 
de  Andrade,  acabavam-se  as  contendas  com  a  seguinte  sentença : 

Andrade  lo  dice.  —  Também  tive  a  satisfação  de  conhecer  pessoal- 
mente este  grandeartlsta ! 

(2)  Refiro-me  somente  aos  maiores  do  século  xvni,  aos  da  segunda  re- 
nascença em  Portugal. 


149 


em  qualquer  nacionalidade,  fallo-lhes  dos  actores  seus  con- 
temporâneos, gente  de  theatro,  que,  certo  do  que  digo,  ne- 
nhum paiz  logrou  ter  melhor  : 

Manuela  Rey,  Tasso,  Emilia  das  Neves,  Epiphanio,  Teo- 
dorico,  César  de  Lima,  Santos  Pitorra,  Emilia  Adelaide, 
Taborda,  António  Pedro,  Leone,  Ribeiro,  Delfina,  Barbara, 
Rosas,  Rosa  Damasceno,  Furtado  Coelho,  Polia,  Valle  e 
ainda  outros. 

Da  maior  parte  delles  que,  com  presumpção  o  digo,  vi 
representar,  inda  hoje,  quando  vou  ao  theatro,  continua- 
mente me  recordo.  De  Taborda,  um  dos  mestres  do  Thea- 
tro Portuguez  — como  em  França  foi  do  Theatro  Francês  o 
actor  Vormes  —  que  eu  vi  representar  com  a  mesma  admi- 
ração com  que  o  povo  de  Christo  escutava  o  Evangelista 
S.  João,  fui  eu  despedir-me,  quando  tive  a  fatal  noticia  da 
sua  morte. 

Num  andar  modesto  de  uma  casa  da  rua  do  Diário  de  No- 
ticias (hoje  n."  52),  esquina  dos  Fieis  de  Deus,  num  quarto 
onde  mal  cabia  o  funéreo  caixão,  de  madeira  somenos,  mal 
emalhetado,  salpicado  de  flores,  meu  caro  Martha,  não  tive 
bem  a  impressão  da  cruel  verdade,  e  a  sceiía  pareceu-me 
das  «Medicas»,  dessa  peça  em  que  Taborda  nos  convencia, 
pela  lividez  e  prenúncios  de  morte,  que  estava  a  partir 
desta  vida  e  que,  momentos  depois,  o  actor  agradeceria,  en- 
tre ruidosos  aplausos,  esse  extraordinário  desempenho,  que 
elle  soube  interpretar  e  que  com  elle  morreu  para  todo  o 
sempre.  Estive  para  lhe  dar  palmas  mais  de  uma  vez  e,  se  o 
não  fiz,  é  porque  não  as  compreenderiam  algumas  das  pes- 
soas que  resavam  em  volta  do  ataúde. 

Da  orladura  genial  de  que  fazia  parte  Eça  de  Queiroz,  e 
que  envolveu  a  obra  litteraria  desse  tempo,  basta  citar : 
Alexandre  Herculano,  Júlio  Diniz,  Rebello  da  Silva,  Gar- 
rett, Camillo  Castello  Branco,  Anthero  de  Quental,  João 


150 


de  Deus,  Bulhão  Pato,  Costa  Lobo,  Ramalho  Ortigão,  Oli- 
veira Martins,  Júlio  César  Machado,  Fialho  de  Almeida, 
Gonçalves  Crespo,  João  Penha  e  Visconde  de  Castilho. 

Como  vê,  só  recordo  os  grandes,  que  já  não  vivem,  figu- 
ras das  mais  proeminentes  e  que  tanto  fizeram  luzir  esses 
vinte  e  oito  annos  de  trabalho  e  de  tantos  encantos  obje- 
ctivados pela  Arte  de  Escrever. 


Conheci  Eça  de  Queiroz  quando  elle  inda  ia  aos  restan- 
rants,  quando  esse  grande  observador  estudava,  creio  eu, 
não  só  a  maneira  de  passar  as  noites  em  Lisboa,  mas  tam- 
bém a  gente  que  os  frequentava.  As  tabernas  mais  polidas 
do  tempo  —  além  da  que,  com  razão  se  orgulhava  com  este 
qualificativo:  «Taberna  Ingleza»  — eram:  o  Silva  (Restau- 
rani  Club),  o  Augusto  e  os  cafés:  Marrare,  Martinho  e  Mon- 
tanha. 

Por  aí  o  vi,  e,  algumas  vezes,  tendo  eu  por  companheiro 
um  seu  irmão  mais  novo,  creatura  muito  interessante,  Car- 
los Alberto  Eça  de  Queiroz,  com  quem  muito  me  dei  e  de 
quem  me  recordo  com  saudade. 

Eça,  para  todos  os  episódios  que  surgiam  entre  os  fre- 
quentadores, sobre  tudo  quando  apareciam  melhor  ou  peor 
acasalados,  metia  o  monóculo,  levantava  a  cabeça,  e  com 
certo  ar  de  perscrutação,  levemente  escarnecedor,  fran- 
zindo todo  o  rosto,  parecia-nos  admirado,  cheio  de  sur- 
preza!  Não  era  ao  tempo  Vencido  da  Vida,  não  frequentava 
a  sociedade,  era  um  demolidor,  como  foi  Ramalho  Ortigão, 
mas  com  a  diferença  que  este,  quando  sacudia  um  edificio, 
punha  triumphantemente  a  mão  na  cintura  e  marchava  a 
tratar  de  outro  assumpto.  Eça  de  Queiroz  via  primeiro, 


CO 

< 
cu 

UJ 


-J 

u 

< 

o 

3 

D 

u 

H 

2 

Qí 

O 

S 

CL 

tu 

u 

Qí 

Q 

O 

H 

O 

H 

5 
u 

CO 

<" 

u 

Z  N 

ss 

o 

Q 

w   ^ 

< 

<  5 

U 

z 

Dí  O* 

Q 

^  w 

PQ 

UJ 

o; 

o 
C/3 

iU 
Q 

lU 
Q 

z 

o 
O 

lU 

Q 
< 


UJ 


Q 

< 

o 
z 

o 

Q 

z 
< 

Q 
Z 

UJ 
IX 
UJ 

S 


151 


com  requintada  ironia,  qual  das  escoras  fazia  mais  falta  á 
edificação  e  era  essa  que  lhe  tirava ;  ver  cair  a  abobada, 
desmoronar  toda  uma  catedral. 

Quando  da  inauguração  dos  quadros  do  «Leão  de  Ouro», 
Eça  de  Queiroz  entrou,  cheio  de  curiosidade.  Desta  vez  o 
monóculo  era  seguro  pela  phisionomia  concordante,  cheia 
de  sorrisos  de  aplauso.  Pouco  depois,  se  bem  recordo,  apa- 
recia nas  livrarias  uma  das  maiores  obras  de  Eça  de  Quei- 
roz «Os  Maias»,  e  neste  mesmo  café  Restaurant  da  rua  do 
Príncipe,  na  mesa  dos  artistas,  aquella  por  baixo  dos  azu- 
lejos de  Raphael  Bordallo,  onde  frequentemente  se  senta- 
vam: Silva  Porto,  Columbano,  Malhoa,  Vieira,  Girão,  Hen- 
rique Pinto,  Braz  Martins,  António  Ramalho,  João  Vaz, 
Christino,  Alberto  de  Oliveira,  Brito  Monteiro,  Qualdino 
Gomes,  Evaristo  Ramalho  e  o  celebre  caricaturista  —  eu 
ouvia  ler  a  Bulhão  Pato  a  sátira  a  Eça  de  Queiroz,  por  o 
auctor  da  «Paquita»  se  julgar  atingido  numa  das  figuras  d'a- 
■quelle  grosso  romance,  que  tanto  tem  que  ler  e  tanto  deu 
que  fallar. 

Pois  o  menino  bonito  de  Alexandre  Herculano  (1),  ao 
terminar  a  leitura,  num  aparte  ponderado  de  reticencias, 
com  mirada  penetrante,  olhou-me  e  disse:  — «Deixa-o,  este 
está  amanhado!». . . 


Como  é  sabido,  não  foi  do  agrado  de  todos  a  colocação 
do  monumento  a  Eça  de  Queiroz  no  Largo  do  Barão  de 


(1)  Desculpe,  meu  caro  Martha,  mas  este  seu  amigo  n.^o  gosta  de  di- 
zer enfattt  gàté  ;  e  por  saber  que  B.  Pato  foi  fazer  lõ  annos  a  casa  do 
grande  escriptor,  e  por  ter  sido  por  eUe  mimadissimo,  chamo-lhc  menino 
bonito  d'aquelle  enorme  portuguez. 


152 


Quintela.  Essa  obra  artistica  de  boa  esculptura,  modelada 
por  Teixeira  Lopes,  inspirada  na  profunda  frase,  gravada 
no  mesmo  monumento:  «Sobre  a  nudez  forte  da  Verdade  o 
manto  diaphano  da  phantasia»  —  Verdade  cujas  mãos  Tei- 
xeira Lopes  concluiu  no  mesmo  logar  onde  se  encontra  o 
monumento,  ás  quaes  alvares  por  mais  de  uma  vez  têem 
partido  os  dedos,  apedrejando  duas  coisas  sagradas  da  hu- 
manidade :  o  Trabalho  e  o  Respeito  —  essa  obra  só  se  jus- 
tifica alli,  se  é  verdadeiro  o  dizer  que  se  atribue  ao  próprio 
Eça.  Soube-o  no  próprio  dia  da  inauguração,  no  momento 
era  que  as  sentidas  palavras  de  Ramalho  Ortigão  disseram: 
«Só  me  avantajei  a  elle  numa  coisa :  na  edade».  E  disse 
deste  modo,  de  cima  do  mesmo  estrado  donde  António  Cân- 
dido, o  Conde  de  Arnoso  e  outros  oradores  fizeram  o  elo- 
gio do  morto  !  —  Versava  a  discussão  sobre  o  local  esco- 
lhido, que  não  podia  ser  mais  impróprio  para  apreciar  um 
monumento,  vista  a  impossibilidade  de  o  observar  de  um  só 
plano.  De  facto  não  ha  possibilidade  de  uma  comparação 
de  linhas,  de  grandeza,  de  composição,  de  acabamento,  visto 
não  poder  rodear-se  esse  grupo  esculptural  sempre  da  mes- 
ma altura  do  terreno.  A  diferença,  então,  é  extraordiaria^ 
se  quizermos  ver  os  dois  flancos  do  monumento  sul-norte, 
atendendo  a  que  o  primeiro  só  pode  ver-se  de  baixo  para 
cima,  e  o  segundo  de  cima  para  baixo  e  com  grande  dife- 
rença de  posição  no  que  respeita  a  planos. 

Quanto  a  mim,  não  tenho  memoria  de  outro  desconcerto 
egual,  porque  nem  o  fundo  verde,  lisongeiro  para  o  monu- 
mento, está  com  arbustos  europeus:  é  feito  por  uma  anti- 
pática palmeira,  permitindo  a  pergunta  aos  que  vierem 
mais  tarde,  se  Eça  de  Queiroz  morreu  em  Africa.  Como  já 
frisei,  o  que  desculpa,  até  certo  ponto,  o  estar  o  monumento 
ao  auctor  da  Relíquia  onde  está  — evidentemente  mal  — é 
o  facto  de  alguém  da  comisão  que  tratou  de  erigir  o  grupa 


153 


em  pedra,  de  que  faz  parte  o  grande  romancista,  ter  respei- 
tado o  pedido  de  Eça  de  Queiroz,  feito  ao  pé  de  uma  gran- 
de parte  dos  Vencidos  da  Vida,  depois  de  um  jantar  cheio 
de  alegria  e  de  espirito,  para  ser  ali  colocado  o  seu  monu- 
mento. Não  obstante  toda  a  ironia  da  recomendação,  o  Eça 
lá  está. 

Foi  isto  que  me  segredaram  no  dia  em  que  se  puseram  á 
vista  do  publico  o  busto  de  Eça  de  Queiroz  e  a  figura 
de  mulher  que,  sem  hypocrisia,  se  lhe  entrega  —  uma  das 
obras  mais  delicadas  de  Teixeira  Lopes. 

Eu  sou,  meu  amigo,  dos  felizes,  que  tiveram  a  amizade 
e  as  lições  de  Ramalho  Ortigão  — Fialho  de  Almeida  dis- 
se-me  uma  vez:  «Foi  elle  que  nos  ensinou  a  fazer  critica» 
—  orgulho-me  de  lhe  dizer  que  tive  também  o  seu  aplauso 
sempre  que  lhe  pedi  o  seu  nome  para  o  inicio  de  alguma  das 
coisas  que  estavam  por  fazer  sobre  arte  entre  nós,  e  que 
felizmente  frutificaram.  Entre  outras,  para  as  quaes  elle  nãa 
só  deu  o  seu  nome,  mas  trabalhou  com  affinco,  notarei  a 
organisação  do  Grémio  Artistico,  hoje  Sociedade  Nacional 
de  Bellas  Artes,  e  a  Exposição  de  Mobiliário  Artistico,  obra 
do  grande  entalhador  Leandro  Braga,  que  com  êxito  se 
efectuou  no  palácio  dos  Marquezes  da  Foz,  cujas  salas  ha- 
viam sido  decoradas  com  trabalhos  de  estilo  pelo  mesmo 
esculptor  da  madeira. 

Ramalho  Ortigão  encontrava-se  sempre,  ao  domingo,  na 
sua  mansarda  dos  Caetanos,  feliz,  escrevendo,  lendo  ou 
dispondo  melhor  algum  dos  seus  objectos  de  estimação» 
para  que  elle  olhava  com  entusiasmo  e  com  sofreguidão  até. 
Qualquer  dessas  coisas  era  para  esse  homem,  verdadeira- 
mente portuguez,  uma  grande  parte  do  seu  bem  estar  e  or- 
gulho se  a  obra  era  genuina  portugueza.  Olhava  com  tanto 
desvanecimento  um  quadro  de  Silva  Porto,  artista  que  elle 
tanto  exaltou  logo  depois  da  sua  volta  de  Paris  e  da  Itália, 


154 


■depois  dos  estudos  lá  por  fora,  como  para  o  trasfogueiro 
da  chaminé  de  aquecer,  forjado  pelo  ferreiro  transmontano. 

Numa  dessas  tardes,  em  que  Ramalho  Ortigão  festejava 
um  lindo  cálice  de  vidro  de  alguma  das  nossas  fabricas 
doutro  tempo,  com  essa  espiral  a  cores,  subíamos  a  escada 
dos  Caetanos,  a  mesmg  que  nos  levava  á  moradia  de  Oli- 
veira Martins,  que  também  tive  a  satisfação  de  conhecer 
pessoalmente,  com  a  seguinte  pregunta :  Qual  dos  livros 
de  Eça  de  Queiroz  elle  preferia?  Respondeu  sem  hesitar  o 
escriptor  das  «Farpas»,  o  mais  intimo  companheiro  do  au- 
■ctor  da  «Cidade  e  as  Serras»,  do  seu  colaborador  no  «Mis- 
tério da  estrada  de  Cintra»:  —  «Os  Maias». 

O  exagerado  desejo  de  saber  a  opinião  do  mestre  a  tal 
respeito  resultava  de  uma  cavaqueira  da  véspera,  a  uma 
mesa  do  Martinho,  em  que  a  mór  parte  dos  votos  davam  de- 
■cisões  bem  contrarias  á  que  trouxe  do  espontâneo  dictamen 
de  Ramalho  Ortigão. 

E  aqui  tem,  meu  caro  Martha,  embora  tão  pobremente, 
cumprida  a  minha  promessa  de  ha  mais  de  um  anno. 

Do  seu  Admirador,  que  muito  bem  lhe  deseja, 

José  Queiroz. 


Duas  camisas 


Todos  se  recordam  de  que  A  Relíquia,  de  Eça  de  Quei- 
roz, foi  pensada  e  escrita  sobre  a  troca  casual  de  dois  em- 
brulhos, um  sagrado,  outro  profano,  guardando  a  coroa  de 
espinhos  do  Salvador  e  a  camisa  de  dormir  de  Miss  Mary, 
florista  e  cortesã  de  Alexandria. 

Na  hora  amarga  da  partida  do  Hotel  das  Pirâmides,  fora 
aquela  camisa  a  sua  última  carícia  ao  possante  Teodorico, 
dizendo-lhe  a  soluçar  : 

«Dou-t'a,  Theodorico!  Leva-a,  Theodorico!  Ainda  está 
amarrotada  da  nossa  ternura ! . . .  Leva-a  para  dormires  com 
ella  ao  teu  lado,  como  se  fosse  commigo. . .» 

Alguns  anos  anles,  quando  Maurice  Rollinat  lançou  ao 
mundo  o  grito  das  Névroses,  numa  poesia  em  febre,  cha- 
mada La  Relique,  era  celebrada  Berthe,  la  sirene  aiix  pieds 
blancs  conirne  du  jeune  ivoire,  deixando  ao  poeta  o  penhor 
quente  da  sua  camisa  de  dormir,  porque  ia  honestamente 
casar-se  com  outro  homem. 


156 


Nestes  termos  comovedores  acompanha  a  entrega  da  se- 
creta alfaia : 

«yie  te  la  do  tine,  ami,  ma  chemise  brodée: 
Car,  la  première  fois  que  tu  m'as  possédée, 

Je  la  portais,  fen  souviens-tu? 
Elle  seule  a  connu  les  brulantes  ivresses 
Que  ta  voix  musicale  et  pleíne  de  caresses 

Faisait  courir  datis  ma  vertu.^ 

Depois,  lialmente  esclarece,  sem  rodeios,  tudo  quanta 
dentro  e  á  roda  da  dita  camisa  se  fora  passando  e  a  inveja 
do  amigo  leitor  facilmente  imagina,  continuando  a  embru- 
lhar nela  o  último  adeus  : 

«Conserve-la  toujours!  Qu'elle  soit  pour  ton  âme 
La  chair  mystêrieuse  et  vague  de  lafemme 

Qui  te  voue  iin  ciilte  éternel; 
Qu'elle  soit  Voreiller  de  tes  regreis  moroses, 
Quand  tu  la  baiseras,  rouge  aux  nudités  roses 

Quifurent  tonfestin  chamei h 

*  Que  les  parfums  ambrês  de  ma  peau  qui  Vitnprègnent 
Pour  l' odorai  subtil  de  tes  rêves,  y  règnent 

Candides  et  luxurieux! 
Qu'elle  garde  à  jamais  Vempreinte  de  mes  formes  í 
J'ai  dit  à  mon  amour:  <*J'exige  que  tu  dormes 

Entre  ses  plis  mystérieux.y> 

Nada  conta  a  biografia  de  Eça  de  Queiroz  sobre  a  sua 
camaradagem,  amizade  ou  simples  admiração  por  Maurice 
Rollinat ;  muito  menos  elucidam  esse  ponto  as  memórias 
vermelhas  do  poeta  francês,  autor  de  La  Relique. 

i 


157 


Mas  parece  poder  acreditar-se  que  a  longa  camisa  de  ren- 
das com.  laços  de  seda  clara,  aparecida  na  cama  de  Alexan- 
dria, exalando  um  aroma  saudoso  de  violeta  e  d'amor,  fosse 
do  costureiro  e  do  modelo  parisiense  da  chemise  hrodée  dos 
versos  de  Rollinat.  Berthe  e  Miss  Mary  aparecem-nos  como 
duas  mulheres  finamente  amadas,  tão  semelhantes,  tão  ir- 
mãs no  pensamento  e  no  desejo  do  poeta  e  do  prosador^ 
que  nos  tentámos  a  verificar  mais  uma  vez  o  paradoxo  de 
que  nada  aproxima  tanto  dois  homens  como  a  mesma  mu- 
lher amada. . . 

Topsius,  o  profundo  companheiro  de  Teodorico,  tornado 
hoje  numa  poeira  erudita,  já  não  pode  valer-nos  para  des- 
vendar este  impenetrável  problema  de  origens,  em  que  até 
cabe  a  hipótese  maligna  de  supôr-se  que  Berthe  em  Paris, 
seja  Miss  Mary  em  Alexandria,  com  o  andar  dos  anos  e  o 
desandar  dos  fregueses. 

Se  êle,  o  sábio,  fosse  vivo,  aos  seus  óculos  sagazes  pe- 
diríamos, por  exemplo,  que  tentassem  descobrir  na  marca 
das  duas  camisas,  a  identidade  da  linda  pecadora  que  as 
vestiu.., 

Hipólito  Raposo. 


A  Obra  póstuma  de  Eça  de  Queiroz 


Em  1911  escrevíamos  num  jornal  logo  extinto,  noticiando 
a  próxima  publicação  das  Ultimas  páginas: 

E'  curioso  que  ao  ter  de  dar  aos  leitores  uma  grande 
nova  literária,  o  faça  com  melancolia,  quási  com  amargura. 
Tam  certo  é  que  as  consolações  da  existência,  ainda  estas 
da  Arte,  «a  única  flor  da  Vida»,  são  eivadas  muita  vez  dum 
travor  singular...  A  notícia  que  desejo  dar-lhes  é  esta: 
dentro  dum  mês  deveremos  ter  á  venda  as  Ultimas  páginas^ 
de  Eça  de  Queiroz,  livro  admirável,  inédito  e  á  parte  na  sua 
obra.  E  se  por  um  lado  se  alvoroça  a  minha  curiosidade  li- 
terária, e  vou  sentir  o  encanto  incomparável  de  ler  todas 
essas  páginas  (e  de  reler  as  que  já  me  foi  dado  avidamente 
conhecer),  por  outro  passa  em  mim  esta  nevoenta  tristeza: 
são  os  últimos  manuscritos  de  Eça  de  Queiroz  !  Parece  que 
o  extraordinário  artista,  deixando-nos  para  agora  este  seu 
livro  inédito,  como  um  tesoiro  escondido  das  «Mil  e  uma 
noites»,  nos  quis  dar,  com  uma  satisfação  suprema,  uma 
dolorosa  saudade. 


159 


Ninguém  trabalhou  com  mais  graça  a  prosa  portuguesa . 
Outros  teem  possuído  mais  ritmos,  maior  opulência  verbal, 
sintaxe  mais  lusitana  e  mais  válida;  nenhum  o  excedeu  em 
bom  gosto  (como  outrora  a  Garrett),  em  scintilações  dfr 
humorismo,  na  harmonia  lenta  e  vaga,  na  cultura  amorosa 
da  imagem,  que  êle  trata  como  se  cuidasse  das  flores  dum 
jardim  encantado.  Nas  combinações  desse  criador  de  Be- 
leza,—  sem  preciosismos,  sem  parnasianismos— ,  a  palavra 
ganhou  novo  viço,  como  se  fosse  uma  já  gasta  moeda  que 
êle  cunhasse  de  novo.  Deu  a  um  lexicon  às  vezes  maltra- 
pilho foros  de  idioma  rico;  soube-o  vitalizar,  criar-lhe  ou- 
tra expressão  cheia  de  frescura  é  leveza.  Fez  entrar  o  vo- 
cabulário pobre  no  salão  das  nossas  Letras  —  expressivo, 
sugestivo,  todo  vestido  de  novo.  Porque  as  palavras  pare- 
cem feitas  de  cera,  para  cada  grande  artista  as  moldar  di- 
versamente nas  mãos  felizes  e  criadoras. . . 

E  cada  vez  o  escritor  foi  sendo  mais  perfeito,  mais  opu- 
lento, com  mais  amplitude,  mais  ar,  mais  sonho  e  ritmo.  A 
língua  enriquecêra-se-lhe  no  cultivo  dos  clássicos,  mas 
nunca  perdeu  o  caracter  pessoal,  esse  ^a/ú?  indefinível  a  que 
chamamos  estilo,  um  relevo  muito  seu,  elegante,  sem  me- 
neirismos,  e  porventura,  nas  páginas  derradeiras,  mais  so- 
beranamente formosa. 

Diante  do  novo  livro  de  Eça  de  Queiroz  não  podemos 
furtar-nos  á  impressão  que  nos  daria  um  incêndio  que,  pou- 
pando uma  galeria  de  Velasquez,  devastasse  nas  rajadas  de 
fogo  telas  de  primitivos,  de  que  apenas  nos  ficassem  alguns- 
frescos  imortais...  Esse  incêndio  é  o  da  Morte,  a  ceifeira 
negra  e  misteriosa.  Deixou-nos  a  obra  naturalista  de  Eça, 
mas  roubou-nos,  em  grande  parte,  a  obra  de  idealismo,  de 
imaginação  e  de  candura,  que  o  próximo  volume  iniciava. 
Deixou-nos  as  rosas  púrpuras,  as  orquídeas  elegantes,  as 
dálias  o  seu  tanto  artificiais,  (outrora  tam  queridas  do  mes- 


160 


tre  como  o  perfume  forte  da  lúcia-lima) ;  mas  secou-nos  as 
flores  modestas  da  piedade,  da  humildade,  da  renúncia. 
Deixou-nos,  emfim,  os  quadros  da  Vida  contingente  e  efé- 
mera, e  as  figuras  da  scena  quotidiana,  que  só  a  Arte  tem 
condão  de  imortalizar ;  e  levou-nos  aquele  pedaço  de  so- 
nho e  de  vida  enigmática,  cuja  serenidade  é  como  a  das 
funduras  do  oceano,  onde  de-certo  estarão  os  germens  mais 
puros  da  vida. 

De  Eça  ficou-nos  a  obra  revolucionária,  a  obra  demoli- 
dora, evidentemente  grande  ;  mas  quási  se  perdeu  a  obra 
augusta  de  reconstrução  e  de  amor,  cujas  páginas  alvora- 
cem, como  um  lindo  dia  de  Maio,  na  Cidade  e  as  Serras. 

O  novo  livro  no  prelo  tem  duas  partes.  Uma  delas  — i4r- 
tigos  diversos— é,  como  tudo  do  autor,  uma  maravilha.  Eça 
é  aí  o  crítico  e  o  humorista  que  sabemos,  o  cronista  cujo 
valor,  entre  outros  volumes,  as  Noías  Contemporâneas  gra- 
varam duma  forma  indelével,  e  que  ninguém  excedeu  em 
brilho,  em  espírito,  e  naquela  maneira  da  vestir  a  erudição 
«  a  historia  das  roupagens  mais  deliciosamente  leves  e  de 
mais  nobres  linhas.  Mas  há  outra  parte,  e  vasta,  que  é  a 
fundamental  do  volume  :  Lendas  de  Santos  (S.  Christó- 
vam,  Santo  Onofre,  S.  Frei  Gil).  E'  esse  o  livro  novo ;  é 
aí  que  o  Artista  é  outro :  um  grande  pintor  de  frescos  á 
Fra  Angélico,  sem  a  candura  ingénua  e  sem  a  fé  escaldante 
do  visionário  de  Fiésole,  naturalmente,  mas  em  que  vito- 
riosamente se  sente  o  poeta,  alumiando  as  almas  com  outra 
lanterna  mágica,  que  é  a  do  lume  eterno  da  bondade  e  do 
amor.  E  é  sempre  consolador  anotar  isto :  que  a  poesia  é 
a  senhora  invisível  do  mundo,  e  que  é  a  estrela  antiga  que 
mais  encaminha  ainda  o  olhar  triste  dos  homens.  Através  de 
todas  as  convulsões,  em  meio  de  todos  os  egoísmos,  é  ela 
a  única  flor  imorredoira.  E  poesia  quer  dizer  amor,  quer 
dizer  justiça— e  uma  infinita,  trasbordante  piedade.  O  resto 


161 


é  tumarada,  ás  vezes  resplandecente  como  as  nuvens  de 
oiro.  A  Arte  mais  bela  será  de  certo  a  que  tiver  a  alumiar- 
Ihe  a  forma  esbelta  e  pura,  lume  que  nos  aqueça  no  meio 
deste  frio,  música  que  embale  a  todos  os  que  vamos  na 
verdadeira  onda  humana;  e  essa  onda  é  a  dos  que  teem  um 
grande  sonho,  de  todos  os  que  teem  fome,  de  todos  os  que 
«scutam  amorosamente  os  gemidos  cansados  dos  que  avan- 
çam nobremente  na  vida. . . 

E'  claro  que  Eça  de  Queiroz  não  nos  aparece  agora,  inte- 
gro e  lapidar,  como  por  milagre,  sem  raízes  que  o  prendam 
á  sua  obra  anterior.  Essa  florescência  de  mistério,  de  ima- 
ginação, de  poesia,  palpita  romanescamente  revolta  nas 
Prosas  bárbaras;  mas  neste  regresso  aos  seus  amores  pri- 
mitivos, e  ao  fundo  mesmo  da  sua  consciência  estética, 
houve  um  largo  estádio  percorrido,  que  cristalizou  divina- 
mente as  emoções  e  as  formas.  O  apologista  de  Courbet 
nas  conferências  do  Casino  faria  agora  o  panegírico  dum 
Memling,  sem  todavia  perder  o  poder  evocativo  dum  prodi- 
gioso reconstrutor  de  épocas  extintas,  á  Flaubert  (já  visto 
na  Relíquia),  mas  tocando  tudo  de  outra  luz,  com  um  adorá- 
vel lirismo  português,  e  por  vezes,  como  hão-de  ver  nessas 
lendas  de  Santos,  da  maneira  mais  amorosa,  mais  piedosa 
—  mais  intrinsecamente  poética.  Dessas  vidas  de  Santos  só 
está  incompleta  a  de  S.  Frei  Gil  —  e  que  imensa  pena  ! 
Nessa  primeira  redacção,  duma  rara  facilidade  e  perfeição 
admirável,  —  ao  contrário  do  que  muitos  pensam  do  grande 
escritor  — ,  hão-de  ver  a  maravilha  da  sua  arte  espontânea 
e  suprema.  E'  certo  que  Eça  de  Queiroz  emendava  muito 
jias  provas ;  refundia  de  alto  a  baixo  ;  ampliava  a  ponto  de 
transformar  um  pequeno  conto  (Civilisação)  num  livro  de 
trezentas  páginas  {A  Cidade  e  as  Serras).  Mas  a  primeira 
forma  saía-lhe  sempre  fluente  ;  e  talvez  com  uma  graça  e 
uma  frescura  de  tintas,  que  mais  punha  em  destaque  as 

KÇ&   DE   Ql^CIKOa  II 


162 


suas  nativas  qualidades  líricas,  a  que  o  Naturalismo  pren- 
dera e  crestara  as  asas  —  mas  que  afortunadamente  batem 
nas  Ultimas  Páginas  um  vôo  largo  e  rítmico. 


Vem  agora  a  propósito  acrescentar  algumas  notas  acerca 
da  Obra  póstuma  de  Eça  de  Queiroz,  tam  extraordinaria- 
mente bela.  Essa  obra  começou  em  paginas  417  da  Ilustre 
Casa  de  Ramires.  Fomos  nós  quem  reviu,  a  pedido  dos 
editores,  nossos  velhos  amigos,  o  resto  do  volume,  que  a 
grande  escritor  deixara  em  manuscrito,  na  primeira  redac- 
ção; e  nesse  volume,  melhor  que  em  nenhum  outro,  se  pode 
verificar  a  afirmação  já  feita:  que  a  prosa  de  Eça  de  Quei- 
roz era  já,  na  primeira  forma,  límpida,  fluente,  luminosa- 
mente expressiva.  Quem  se  der  á  tarefa  de  cotejar  com  as 
anteriores  as  páginas  da  Casa  de  Ramires  que  o  autor  des- 
venturadamente já  não  pôde  rever,  mas  que  estão  intactas, 
não  lhes  encontrará  desequilíbrios  sensíveis,  nem  desfale- 
cimentos de  escritor.  5ão  um  largo  e  belo  rio,  que  Vai  cor- 
rendo claro,  espelhando  deliciosamente  os  céus  e  a  terra. 
O  artista  é  sempre  dum  gosto  e  duma  graça  admiráveis. 
Esses  capítulos  finais  seriam  com  certeza  acrescentados  e 
refundidos,  mas  os  que  da  primeira  inspiração  brotaram  fi- 
caram vivos,  harmónicos,  perfeitos.  Só  um  artista  subtil  e 
de  estética  congénere  Veria  aqui  ou  ali  um  adjectivo  pro- 
vavelmente alterável,  algum  ritmo  a  modificar,  alguma  tinta 
a  esbater. 

O  segundo  volume  póstumo,  A  Cidade  e  as  Serras,  coube 
a  Ramalho  Ortigão  revê-lo  —  ao  velho  e  ilustre  camarada 
das  Farpas.  E  Vejam  que  maravilha  essa,  na  única  redacção 
<jue  tivera,  que  páginas  incomparavelmente  cristalinas! 

As  Ultimas  Páginas,  derradeiro  livro,  como  ficou  dito> 


163 


impresso  sobre  o  manuscrito,  foi  o  sr.  Luís  de  Magalhães 
quem  o  reviu  — como  fora  o  mesmo  insigne  publicista  quem 
tomara  dedicadamente  a  seu  cargo  a  amorosa  tarefa  de  se- 
leccionar e  de  organizar  os  diversos  volumes  de  crónicas 
e  trabalhos  dispersos,  que  os  devotados  editores  mandaram 
trasladar  escrupulosamente  nas  bibliotecas  de  Portugal  e 
do  Brasil:  —  Prosas  bárbaras  (estas  excelentemente  prefa- 
ciadas pelo  sr.  Jaime  Batalha  Reis,  o  J.  Teixeira  d'Azevedo 
da  «Correspondência  de  Fradique  Mendes»),  Contos,  Cartas 
de  Inglaterra,  Ecos  de  Paris,  Cartas  Familiares,  Notas  Con- 
temporâneas. 

A  Obra  póstuma  de  Eça  de  Queiroz  parecia  assim  inte- 
gral, quando,  há  poucos  anos,  José  Pereira  de  Sampaio 
lembrou  aos  editores  a  publicação  de  outro  volume,  em  que 
se  coligissem  vários  artigos  e  uma  série  de  dezoito  corres- 
pondências, dirigidas  de  Londres,  em  1887,  ao  jornal  por- 
tuense de  então  — a  «Actualidade».  Opinava  Bruno  que  o 
livro  seria  digno  da  obra  do  morto  ilustre;  efoi  combinado 
que  se  intitularia  Páginas  Esquecidas,  escrevendo  um  longo 
proémio  o  crítico  eminente  da  Geração  Nova. 

Não  concordaram,  porém,  com  a  publicação  dessas  Pá- 
ginas os  herdeiros  do  grande  romancista,  certamente  por 
motivos  ponderáveis,  e  a  edição  não  se  fez. 

Mas  estará  completa,  dando-nos  todos  os  seus  contras- 
tes e  cambiantes,  a  Obra  póstuma  de  Eça  de  Queiroz  ?  Em 
nosso  humilde  juízo  não  está.  Falta  ainda  que  se  imprimam 
um  ou  mais  volumes  com  a  sua  correspondência  particular, 
cuidadosamente  reunida  e  escolhida.  A  figura  do  escritor  e 
do  homem  ganhará  com  certeza  algum  outro  relevo  ou  novo 
encanto  —  como  o  seu  valor  excepcional  de  polemista  se 
perdia,  se  não  teem  aparecido  há  tempos,  coligidos  em  vo- 
lumes, alguns  dos  seus  artigos  formidáveis. 


164 


Nós  continuámos  a  ver  nesses  livros  de  Cartas  documen- 
tos literários  e  psicológicos  dum  valor  incontrastável.  E,  fa- 
lando-se  de  Eça  de  Queiroz,  que  de  primores  inéditos  se 
não  perdem,  inestimáveis  de  ironia  e  de  leveza,  talvez  de 
notas  imprevistas  e  esplêndidas  ! 

O  valor  das  Cartas  excede  ainda,  a  nosso  ver,  o  das  Me- 
mórias. Falam  com  mais  clareza,  com  despreocupação,  com 
mais  verdade.  Rasgadas,  deitariam  sangue,  —  como  diria 
Emerson.  São  confessionários,  tanta  vez,  de  palavras  pro- 
fundas e  eternas.  A  alma,  torva  ou  luminosa,  fica  ali  em  far- 
rapos, no  rescaldo  das  lágrimas  ou  na  asa  crespa  do  riso. 
Valem  a  peso  de  oiro.  Nas  Memórias,  como  nos  Diários, 
sobretudo  de  literatos,  de  artistas  e  políticos,  ainda  se  des- 
cortinam com  frequência  os  homens  a  esconder-se,  um  ou 
outro  autor  a  espreitar. . .  A  história,  os  costumes,  a  vida 
emfim,  nas  suas  mil  facetas  de  entremez  e  de  tragédia,  re- 
flecte-se  na  intimidade  das  Cartas  como  num  espelho  que 
ninguém  foi  embaciar.  Mas  não  queremos  insistir  no  que, 
sobre  o  assunto,  escrevemos  a  propósito  de  Garrett.  (1) 

Cremos  que,  em  qualquer  parte,  tratando-se  dum  homem 
como  Eça  de  Queiroz,  alguns  volumes  de  Cartas  estariam 
publicados.  Verdade  é  que,  por  cá,  raro  há  tempo  de  sobra 
para  homenagens  àqueles  que  são  a  nossa  mais  legítima 
glória.  As  Cartas  de  Herculano  começaram  a  publicar-se 
outro  dia...  Julgámos,  contudo,  haver  prestado  um  serviço 
às  Letras  de  Portugal,  se  estas  nossas  palavras  consegui- 
rem salvar  da  dispersão  e  do  esquecimento  as  páginas  de- 
liciosas que  hão-de  ser  a  correspondência  particular  do 
grande  romancista.  Sem  elas  ficará  incompleta  a  sua  Obra 
póstuma. 

JÚLIO  Brandão. 


(1)  Garrett  e  as  Cartas  de  amor  — 1913. 


Eça  de  Queiroz  y  Espana 


En  el  capitulo  sétimo  de  Crítica  Profana  (Madrid,  1916), 
dice  Don  Júlio  Casares  : 

«Yo  creo  que  Valle-Inclán,  traductor  a  su  vez  de  Eça 
de  Queiroz,  y  en  condiciones  privilegiadas,  como  gallego, 
para  saborear  la  exquisita  armonía  de  la  prosa  de  este  gran 
estilista,  tan  poço  conocido  en  Espafía  hasta  después  de  su 
muerte  (1900),  debió  hallar  tambien  en  las  páginas  admira- 
bles  de  La  Relíquia  y  de  Prosas  Bárbaras  la  fórmula  de  ex- 
presión  más  adecuada  a  su  propio  temperamento ;  y  volun- 
tária ó  inconscientemente  dióse  a  imitar  en  sus  escritos  el 
léxico,  los  giros  y  las  cadencias  dei  novelista  português.» 
(pag.  91-2). 

Ahora  felizmente,  gracias  a  Don  Miguel  de  Unamuno  y 
otros  escritores  espanoles,  es  Eça  un  poço  mejor  conocido 
en  Espaiia  y  no  seria  imposible  que  viniese  a  ser  como  un 
officier  de  liaison  entre  dos  literaturas  modernas,  la  portu- 
guesa y  la  castellana,  que  ambas  tienen  tantas  obras  admi- 
rables  y  que  parecen  insistir  obstinadamente  en  se  tourner 


166 


le  dos.  Creo  que,  si  hubiera  vivido  Eça  de  Queiroz  algunos 
anos  más,  hubiera  influído  Espafia  en  su  espíritu  más  pro- 
fundamente quizá  que  Francia.  Ya  se  me  figura  hallar  algo 
de  Pereda  y  de  Penas  arriba  (1895)  en  su  último  libro,  A 
Cidade  e  as  Serras.  Las  provincias  de  Portugal  no  dejan  de 
ser  tan  interesantes  como  las  de  Espafia,  y  seguramente 
Eça  de  Queiroz,  viviendo  en  la  provincia  de  Minho,  como 
Pereda  en  la  Montaria,  hubiera  compuesto  obras  aun  más 
encantadoras  que  las  que  todos  saboreamos  con  tanto 
gusto. 

Fué  la  vida  de  Eça  de  Queiroz  una  educación  perpetua; 
el  autor  de  A  Illustre  Casa  de  Ramires  no  es  el  mismo  que 
escribió  O  Mysterio  da  Estrada  de  Cintra  treinta  ailos  antes, 
y  sin  embargo  en  las  Prosas  Bárbaras  se  columbra,  más,  se 
puede  ver  claramente  lo  excelente  y  original  que  había  de 
ser  como  novelista. 

Para  mi,  Eça  de  Queiroz  tendrá  siempre  un  encanto  par- 
ticular, por  haber  sido  de  él  el  primer  libro  português  que 
he  leido  — le  hallé  en  una  librería  de  viejo  en  Barcelona 
hace  ya  muchos  anos ;  pêro  ahora,  cuando  empiezan  los  es- 
panoles  a  leer  a  este  novelista,  quizá  no  será  inoportuno 
recordar  que  la  literatura  portuguesa  tiene  otros  muchos 
escritores  dignos  de  ser  leidos  — escritores  que  poseen  un 
estilo  más  castizamente  português  que  el  de  Eça  de  Quei- 
roz, ya  que  espíritu  más  português  no  le  podían  tener. 

Álvaro  Giraldez. 
Abril  de  1919. 


Visconde  do  Alcaide 


Esta  fotografia,  tirada  por  Eça  de  Queiroz,  tem  na  base, 

escrito  pelo  próprio  punho  do  romancista: 

«Eça  de  Queiroz,  photoorapho.» 


Eça  de  Queiroz 


A  obra  de  Eça  de  Queiroz,  vista  atravéz  a  lupa  incolor  da 
critica  moderna,  pode  dividir-se  em  duas  distinctas  obras: 
a  do  romancista  propriamente  dito  e  a  do  estheta. 

Analisada  assim,  a  segunda  parte  da  obra  prevalece  in- 
contestavelmente sobre  a  primeira.  Eça  aparece-nos,  ao 
declinar  do  século  xix,  como  um  cultor  da  arte  de  Baum- 
garten.  O  estilo  leva  de  vencida  a  concepção.  Com  um  vo- 
cabulário restricto,  elle  forma  periodos  soberbos.  E'  assim 
que,  á  data  da  sua  morte,  Eça  de  Queiroz  nos  deixa  uma 
obra  relativamente  pequena,  elle  que  —  gigante  inconfun- 
dível das  nossas  Letras  — nos  poderia  ter  legado,  como  Ca- 
millo,  dezenas  e  dezenas  de  volumes. 

Mas  em  Eça,  a  ideia  de  Belleza  sobreleva  a  de  criação; 
embora  demolindo,  Eça  faz  dos  seus  romances,  a  par  de  lá- 
tegos contundentes,  verdadeiras  obras-primas  de  literatura, 
precisando  o  detalhe,  esmiuçando  as  scenas  de  pouca  monta, 
mas  fazendo  erguer  acima  d'esses  quadros  de  miséria  ter- 
rena, qualquer  coisa  de  superior,  que  é  Arte  pura,  embora 


168 


joeirada  a  noites  longas  de  vigilia  e  a  torturas  de  gestação 
que  se  me  anteolham  evidentes. . . 


Não  é  para  aqui,  nem  para  a  minha  exígua  competência 
de  subalterno  nas  letras,  fazer  o  esboço  biographico  dO' 
Artista,  nem  acentuar  a  fraqueza  moral  que  fez  de  Eça  de 
Queiroz  um  doente  da  vontade,  incutindo-lhe  receios  e  su- 
perstições que,  de  resto,  nada  depõem  contra  a  sua  obra^ 
como  o  querem  fazer  acreditar  certos  críticos  que,  em  gros- 
sos volumes,  teem  lançado  aos  quatro  ventos  a  inferioridade 
da  obra  de  Eça. 

Deleguemos  a  um  plano  secundário  esse  estudo  quiçá 
extemporâneo  e  admiremos  a  Perfeição  que  o  Artista 
pôz  na  sua  obra,  olhos  postos  n'um  ideal  de  Belleza  que 
jamais  talvez  conseguisse  atingir.  E  se  afirmo  isto,  é  que 
o  Artista  é  sempre  um  insatisfeito  e  um  incomprehendido. 
De  resto,  a  Belleza  tem  para  muitos  uma  acepção  absoluta 
que  eu  não  me  atrevo  a  perfilhar.  Para  o  Artista,  a  Belleza 
é  meramente  subjectiva  e  não  objectiva.  A  Belleza  obje- 
ctiva não  tem  fundamento,  não  existe.  Pretender  impor  aos 
outros  a  admiração  por  um  determinado  trabalho,  é  tarefa 
estéril.  Para  Tolstoi,  a  Arte  não  é  productora  de  Belleza; 
é  apenas  uma  das  condições  da  vida  humana;  é  uma  forma 
de  actividade,  fundada  sobre  a  aptidão  do  homem  em  expri- 
mir os  sentimentos  que  outro  homem  experimenta. 

Temos  pois  que  Eça  de  Queiroz,  conhecedor  profunda 
das  leis  da  esthetica,  não  chegou  talvez  a  atingir,  na 
sua  opinião,  como  todos  os  grandes  artistas,  a  Perfeiçãa 
em  Arte.  E  comtudo,  ninguém  como  elle,  até  hoje,  em  Por- 
tugal, teve  sede  de  Belleza  e  anciã  de  Perfeição.  E'  elle 


169 


próprio  quem  o  afirma.  De  Paris,  em  21  de  Junho  de  1897, 
escrevia  elle  uma  carta  a  Bernardo  Pindella  (Conde 
d' Arnoso)  um  dos  «Vencidos  da  Vida»  —  vencidos  que  na 
mór  parte  foram  vencedores,  carta  cuja  cópia  tenho  pre- 
sente. 

«O  meu  ma!  é  o  amor  da  perfeição»  — diz  Eça  de  Queiroz. 
E  mais  abaixo :  «se  se  trata  de  escrever  seis  linhas  a  unr 
velho  Bernardo,  eu  espero  até  ter  o  vagar  de  escrever 
uma  epistola  muito  cheia,  muito  completa,  muito  divertida, 
muito  amiga,  e  a  consequência  é  que  o  vagar  não  vem  e 
nunca  se  começa  a  primeira  linha. . .» 

Confirma  esta  confissão  o  que  a  seu  respeito  escreve  unt 
dos  seus  biographos,  o  snr.  Batalha  Reis.  Eça  era  um  tortu- 
rado do  estilo,  todos  o  sabem.  E  comtudo,  nos  primeiros 
tempos  da  sua  vida  literária,  quando  colaborador  da  Gazeta 
de  Portugal  de  Teixeira  de  Vasconcellos,  Eça,  quasi  alheio 
a  influencias  estranhas,  na  sua  phase  primitiva,  quasi  ro- 
mântica, ainda  emendava  pouco.  Todavia,  que  Belieza  elle 
punha  já  n'essa  prosa  de  maravilha,  de  que  são  autenticas 
jóias  o  soberbo  estudo  «Lisboa»  — e  as  paginas  admiráveis 
da  «Ladainha  da  Dôr» ! 

O  folhetinista  dá  mais  tarde  logar  ao  romancista.  E  é 
n'esta  phase  da  vida  que  a  sua  obra,  a  meu  vêr,  se  deve  di- 
vidir em  duas :  a  do  romancista  e  a  do  estheta. 

Eça  é  um  torturado ;  quando  se  senta  para  escrever,  é 
com  dificuldade  que  a  ideia  surge.  Quando  ella  aparece,  os 
linguados  de  papel  cobrem-se  de  palavras  quasi  hieroglifi- 
cas.  Sucedem-se  as  emendas  e  as  rasuras.  Mas  d'essa  amal- 
gama de  signaes  e  de  linhas  sáe  uma  prosa  viva,  rítmica 
como  um  lindo  corpo  de  mulher,  expressiva  como  um  sor- 
riso alegre  de  creança. 

Com  um  pobríssimo  vocabulário  em  confronto  com  o  de 
Camillo  — o  Mestre  — Eça  modela  períodos  esplendidos,  en- 


170 


^asta  a  lingua  portuguesa  —  gemma  delicada  —  nas  mais 
estranhas  e  caprichosas  cravações. 

Como  Flaubert  —  que  n'uma  carta  a  Maxime  du  Camp 
rotulava  de  quasi  sobrenatural  o  seu  trabalho  de  escrever 
vinte  paginas  n"um  mez,  como  os  Goncourt,  como  tantos 
espíritos  sedentos  de  Belleza,  Eça  ergue  um  altar  á  Perfei- 
ção, procurando  altear-lhe  o  pedestal.  —  E  —  a  justiça  dos 
homens!  — annos  volvidos,  a  estatua  que  glorifica  o  Artista 
não  tem  pedestal !  Ergue-se  alli,  no  largo  do  Quintella, 
bella  como  a  figura  esplendida  da  Verdade  que  ella  encarna 
€  á  qual,  ha  tempos,  vandalicas  mãos  partiram  dois  dedos. 
Mas,  embora  bella,  está  assente  sobre  a  relva,  uma  relva 
pobre,  rasteira  quasi,  que  o  borraceiro  das  noites  hiber- 
tiaes  piedosamente  cobre  com  miríades  de  pérolas  d'orva- 
Iho.  Eça  não  tem  um  pedestal  —  elle,  que  no  mais  alto  dos 
pedestaes  quiz  collocar  essa  Deusa  que  lhe  sorria  sempre 
ii'um  sorriso  lúbrico  de  mulher  insatisfeita  — a  Perfeição! 


Até  aqui,  o  Eça  cultor  do  Bello,  o  Eça  sacerdote  da  Es- 
thetica.  Analisemos  agora,  ainda  que  summariamente,  o 
romancista.  Eça  não  foi,  como  Camillo,  um  escriptor  rigo- 
rosamente lusitano.  Amou  a  Belleza,  fez  Arte,  mas  teve 
este  grande  defeito :  desnacionalisou-se.  Materialisou,  por 
assim  dizer,  o  seu  talento  n'uma  obra  de  demolição  ;  nega- 
tivista das  virtudes  nacionaes,  gastou-se  a  evidenciar  os 
defeitos  da  nossa  raça. 

Camillo  tem  uma  galeria  de  tipos  portugueses.  Tem  as 
resignadas,  as  mártires,  as  abnegadas.  Fialho  tem,  a  dentro 
da  sua  obra  de  contista,  os  mais  variados  tipos.  Eça  cultiva 
mais  o  ridículo  no  romance.  Convicto  innovador,  faz  um  pas- 


171 


seio  pelos  bastidores  da  Política  e  pelos  salões  do  Posti- 
ço, e  deixa  em  paz  os  habitantes  sadios  da  Montanha.  A 
Cidade  e  as  Serras  é  quasi  uma  excepção.  De  resto,  da  pio- 
Iheira  onde  nasceu,  faz-nos  conhecer  apenas  os  mais  inca- 
racterísticos tipos,  descriptos  embora  por  forma  superior. 

Para  mim,  a  Eça  de  Queiroz  faltava  aquelle  fogo  sagrado 
que  faz  dos  raros  predestinados  da  Arte  os  tipos  imor- 
taes  que  honram  as  nacionalidades.  Burilador  magnifico  da 
phrase,  possuidor  d'uma  visão  esthetica  perfeita,  Eça  não 
tinha  talvez  os  destrambelhamentos  do  génio.  Não  tinha, 
como  Camillo  (e  mesmo  como  Fialho),  o  poder  superior  da 
criação. 

Fialho  deixou  uma  obra  por  assim  dizer  fragmentada  e 
incompleta.  A  sua  galeria  de  tipos  não  estava  exgotada.  Mas 
devemos  reconhecer  que,  se  foi  dispersivo,  se  foi  incom- 
pleto, isso  se  deve,  primeiro  á  sua  lucta  pela  vida,  mais 
tarde  ás  suas  peregrinações  pelos  cafés,  a  esbanjar  o  seu 
talento  em  conversas  onde  — critico  impenitente  —  elle  era 
implacável  para  com  os  vícios  que  corrompiam  a  gente  do 
seu  tempo.  Eça  fez  o  contrario.  Demoliu,  mas  demoliu  sem 
pensar  na  reconstrucção.  Ramalho  foi  um  demolidor ;  mas 
o  que  elle,  principalmente,  pretendeu  demolir  ou  pelo  me- 
nos refundir,  foram  apenas  os  erros  de  governação  e  os 
erros  dos  pseudo-artistas. 

Eça,  ao  contrario,  embrenhou-se  no  romance  e,  n'uma 
forma  moderna,  importada  de  Paris  (1),  tratou  só  de  pôr 


(1)  N'essa  admirável  CorrespO):dettcia  de  Fradique,  Eça  deixou  uma 
carta  lapidar  — a  quarta,  segundo  creio  —  dirigida  a  madame  S.,  em  que 
o  Artista  combate  a  ideia  de  se  embrenharem  os  portugueses  no  estudo 
aprofundado  das  linguas  estrangeiras.  A  minha  afirmação,  porém,  nio 
fica  invalidada.  Emílio  Castelar  disse  que  só  não  mudam  de  ideias  os  que 
não  pensam.  Recordemo-nos  ainda  de  que  a  Arte  vive  muito  do  parado- 
xo; para  o  que  basta  citar  Oscar  Wllde,  proclamando  que  «a  Arte  é  inú- 
til»—e  vivendo  para  Ella,  apaixonadamente. 


172 


em  evidencia  os  vários  Accacios,  Pachecos  e  Ernestinhos 
que  por  ahi  abundam.  Não  tratou,  aparte  raras  excepções, 
os  tipos  regionaes,  os  costumes  sãos,  as  creaturas  equili- 
bradas. Por  traz  do  seu  monóculo,  na  sua  retina  de  artista 
e  homem  de  compleição  doentia,  fixavam-se  apenas  tipos 
que  tanto  podiam  ser  de  Lisboa  como  de  Londres,  do  Porto 
como  de  Paris.  Os  seus  tipos  não  eram  retintamente  por- 
tugueses ;  para  Eça,  a  Vida  era  um  aglomerado  de  defeitos 
e  de  vaidades.  Cultor  do  Bello,  raro  desenhava  o  que  a  Na- 
tureza lhe  revelava  de  bello  e  de  superior;  poveiro  de  nas- 
cimento (1),  pouco  aproveitou  as  bellezas  do  nosso  litoral 
para  glorificar  a  terra  portuguesa.  Por  Lisboa  ainda  se  in- 
teressava. Revela-o  n'outra  carta  ao  Conde  d' Arnoso,  es- 
cripta  de  Salamanca,  em  que  pergunta  «pela  pequenina  Lis- 
boa por  quem  se  interessa.» 

Quanto  á  moral  da  sua  obra  de  contrastes,  não  é  para 
agora  a  sua  apreciação.  A  reincidência  no  incesto  à^Os 
Maias,  a  falta  delictuosa  do  padre  Amaro,  alguns  realismos 
exagerados  d' O  Primo  Bazilio,  acabam  de  dar  a  maneira 
exacta  do  romancista,  apaixonado  pela  ultima  palavra  lite- 
rária do  seu  tempo,  atreito  a  materialismos,  como  Zola  em 
França,  fundando  a  escola  realista  sobre  as  theorias  de 
Cláudio  Bernard. 


(1)  Alguns  biographos,  entre  os  quaes  o  snr.  Fidelino  de  Figueiredo, 
pretendem  que  Eça  de  Queiroz  tenha  nascido  em  Vllla  do  Conde  e  não 
na  Povoa  de  Varzim.  Era  19()6,  Imprimlu-se  no  Porto  um  folheto  — £'f a  de 
Queirós,  questão  de  naturalidade  —  que  parece  desfazer  todas  as  duvi- 
das, provando  que  o  romancista  nascera  na  Povoa.  Pouco  dado  a  velha- 
rias e  a  escavações  eruditas,  e  sendo  certo  que  uma  distancia  de  cinco 
kilometros  nâo  pôde  influir  no  estudo  d'um  caracter,  deixo  essa  Investi- 
gação aos  entendidos. 


173 


Escrevendo  em  homenagem  a  Eça  de  Queiroz,  e  como 
admirador  do  estheta  requintado  da  Correspondência  de  Fra- 
dique  Mendes,  pensei  que  só  na  Verdade  poderia  encontrar 
glorificação  condigna. 

Foi  por  isso  que  eu  —  invocando  aquella  figura  do  esta- 
tuário Teixeira  Lopes,  que,  no  largo  do  Quintella,  olha  o 
Eça  apaixonadamente  —  vim,  por  esta  forma  rude,  trazer  o 
meu  obulo  humilde  para  a  homenagem  que  ora  se  presta  ao 
auctor  do  Mandarim,  que  foi,  com  todos  os  seus  defeitos, 
um  dos  maiores  Artistas  de  que  se  pôde  orgulhar  a  lingua 
e  a  raça  portuguesa. 

Lisboa,  21  de  Novembro  de  1915. 

Carneiro  Geraldes. 


Oliveira  Martins  e  Eça  de  Queiroz 


Portugal  posto  em  escultura  deu  duas  obras:  a  de  Soa- 
res dos  Reis  e  a  de  Teixeira  Lopes.  Soares  dos  Reis  vive 
na  memória  dos  portugueses  por  «O  Desterrado»,  que  é  a 
Alma  da  Raça  estatuada  com  o  sangue  e  as  lágrimas  da 
martírio  do  artista,  com  o  seu  suicidio  completando  a  sua 
obra,  símbolo  da  Raça,  pois  esse  seu  ultimo  gesto  é  o  da 
Raça  em  Alcacer-Kibir.  Teixeira  Lopes  viverá  por  dois  mo- 
numentos, um  túmulo  e  uma  estátua,  o  túmulo  de  Oliveira 
Martins  e  a  estátua  de  Eça  de  Queiroz,  dois  escultores  da 
prosa,  os  maiores  de  Portugal.  Em  ambos  vive  Portugal, 
no  eco  das  pancadas  dos  seus  camartelos,  que  ainda  ecoam, 
ecoando  o  seu  nome. 

Oliveira  Martins  moldou  com  amargura  e  com  génio  a 
«Historia  de  Portugal»,  feita  de  lama  e  de  luz,  e  fundiu-a 
em  bronze.  O  seu  sucessor  é  Raul  Brandão,  esse  drama- 
turgo extraordinário  da  humildade  e  do  sinistro,  que  em  som- 
bras e  esgares  esculpiu  uma  obra  de  farrapos  e  de  gritos, 
fundida  no  roxo  de  equimoses  e  no  verde  de  podridões  do 
bronze,  e  que  é  a  mais  trágica  da  literatura  portuguesa. 


175 


Em  ambos  a  caricatura  é  dôr  e  a  dôr  é  grotesco,  em  ambos 
os  homens  são  fantoches  e  os  fantoches  são  crucificados, 
em  ambos  os  retratos  são  Almas  postas  em  tintas  sombrias, 
como  Columbano  faz  nas  suas  telas  de  silêncio  e  de  mis- 
tério, intérpretes  do  além  animico  das  coisas  e  dos  seres, 
como  as  páginas  iluminadas  de  génio  do  poeta  Teixeira  de 
Pascoaes. 

Eça  de  Queiroz  moldou  com  ironia  e  com  génio  as  suas 
figuras  de  tragi-comédia  ou  de  missal,  de  sarcasmo  ou  de 
prosa-lírica,  toda  essa  galeria  animada  de  estátuas  que 
observou  na  vida  atravez  do  seu  monóculo,  e  esculpiu-as 
em  mármore.  Ele  foi  um  cinzelador,  um  burilador  e  um  de- 
buxista  da  prosa  qué,  ridicularisando  a  sociedade  contem- 
porânea do  seu  país,  lhe  indicou  os  dois  melhores,  os  dois 
únicos  caminhos  a  seguir,  em  «A  Illustre  Casa  de  Ramires», 
continuando  em  Africa  a  obra  colonisadora  da  Raça,  e  em 
«A  Cidade  e  as  Serras»,  voltando  ao  seio  da  terra  sua  mãi, 
para  prazer  e  glória  dessa  sociedade  criando  a  Beleza  das 
suas  imagens  de  santos,  que  teem  o  encanto  dos  vitrais  co- 
loridos e  das  rosáceas  rendilhadas  das  catedrais  góticas,  das 
iluminuras  decorativas  dos  missais  antigos  da  Idade-Média, 
que  ela  deve  amar  como  as  mais  belas  criações  da  sua  li- 
teratura. O  herdeiro  do  seu  título  de  principe  das  nossas 
letras  é  Aquilino  Ribeiro,  mestre  do  conto,  da  novela  e  do 
romance,  em  que  a  vida  estua  e  a  paisagem  reza,  a  ela  re- 
zando, na  sua  obra,  uma  oração  como  só  Graça  Aranha  es- 
creveu nas  páginas  intensas  do  «Chanaan»,  que  são,  com  as 
de  «Os  sertões»,  desse  genial  Euclydes  da  Cunha,  as  mais 
extraordinárias  paginas  da  prosa  brasileira. 

O  facto  de  Oliveira  Martins  e  Eça  de  Queiroz  serem  os 
dois  maiores  prosadores  da  literatura  portuguesa  do  seu 
tempo  e,  talvez,  de  toda  a  nossa  literatura,  não  é  a  única 
razão  que  me  leva  a  pô-los  em  paralelo.  Ha,  para  mim,  um 


176 


outro  facto  mais  importante  sobre  o  ponto  de  vista  crítico 
€  para  o  estudo  de  Eça  de  Queiroz.  Falo  da  estreita  ami- 
zade que  os  ligou  em  vida  e  que,  a  meu  vêr,  não  interessa 
só  sob  o  aspecto  psicológico  como  também,  e  principal- 
mente, sob  o  aspecto  estético.  Porque  eu  penso  que  a  per- 
sonalidade artística  de  Eça  de  Queiroz  deve  ter  sofrido 
certa  influência  do  espirito  forte  do  historiador  filósofo  e 
poeta  genial  que  foi  Oliveira  Martins. 

O  génio  de  Eça  de  Queiroz  é  mais  incompleto  que  o  de 
Oliveira  Martins,  pois  Oliveira  Martins  é  pensador  e  artista 
-e  Eça  de  Queiroz  é  só  artista,  embora  como  artista  seja 
superior  a  Oliveira  Martins,  talvez  por  a  sua  actividade 
mental  ser  puramente  estética.  As  suas  ideias  não  consti- 
tuem conceitos  novos  pois  são  apenas  o  producto  duma 
grande  cultura  livresca  e  o  seu  reflexo.  E'  êle  próprio  que, 
falando  de  Ramalho  Ortigão,  de  si  próprio  diz:  «Eu  era, 
sou  ainda,  em  philosophia,  um  touriste  facilmente  cançado, 
€m  sciencia  um  dilletante  de  coxia».  Apesar  de  esta  frase 
ser  o  resultado  da  sua  modéstia  sincera  e  o  seu  espelho,  ela 
traduz,  embora  exagerando,  a  verdade  que  proclamo.  Que 
a  sua  memória  perdoe  este  leve  reparo  do  seu,  talvez,  mais 
íiovo,  mas  mais  fervoroso  admirador. 

Oliveira  Martins  é,  com  Antero  de  Quental,  o  poeta  fi- 
lósofo e  santo,  o  maior  pensador  do  seu  tempo,  que  até 
o  próprio  Antero  de  Quental,  que  é  o  poeta  português 
mais  universal  pelo  pensamento,  como  Guerra  Junqueiro  é 
o  maior  poeta  nacional,  admirava,  na  sua  obra  e  no  seu 
convívio  tão  espiritual.  Da  admiração  de  Eça  de  Queiroz 
pelo  artista  evocador  da  «Historia  da  republica  romana», 
pelo  sábio  pensador  da  «Historia  da  civilisação  ibérica», 
pelo  crítico  profundo  do  «Portugal  contemporâneo»,  pelo 
analista  poderoso  de  «A  Inglaterra  de  hoje»,  por  esse  polí- 
grafo poeta  que  foi  Oliveira  Martins,  temos  um  documento 


177 


nas  suas  páginas  sobre  Antero  de  Quental,  que  são,  com  o 
prefácio  de  Oliveira  Martins  aos  «Sonetos»,  a  mais  béla 
oração  ao  poeta  supremo  da  língua  portuguesa. 

Ambos  morreram  deixando  incompleta  a  sua  Obra,  quan- 
do novos  sonhos  de  Beleza  enchiam  as  suas  Almas, 
mais  próximas  de  Deus.  Quando  a  morte  gelou  a  mão  ner- 
vosa do  historiador,  escrevia  êle  as  páginas  de  «O  Principe 
perfeito»,  terceiro  poema  da  tetralogia  admirável  que  can- 
taria a  segunda  dinastia  dos  reis  de  Portugal,  de  que  nos  fi- 
caram «Os  Filhos  de  D.  Joãol»  e  «A  vida  deNun'alvares». 
O  quarto  canto  dessa  epopeia  em  prosa  seria  sobre  D.  Se- 
bastião, e  pena  é  que  êle  o  não  escrevesse,  pois  talvez  só 
esse  descendente  espiritual  de  Fernão  Lopes  e  de  João  de 
Barros  poderia  fazer  o  supremo  elogio  dessa  figura  divina 
<]ue  é  a  maior  da  nossa  história  e  que  António  Nobre  can- 
tou em  versos  inferiores  ao  seu  génio.  Quando  a  morte  ge- 
lou a  mão  febril  do  romancista,  nesse  Paris  tão  querido  do 
seu  espírito  e  de  Fradique  Mendes,  a  cuja  memória  dedico 
estes  dizeres,  que  só  para  êle  escrevi,  compunha  o  seu  cria- 
dor ás  páginas  do  «S.  Frei  Gil»,  terceira  sinfonia  da  rapsó- 
dia admirável  que  cantaria  toda  uma  dinastia  de  santos  da 
Igreja,  de  que  nos  ficaram  o  <  S.  Christovam;>  e  o  «S.t»  Ono- 
fre», que  só  Gustavo  Flaubert,  mestre  da  minha  «Éducation 
sentimentale»,  e  seu  mestre,  saberia  escrever  assim  corno 
êle  escreveu. 

José  Osório  de  Oliveira. 
Lisboa.  Dia  de  Primavera  de  1919. 


■ÇA  DZ  qaUBOZ 


£1  sarcasmo  ibérico  de  Eça  de  Queiroz 


Lo  primero  que  de  Eça  de  Queiroz  lei,  siendo  un  mozo^ 
fué  O  Primo  Bazilio.  Era  el  tiempo  en  que  hacía  aqui  fu- 
ror Zola.  No  puedo  recordar  el  efecto  estético,  de  arte, 
que  me  produjera.  Sólo  recuerdo  otro  efecto.  Solo  recuer- 
do  que  ai  llegar  a  cierto  pasaje  y  a  una  frase  que  aun,  a 
través  de  los  anos,  me  retintina  en  la  memoria,  se  me  sus- 
pendió  el  respiro.  Pêro  no  fué  ello  pura  emoción  estética 
de  arte. 

Después  lei  A  Relíquia,  que  a  ratos  me  entraba  como  una 
espada  de  hielo  en  el  ânimo.  Y,  sin  embargo,  adivinabaque 
alli  debajo  latia  algun  fuego. 

Lei  después  A  illustre  casa  de  Ramires,  cuyo  artificio  de 
yuxtaponer  dos  épocas  distantes  entre  si— cultivo  artístico 
dei  anacronismo  —  se  encuentra  en  A  Reliquia  y  en  algun. 
pasaje  de  la  Correspondência  de  Fradique  Mendes.  Y  así  el 
arte  se  le  disuelve  a  las  veces  a  Eça  de  Queiroz  en  artifi- 
cio aunque  esquisito.  Se  ve  la  receta. 

Pêro  lo  que  de  él  me  encanto  fué  la  Correspondência  de 
Fradique  Mendes,  Libre  aqui  el  autor  dei  cuidado  de  urdir 


179 


y  tramar  una  traza  novelesca,  se  expande  más  a  sus  an- 
chas. Esa  serie  de  ensayos  irónicos,  a  las  veces  humorís- 
ticos y  hasta  sarcásticos,  ponen  a  toda  luz  el  alma  portu- 
guesa de  Eça  de  Queiroz,  lacerada  por  las  misérias  de  su 
pátria. 

En  cambio  A  cidade  e  as  Serras,  libro  con  el  que  su  autor 
se  reconcilio  con  su  pueblo,  no  mesatisfizo.  Es  un  libro  de 
cansancio.  Y  ai  arrepentimiento  que  en  él  parece  mostrar 
su  autor  de  la  fria  crudeza  con  que  antes  fusti{?ó  por  amor, 
por  encendido  amor,  a  su  pueblo,  es  un  arrepentimiento 
de  atrición  y  no  de  contrición. 

Se  ha  comparado  a  Eça  de  Queiroz  con  Anatole  France, 
y  he  oido  muchas  veces  en  Portugal  reprocharia  a  aquel  su 
poço  portuguesismo,  diciendo  que  es  más  francês  que  por- 
tuguês. Yo  tambien  Io  créi  en  un  tiempo,  mas  hoy  ya  no 
tanto. 

He  de  declarar  que  gusto  poço,  muy  poço,  de  Anatole 
France.  La  ironia  profesional,  ó  sea  la  profesión  deironis- 
ta,  me  es  antipática.  Debajo  de  ella  no  veo  sino  frialdad  y 
egoismo.  Jamás  he  podido  admitir  lo  de  que  tout  compren- 
dre  est  tout  pardo nncr.  A  la  larga  no  tolero  a  esos  escrito- 
res que  no  se  descomponen,  que  no  gritan,  que  no  gesti- 
culan,  que  no  se  rien  a  carcajadas  o  lloran  a  sollozos  agó- 
nicos,  que  no  patalean,  que  no  insultan.  Se  me  dirá  que  se 
contienen  y  que  esto  es  lo  aristocrático  y  lo  clásico  y  lo 
artístico,  pêro  eso  no  me  convence. 

Y  esta  actitud  irónica  profesional  me  ha  parecido  siem- 
pre  muy  poço  ibérica,  muy  poço  acomodada  a  nuestro  tem- 
peramento castizo  peninsular.  Nosotros,  espaíioles  y  por- 
tugueses, nos  indignamos  y  entonces  o  sermoneamos  o  in- 
sultamos. Nuestra  sátira  es  sermón  didáctico  y  es  invecti- 
va virulenta.  Nuestro  humorismo  se  disuelve  en  sarcasmo. 
Apenas  si  Cervantes  se  libra  de  ello.  Y  por  esto  me  ha  pa- 


180 


recido  siempre  Camillo  tan  ibérico,  tan  peninsular,  tan 
nuestro.  El  encendido,  el  ardoroso  sarcasmo  de  Camillo  me 
ha  llegado  siempre  ai  fondo  de  las  entraiias.  Y  de  aqui  que 
haya  preferido  Camillo,  tan  desordenado,  tan  confuso,  tan 
improvisador,  tan  primesautier,  a  Eça  de  Queiroz.  Hay  me- 
dia docena  de  novelas  de  Camillo  que  jamás  podre  olvidar. 

Pêro  más  después  he  rectificado,  o  por  lo  menos  atenua- 
do este  juicio  comparativo  y  a  favor  de  Eça  de  Queiroz. 
He  ido  descubriendo  calor  y  calor  quemante  en  el  fondo  de 
su  ironia ;  he  ido  viendo  el  sarcasmo  ibérico  bajo  la  mas- 
car i  lia  de  ironia  parisiense.  Y  más  en  el  fondo  el  trágico 
pesimismo  português;  el  de  Anthero  de  Quental,  el  de  Oli- 
veira Martins. . .  el  de  tantos  otros.  No  es,  no,  la  superfi- 
cial filosofia  entre  volteriana  y  epicurea  de  Anatole  Fran- 
ce ;  es  muy  otra  cosa.  iQuien  leyendo  A  Relíquia  no  adivina 
en  su  autor  un  desesperado,  un  hombre  que  aunque  no  cree 
quisiera  creer  y  Hora  hacia  dientro  de  si  lágrimas  de  fue- 
go,  de  fuego  que  hace  cristalizar  esas  lágrimas  en  duros  y 
frios  diamantes,  por  haber  perdido  el  secular  y  único  con- 
suelo  de  haber  nacido? 

No,  la  ironia  de  Queiroz  no  es  la  de  France.  A  este  — 
que  creo  es  un  solterón  —  le  molesta  que  sus  compatriotas 
sean  como  son,  y  en  la  Islã  de  los  A'/íg7///wsdariendasuel- 
ta  a  su  mal  humor  por  esa  moléstia,  mientras  que  a  Eça 
de  Queiroz,  português  y  lo  que  és  más,  padre  de  portu- 
gueses, le  duele  Portugal.  Cuando  de  este  se  burla  óyese 
el  quejido.  Todo  su  arte  europeo,  un  arte  tan  esquisita- 
mente europeo,  no  logra  encubrir  su  impetu  ibérico.  Se  le 
oye  el  sollozo  bajo  la  carcajada. 

Además  es  muy  dificil  volver  a  leer  una  novela  de  Ca- 
millo, que  es  siempre  un  drama,  una  tragedia.  La  anhelan- 
te  emoción  de  la  primera  lectura  no  se  puede  repetir.  Co- 
nocemos  la  solución.  En  Camillo,  como  en  las  tragedias 


181 


românticas,  todo  es  espectativa.  Ninguna  página  nosretie- 
ne.  Las  más  intensas,  Ias  más  fuertes,  Ias  más  hondas  va- 
len  por  lo  que  las  preparaba  y  por  Io  que  nos  hacen  espe- 
rar. Mientras  que  en  Eça  de  Queiroz  hay  muchas  páginas, 
muchisimas,  que  tienen  valor  por  si.  Sepuedeojear  ai  azar, 
por  aqui  y  por  allá,  una  novela  de  Eça  de  Queiroz.  Cada 
perla  dei  collar  tiene  valor  de  por  si.  Y  es  porque  no  son 
dramas.  Es  mas  aun,  las  novelas  de  Queiroz  todas  tienen 
algo  de  la  Correspondência  de  Fradique  Mendes,  que  no  es 
novela,  todas  ellas  tienen  algo  de  colección  de  ensayos  hu- 
morísticos sobre  costumbres  y  tipos  portugueses.  Y  esto 
de  que  las  novelas  de  Queiroz  sean  releibles  y  no  lo  sean 
tanto  las  de  Camillo,  es  lo  que  ha  hecho  que  la  boga  de 
aquel  sea  mayor  que  la  de  este  fuera  de  Portugal.  Su  valor 
emotivo  es  menor,  pêro  es  mayor  el  intelectivo.  Camillo 
rara  vez  sugiere  ideas;  Eça  de  Queiroz  muchas  veces. 

Y  en  cuanto  a  la  lengua. . . 

He  de  empezar  por  lamentarme  una  vez  más  de  que  se 
traduzca  aí  espaiiol  libros  portugueses.  Las  obras  portu- 
guesas deberian  ser  leidas  en  Espana  en  su  original  como 
las  espafíolas  en  Portugal. 

En  cuanto  a  la  lengua,  pasa  Camillo  por  ser  el  escritor 
português  moderno  más  vernacular,  más  castizo,  con  más 
raices  en  el  pueblo,  pêro  acaso  su  lengua  peca  de  sobrado 
exuberante,  de  poço  podada,  de  algo  selvática,  y  a  trechos 
harto  oratória.  De  él  cabe  decir  lo  que  de  los  escritores  es- 
pafíoles  en  general  decía  un  crítico  francês,  y  es  que  no  son 
tales  escritores  sino  oradores  por  escrito.  Y  cuando  dialo- 
ga se  deja  llevar  Camillo  dei  encanto  dei  diálogo,  de  la  vo- 
luptuosidad  de  conversar.  La  lengua  de  Eça  de  Queiroz, 
por  otra  parte,  más  ceiíida,  aunque  algo  monótona  a  Ias  ve- 
ces, es  la  que  cuadra  a  un  tiempo  en  que  hay  mucho  que 
leer  y  poço  tiempo  para  hacerlo. 


182 


He  oido  a  no  poços  portugueses  acusar  a  los  de  la  gene- 
ración  de  Eça  de  Queiroz,  a  los  pesimistas,  de  haber  inca- 
pacitado para  la  acción  a  los  jóvenes  que  bajo  el  encanto 
de  sus  obras  se  educaron.  No  lo  creo  así,  sino  todo  lo  con" 
trário.  La  desilusión  que  Eça  de  Queiroz  y  los  suyos  pre- 
dicaron  ha  sido  madre  de  más  altas  y  más  nobles  y  más  fe- 
cundas ilusiones.  Eça  de  Queiroz  condujo  a  su  pueblo,  co- 
mo ai  amigo  Jacinto,  de  la  ciudad  a  la  sierra,  a  una  alta 
sierra  de  donde  se  abarca  el  panorama  de  la  historia.  En- 
sefió  la  triste  verdad  y  con  ello  a  buscar  nuevas  mentiras 
creadoras,  a  hacernos  la  verdad  de  cada  dia  y  la  ílusión  de 
Ia  eternidad.  El  final  de  A  Relíquia  es  característico. 

Guando  pasen  anos  los  que  lean  con  deleite  a  Eça  de 
Queiroz  comprenderán  con  que  hondo  carifío  amó  a  los  he- 
roes  de  que  más  se  burlaba.  ^Es  posible  sentir  mayor  carifio 
y  hasta  respeto  que  el  que  por  el  P.  Salgueiro,  esta  figura 
estupenda,  sentia  su  autor?  No,  no  es  verdad  lo  de  que  tout 
comprendre  est  tout  pardonner;  la  Verdad  es  que  tout  aimer 
est  tout  pardonner.  No  es  comprendiendo,  es  amando  —  y 
aun  odiando  —  como  se  perdona  todo.  Hasta  el  que  odia, 
que  es  un  modo  de  amar,  perdona  ai  odiado  asi  que  satis- 
fizo  su  ódio  en  él,  acaso  poniéndole  en  la  picota.  Y  Eça 
de  Queiroz  acabo  amando  a  aquellos  tipos  a  que  puso  en 
la  picota  dei  más  implacable  ridículo.  Basta  leerlo.  Ese  pa- 
dre de  portugueses  escribió  con  amor.  Y  por  ello,  debajo 
dei  susurro  cosquilleante  de  su  ironia,  ruge  el  áspero  sar- 
casmo que  brota  de  amores,  amargos  como  ódios,  y  de  ódios 
dulces  como  amores. 

Salamanca. 

Miguel  de  Unamuno. 


Eça  de  Queiroz  póstumo 


A  obra  do  grande  romancista  apresenta-se  em  dois  aspe- 
ctos caracteristicamente  diferentes:  a  sua  phase  de  escal- 
pelisação  e  de  romance  e  a  segunda  maneira,  ou  seja  a  sua 
phase  de  religiosidade. 

Eu  conheço  felizmente  toda  a  obra  de  Eça.  Fallar  dos 
seus  romances,  dos  typos  que  elle  criou,  do  seu  estylo,  da 
sua  ironia  subtil  e  inimitável,  equivalia  n'uma  palavra  a 
apreciar  a  obra  do  maior  romancista  portuguez,  embora 
isto  peze  a  românticos  póstumos  e  a  críticos  balofos  sem 
envergadura  mental  e  visão  critica.  Não  contesto  que  Ca- 
millo,  um  dos  maiores  e  mais  geniaes  fazedores  de  livros 
da  nossa  litteratura,  fosse  um  romancista  regular  deixando 
alguns  livros  preciosos,  onde  não  existem  tipos  nem  símbo- 
los humanos.  Mas  d'ahí  a  concluir  que  fosse  elle  o  maior, 
o  mais  profundo  dos  nossos  romancistas,  vae  uma  grande 
dífferença  e  um  grande  equivoco.  Camillo  não  fazia  roman- 
ces, fazia  livros,  alguns  decerto  admiráveis,  onde  a  sua  iro- 
nia é  culminante  de  belleza,  levando  o  próprio  auctor  dos 
Maias  a  consideral-o  «o  ardente  satyrico  neto  de  Quevedo 


184 


que  põe  ao  serviço  da  sua  apaixonada  misantropia  o  mais 
quente  e  o  mais  rico  sarcasmo  peninsular.»  Demais  o  valor 
mental  deste  escriptor  é  um  producto  consequente  da  sua 
própria  individualidade,  que  fica  entre  nós  como  um  admi- 
rável caso  de  transição  literária. 

O  que  mais  resalta,  anima,  vibratilisa  as  paginas  do  es- 
criptor e  a  sua  ironia  funda,  directa,  pessoal,  d'um  sarcas- 
mo que  parecia  deixar  sangue  ao  adversário  para  mostrar 
bem  como  o  feria. 

Os  personagens  do  auctor  illustre  do  Sentimentalismo  e 
Historia  são  iguaes,  semelhantes,  falando  a  mesma  lingua- 
gem, esboçando  idênticos  gestos,  idênticas  maneiras,  indi- 
vidualidades do  mesmo  quilate,  apáticos,  frios,  sem  que 
sintam  a  sua  realidade  humana. 

Sem  ambiente  artistico  nos  seus  livros,  quasi  sem  paisa- 
gem, na  sua  vasta  galeria  de  romances  apressados,  apenas 
os  personagens  românticos  nelle  viviam  um  pouco  a  sua 
realidade  ambiente.  Portanto  em  Camillo  subsiste  o  escri- 
ptor e  quasi  que  não  existe  o  artista,  já  que  elle  ficou  na 
nossa  literatura  como  um  admirável  mestre  da  lingua. 
Conhecendo-a  altamente,  classicamente,  dando-lhe  novos 
cambiantes,  novos  aspectos  na  linguagem  e  na  prosó- 
dia, indo  buscar  termos  obsoletos  e  esquecidos  d'uma 
belleza  expressiva,  o  auctor  illustre  da  novella  admirável 
que  é  O  Esqueleto,  das  laudas  descriptivas  do  Eusébio  Ma- 
cário e  da  Brazileira  de  Prazins,  o  novellista  culminante 
das  Novellas  do  Minho  e  d'esse  curioso  e  supremo  livro  no 
género  de  concepção  religiosa  que  é  a  Bruxa  de  Monte  Cór- 
dova, é  um  alio  escriptor,  d'um  talento  poliforme,  vivo, 
sarcástico,  vincando  bem  a  sua  personalidade  illustre  n'unia 
obra  que,  no  seu  conjuncto,  perante  uma  critica  serena, 
apenas  nos  dá  uma  dezena  admirável  de  livros  onde  a  lín- 
gua portugueza  esboçou  bem  a  sua  contemporânea  belleza 


>v '"Xs^ 


?   15 


f¥-^^ 


< 

5 
o 

et 
< 
Cl. 


< 
Z 

Dí 

O 

o 

Cl 

< 

õ 
< 

CL 


N 
O 

IJJ 

D 

Q 
< 

UJ 

tu 

Q 

O 

I- 

z 


185 


musical,  expressiva,  equilibrada  e  d'uma  correcta  elegância 
melódica.  Na  trindade  dos  nossos  grandes  escriptores  con- 
temporâneos, Camillo  foi  o  grande  alicercista,  Eça  o  grande 
escriptor-artista  e  Fialho  o  mais  bizarro  descriptor  da 
língua. 

Camillo  fica  como  um  grande  artista,  truncando  a  bel- 
leza  da  sua  obra,  por  ella  ser  precisamente  enorme  em  bi- 
bliografia, mas  não  deixou  decerto  uma  obra  humana,  cuja 
influencia  seja  perdurável  e  cujo  valor  seja  indiscutivel.  Os 
seus  personagens,  os  seus  typos,  analisados  hoje,  não  são 
mais  do  que  dolorosas  e  velhas  caricaturas  românticas,  da 
realidade  ambiente.  Eça  pelo  contrario,  em  todos  os  seus 
romances  criou  typos  que  ainda  se  encontram  hoje  vivos» 
com  modificação  do  scenario  — excepção  talvez  feita  ao 
Padre  Amaro  no  seu  cynismo,  e  a  Fradique  no  seu  postiça 
literário  de  super-homem  moderno.  Primo  Bazilio,  Ega, 
quasi  todos  os  seus  personagens  caricaturaes  e  realistas,  a 
ridículo  do  Pacheco  e  o  constitucionalismo  do  Conselheiro 
Acácio,  vivem  ainda,  transformados  é  claro,  mas  em  todo 
o  caso  vivem,  atravez  da  sua  efabulação. 

Nos  romances  de  Camillo  perpassa  sempre  um  sentimen- 
talismo piegas,  estudado  e  continuo,  tocando  algumas  ve- 
zes o  ridículo,  por  ser  muito  artificial.  Qualquer  dos  seus 
livros  o  atesta.  Eça  pelo  contrario,  influenciado  pelas  cor- 
rentes literárias  importadas  depois  de  Balzac,  então  em 
voga,  do  realismo  naturalista  de  Flaubert  e  de  Zola,  dei- 
xou em  todos  os  seus  livros  transparecer  a  nudez  forte  da 
verdade  observada  e  nítida. 

Eça  foi  um  realista.  Camillo  um  romântico  de  transição. 
Mas  ainda  assim,  com  todos  os  seus  defeitos  românticos^ 
com  todas  as  suas  fraquezas  de  sentimentalista  mórbido, 
Camillo,  hoje  na  maior  parte  das  vezes  tão  mediocremente 
admirado  e  criticado  por  escriptores  de  logares  communs 


186 


■e  d'uma  inferior  e  local  visão  critica  d'arte,  teve  con- 
tudo esta  qualidade  rara — escreveu  como  poucos  a  lingua 
portugueza.  —  Não  esquecendo  contudo  esta  outra  quali- 
dade não  menos  notável:  era  o  homem  que  em  Portugal  sa- 
bia mais  termos  de  dicionário,  como  o  apreciou  pouco  mais 
•ou  menos.  Eça  de  Queiroz,  n'uma  carta  das  Ultimas  Pagi- 
nas, em  que  a  ironia  do  mestre  é  superior  de  espirito  e  em 
parte  intensamente  justa  e  precisa. 

Um  senhor,  de  nome  José  Agostinho,  no  volume  infeliz  e 
banal  que  consagrou  a  Eça  de  Queiroz,  longe  de  entrar 
íi'uma  critica  serena,  rodopia  sempre  em  torno  d'esta  affir- 
mação  —  «Os  livros  de  Eça  de  Queiroz  são  na  essência  e 
quasi  sempre  até  na  forma,  a  corrupção  viva.»  E  mais 
adiante  continua :  «Lê-!os  é  descrer  da  boa  linguagem  dos 
nossos  avós.»  Eça  pintou  a  Verdade  nos  seus  livros,  se- 
-gundo  o  admirável  realismo  francez,  consequência  do  natu- 
ralismo inglez?  —  é  um  corrupto  para  a  inferior  visão  do 
■criticoide. 

É  incontestável  que  a  linguagem  de  Eça,  longe  de  ser 
uma  linguagem  vernaculamente  portugueza,  clássica,  está 
eivada  de  galicismos,  tem  qualquer  coisa  de  afrancezado; 
mas  com  estes  defeitos  a  sua  prosa  é  uma  prosa  linda  de 
belleza  melódica,  faiscante  de  ironia,  d'uma  ironia  que  só 
Eça  tinha,  uma  prosa  cujo  rytmo  embalia  maravilhosa- 
mente. 

Fidelino  de  Figueiredo,  na  sua  resumida  e  inteligente 
Historia  da  Literatura  Portugueza,  apreciando  Eça  de  Quei- 
roz, escreve  :  —  <  A  lingua  portugueza  nos  seus  romances 
transformou-se,  perdendo  talvez  em  purismo,  mas  ganhando 
na  maleabihdade,  em  poder  de  expressão  incisiva  e  flagran- 
te.» Fialho,  num  supremo  artigo  de  combate,  que  ficou  ce- 
lebre, publicado  na  revista  Brazil- Portugal  logo  apoz  a 
morte  do  escriptor,  vergasta  desalmadamente  o  artista  per- 


187 


feito  dos  Maias,  porque  a  sua  prosa,  loníje  de  ser  portugue- 
za,  era  afrancezada,  concluindo  que  Eça  de  Queiroz  nSo  era 
um  escriptor  nacional,  mas  sim  um  escriptor  internacional 
€  europeu. 

Fialho  no  seu  artigo  foi  violento,  desalmadamente  vio- 
lento, injusto  e  apaixonado.  Não  criticou,  ridicularisou  em 
detalhes  soberbos  de  sarcasmo  contundente,  a  obra  do 
grande  romancista  morto.  Mas  as  suas  affirmações  não  fi- 
caram sem  contestação.  Silva  Bastos,  no  prefacio  do  Di- 
cionário dos  Milagres,  rebateu  esse  erro  tão  frequente  e 
sempre  continuo  na  pena  inconfundível  e  superior  de  Fia- 
lho de  Almeida,  vendo  a  obra  do  grande  morto  com  paixão 
e  flagrante  injustiça. 

A  sua  obra  como  romancista  foi  sem  duvida  cheia  de  de- 
feitos, mas  ella  tem  perdurado  e  ha-de  perdurar.  Eça  foi 
um  grande  artista  e  conjunctamente  um  grande- psichologo. 
Alguns  dos  seus  livros  teem  paginas  verdadeiramente  so- 
berbas de  descriptivo  e  colorido.  A  correspondência  de  F ra- 
dique Mendes,  como  breviário  de  belleza,  por  exemplo,  con- 
tém cartas  que  são  ^documentos  d'uma  prosa  eternamente 
hella,  engastando  as  mais  argutas  idéas  sobre  moral,  reli- 
gião, coisas  portuguezas,  sob  aquella  subtilissima  ironia, 
que  ainda  ninguém  no  mundo  igualou.» 

Vae  nesta  frase  alheia  e  justa  todo  o  seu  elogio,  mas  de- 
certo o  seu  próprio  valor  reside  na  sua  obra  inconfundível 
e  única  entre  nós. 

Eça,  que  em  toda  a  sua  obra  ridicularisou,  satirisou  e 
prostituiu,  teve  também  a  sua  phase  de  religiosidade. 

E  não  foi  só  elle.  Junqueiro,  por  exemplo,  esse  genial  e 
deslumbrante  creador  da  Pátria  (já  entrevista  atravez  a  vi- 
são negativa  de  Oliveira  Martins  na  Historia  de  Portugal  e 
cujo  symbolo  e  motivo  tem  uma  grandeza  ao  mesmo  tempo 
satírica  e  shakespeareana,  pela  maneira  como  previu  a 


188 


nossa  ruína  moral)  o  demolidor,  emfim,  de  A  Velhice  do  Pa- 
dre Eterno,  escreveu  a  Oração  á  Luz,  onde  em  pureza  de 
verso  ha  pureza  de  idéas  espiritualisadas.  As  primeiras  poe- 
sias de  revolta  de  Anthero  deram  depois  logar  á  tragedia 
humana,  dolorosa,  culminante  e  genial  dos  seus  sonetos, 
constituindo  em  conjuncto  um  dos  maiores  dramas  Íntimos 
e  um  dos  maiores  livros  de  todo  o  mundo. 

Depois  da  revolta  ha  sempre  um  esboço  de  perdão  e  de 
contraste.  Gomes  Leal,  o  auctor  do  Anti-Christo,  publica 
actualmente  poesias  religiosas.  Já  na  Cidade  e  as  Serras^ 
o  grande  artista  deixa  transparecer  uma  maneira  diferente^ 
uma  prosa  mais  vernácula,  mais  portugueza.  A  ultima  parte 
do  livro  tem  paginas  que  são  um  encanto.  Mas  a  obra  que 
ha-de  ficar  para  apreciação  da  sua  nova  phase,  é  sem  du- 
vida as  Ultimas  Paginas,  publicadas  postumamente. 

Consta  de  três  narrativas  de  Santos:  S.  Christovam, 
S.t°  Onofre  e  S.  Frei  Gil.  A  primeira  d'essas  lendas^ 
S.  Christovam,  é  na  verdade  a  melhor,  onde  a  linguagem 
attinge  simultaneamente  mais  simplicidade  e  mais  perfeição. 
Tem  trechos  que  fazem  lembrar  Bernardim  Ribeiro  e  Ro- 
drigues Lobo,  pelo  descriptivo  quinhentista.  Longe  dos 
seus  francesismos,  da  sua  ironia,  Eça  nesta  obra  póstuma 
«vendo  a  vida  d'uma  culminância  extrema,  tomado  de  ver- 
tigem e  comoção  religiosa,  affirma,  ama,  reza,  perdoa  e 
resgata.»...  escreveu  algures  Jayme  Cortezão.  Eça,  nas 
Ultimas  Paginas,  resgata-se  dos  seus  anteriores  defeitos, 
do  afrancezado  da  linguagem.  Vem  da  Illustre  Casa  de 
Ramires  a  sua  contricção  artística  quer  na  lingua,  quer 
no  motivo,  quer  no  conjuncto,  quer  no  perdão  que  o  seu 
génio  tem  pela  terra  pátria  na  longa  écloga  christã  dos 
campos,  que  o  seu  estylo  descreve  n'uma  serenidade  con- 
templativa de  ode  latina.  É  o  seu  perdão  a  tudo  que  o  des- 
dém e  a  ironia  corromperam  quando  o  artista,  a  esboçar 


189 


um  sorriso  fino,  em  tudo  punha  o  traço  agudissimo  da 
graça  gauleza,  perante  o  palco  onde  a  sua  galeria  de  palha- 
ços vinha  agitar  um  mundo  doente,  torpe,  pequeno  ante 
as  ideias  e  os  factos,  ante  a  belleza  e  o  coração. 

Da  lUiistre  Casa  de  Ramires,  o  seu  mais  completo  traba- 
lho no  romance,  aquelle  onde  os  tipos  mais  realçam  e 
mais  vincam  e  a  paysagem  parece  soffrer  com  os  seus  per- 
sonagens nas  suas  dores  e  nas  suas  alegrias,  paysagem  pul- 
chra  de  tonalidades  verdes,  em  que  a  côr  tem  a  sua  graça 
olympica  de  fausto  e  de  maravilha,  vem  a  sua  religiosidade 
a  fundamentar-se  na  Cidade  e  as  Serras  onde  o  artista,  pe- 
rante o  problema  da  felicidade,  pinta  o  barulho  febril  e  su- 
premo de  Paris,  a  cidade  babylonisante,  onde  a  vida  é  o 
minuto  que  surge  e  logo  sucumbe,  inútil  e  constante  sem- 
pre, e  o  regresso  á  serra  n'uma  viagem  irónica  de  graça  e 
tortura,  até  que  o  scenario  virgem  da  paysagem,  põe  ante 
■os  personagens  da  sua  efabulação  todo  o  seu  encanto  e 
toda  a  sua  maravilha. 

Perante  o  problema  da  habitalidade  e  da  felicidade  mais 
moral  do  que  material  que  o  homem  precisa  para  a  sua  exis- 
tência plena  de  dôr  pensante  e  de  dôr  moral,  o  artista  es- 
tuda o  problema  do  egoismo,  que  na  cidade  vive  bem  o  seu 
império.  Deante  de  tantos  seres,  indo  atraz  da  sua  própria 
vontade,  tudo  é  frio,  indiferente,  e  injusto,  para  com  o  de- 
sacompanhado. Esse  personagem  bem  tipico  do  Zé  Fernan- 
des, atravessando  a  obra  com  a  sua  individualidade  serra- 
na talhada  e  aperfeiçoada  pelo  ambiente  e  pela  corre- 
cção citadina,  só,  na  cidade,  ante  o  bulicio  conjuncto 
da  mesma  cidade,  nella  mergulhando  o  seu  tédio,  a  sua 
consequência  funesta,  assim  pensa  e  desta  forma  medita : 
—  «Bem  certamente  estava  ali  como  perdido  n'um  mundo, 
<iue  não  me  era  fraternal.  Quem  me  conhecia?  Quem  se  in- 
teressaria por  Zé  Fernandes?  Se  eu  sentisse  fome  e  o  cotj- 


190 


fessasse,  ninguém  me  daria  metade  do  seu  pão.  Por  mais 
aff lictivamente  que  a  minha  face  revelasse  uma  angustia,  nin- 
guém na  sua  pressa  pararia  para  me  consolar.  De  que  me 
serviriam  as  excellencias  da  alma,  que  só  na  alma  flores- 
cem ?  Se  eu  fosse  um  santo,  aquella  turba  não  se  impor- 
taria com  a  minha  santidade;  e  se  eu  abrisse  os  braços 
e  gritasse  ali  no  boulevard  — «Oh  homens,  meus  irmãos!» 
—  os  homens,  mais  ferozes  que  o  lobo  ante  o  Pobresinho 
de  Assis,  ririam  e  passariam  indifferentes.  Dois  impulsos 
únicos,  correspondendo  a  duas  funcções  únicas  parecia  es- 
tarem vivos  naquella  multidão  —  o  lucro  e  o  gozo.  Isolada 
entre  elles,  e  ao  contagio  ambiente  da  sua  influencia  emi 
breve  a  minha  alma  se  contrahiria,  se  tornaria  num  duro  ca- 
lhau de  Egoismo». 

Era  a  lucta  do  desamparado  e  do  forte  que  reflecte  e  sabe 
pensar  e  achar  o  caminho  da  salvação.  Era  o  egoísmo  con- 
vertido em  lema  oficial  e  colectivo  a  ferir  o  instincto  da- 
quelle  que  naquelle  meio  sabe  ser  forte  e  reflectir  na  sua 
força  moral. 

Inicia  então  Eça  de  Queiroz  a  sua  maneira  contricta,  in- 
tima, em  que  o  seu  sorriso  emudece  a  ironia  suprema  e 
a  própria  mascara  avelhentada,  fixa  na  tela  de  Columbano, 
pinta  o  mestre  numa  atitude  serena,  de  crença,  perante  o 
novo  caminho  da  sua  alma,  vendo  agora  as  coisas  apenas 
pelo  seu  destino  ou  pela  sua  beleza,  como  um  mistico  vendo- 
um  crepúsculo  moirisco  de  sangue  e  rezando  á  ironia  do 
sol  morto  e  moribundo,  ou  como  um  religioso  amando  a 
crença  intima  do  seu  coração,  já  alheio  ao  mundo  e  só  d'ele 
recebendo  carinho  e  suavidade  e  beatitude.  Estava  pois 
aberto  o  caminho  para  a  obra  mais  sentida,  mais  culminan- 
te, mais  intensa  de  Eça,  as  lendas  dos  santos,  que  na  Ci- 
dade e  as  Serras  annunciou  para  o  fim,  para  o  remate  su- 


191 


premo  da  sua  obra  —  uma  nova  e  sentida  fase  de  religio- 
sidade e  perdão,  a  indulgência  de  quem  ama  intensa  e  fun- 
damente a  terra  que  viu  e  acarinhou  a  sua  infância  anónima. 

Esta  phase  teve  o  seu  apogeo,  a  sua  culminância  defini- 
tiva com  a  publicação  das  Ultimas  paginas,  afirmação  mai8> 
alta  d'um  grande  estilista  e  d'um  grande  psicólogo,  des- 
crevendo numa  linguagem  de  himnario  religioso,  ou  n'uni. 
estylo  arrancado  ás  laudas  do  Fios  Sanctorum,  a  tragedia 
dramática  dos  santos,  Vivendo  atravez  da  sua  crença  a  he- 
róica beleza  das  suas  vidas,  plenos  de  conflicto  moral  e 
simbólico.  Era  a  verdade  a  pôr-se  enternecidamente  ante 
os  olhos  maravilhados  do  artista.  Era  o  perdão  a  tomar  na 
sua  prosa  a  attitude  serena  d'um  fio  de  reza  ténue  e  en- 
ferma, em  lábios  frios  de  freira  adolescente  d'uma  virginda- 
de supliciada,  amando  o  mundo  pela  contricção  da  sua  ar- 
dente e  macerada  mocidade,  que  vai  cahindo  pouco  a  pouco- 
em  crepúsculo.  E  assim  nos  Vem  S.  Chistovam,  a  mais  com- 
pleta narrativa,  a  mais  descriptiva,  a  mais  perfeita,  e  tal- 
vez o  seu  mais  ordenado,  sereno  trecho  de  prosa;  a  seguir 
o  SJo  Onofre,  trecho  intenso,  dramático,  maravilhoso^ 
flaubertiano,  em  que  o  artista  atinge  atitudes  dolorosas, 
fantásticas,  admiráveis  e  culminantes  e  o  descriptivo  esbo- 
çado do  5.  Frei  Gil,  a  caminho  da  sua  perdição,  pactuanda 
com  o  diabo  e  por  ele  perdido. 

Referindo-se  á  primeira  d'estas  lendas,  escrevia  Eça  de- 
Queiroz  a  um  amigo,  que  achava  a  lingua  portugueza  qua- 
si  insuficiente  e  incapaz  para  a  descripção  de  certas  passa- 
gens, que  a  elevação  d'esse  assumpto  lhe  sugerira  já  que 
àquelle  conflito  de  bondade  queria  dar  um  simbolo  eterno. 
No  S.  Christovam  descreve-nos  Eça  a  vida  simples  e  pacata 
d'um  velho  rachador,  vivendo  n'uma  tosca  cabana  com  sua 
mulher,  uma  vida  de  écloga  christã,  bem  serena  e  bem  lím- 
pida, mais  serena  e  mais  quieta  do  que  uma  tarde  de  infan- 


192 


cia  já  morta.  O  velho  lenhador  trazia  na  alma  uma  grande 
tristeza  e  tinha  na  sua  vida  um  grande  vácuo  —  a  falta 
d'um  filho. 

Mas  um  dia,  corando  o  seu  rosto  de  santa,  a  boa  compa- 
nheira, entre  chorosa  e  alegre,  disse-lhe  ao  ouvido,  n'um 
murmúrio  de  medo,  que  brevemente  elle  seria  pae.  A  trans- 
formação brusca  que  se  opera  nesse  bronco  rachador,  as 
suas  alegrias  e  os  seus  sobresaltos,  só  um  espirito  fino  de 
alto  psicólogo  o  poderia  descrever  com  tintas  fulvas  ou  do" 
ces.  Eça,  nessa  parte  do  seu  conto,  foi  grande  e  foi  inimi- 
tável. 

Nasce  o  filho,  o  S.  Christovam  da  lenda.  Porém,  longe 
de  ser  um  filho  risonho,  robusto  como  um  anjo  de  Fra  An- 
gélico, sahiu  uma  creança  disforme,  horrenda,  um  pequeno 
gigante  mal  movendo  as  mãos  longas  e  os  pés  inertes. 

Os  primeiros  tempos  da  sua  infância  passou-osn'uma  in- 
sensibilidade desconhecida,  n'uma  inércia  apavorante.  To- 
dos 03  dias,  a  todas  as  horas,  o  mesmo  socego,  a  mesma 
tranquilidade,  a  mesma  inércia,  davam  ao  seu  corpo  uma 
atitude  presa  de  somnambulo.  As  vespas  mordiam-no  e  ele 
nem  sequer  movia  as  suas  grandes  mãos  de  gigante  pre- 
coce. 

O  Christovam  da  lenda  era  uma  criança  na  idade  e  era 
gigante  no  corpo,  e  esta  anormalidade  desgostou  de  tal  ma- 
neira o  bom  lenhador  e  a  sua  companheira,  que  a  pouca  dis- 
tancia um  do  outro,  morreram  socegadamente,  como  aves 
enfermas  a  um  frio  de  inverno,  todo  Vestido  de  neve.  Chris- 
tovam ficou  órfão  e  só,  mais  só  do  que  um  cipreste  numa  pai- 
sagem erma.  Contemplando  dia  a  dia  os  mesmos  sitios  eas 
mesmas  paisagens,  a  sua  velha  cabana,  o  gigante  tinha  nos- 
talgias indefinidas,  desejos  incertos  d'um  incerto  além.  Uma 
noite  um  grupo  de  ladrões  assaltou-lhe  a  cabana  e  emquan- 
to  ele  dormia  profundamente,  levou  tudo  o  que  poude— rou- 


193 


pas,  moveis  e  mantimentos.  Ao  acordar  na  manhã  seguinte 
viu-se  tão  só,  que,  olhando  pela  ultima  vez  a  cabana,  foi  pe- 
los campos  fora. 

A  vida  foi-lhe  então  vagabunda  e  triste.  Serviu  como 
•criado  n'um  mosteiro,  foi  escravo,  trabalhador,  e  um  dia 
juntou-se  a  um  bando  de  servos  seus  irmãos,  que,  andando 
em  guerra  com  os  seus  senhores,  pediam  pão  para  matar  a 
fome.  Christovam  acompanhou-os  levado  pela  magnanimi- 
dade da  sua  boa  e  enternecida  alma,  com  ternuras  de  me- 
nino e  gestos  de  heroe,  triste  como  a  alma  de  um  mendigo 
€  doce  como  a  fé  d'um  rabbi  nazareno. 

Próximo  d'um  castelo,  houve  uma  vez  uma  escaramuça 
entre  os  esfomeados  trabalhadores  e  os  homens  d'armas 
<l'um  forte  senhor.  Ao  primeiro  encontro,  homens  e  mulhe- 
res, velhos  e  creanças,  cahirani  por  terra,  ensanguentados 
e  chorando.  Então  Cristovam,  n'um  arranco  de  enthusias- 
mo  e  de  amor  pelos  seus  eguaes,  vendo  que  estes  fugiam, 
com  um  velho  tronco  de  arvore  que  as  suas  mãos  de  gi- 
gante arrancaram  do  sólo,  intimidou  os  homens  de  armas 
como  um  phaníasma. 

A  descripção  de  Eça  attinge  aqui  proporções  Verdadeira- 
mente supremas  de  colorido  e  realidade  descriptiva.  A  su- 
prema culminância  alliada  á  suprema  verdade  descriptiva, 
deram  a  esse  painel  movimentado,  um  cunho  inimitável  de 
beleza  e  enternecido  carinho  pela  lingua.  Depois,  mais 
tarde,  o  bom  gigante,  já  Velho  e  adoentado,  passava  ani- 
«laes  e  caminhantes  d'uma  para  a  outra  margem  d'um  rio, 
substituindo  uma  velha  ponte  que  tinha  apodrecido.  Che- 
gou a  passar  touros,  tal  era  a  sua  força  hercúlea.  Mas  uma 
vez,  quando  todo  elle  era  já  um  mármore  de  senectude,  e  a 
corrente  era  grande,  apareceu-lhe  um  menino,  que  lhe  pe- 
diu o  levasse  a  casa  de  seus  pães,  lá  para  a  outra  margem. 
O  bom  Cristovam  levantou-o  nos  braços,  mas  ao  atraves- 

XÇA   DE   quSlROZ  I^ 


194 


sar  a  corrente,  sentiu-se  tão  fraco,  que  ia  quasi  a  abando* 
nar  a  creança  que  suplicava,  que  suplicava  sempre,  o  le- 
vasse, lá  longe,  lá  longe,  a  casa  de  seus  pães !  E  ao  che- 
gar, tonto,  exausto,  bamboleando  os  músculos  largos,  aa 
outro  lado  da  margem,  cahindo  inanimado,  reconheceu 
n'esse  menino  o  bom  Jesus,  disfarçado  n'aquella  creança,^ 
que  o  levava  subtilmente  para  o  céu  distante. 


A  narrativa  acaba  assim  n'uma  suavidade  religiosa,  ma- 
guada  e  serena.  O  mestre  corrobora  o  seu  inicio  de 
Arte.  Começa  por  dissecar  a  frio,  para  acabar  por  fin> 
amando  os  personagens  das  lendas  com  um  sorriso  aman- 
tíssimo. Assim  o  genial  creador  d'essa  sátira  intensa  queé 
«A  reliquia,»  agora  tomado  de  ternura,  acompanhou  S.Cris- 
tovam  como  um  guardião  acompanhando  um  anjo,  n'uma 
alegoria  hierática,  pe!a  vida  adeante,  e  n'ella  tomando  cui- 
dado e  por  ella  amando  e  soffrendo.  S.  Cristovam  atinge  as- 
proporções  d'um  símbolo  eterno.  Não  é  jáno  trecho  do  Ar- 
tista o  Santo  que  caminha  entre  maguas  e  torturas,  entre 
incertezas  e  pezares,  a  sua  vida  dolorosa  de  fé  e  de  cari- 
dade, e  gigante,  pleno  de  força,  hercúleo,  ciclopico,  não  se 
serve  da  sua  força  senão  para  acariciar  os  fracos,  os  que  o- 
destino  enfermou  e  a  quem  fez  engeite.  Cristovam  batalha, 
soffre,  labuta  sempre,  exalça  a  sua  fé  e  a  sua  força,  le- 
vanta medos  e  admirações,  arrasta  os  seus  passos,  para 
quê,  com  que  fim?  Com  um  fim  religioso  decerto,  masque 
pode  e  deve  ser  social,  mais  ainda  do  que  humano.  Elle  é 
bem  o  símbolo  da  revolta  pacificada,  para  quem  o  mundo  é 
cheio  de  duvida  e  de  malquerença.  E  assim  caminha  o  seu 
corpo  de  gigante,  mais  pacifico  e  inofensivo  do  que  um 
perro  domesticado  e  brando,  mais  fraco  do  que  uma  creança 


195 


doente  e  aleijada,  mais  humilde  até  do  que  os  pobres  vian- 
dantes, que  de  barbas  talmudicas,  pelas  estradas  ermas,  es- 
molando a  luz  e  a  bondade  dos  semelhantes,  põem  no  roxo 
cahir  das  tardes,  cheias  de  crepúsculos  incendiados,  ás 
voltas  dos  caminhos,  discos  esboçados  para  a  grande  agua- 
rela do  crepúsculo  agonxo  (vinde  vós,  vinde  vós  pintá-lo, 
ó  Artistas  enternecidos  da  tinta  !)  que  ninguém  ainda  poz 
em  tela  extensa,  ou  em  painel  extático,  decerto. 

Cristovam  ama,  soffre  sempre,  realisa  bem  a  sua  fécon- 
tricta  e  por  isso  é  eterno  como  simbolo.  Mais  do  que  reli- 
gioso o  destino  de  Cristovam  é  humano,  desvairado  de  ter- 
nura funda,  social.  O  que  o  Santo  soffre  é  o  resumo  de  to- 
dos os  que  soffrem,  os  que  amam,  os  que  batalham  pela  fe- 
licidade inutilmente.  O  que  o  Santo  realisa  n'essa  vagabun- 
dagem de  ternura  e  de  servidão,  é  o  destino  de  todos  os 
que  erram,  de  todos  os  anonymos,  os  perdidos,  os  igno- 
rados. 

Nas  paginas  em  que  o  génio  de  Eça  de  Queiroz  descre- 
veu o  combate  entre  os  esfomeados  trabalhadores  e  os  ho- 
mens d'armas  d'um  forte  senhor,  a  sua  prosa  é  intensa, 
plena  de  dramaturgia  e  vigor,  elástica,  castiça,  doce,  e 
cheia  de  tinta  descripíiva,  tinta  que  se  anima  e  cria  reali- 
dade, expressão,  verdade  pictórica,  portanto. 

Cristovam  quando  acode  e  acompanha  os  seus  eguaes, 
por  elles  combatendo,  ao  ver  mulheres  e  creanças  desnu- 
das de  pés,  pondo  na  terra  o  seu  sangue  súplice  e  inocente, 
ergue-se  como  um  phantasma,  e  aquelle  gesto  tão  nobre  é 
o  gesto  resumo  de  todos  os  oprimidos,  aquelles  a  quem  o- 
destino  só  dá  o  mal  e  a  dor  contínua.  Então  Cristovam 
surge,  surge  como  um  Deus,  mais  humano  do  que  um  heroe 
e  mais  belo  do  que  um  sacerdote  ou  um  bispo  mitrado  de' 
oiro  e  de  jóias.  E'  então  que  elle  toma  as  proporções  d'um 
simbolo  eterno  e  social.  É  a  razão  contra  o  despotismo.  É 


196 


a  dor  humilde  contra  o  bem  estar.  É  a  voz  da  força  contra 
a  voz  do  fogo  e  sangue  que  sobre  a  terra  marca  esse  ce- 
mitério de  momento,  é  a  ara  onde  nasceu  o  culto  pagão  da 
força,  do  bom  Cristovam  gigante  e  manso,  arrastando  os 
pés  enormes  e  as  mãos  grossas,  e  levando  nos  olhos  humil- 
des uma  eterna  sombra,  incerta  e  nebulosa...  Cristovam  foi 
s6,  foi  orphão,  foi  abandonado  — e  triste  do  seu  destino, 
insensível  á  vida  depois  que  os  ladrões  lhe  levaram  tudo, 
deante  do  mundo,  insensível  também,  só  com  a  sua  vontade 
e  a  sua  bondade,  começou  a  ser  peregrino  e  romeiro  er- 
rante. Mas  a  mão  de  Deus,  a  sua  mão  guiadora  e  amiga 
dos  humildes,  acompanhou-o  sempre.  Cristovam  foi  mártir 
para  elevar,  para  realçar  mais  a  sua  santidade,  visinha  já 
da  vida  eterna,  que  Deus  lhe  destinava.  Foi  escravo,  co- 
nheceu o  mal,  a  desgraça,  a  perseguição,  a  infâmia,  o  ul- 
trage  e  a  inveja.  Passava  acossado  como  um  mastim  cheio 
de  pústulas,  n'um  caminho  berrante  e  álacre  de  romaria, 
n'uma  hora  de  sol  esparso  e  ténue,  mais  rubro  do  que  san- 
gue volátil.  E  assim  soffrendo,  iacreando  no  seu  intimo  a 
razão  que  lhe  guiava  os  passos.  Era  a  santidade  a  ensinar- 
Ihe  o  destino,  os  seus  gestos,  os  seus  passos  incertos.  E 
quandoCristovam,  já  velho,  incerto  e  trôpego,  passava  ani- 
maes  e  touros,  substituindo  uma  ponte,  no  fim  d'uma  exis- 
tência tão  heróica,  trazia  n'aquella  senectude  o  mais  belo 
dos  símbolos  humanos  — a  lucta  pela  bondade.  Deante  do 
conflicto  com  o  mundo,  elle  conheceu  bem  os  homens,  co- 
nheceu o  mal,  a  maldade,  e  a  dor,  o  seu  melhor  brazão  in- 
timo, intensamente  justo.  O  seu  elmo  era  a  bondade  e  junto 
aos  escravos  parecia  o  próprio  Deus  vindo  á  terra  transmi- 
gradamente,  no  corpo  enorme  d'aquelle  gigante,  a  crear 
para  nós  as  attitudes  inesquecíveis  d'um  símbolo  religioso 
e  ao  mesmo  tempo  universal.  A  dor  foi  maior  do  que  em 
Job,  mais  dolorosa  do  que  em  todos  os  símbolos  que  a  his- 


197 


toria,  a  mythologia  greco-latina  e  a  tradição  trouxeram 
até  nós.  Maior  do  que  Hercules  e  Anteu,  maior  do  que  a 
própria  razão,  Cristovam  viveu  a  sua  existência  a  realisar 
plenamente  a  bondade,  cristão  inconsciente,  amado  pelos 
humildes,  temido  pelos  fortes,  mais  contricto  do  que  um 
escravo  religioso  e  mais  forte  do  que  um  gladiador  heróico. 
Elle  foi  bem  o  anjo  da  guarda  dos  fracos,  e  caminhando 
trôpego  e  disforme,  a  sua  alma  no  fundo  era  superior  e  lu- 
minosa como  a  de  um  Deus  e  bondosa  como  a  alma  d'uma 
mendiga,  cheia  de  farrapos  e  por  elles  vestida,  que  sente 
na  mão  fria,  hora  a  hora,  a  esmola  dos  homens  convertida 
em  dadiva  humana  universal  e  augusta.  O  simbolo  de  Cris- 
tovam acho-o  mais  humano,  mais  resumo  de  nós  próprios, 
mais  sintese  da  dor  universal,  do  que  se  Cristovam  fosse 
apenas  um  simbolo  religioso,  um  pouco  mártir  S.  Sebas- 
tião, mais  gigante  e  mais  belo,  mais  resignado  e  mais  cul- 
minante. É  todo  o  arranco  da  vida  a  tomar  expressão  re- 
volta, carinho,  fé  e  beatitude,  nos  seus  braços  ineguala- 
veis,  que  tem  sempre  um  auxilio  á  fraqueza  e  são  sempre 
bondosos,  abertos  a  toda  a  inópia  dos  pobres,  dos  opri- 
midos, dos  anonymos  e  dos  humildes,  mais  humildes  ás  Ve- 
zes do  que  uma  paisagem  mendiga,  sem  horisonte,  sem  ve- 
getação, sem  arvores  e  sem  beleza.  Depois  Cristovam,  no 
fim  da  sua  accidentada  rota  pelo  mundo,  crê  na  eternidade 
e  lá  fica  portanto  a  velar,  estatuado,  como  um  mármore 
doloroso,  em  que  o  corpo  mudamente  confessa  uma  vida 
de  combate  e  de  vigor  intenso,  incessante  e  forte. 

Nasce  então  a  alegoria.  Uma  vez,  junto  a  uma  ponte, 
como  a  corrente  era  agitada  e  medrosa  e  as  ondas  tinham 
Ímpetos  escravos  de  revolta,  apareceu  ante  a  sua  bondade, 
um  menino  solitário  e  mendigo,  que  lhe  pediu  a  medo  o  le- 
vasse a  casa  de  seus  pães,  que  era  bem  longe,  bem  longe, 
para  o  outro  lado  da  margem.  S.  Cristovam  tentou  levá-lo  e 


1^ 


caminhou  e  fez  um  esforço  gigantesco,  admirável !  E  de  ten- 
tativa em  tentativa,  já  sem  animo,  ao  tentar  dar  o  ultimo 
arranco,  elle  que  fora  tão  forte,  sucumbindo,  para  levar 
esse  menino  perdido  lá  longe,  lá  para  muito  longe,  reconhe- 
ceu ao  cerrar  os  olhos  para  o  mundo,  que  esse  menino  tão 
frágil  nas  suas  grossas  mãos  era  o  menino  Jesus,  que  o  le- 
•Vava  para  o  céu  em  agradecimento  da  sua  vida  contricta  de 
fé  e  de  bondade.  Eis  aqui  bem  nitido  o  simbolo  que  Eça 
í|uiz  dar  ao  personagem.  Deus  dpu-lhe  a  razão  para  a  eter- 
ttidade  e  Cristovam  ficou  um  santo  eterno,  tendo  na  exis- 
tência uma  biographia  enorme  de  beleza  religiosa,  a  reali- 
sar  o  verbo  augusto  de  Cristo,  perdido  em  vão  entre  o 
egoismo  humano,  frio,  como  a  lamina  d'um  punhal  virgem 
de  crimes.  Cristovam  depois  de  combater  e  amar,  depois 
de  soffrer  assim,  realisou  inconscientemente  um  dos  maiores 
símbolos — a  eternidade.  Mas  o  seu  simbolo  mais  alto  é  de- 
certo a  sua  existência  tumultuosa,  isto  é,  a  sua  tortura,  a 
sua  dor,  considerada  então  em  si,  síntese  de  toda  a  dor  hu- 
mana. S.  Cristovam  é  pois  ao  mesmo  tempo  um  simbolo  hu- 
mano, religioso  e  social — melhor,  intensamente,  humana- 
mente doloroso.  E  Eça  de  Queiroz,  como  um  monge  le- 
trado, escrevendo  á  labareda  do  seu  sonho  uma  creação 
cristã,  foi  n'este  trecho  inegualavel,  enorme,  deslumbrante. 


No  S.to  Onofre,  esse  episodio  tão  flaubertiano,  Eça  des- 
creve-nos  a  vida  de  um  santo,  que  procurou  um  deserto 
para  n'elle  com  resas  e  penitencias  conseguir  a  salvação  da 
sua  alma.  Isolado  do  mundo,  tendo  apenas  a  uniformidade 
triste  e  o  azul  sereno  do  céo,  a  suavisar-Ihe  a  monotoni- 
dade  doentia  do  deserto,  o  velho  Onofre  passou  verdadei- 
ros tormentos  !  Apareceram-lhe  visões,  visões  varias.  Vie- 


199 


ram  doutores  e  sábios  para  o  convencerem  a  abandonar  a 
religião  christã. 

Via,  nitidamente  via,  nos  seus  sonhos,  mesas  floridas 
com  doces,  iguarias,  vinhos  finos,  pitéus  saborosissimos. 
E  em  tudo  isto  elle  via  o  diabo,  a  perseguição  do  Diabo  ! 
Redobrava  de  penitencias  e  resas.  Mas  em  vão.  Depois  vi- 
nham mulheres  luxuriantes,  tentadoras  de  carnação  e  volú- 
pia, que  lhe  estendiam  os  braços  roliços  e  os  seios  odorife- 
ros !  E  Onofre  passava  horrores,  implorava  a  misericórdia 
-do  Senhor ! 

Vinham-lhe  tentações  do  poder,  coisas  do  Demo.  Até 
que  o  santo  abandonou  o  Deserto,  o  seu  horto  de  pedras, 
€  amparado  ao  velho  bordão,  barba  talmúdica  de  romeiro, 
veiu  para  as  vilas  e  cidades.  Uma  mãe,  ao  vê-lo,  pede-lhe 
■que  lhe  salve  o  seu  filho. 

Elle  pôde,  elle  é  santo  !  Fez-se  o  milagre ! 

E  o  velho  Onofre  encheu-se  de  vaidade,  d'um  orgullio 
indomável  !  Ha  então  na  lenda  o  combate  entre  o  orgulho 
«  a  santidade  do  santo.  Julgou-se  perdido  nas  mãos  de 
Satan. 

Mas  Jesus  salvou-o,  levando-o  para  o  céo  ! . . . 


Em  S.to  Onofre  ha  a  grande  lucta  entre  o  orgulho  e  a 
vontade,  uma  lucta  titânica,  allucinante,  macabra  e  quasi 
sinistra.  Onofre,  perdido  no  mundo,  saciado  da  carne  e  do 
prazer,  de  tudo  o  que  é  supremamente  consolador  e  diV'ni- 
zante,  de  tudo  o  que  é  profano  e  excita,  procura  o  deserto 
como  uma  salvação  para  o  seu  mal  íntimo,  labareda  accesa 
no  seu  peito  que  depois  toma  a  attitude  macabra  e  doida 
d'um  incêndio.  No  deserto,  alheio  ao  mundo,  tendo  só  ante 
si  a  montra  dolorosa,  elysea  e  cristã  do  céu,  onde  as  es- 


200 


trellas  entretinham  o  seu  adagio  de  oiro  tremulo  na  grande 
camará  ardente  da  noite  e  das  sombras,  Onofre,  o  solitário, 
em  tudo  via  o  pecado  a  tentá-lo  de  novo,  a  tentá-lo  perdi- 
damente, roubando-lhe  a  salvação  e  a  fé  que  o  haviam  de  re- 
dimir. Vieram  doutores,  vieram  sábios  de  longe  a  conven- 
ce-lo.  Debalde,  debalde  sempre,  porque  Onofre,  perdido 
entre  o  seu  deserto,  vivia  como  a  chama  de  um  lampeão,. 
agitada  pelo  vento,  sem  fixidez,  sem  atitude  certa,  agitada, 
a  mover-se  sempre.  Era  a  inconstância.  Depois  é  a  visão 
profana  das  mulheres,  das  amantes,  da  carne,  do  vinho  e 
do  prazer.  Ante  a  sua  fé  surge  sempre  o  mundo,  funambula- 
mente,  profanamente.  E  o  pecado  faz  com  que  nos  seus  so- 
nhos de  alheio  ao  mundo,  mulheres  desnudas  lhe  extendam 
os  braços  cor  de  rosa-exangue,  coleantes  como  serpentes,, 
cujo  veneno  fosse  apenas  o  prazer.  Em  tudo  era  o  Diabo 
impenitentemente  a  tentá-lo  para  a  perdição,  porque  ante 
o  seu  deserto,  ante  a  sua  própria  vida,  alheia  ao  mundo, 
era  o  mundo  que  lhe  aparecia  sempre,  allucinadamente,. 
perdidamente,  como  uma  visão  lasciva  de  harém,  iluminado 
e  feérico,  deslumbrante  e  tentador  sempre,  minuto  a  mi- 
nuto, hora  a  hora.  Surge  então  a  lucta  dramática  entre  a 
razão  e  o  instincto.  Entre  penitencias  e  rezas,  entre  os  su- 
plícios a  que  o  seu  corpo  se  sugeita,  o  seu  credo  profano 
na  vida  surge  continuamente.  E'  a  perda  certa  da  sua  fé  re- 
cente. Elle  soffre  por  Deus,  decerto,  e  as  suas  rezas  são 
fundas  como  abysmos  e  continuas  como  a  noite,  ante  seus 
olhos  perdidos  na  fé  que  o  illumina  e  que  tanto  conhece- 
ram, sentiram  e  amaram  o  mundo.  O  S.^o  Onofre  abandona 
então  o  deserto  e  vem  para  a  cidade,  para  a  vida.  Quando 
lhe  suplicam  que  faça  milagres,  o  santo  não  confia  em  st 
para  os  fazer,  mas  uma  mãe  pede-lhe  com  ardência  que  lhe 
salve  o  filho! 
—  Elle  pode  !— Elle  pode,  elle  é  santo,  divino,  no  aspecto» 


201 


as  suas  mãos  hSo  de  fazer  milagres  —  rogava  com  amor 
doloroso  a  velha  suplicante. 

No  seu  intimo  o  orgulho  e  desvairado,  quente,  fulvo. 
como  se  tivesse  um  incêndio  no  coração.  Era  o  milagre  a 
surgir  ante  S.^^  Onofre,  outra  Vez  profano  no  seu  orgu- 
lho intensíssimo.  Satan,  o  Diabo,  queria-o  perder,  per- 
der na  sua  fé  i Iluminada,  sabendo-o  ido  para  o  deserto» 
para  se  salvar  das  delicias  do  mundo,  que  tanto  conhecera 
e  amara,  no  prazer,  na  carne  que  violara  e  beijara,  no  amor» 
no  deleite  e  na  mulher.  Ha  a  salvação!  Jesus  deu-Ihe  cari- 
nho e  amparou-o!  E  Santo  Onofre  realisou  e  viveu  o  seu 
destino,  a  sua  salvação  concebida  e  tentada,  n'esse  deserta 
tão  amplo  e  tão  ermo!  O  espirito  eleito  de  Eça,  já  então 
conhecedor  do  descriptivo  anatoliano  (digamos  assim)  tãa 
equilibrado  e  tão  sereno  de  imagens  e  de  aspectos,  tem 
n'esta  narrativa  paginas  assombrosas,  inegualaveis,  e  atin- 
ge atitudes  d' um  dramático  fora  de  toda  a  sua  obra  ante- 
rior—fazendo mover  ante  si  uma  vasta  baixa  comedia  de 
viciosos  caricaturaes,  de  figuras  ambientes  prezas  á  vida 
por  um  lado  real  e  frivolo  de  mais,  e  de  ridículos  de  coluna 
vertebral  hirta  a  pretenderem  ser  humanos  e  terem  humana 
beleza  simbólica  e  humano  orgulho!  Santo  Onofre  é  a  nar- 
rativa em  que  o  lado  dramático  tem  simultaneamente  o  seu 
auge  e  a  sua  perfeição. 

Eça  estudou  bem  a  lucta  do  orgulho  contra  a  razão. 
Santo  Onofre  é  bem  o  simbolo  da  duvida,  o  mármore  reli- 
gioso do  orgulho  rebelde,  amando  de  mais  a  vida  profana» 
para  esquecer  e  amar  o  suplicio,  a  reza,  a  idéa  de  Deus,  a 
céu  enorme  — bem  longe  da  sua  infância,  dos  corpos  que 
amara,  dos  corpos  que  beijara.  N'essa  lucta  fanática,  Sa- 
tan não  venceu  Deus,  antes  foi  a  idéa  de  Deus  que  venceu 
Satan,  salvando  o  Santo  Onofre  e  fazendo,  creando  assim 
um  grande  simbolo  de  orgulho  a  quem  a  mão  sobrenatural 


202 


<Jo  destino  religioso  salvou  da  perdição  e  da  vaidade.  E' 
um  grande  drama  subjectivo  e  intimo  que  a  personalidade 
■de  Santo  Onofre  sintetisa  na  sua  vida  de  coníricção  e  de 
remorso,  de  alheamento  e  de  sensualismo,  vida  intensa, 
cristã,  rebelde  e  profana,  simultaneamente!... 


A  lenda  de  São  Frei  Gil,  incompleta,  é  a  velha  lenda  de 
um  santo  portuguez  que  pactuou  com  o  Demónio.  Vivia 
n'um  rico  solar  feudal,  com  seus  velhos  pães.  Era  o  enlevo 
-d'aquellas  gentes. 

Aprendeu  a  manejar  as  armas,  a  lança,  a  besta,  o  dardo, 
caçava  quasi  sempre  só,  pelos  montes,  mas  Gil  tinha  o  de- 
sejo de  aprender,  ir  para  as  Universidades  tão  acreditadas 
então. 

Partiu  um  dia,  confundindo  as  suas  lagrimas  com  as  dos 
velhos  pães  e  foi  caminho  da  França,  com  um  bom  escu- 
deiro. No  caminho  encontrou  um  fidalgo,  que  também  ia 
■aos  seus  estudos,  mas  com  o  fito  de  estudar  as  Artes-ne- 
gras.  Convenceu  Gil  a  acompanhal-o. 

Abancaram  n'um  amigável  jantar.  E  termina  aqui  esta 
lenda,  infelizmente  incompleta. 

De  toda  a  lenda  a  scena  do  amor  do  fidalgo  com  a  pas- 
tora Solena,  a  infância  da  sua  paixão,  a  sua  busca  acompa- 
nhado pelos  seus  homens  de  armas,  desde  que  um  dia  ao 
tocar  a  sua  buzina  ella  não  apareça,  nem  São  Frei  Gil  vira 
as  ovelhas  que  ella  apascentava,  as  suas  anciedades  conti- 
nuas, as  suas  dores  intimas,  tudo  isso  é  dado  pela  mão  do 
Artista,  em  um  descriptivo  cheio  de  côr  e  de  expressão  al- 
tamente castiço  e  limpidamente  sereno. 

Embora  truncada,  esta  lenda  realisa  também  o  seu  mo- 


203 


tivo  de  expressão  o  conflícto  medievo  entre  as  duas  verda- 
des—A  Razão  e  a  Fé.  O  nosso  S.  Frei  Gil,  considerado  o 
doutor  Fausto  da  primeira  Renascença  portu$Jueza,  através 
do  satanismo  da  meia  edade,  é  bem  o  iniciado  em  coisas 
profanas  e  diabólicas,  levado  de  casa  de  seus  pães,  através 
de  tentações,  de  incertezas  e  de  mistérios  para  desvendar 
a  verdade,  pactuando  mesmo  com  o  Diabo  e  estudando  Ar- 
tes-negras  na  Universidade  de  Toledo,  onde,  ante  os  pro- 
fessores assigna  o  maíjico  pacto  que  lhe  daria  todas  as  fe- 
licidades e  gosos  d'este  mundo. 

Gil  partiu  levando  nos  olhos  uma  grande  crença  e  um 
destino  incerto,  depois  do  seu  amor  á  pastora  Solena,  des- 
tino que  elle  mal  concebia  no  satanismo  criminoso  de  des- 
vendar a  origem  dos  seres  e  o  seu  segredo,  segredo  que  o 
demónio  lhe  daria  depois  do  pacto  assignado  — agora  que 
elle  já  tinha  posto  de  parte  a  idéa  de  ir  estudar  medicina  a 
Paris. 

O  fidalgo  que  o  convenceu  a  estudar  as  Artes-negras, 
era  o  próprio  destino,  humanisado  n'aquelle  companheiro 
de  viagem,  a  procurar-lhe  a  alma,  diabolicamente  — masno 
fim  da  sua  existência,  elle  renega  a  sua  omnipotência, 
quebra  o  pacto  satânico  e  morre  santo,  em  plena  beatitude 
cristã,  na  paz  e  na  suavidade  extática  da  nossa  boa  e  bem- 
dita  terra  de  promissão,  decerto  eleita  por  Deus  e  por  elle 
muito  querida.  Se  Eça  não  tivesse  aqui  infelizmente  aca- 
bado o  manuscripto,  contar-nos-hia  o  destino  futuro  do 
santo,  que  o  Artista  esboçou  no  seu  plano  de  obra,  publi- 
cado juntamente  com  o  começo  da  narração,  de  envolta 
com  os  seus  actos  profanos  e  sinistros,  até  que  tornado 
omnipotente  pelo  pacto  com  o  Demónio,  usufrue  todos  os 
gosos  e  d'elles  se  cança — e  dir-nos-hia  a  sua  vida  de  ca- 
maradagem com  o  simbólico  Satan  o  roubador  sinistro  das 
almas,  que  o  inferno  na  concepção  cristã  reúne  e  contém, 


204 


no  sinistro  império  da  morte,  por  castigo  de  erros  terrenos, 
e  acabando  o  seu  celebre  pacto  e  morrendo  em  beatitude. 

Dos  três  manuscriptos  publicados  com  a  designação  de 
lendas  de  santos,  é  este  o  mais  curioso,  e  decerto  seria  o 
mais  belo  e  sugestivo.  São  Frei  Gil  ressae  bem  como  um 
simbolo,  pois  que  tentando  o  incerto  e  a  felicidade  por  in- 
tervenção do  diabo,  veiu  a  renegar  o  seu  pacto  desde  que 
a  mulher  que  ama  lhe  aparece  transformada  no  esqueleto 
da  morte  e  deixando  para  sempre  a  iniciação  nas  Artes- 
negras. 

Volta  á  sua  terra  e  n'ella  morre  n'um  convento  silen- 
cioso, em  um  quieto  e  remançoso  vale,  em  plena  santidade, 
feliz  da  sua  conversão  a  Deus  e  certo  de  que  só  a  sua 
imagem  vale  e  ampara  ao  Homem,  á  ambição,  ao  goso,  ao 
amor  frágil  das  coisas  profanas  que  o  tentaram  e  illudi- 
ram. 

A  adolescência  de  Gil  que  Eça  ainda  poude  escrever,  é 
dada  n'uma  agua-tinta  leve  de  coloridos,  imagens  e  descri- 
pções,  bem  como  o  seu  amor  á  pastora,  aos  livros— até  que 
vae  com  o  seu  escudeiro  Pêro  Malho  a  caminho  de  Paris 
estudar  medicina.  Sahido  da  sua  casa  feudal  para  se  tornar 
um  santo  e  um  simbolo  e  para  eleitamente  viver  a  sua 
eleita  vida,  buscando  sempre  a  verdade  no  conflicto  entre 
a  Razão  e  a  Fé,  através  de  todo  o  ambiente  medieval. 

O  estilo  é  de  imagens  ténues  como  um  velho  romance  de 
cavalarias,  que  o  supremo  espirito  do  Artista  moldasse 
com  o  seu  estilo  fluente  e  sereno,  como  a  agua  de  um  rio 
entre  margens  quedas  a  ouvirem  o  seu  próprio  monologo 
de  ondas,  no  seu  caminho  errante  e  continuo.  A  concepção 
religiosa  de  Eça  está  nitidamente  patente  em  qualquer  das 
lendas,  porque  em  todas  transparece  a  sua  nova  phase, 
n'aquella  em  que  a  bondade  do  Auctor  se  humanisa  plena- 
mente, e  o  seu  sorriso  irónico  emudece  e  morre  e  sobre 


205 


tudo  — almas,  caracteres,  os  Santos,  a  paisagem,  o  am- 
biente e  o  mundo  espalha  n'uma  enorme  benção  o  seu  per- 
dão intenso,  ardente  e  cheio  de  beatitude,  ou  de  serenidade 
religiosa,  cheia  de  paz  e  de  carinho. 


Na  Correspondência  de  Fradique  Eça  escreveu  a  beleza 
convicta  do  conceito  seguinte,  que  a  sua  phase  póstuma 
documentou  bem  largamente.  Isto  é,  Eça  de  Queiroz  viu 
em  si  a  remissão  d'um  erro  e  o  seu  resgate  ficou  bem  pa- 
tente mesmo  nas  paginas  das  lendas  dos  Santos,  em  que  o 
seu  espirito  cristão  tem  no  estilo  a  doçura  ténue,  tranquila 
e  quasi  mistica  d'um  sol-pôr  de  outomno,  quando  as  folhas 
cahem  n'um  requiem  amortecido,  sobre  o  tapete  da  paisa- 
gem derredor  — «Um  homem  só  deve  fallar,  com  impeccavel 
segurança  e  pureza,  a  língua  da  sua  terra:  — todas  as  ou- 
tras deve  fallar  mal,  orgulhosamente  mal,  com  aquelle 
accento  chato  e  falso  que  denuncia  logo  o  extrangeiro. 
Na  lingua  verdadeiramente  reside  a  nacionalidade*  e  de- 
certo esta  superior  e  admirável,  antes  clássica  maneira  de 
ver,  bem  patente  está  na  sua  phase  até  de  aperfeiçoamento 
de  linguagem,  que  vem  desde  essa  admirável,  suprema  e 
tão  pouco  comprehendida  /ilustre  Casa  de  Ramires.  Esta 
novela  de  Eça,  a  mais  completa,  e  onde  o  mestre  o  alta- 
mente superior,  quer  na  concepção  ideativa,  quer  na  reali- 
sação  plástica,  tem  em  si  nitidamente  dois  aspectos.  Acrí- 
tica irónica  á  novela  histórica,  que  é  uma  maravilha  de 
descriptivo  e  de  colorido  e  a  efabulação  que  envolve  o  per- 
sonagem simbólico,  esse  Gonçalo  Mendes  Ramires,  onde 
decerto  um  pouco  subsiste  a  personalidade  moral  de  todo 
o  portuguez  moderno  e  superior  ao  mais  da  gente,  e  que  o 
próprio  Artista  conclue  ser  Portugal,  isto  é,  ser  um  pouco 


206 


de  nós  todos  (nós,  considerados  como  selecção  é  claro) 
através  dos  seus  defeitos  próprios  e  das  suas  qualidades 
individuaes.  Muitas  vezes  monologando  comigo  mesmo,  me 
ponho  a  pensar,  avaliando  todo  o  simbolo  humano  cheio  de 
ternuras  e  de  incertezas  de  Gonçalo  Mendes  Ramires,  esse 
personagem-tipo  tão  sinceramente  nobre  na  nobreza  clara 
do  seu  espirito  — Quem  me  dera  ser  como  o  Gonçalo,  na 
sua  ternura,  no  seu  orgulho,  na  sua  raça,  ao  mesmo  tempo 
tão  forte  e  tão  fraca!  — Quem  me  dera  ser  como  Gonçalo, 
porque  ser  como  elle,  é  ser  como  o  próprio  Portugal ! 
N'esta  novela  tão  superiormente  urdida,  onde  a  língua  e  a 
concepção  de  Eça  começam  a  ser  contrictas  e  indicativas 
d'uma  nova  phase  literária,  é  n'esta  novela  que  uma  noite 
na  sua  torre  vetusta,  pensando  na  superfluidade  da  vida, 
Gonçalo  levou  Eça  a  escrever  o  mea  culpa  superior  d'esta 
pagina,  onde  tudo  é  elevado  e  luminoso,  comprehendido  e 
sentido,  com  tortura  e  com  certeza  intima,  e  onde  Gonçalo 
Mendes  Ramires  se  comprehende  subjectivamente,  como 
se  n'um  espelho  visse  toda  a  existência  que  o  entediava  e 
a  sua  vida  anonyma,  oscilante,  onde  não  imperava  nem  uma 
vontade,  nem  um  forte  querer. 

«Ah !  que  peca,  desinteressante  vida  em  comparação  de 
outras  cheias  e  soberbas  vidas,  que  tão  magnificamente 
palpitavam  sob  o  tremeluzir  d'essas  mesmas  estrellas!  Em 
quanto  e!le  se  encolhia  no  paletot,  deputado  por  Villa-Cla- 
ra,  e  no  triumpho  d'essa  miséria— Pensadores  completavam 
a  explicação  do  Universo;  Artistas  realisavam  obras  de 
beleza  eterna ;  Reformadores  aperfeiçoavam  a  harmonia 
social ;  Santos  melhoravam  santamente  as  almas;  Phys'olo- 
gístas  diminuiam  o  velho  soffrer  humano;  Inventores  alar- 
gavam a  riqueza  nas  raças;  Aventureiros  magníficos  arran- 
cavam mundos  da  sua  esterilidade  e  mudez.  Ah!  esses  eram 
os  verdadeiramente  homens,  os  que  viviam  deliciosas  pie- 


207 


nitudes  de  vida,  modelando  com  as  suas  mãos  incansadaa 
formas  sempre  mais  belas  ou  mais  justas  da  humanidade. 
Quem  fora  como  elles,  que  são  os  sobre-liomens !» 

Mas  de  momento  a  momento  a  forma  de  Eça  toma  a  ati- 
tude doce  d'um  grande  perdão  contricto.  A  ironia  descri- 
ptiva  e  simbólica  como  expressão  de  contraste  e  conflicto 
de  meios  moraes  e  de  ambiente  da  Cidade  e  as  Serras,  onde 
combate  essa  ruina  civilisadora  do  urbanismo  precipitado, 
continuo  e  doente,  leva-o  a  realisar  tipos  inconfundiveis  e 
perfeitos  na  sua  vasta  comedia  de  analyse,  que  é  toda  a 
obra  anterior  de  combate.  O  realismo  ante  a  phase  pri- 
meira de  Eça,  era  necessário  para  o  complemento  sincera 
e  contricto  das  lendas.  Assim  pensando,  o  Artista  realisoa 
n'el!as  a  sua  obra  mais  própria,  mais  conceptivamente  ele- 
vada, isto  é,  a  obra  em  que  o  seu  espirito  creador  mais 
completamente  realisou  o  equilíbrio  rytmico,  musical  e 
terso  da  sua  prosa.  A  critica  desapiedada  e  persoalissima 
de  Fialho,  na  revista  Brazil- Portugal,  devia  parar,  se  fosse 
possível,  ante  as  lendas,  ante  as  paginas  religiosas  d'estas 
narrações,  em  que  a  lingua  teve  por  vezes  a  leveza  única 
e  quinhentista  do  enamorado  Bernardim  e  tem  tonalidades, 
effeitos,  cambiantes  e  expressões  inteiramente  novas.  A 
sua  reconstrucção  espiritual  estava  já  em  bom  caminho.  A 
sua  phase  de  escalpelisação  e  analyse  devia  ter  agora  o 
seu  contraste  de  contricção  artística  e  ideativa.  Os  Santos- 
vem  até  nós  como  simbolos  eternos,  e  as  lendas  que  envol- 
vem as  suas  vidas  são  para  o  Artista  os  ambientes  próprios 
á  descripção  natural.  O  seu  efeito  foi  quasi  milagroso.  A 
lingua  tem  crispações,  efeitos,  cambiantes,  que  só  uma  mão 
eleita  poderia  fazer  n'um  milagre.  Eça  vincou  e  realisou 
bem  o  seu  fim.  O  caminho  esboçado  na  lUastre  Casa  de 
Ramires  veiu  através  a  Cidade  e  as  Serras,  a  ter  confirma- 
ção nas  Ultimas  Paginas,  que  ficarão  na  nossa  literatura 


208 


como  um  dos  mais  sentidos,  íntimos  e  supremos  livros  sub- 
jectivos d'um  escriptor  na  phase  certa  da  sua  religiosidade 
ou  do  seu  perdão,  para  tudo  o  que  atraz  de  si  ficou— idéas, 
maldades,  ironias  e  torpezas,  Eça  foi  acima  de  tudo  cohe- 
rente  entre  a  concepção  das  suas  lendas  e  a  sua  realisaçao 
plástica.  O  assumpto  decerto  queria  a  sua  linguagem  con- 
sequente, e  esta  realisou-a  Eça  de  Queiroz  n'um  estilo  se- 
reno, de  beatitude,  atingindo  no  Santo  Onofre  a  mais  bela 
€  culminante  das  descripções  e  das  atitudes  dramáticas  de 
um  simbolo.  Esta  deducção  de  analyse,  que  é  lógica  e  na- 
tural, foi  vista  erradamente  pelo  sr.  António  Cabral,  n'um 
infeliz  trabalho  sobre  Eça  de  Queiroz,  com  o  retrato  do 
modesto  auctor,  a  servir  de  ponto  final  phisionomico  a 
todo  o  acacismo  doloroso  e  tipico  da  obra,  e  onde  vamos 
encontrar  sobre  as  Ultimas  Paginas  um  dos  mais  simbóli- 
cos livros  de  todas  as  literaturas,  e  nomeadamente  da 
nossa,  estas  coisas  conselheiraes  e  d'uma  infelicidade  sui- 
cida—«As  Ultimas  Paginas,  em  que  as  lendas  dos  Santos 
representam  a  parte  principal  e  são  apenas  esboços  incom- 
pletos, trechos  mutilados,  que  Eça  com  certeza  não  entre- 
garia ao  publico  sem  os  refundir,  remodelar  e  retocar  cui- 
dadosamente, pacientemente,  como  usava  fazer  a  tudo  o 
<]ue  produzia.»  E'  decerto  curiosa  a  mutilação  de  inteli- 
gência d'um  conselheiro,  sobre  um  ponto  fundamental  de 
sensibilidade  critica.  Decerto  o  sr.  António  Cabral  queria 
a  Relíquia  escripta  com  o  estilo  do  S.  Cristovam  e  o  S.  Cris- 
tovam  escripto  á  maneira  do  Crime  do  Padre  Amaro,  para 
documentar  bem  o  seu  conceito  primário  de  Arte,  que  ava- 
lia e  critica  a  prosa  alheia,  pelo  método  de  João  de  Deus. 


209 


Mas  a  obra  de  Eça  tudo  salva,  tudo  anula  e  tudo  con> 
funde,  tal  é  a  sua  beleza  no  conjuncto  e  a  maneira  como 
ainda  hoje  subsiste  para  nós,  os  raros,  tão  dignos  d'elle, 
como  elle  o  é  digno  de  nós,  os  seus  admiradores  conscien- 
tes. Ha  n'e8sa  obra  póstuma  a  sugestão  talvez  d'uma  parte 
da  obra  de  Flaubert  Trois  Contes  e  Tentation  de  Saint  An- 
toine,  e  da  obra  de  Anatole  Thais  e  ÉttUde  Nacre,  o  Artista 
inegualavel  e  sereno  pela  maneira  lapidar,  definitiva  da  sua 
prosa,  mas  d'uma  maneira  geral,  esboçadamente,  apenas 
no  arranjo  clássico,  metódico  da  lingua,  ou  na  maneira  de 
realisar  a  prosa  serena,  fundamentalmente  diversa  da  sua 
primeira  phase  analytica  e  satírica  antes  dolorosamente 
«caricatural.  A  remissão  d'estes  pecados  está  aliás  defen- 
dida d'uma  forma  absolutamente  inteligente  e  arguta,  no 
artigo  o  Francesismo,  incluído  no  livro  que  contém  as  len- 
das dos  Santos,  e  que  de  envolta  com  a  Carta  a  Camillo, 
•o  Testamento  de  Mecenas  e  a  Ultima  Carta  de  Fradique  de- 
via estar  nas  novas  edições  das  Notas  Contemporâneas, 
porque  obedece  ao  plano  e  á  maneira  d'esse  livro  de  tre- 
chos dispersos.  N'uma  obra  de  unidade  como  as  lendas,  é 
absurda  a  visinhança  e  a  companhia  d'esses  artigos  disper- 
sos, que  não  tem  analogia  ideativa  nem  contínua,  com  o 
plano  fundamental  do  livro,  embora  não  realisada  a  parte 
final  do  S.  Frei  Gil.  No  artigo  o  Francesismo,  Eça  viu  bem 
que  a  causa  do  erro  era  o  próprio  ambiente,  a  francofilia 
de  pensamento,  que  tudo  contamina  e  apaixona.  A  sua  obra 
póstuma  é  uma  obra  de  resgate  e  decerto  aquella  que  o 
Artista  mais  apaixonadamente  escreveu,  talvez  com  mais 
intensidade  do  que  nas  outras  obras,  porque  as  laudas  das 
lendas  parecem  escriptas  com  sangue,  com  nervos,  com  se- 


210 


renidade  e  confiança.  Eu  creio  muito  no  artificialismo  in- 
timo do  auctor  do  Mandarim. 

Artisticamente,  elie  conhecia,  via  os  assumptos  ;  e  mol- 
dando-os,  vestindo-os  com  a  sua  ironia  própria,  realisava-os 
um  pouco  contingentemente. 

D'ahi  nasce  o  facto  de  eu  considerar  as  lendas  como  o 
livro  que  eile  mais  intensamente  amou  ao  escreve-lo,  e  isto> 
documenta-se  bem  pela  serenidade  rytmica  da  linguagem,, 
que  não  emperra,  nem  é  forte,  nem  tem  artifícios,  nem  tem 
francezismos,  mas  antes  é  fundamentalmente  vernácula, 
clássica,  d'um  castiço  natural  e  limpido.  O  Eça  póstumo- 
equivale  ao  Eça  anterior,  se  não  o  superiorisa,  porque  a 
meu  ver  as  lendas  são  a  sua  obra  mais  completa  e  expres- 
siva, e  o  Santo  Onofre,  o  melhor  trecho  de  pintura,  (Eça 
era  um  grande  pintor)  realisado  em  toda  a  sua  bibliogra- 
phia,  que  não  é  grande  nem  pequena,  antes  é  intensamente 
superior,  genial  e  inconfundível.  Demais,  o  próprio  Artista 
confessa  não  amar  bem,  com  carinho  amantíssimo,  a  obra 
do  seu  espirito  : 

«As  minhas  obras,  essas,  não  contam  mesmo  para  viver 
com  esse  «espaço  d'uma  manhã»  que  Malherbe  garante  ás- 
rosas.  Não  sei  como  é :  dou-lhes  a  minha  vida  toda,  e  ellas 
nascem  mortas;  e  quando  as  vejo  deante  de  mim,  pasmo- 
que  depois  de  tão  duro  esforço,  depois  de  tão  ardente,  la- 
boriosa insuflação  d'alma,  saia  aquella  coisa  fria,  inerte,, 
sem  voz,  sem  palpitação,  amortalhada  n'uma  capa  de 
côr.» 

Quando  o  Artista  escrevia  a  um  amigo,  dizendo-lhe  ser 
de  tal  maneira  grandioso  o  seu  motivo,  o  S.  Cristovam,  que 
temia  que  a  lingua  não  tivesse  recursos  precisos  para  a  sua 
realisação~não  realisou  o  facto  de  amar  entranhadamente 
a  sua  obra,  a  ponto  de  temer  acaba-la  com  enthusiasmo  e 
beleza?  Elie  que  tanto  e  tão  superiormente  tinha  a  anciã 


i 


211 


bizantina  da  perfeição,  do  retoque?  Ha  n'isto,  decerto,  um 
fundo  de  crença. . . 


Eça  deixou  nas  lendas  o  seu  testamento  de  beleza,  le- 
gando aos  sensiveis  e  aos  eleitos  o  espolio  d'um  grande 
espirito,  aquelle  em  que  a  lingua  é  mais  perfeita  e  serena, 
mais  castiça  e  maravilhosa,  mais  tranquila  e  mais  suave. 

S.  Cristovam  é  o  eterno  simbolo  ao  mesmo  tempo  reli- 
gioso e  profano,  do  forte  contra  o  despotismo,  do  humilde 
contra  o  opressor,  do  peregrino  contra  o  senhor  feudal.  É 
a  lucta  da  humildade  contra  a  força.  Santo  Onofre  é  o  con- 
flicto  latente  do  orgulho  a  contrariar  a  razão  da  vaidade, 
a  prejudicar  o  destino  e  a  verdade,  até  que  Deus  o  salva 
de  Satan  e  do  pecado. 

S.  Frei  Gil  é  a  lenda  d'um  Santo  que  deixou  o  lar,  a 
vida  senhorial,  para  correr  atraz  do  pacto  com  o  Demo,  do 
satanismo  medievo,  do  acaso  misterioso  — até  á  remissão 
final,  até  á  crença  eterna  em  Deus. 

Em  todas  ellas  o  espirito  do  mestre  pousou  a  sua  religio- 
sidade serena  e  límpida  numa  prosa  embaladora  de  hymna- 
rio,  que  tem  uma  doce  musica,  uma  côr  sempre  esfumada 
em  tons  leves,  e  um  rytmo  socegado  de  agua  virgem,  sa- 
hindo  d'uma  fonte  para  a  vida  errante.  E  em  todas  aquellas 
paginas  supremas  a  lingua  é  harmoniosa  e  fluida,  lem- 
brando na  tinta  descriptiva  fundos  de  tela  religiosa,  sauda- 
des indefinidas  de  sonhos  já  mortos  na  memoria,  no  grande 
painel  agitado  e  tumultuoso  d'aquellas  biographias  tão  al- 
tamente simbólicas. 

Assim  a  sua  linguagem,  assim  o  seu  estilo,  que  é  novo, 
sem  aquelle  verniz  parisiense  da  primeira  phase,  que  logo 
embota  e  estala  á  primeira  analyse  justa,  ou  á  primeira 
tendência  critica. 


212 


As  lendas  dos  Santos  são  um  livro  eterno  (quem  o  lê, 
quem  tem  por  elle  ternura,  carinho,  irmandade?. ..)  — de- 
certo o  mais  completo  e  o  melhor  de  toda  a  obra  inconfun- 
divelmente sjenial  de  Eça;  irmão  da  verdade  latente  de 
Zola  e  companheiro  de  Flaubert  no  fervor  bizantino  da  per- 
feição e  do  retoque  cuidado  —  decerto  o  melhor  livro  de 
toda  a  obra  de  Eça,  o  fantasista  prodigioso  na  phrase  de 
Fialho,  esse  mago,  deslumbrante,  sortilego  creador  de  be- 
leza, maravilhoso,  pelo  espirito  e  pela  forma,  Fialho, 
esse  gigante  do  sonho  desfeito  logo  após  o  fim,  que  tanto 
soffreu  para  crear  e  que  tão  belamente  creou  para  soffrer. 
O  Artista  aqui  atinge  uma  beleza  deslumbrada  e  serena,  e 
a  sua  forma  plástica,  melódica  e  pictórica  atesta  bem,  do- 
cumenta bem,  d'uma  maneira  insophismavel,  como  o  seu 
espirito  irónico  perdoou,  amou  e  quiz  á  sua  terra,  e  como 
soube  cuidar  da  sua  lingua. 

E'  evidente  que  cada  vida,  cada  narração  de  um  Santo 
encerra  em  si  um  verdadeiro  símbolo.  O  phantasista  cari- 
nhoso do  Suave  Milagre  deu-nos  três  personagens  vivendo 
uma  existência  a  caminho  da  divinisação  e  onde  um  eterno 
simbolo  religioso  perdura  e  vive  sempre.  Atravez  do  S.  Cris- 
tovam,  do  Santo  Onofre  e  do  S.  Frei  Gil,  o  Artista  esbo- 
çou, realisou  e  fez-nos  comprehender  a  visão  própria  dos 
Santos,  qual  o  seu  fim,  quaes  os  seus  dramas  a  exteriori- 
sar,  quaes  as  consequências  moraes  e  religiosas  das  suas 
penitencias,  das  suas  dores  moraes,  das  suas  crenças,  da 
sua  fé  eterna  — ponto  de  vista  que  muita  sub-gente  não  tem 
podido  comprehender,  abstraindo  a  acção  que  encerra  sem- 
pre consequentemente  um  simbolo,  e  vendo  só  o  lado  ex- 
terior e  pictoresco  da  narrativa.  Alberto  de  Oliveira,  no  seu 
recente  e  infeliz  livro  sobre  Eça  de  Queiroz,  paginas  pes- 
soaes  e  incoherentes  de  memorias,  embora  não  possua  vi- 
são critica,  nem  uma  analyse  sequer  esboçada  da  obra  do 


213 


mestre,  soube  no  entanto  ver  com  nitidez  intima  a  tendên- 
cia dramática  dos  Santos  — «os  seus  Santos,  S.  Cristovam, 
S.  Frei  Gil  e  Santo  Onofre,  não  são  estatuas  toscas  ou 
mortas  de  pau  ou  de  pedra,  mas  seres  humanos  de  que  se 
vê  o  movimento,  se  ouve  a  falia,  se  comprehendem  e  resen- 
tem  contagiosamente  as  alegrias  e  as  dores.» 

Fidelino  de  Figueiredo,  no  seu  estudo  de  comentário  so- 
bre a  obra  de  Eça  na  Historia  da  Literatura  Realista,  de- 
pois de  inteligentemente  ter  comprehendido  a  obra  do  mes- 
tre atravez  as  suas  três  evoluções  literárias,  vem-nos  dizer 
sobre  as  lendas:— «Incompletas  como  estão  essas  vidas  de 
Santos,  nenhum  esclarecimento  nos  fornecem,  são  simples 
narrações.  E  a  própria  narração  é  obvio  que  não  podia  ser 
o  intento  único  do  romancista.» 

Contra  a  não  visão  interpretativa  do  critico,  que  aqui  fa- 
lhou redondamente,  o  que  mais  vive  nas  lendas  dos  Santos 
é  o  símbolo  da  contricção  social  e  religiosa  no  S.  Cristo- 
vam, o  combate  entre  o  orgulho  e  a  fé  no  Santo  Onofre,  e 
a  perversão  sortilega,  satânica  de  S.  Frei  Gil,  personagem 
da  Meia-C idade,  até  a  sua  conversão  religiosa,  o  combate 
entre  o  profano  amor  dos  segredos  diabólicos  e  mysterio- 
sos  —  e  a  f é  que  tudo  por  fim  domina  e  acarinha.  Isto  é,  o 
escriptor  citado,  não  soube  ver,  não  poude  ver,  o  simbolo 
das  narrações,  que  são  aliaz  interpretações  simbólicas,  nem 
soube  ver  o  seu  estylo,  a  sua  maneira  nova  e  melódica  de 
lançar,  realis^r  a  prosa. 

Eça,  nas  lendas,  é  superiormente,  subjectivamente  artista 
quer  na  concepção,  quer  na  realisação,  quer  na  maneira  co- 
mo nós  sentimos  não  literariamente,  mas  humanamente  os 
santos,  cheios  de  fé  e  de  beileza  a  dizerem  em  si  próprios 
o  motivo  que  lhes  fez  nobres  e  elevadas  as  vidas,  isto  é,  o 
simbolo,  a  verdade  religiosa,  que  ellas  encerram. 

As  Ultimas  Paginas,  onde  Eça  póstumo  nos  dá  uma  ex- 


214 


pressão  nova  em  contraste  com  a  obra  anterior,  documen- 
tam bem  como  o  artista  tinha  desde  a  /Ilustre  Casa  de  Rami- 
res modificado  a  sua  maneira  artistica,  para  arripiar  cami- 
nho. Mesmo  nas  laudas  finaes  de  A  Cidade  e  as  Serras,  onde 
Jacinto,  esse  maguado  principe  da  Qran-Ventura,  morrendo 
cheio  de  tédio  no  halali,  no  barulho  da  grande  quermesse 
viciosa  de  Paris,  farto  dos  seus  dias  isócronos,  repetidos, 
vagos, £  das  noites  tão  viciosas  que  tudo  abstraem  até  a 
própria  noite  — ha  um  indicio  seguro,  terminante,  na  ma- 
neira como  elle  faz  comparticipar  a  paisagem  no  romance, 
fazendo  d'ella  um  personagem  moral.  Isto  é,  a  paisagem 
humanisa-se  ao  convivio  dos  personagens,  acompanha-os, 
fa-los  viver  no  ambiente,  como  se  paisagem  e  personagens 
vivessem  a  sua  irmandade  humana  e  moral.  Assim,  da  se- 
gunda parte  do  livro  maravilhoso  do  fantasista,  escreve  Fi- 
delino  de  Figueiredo  na  sua  obra  citada :  —  «ha  já  muita 
observação,  muita  descripção  do  real,  principalmente  na 
pintura  dos  aspectos  da  serra,  em  que  o  romancista  se  mos- 
tra um  paisagista  sóbrio  e  flagrante  e  também  psychologo, 
porque  não  só  nos  dá  a  côr  e  o  movimento,  mas  também  os 
seus  efeitos  moraes.» 

Nas  Lendas  de  Santos  o  artista,  então,  enche  toda  a  pai- 
sagem com  a  descripção  real  e  fa-la  viver  junto  com  os 
santos,  quer  em  toda  a  movimentação  scenica  e  nómada  de 
São  Christovam,  quer  no  deserto  fundo  e  ermo  de  Santo 
Onofre,  quer  na  admirável  descripção  da  viagem  de  São 
Frei  Gil,  sahido  de  casa  de  seus  pães,  depois  do  seu  amor 
a  Solena,  a  pastora  perdida,  com  o  escudeiro  Pêro  Malho, 
atravez  d'uma  paisagem  soturna,  triste  e  árida,  onde  os 
olhos  iam  já  a  lembrar  extaticamente  a  terra  natal. 

Tudo  o  que  o  seu  sonho  tocou  n'esta3  paginas  derradeiras, 
foi  por  elle  amado  com  carinho,  um  carinho  que  muito  en- 
ternece e  muito  nos  conforta,  porque  é  são  e  cheio  de  doçura. 


215 


Tentemos  agora  resumir,  para  mais  inteira  percepção. Na 
sua  obra  póstuma,  vendo  a  parte  anterior  da  sua  phase  de 
combate  e  de  ironia  em  que  a  baixa  comedia  burguesa  e 
romântica  passava  em  seus  livros,  ora  em  torpezas,  ora  em 
degradações,  aviltamentos  e  fatalidades,  Eça  esboçou  bem 
o  caminho  da  sua  redempção  escrevendo  as  lendas,  livro 
este  que  a  sub-gente  da  critica  ainda  não  comprehendeu 
suficientemente  no  seu  significado. 

De  ironia  em  ironia,  de  farça  em  farça,  na  agitada  come- 
dia burlesca  dos  seus  tipos  quasi  todos  eiles  caricaluraes, 
surge  por  fim  o  narrador  contemplativo,  o  psycologo  á 
William  James,  anotando  as  vidas  dos  três  santos,  atravez 
dos  seus  tramas  e  dos  seus  conflictos. 

Esta  sua  obra  de  complemento  vale  quasi  a  revelação  ge- 
jiial  d'um  nome  porque  criou  três  símbolos  eternos.  Afora 
um  ou  outro  trabalho  probo,  d'uma  honestidade  lógica,  não 
se  realisam  entre  nós  estudos  interpretativos  da  obrad'um 
escriptor  ou  de  determinada  obra  ou  phase  d'um  escriptor. 
A  maior  parte  dos  nossos  escriptores  contemporâneos  não 
tem  tido  um  estudo  condigno  (pelo  menos  de  inteligência) 
quer  no  seu  conjuncto,  quer  em  detalhes  críticos,  isto  defi- 
nindo d'uma  maneira  dolorosa  como  a  critica  ante  a  sua 
verdadeira  e  única  função  —  a  evita  redundando  no  folhe- 
tinismo  balofo  ou  no  localismo,  duma  mera  noticia  biblío- 
■grafica.  A  obra  eleita  de  Eça  de  Queiroz  atravez  dos  seus 
defeitos,  dos  seus  tipos,  da  sua  beleza  e  do  seu  significado 
é  dos  maiores  documentos  de  sensibilidade  universal  e  hu- 
mana a  que  um  escriptor  deu  forma.  A  sua  obra  é  um  lexi- 
con  de  sensibilidade,  chamemos-lhe  assim.  A  parte  final  da 
sua  obra  de  contrícção,  que  eu  filio  nas  laudas  dos  santos  e 
que  vem  já  desde  a  Casa  de  Ramires  e  de  /4  Cidade  e  as  Ser- 


216 


ras,  documentação  genial  d'um  dos  maiores  e  mais  belo» 
espirites  d'uma  raça,  merece  um  longo  estudo,  a  fazer  ain- 
da. Volvamos  para  as  Ultimas  Paginas  a  nossa  admiração 
consciente  e  o  nosso  carinho,  já  que  o  seu  livro  póstumo  é- 
a  sua  mais  surprehendente  obra  de  unidade  simbólica,, 
aquella  onde  a  perfeição  é  quasi  absoluta  e  o  seu  espirita 
é  mais  religioso.  Surge  n'esta  parte  da  bibliografia  do  ar- 
tista, mais  do  que  em  nenhuma  parte  da  sua  obra,  a  sua 
qualidade  de  pintor  e  de  aguarelista,  pois  que  no  equilibria 
da  sua  linguagem  o  panorama  acompanha  moralmente  avi- 
da  dos  santos,  e  parece  velar  pelos  seus  destinos  como  se, 
personagem  moral  das  narrativas,  n'ellas  vivesse  também  o^ 
seu  drama.  O  escriptor  perdoa  na  sua  obra  póstuma  a  sua  iro- 
nia única  e  surprehendente  enchendo  de  ridiculo  as  coisas 
e  os  homens.  Agora  tudo  que  a  sua  mão  toca  é  religioso,. 
d'uma  bondade  cristã  e  parece  que  áquelle  sopro  criador,, 
a  vida  é  mais  cheia  de  beleza  e  de  verdade. 

Ante  a  sua  obra  póstuma  a  critica  tem  que  ver  em  Eça; 
de  Queiroz  um  novo  artista,  d'uma  perfeição  quasi  abso- 
luta e  escrevendo  para  a  valiosa  bibliografia  que  nos  legou 
as  mais  belas,  as  mais  culminantes  e  as  mais  subjectivas 
das  suas  laudas.  Depois  do  romancista  e  do  ironista  gaulez 
surge  o  narrador  religioso,  e  o  psycologo  supremo.  E  de 
ironia  em  ironia,  de  uma  phase  de  verdade  e  analyse,  a  uma 
phase  de  contricção  e  de  carinho,  o  espirito  do  mestre,  mais 
sereno  e  mais  religioso  —  veiu  afinal  a  realisar  a  ambicio- 
nada perfeição  na  sua  própria  obra— sahida  de  suas  mãos  e 
por  suas  mãos  cuidada. 

Lisboa,  agosto  de  1919. 

Corrêa  da  Costa. 


Suave  milagre 


Num  falar  saudoso  e  maguado 
como  o  entardecer  de  outonal  dia, 
conta  um  conto  a  miséria  escura  e  fria 
da  mãi,  cujo  filhinho  era  entrevado. 

Alguém  disse  que  um  tal,  Jesus  chamado,, 
as  doenças  sarava  e  as  almas  lia ; 
que  uma  outra  vida  aos  homens  prometia. . . 
. . .  E  o  pequeno  a  escutar,  maravilhado. . . 

—  Sarava-me  !  gemeu.  Ah,  se  Êle  viera  ! 
Tam  pobresinha,  a  mãi  perdera  a  esperança. 
. . .  Mas  nisto  Êle  apar'ceu,  envolto  em  luz. 

Qual  de  vós,  meus  amigos,  não  quizera 
ter  a  fé  ansiosa  da  criança 
que  viu  um  dia  a  face  de  Jesus  ? 


O  Rabi  Samuel. 


Eça  de  Queiroz  em  Espanha 


Na  noite  de  18  de  fevereiro  de  1905,  celebrava-se  no  Ate- 
neu Barcelonês,  prestimosa  entidade  de  cultura  da  capital 
da  Catalunha,  a  sétima  conferencia  do  Ciclo  de  sessões 
organisado  para  tratar  das  Artes  e  da  Literatura  portugue- 
sa. N'essa  conferencia  tive  a  honra  de  me  referir  a  Eça  de 
Queiroz  e  á  sua  Obra.  Creio  bem  que  foi  n'aquella  noite 
que  o  nome  do  grande  escritor  luso  foi  proferido  d'uma 
feição  solemne  e  largamente  desvendado  á  inquietude  espi- 
ritual d'um  valioso  magote  d'intelectuaes  espanhoes.  Eça, 
até  alli,  fora  um  desconhecido  na  Espanha. 

Essas  conferencias  do  Ateneu  Barcelonês,  foram,  mais 
tarde,  coligidas  e  publicadas  em  dois  volumes  escriptos  em 
idioma  catalão,  e  que  a  casa  editora  «L'Avenç»,  de  Barce- 
lona, ofereceu  ao  publico  n'uma  edição  popular  profusa  sob 
os  titulos  de  Portugal  Artistic  e  Portugal  literari.  D'esta  for- 
ma o  glorioso  nome  de  Eça  de  Queiroz  fez  nascer  um  in- 
teresse inédito  entre  certa  gente  culta  do  nosso  paiz. 


219 


Já  antes,  porém,  no  rápido  labor  jornalístico,  tinha  eu 
falado  em  Eça.  Ao  alvorecer  o  século  actual,  publiquei  vá- 
rios artigos  sobre  Eça  de  Queiroz,  ao  dar  a  noticia  da  sua 
morte  ocorrida  na  sua  residência  de  Neuiliy,  no  dia  16  de 
agosto  de  1900.  Encontrava-me  eu,  então,  em  Portugal,  en- 
tregue aos  meus  estudos  de  Direito,  preparando  livremente 
o  meu  curso  de  advogado.  Desde  Thomar,  a  ridente  e  plá- 
cida cidade  nabantina,  eu  colaborava  em  varias  publicações 
espanholas,  principalmente  catalãs  ;  e  lembro-me  bem  o  eu 
ter  escripto  sobre  Eça  de  Queiroz,  n'aquela  época,  nos 
quotidianos  La  Renaixensa  e  La  Ven  de  Catalunya,  na  re- 
vista Catalunya  Artística,  e  ainda  no  semanário  republicano 
thomarense  A  Verdade,  a  cujas  Redacções  pertencia. 

Essas  referencias  rápidas  vincaram  no  espirito  d'um  arro- 
jado e  popular  editor  de  Barcelona,  o  sr.  Maucci,  que  des- 
cortinou nos  elogios  que  eu  prodigalisava  á  Obra  de  Eça 
matéria  de  seguro  êxito  editorial  se  e!le  se  abalançasse  á 
traducção  das  mais  famosas  novelas  do  Mestre.  Infeliz- 
mente a  lingua  portuguesa  não  era  —  nem  é  —  nada  fami- 
liar aos  escriptores  espanhoes,  e,  portanto,  não  era  fácil, 
então,  encontrar-se  um  traductor  discreto. 

É  deplorável,  realmente,  esse  pertinaz  afastamento  dos 
três  grandes  espiritos  ibéricos  :  —  o  português,  o  castelha- 
no e  o  catalão.  Representa,  com  efeito,  uma  sensivel  mos- 
tra de  incultura  e  defeituoso  patriotismo,  o  facto  de  portu- 
gueses, espanhoes  e  catalães  não  poderem  assimilar  espon- 
taneamente, na  genuína  expressão  do  idioma  originário,  as 
grandes  manifestações  da  litteratura  respectiva.  Um  homem 
culto  peninsular  deveria  conhecer  familiarmente  os  três 
grandes  idiomas  ibéricos:  — o  português,  o  castelhano  e  o 
catalão.  Mas,  árduas  e  obsoletas  razões  de  politica  galho- 


220 


feira  e  medrosa,  impõem  um  razoável  afastamento  —  ou, 
talvez,  um  suicida  isolamento  —  aos  três  povos  da  Penín- 
sula, ás  três  almas  irmãs,  no  mutuo  receio  de  que  um  de- 
vorador patriotismo  enkistado  ou  fossilizado  no  curto  cére- 
bro dos  mais  altos  representantes  da  nossa  pittoresca  e 
bruta  fauna  burocrata  —  trinque,  despedace  e  engula  boni- 
tamente  um  povo  —  o  mais  fraquinho  —  com  a  mesma  faci- 
lidade com  que  um  gordo  gourmand  trinca,  esfola  e  devora 
uma  misera  banana ! 

Havia,  pois,  dificuldade  em  se  arranjar  um  traductor  de- 
cente, e  o  editor  chamou-me  para  me  propor  a  tradução 
castelhana  das  obras  de  Eça  de  Queiroz.  Comprazeu-me  a 
bella  decisão,  e  exultei  com  a  honrosa  espectativa  de  ser 
eu  —  cue  fiz  na  Espanha  a  publica  descoberta  do  maravi- 
lhoso espirito  de  Eça  —  quem  intentasse  a  adaptação  das 
suas  obras  á  lingua  castelhana.  Fiz  ver,  comtudo,  ao  edi- 
tor as  dificuldades  e  o  arrojo  que  tamanha  empresa  com- 
portava:—Eça,  no  seu  estilo  único  e  brilhante,  dificilmente 
pôde  ser  transportado  com  uma  certa  decência  literária  a 
outro  idioma,  por  muito  perfeito  que  seja  este  na  força  da 
sua  expressão  e  de  sua  intenção.  O  estilo  de  Eça  de  Quei- 
roz tem  um  encanto  tão  grande,  que  só  a  lingua  portuguesa 
que  elle  dominou,  forjou  e  subtilisou  soberanamente  pode 
conservar  e  reler,  como  a  ânfora  ou  gomil  delicado  feito 
d'um  barro  divino  que  encerrasse  o  mais  fragante  dos  aro- 
mas. 

Todavia,  esses  devotos  escrúpulos  foram  para  o  editor 
beócio  rabulices  de  megalomania  literária. 

—  Ora  diga-me,  qual  é  o  vc\^\?,  fresco  romance  de  Eca  de 
Queiroz  (sic)  — inquiriu  o  editor,  gaguejando. 

—  Ah  !  Mas,  o  senhor  procura  ^frescura  n'esses  livros, 
julgando  Eça  de  Queiroz  uma  espécie  de  Paulo  de  Kock 
vertido  ao  português  ?  Eça  é  um  escriptor  honesto  ! 


221 


—  Então,  não  me  serve.  Eu  julgava  outra  coisa,  pelo  que 
a  gente  diz,  e  ainda  pelos  excerptos  que  o  senhor  nos  deu 
das  suas  obras. . . 

Abalei. 

Comtudo,  tempo  depois  o  editor  investiu  de  novo  o  ne- 
gocio. O  seu  faro  mercantil  descobria-lhe  boa  maquia  na 
edição  castelhana  das  obras  de  Eça  de  Queiroz.  xMas,  tam- 
bém d'esta  vez  não  conseguimos  chegar  a  um  acordo.  O 
editor,  é,  geralmente,  em  todos  os  paizes,  um  animal  anal- 
fabeto que  vive  regaladamente  encafuado  entre  montanhas 
de  papel  impresso  que  nunca  lê,  a  engordar  cevado  com 
bife  d'e8criptor  ou  com  canja  d'ossos  de  poeta.  O  peor  é 
que,  cá  na  Península,  os  escriptores  já  não  podem  oferen- 
dar no  talho  editorial,  nem  um  magro  arrátel  da  sua  carne 
comestível :  —  por  tal  forma  foram  elles  sugados  e  retalha- 
dos pela  insaciável  editorial  voracidade  ! 

O  editor  das  obras  de  Eça,  em  castelhano,  dava  trinta 
mil  réis  por  cada  traducção,  o  que,  em  volumes  de  400  pa- 
ginas e  tal,  —  como  Os  Maias,  O  Primo  Bazilio,  A  illustre 
Casa  de  Ramires,  e  outros,  —  vem  a  resultar  a  menos  de 
dois  patacos  cada  pagina. 

—  E  vá,  que  o  trato  de  amigo  !  —  disse-me  o  Mecenas, 
quando  me  apresentou  esse  negocio  da  China. 

Está-se  a  ver  como  a  riquíssima  prosa  de  Eça  de  Quei- 
roz vertida  ao  castelhano  sae  baratisima:  um  ovo  por  um 
rial ! 

As  tarefas  universitárias  não  me  deixavam  tempo,  e,  além 
d'isso,  a  perspectiva  do  lucro  não  era  para  tentar  a  cubica 
d'um  estudante  pelintra.  Desisti. 

—  E'  tolo !  —  teimou  o  editor.  —  O  senhor  fazia  a  tradu- 
cção n'um  periquete...  Conhece  bem  o  português.. .  ea 
questão  é  sair  do  lance  depressa . . . 

E,  sempre  gaguejando,  findou,  matreiro: 


222 


—  Olhe:  se  tem  escrúpulos  de  honestidade  literária,  não 
assigne  as  traducções. . .  Isso  é  corrente...  Afinal  não  é 
o  seu  nome  que  me  interessa,  mas,  o  de  Eça  de  Queiroz ! 

Abalei  mais  uma  vez  e  para  sempre. 

Passados  alguns  mezes  a  casa  editorial  Maucci  publicava 
A  Relíquia  n'uma  edição  de  20:000  exemplares.  Assignava 
a  traducção  o  eximio  Don  Ramon  dei  Valle-Inclán. 

Successivamente,  e  visto  o  grande  êxito  da  primeira  ten- 
tativa, a  mesma  casa  editora  lançou  no  mercado  hispano- 
americano  outras  traducções,  mutilando  de  cada  vez  mais 
ou  menos  o  original  português,  dos  romances  de  Eça  de 
Queiroz.  Eis  a  lista  completa: 

A  Cidade  e  as  Serras,  traduzida  por  Eduardo  Marquina. 
Três  edições. 

O  Mandarim.  Versão  castelhana  anónima. 

A  Correspondência  de  Fradique  Mendes,  traducção  de  Juan 
José  Morato. 

Os  Aiaias,  traducção  de  Augusto  Riera. 

O  Primo  BazíUo,  e  O  Crime  do  Padre  Amaro,  traducção 
de  Don  Ramón  dei  Vaile-Inclán. 

Além  d"isso,  num  volumesinho  de  contos  publicado  pela 
colecção  <' Diamante»,  da  Livraria  Espanhola,  de  Barcelo- 
na, Migue!  A.  Ródenas  traduziu  A  Ama,  Singularidades 
d'uma  rapariga  loira,  Adão  e  Eva  no  Paraiso,  e  Utn  poeta 
lyrico. 

No  volume  da  «Societat  Catalana  d'Edicións»,  de  Barce- 
lona, dedicado  aos  Contistas  Portugueses,  o  autor  doestas 
linhas  traduziu  em  lingua  catalã  o  magnifico  conto  de  Eça 
O  Defiincto. 

Também  em  Madrid  Eça  de  Queiroz  mereceu,  posterior- 
mente, uma  relevantissima  consagração.  A  prestigiosa  Bi- 
blioteca «Renacimiento»,  superiormente  dirigida  por  Gre- 
gório Martinez  Sierra,  tem  publicado  dois  volumes  da  pro- 


223 


sa  de  Eça :  Adão  e  Eva  no  Paraíso,  São  Christovão  e  Santo 
Onofre,  traduzidos  honestamente  por  Enrique  Amado.  E' 
d'este  ilustre  homem  de  letras,  devotíssimo  da  Obra  do 
grande  romancista  luso,  uma  esplendida  traducção  de  O 
Mistério  da  Estrada  de  Cintra,  pulcramente  editada  pela  ca- 
sa madrilenha  A.  Beltran. 

Do  eminente  escriptor  Pedro  Gonzalez-Blanco,  muito 
afoito  ás  coisas  portuguesas,  existe  em  versão  castelhana  : 

A  ilustre  casa  de  Ramires,  cuja  2.*  edição  esmeradíssima 
lançou  ultimamente  ao  mercado  a  mesma  casa  editora. 

E  de  André  Gonzalez-Blanco  : 

Paris,  traducção  dos  Echos  de  Paris  —  Editorial  América 
—  Madrid,  1918. 

La  Decadência  de  la  ma.— Fragmentos  dos  volumes  Pro- 
sas barbaras.  Notas  contemporâneas  e  Echos  de  Pariz  —  Bi- 
blioteca Nueva  —  Madrid,  1918. 

Anthero  do  Quental,  Victor  Hugo  y  otros  ensayos. — Edito- 
rial América  —  Madrid,  1919. 

El  Seiior  Diablo  —  Fragmentos  de  Prosas  barbaras  e  No~ 
tas  contemporâneas.  —  Biblioteca  Nueva  —  Madrid,  1919. 

O  sr.  Gonzalez-Blanco  tem  ainda  para  publicar  na  Bi- 
blioteca Nueva  de  Madrid,  Prosas  barbaras  (edição  quase 
integral  do  livro  de  Eça)  e  Cartas  familiares  y  billetes  de 
Paris. 

Isso  é  tudo  que  eu  conheço  da  Obra  de  Eça  de  Queiroz 
divulgada  em  Espanha,  o  que,  ainda  assim,  permite  consi- 
derar o  admirável  romancista  como  o  mais  conhecido  e 
apreciado,  no  nosso  paiz,  de  todos  os  escriptores  portu- 
gueses contemporâneos.  Mas,  apesar  de  serem  essas  tra- 
ducções  d'alguns  dos  mais  cotados  representantes  da  lite- 
ratura espanhola,  eu  creio  que,  para  maior  gloria  e  pres- 
tigio de  Eça,  os  milhares  de  leitores  que  as  suas  obras 
teem  em  Espanha  deviam  esforçar-se  por  lêr  Eça  de  Quei- 


224 


roz  no  idioma  original,  para  assim  poderem  haurir,  por  pou- 
co que  fosse,  o  aroma  delicioso  da  sua  suave  e  encanta- 
dora ironia. 

Comtudo,  é  sempre  digno  de  menção  o  facto  relevante 
<ie  ter  elle  penetrado  e  triunfado  no  largo  estádio  do  pu- 
blico hispano-americano,  levado  pela  mão  d'alguns  dos  mais 
insignes  arautos  das  letras  espanholas,  dando  de  passagem 
fartos  lucros  aos  afortunados  editores. 

Barcelona,  23  de  março  de  1917. 

RiBERA  I  ROVIRA» 


Uma  emenda  á  «Relíquia 


(Carta  a  Luiz  Fernandes) 

Meu  caro  Luiz : 

Como  sabes  fui,  em  Paris,  o  médico  da  familia  Eça  de 
Queiroz.  O  auctor  do  Primo  Bazilio  passava,  de  vez  em 
quando,  pelo  consultório  da  rua  de  Phalsbourg,  por  volta 
das  5  horas,  á  sabida  do  consulado,  que  era  então  na  rua 
de  Berri.  Um  dia  em  que  se  demorou  a  conversar,  vendo, 
nas  minhas  estantes,  os  livros  cheios  de  notas  e  de  auto- 
graphos,  prometteu-me  uma  carta  interessante  para  o  meu 
exemplar  da  Relíquia.  Mandou-ma  no  dia  seguinte.  Datada 
de  Cuyabá  (Brazil)  10  de  junho  de  1898,  a  epistola  anony- 
ma,  registada  no  correio,  apontava  simplesmente  um  lapso 
do  escriptor,  sem  guindar  a  judiciosa  observação  á  petu- 
lância das  criticas  do  famoso  Doutor  Topsius,  autor  àaje- 
rusalem  passeada  e  commentaáa. 

Envio-te  essa  carta  para  que  tenhas  a  bondade  de  a  offe- 
recer,  em  meu  nome,  ao  Snr.  Cardoso  Martha,  accedendo 
assim  ao  pedido  de  colaborar  no  livro  de  homenagem  ao 
Flaubert  portuguez.  Acceito  o  honroso  convite,  mas  dou 

EÇA  vr.  QrEi!:oz  je 


226 


homem  por  mim.  Sobre  a  pátria  longinqua  desse  imprevisto 
collaborador  do  In  Memcríam  direi  no  entanto  duas  pala- 
vras, que  não  serão  porventura  aqui  descabidas. 


Cuyabá,  na  província  de  Matto  Grosso,  é  uma  pequena 
cidade  de  trinta  e  tantas  mil  almas,  hoje  capital  do  Estado. 
Arraial  de  tribus  selváticas,  em  remotos  tempos,  o  seu  no- 
me deriva  —  segundo  os  etymologistas  —  de  duas  palavras 
indianas  «Cuna  Abá  >  (mulher  animosa).  Ao  primitivo  sitio 
sertanejo  affluiram,  ha  dois  séculos,  os  aventureiros  euro- 
peus, á  procura  de  pedras  preciosas  e  do  ouro  que  reluzia 
á  flor  da  terra,  nas  espessas  matas  circumvizinhas.  Mas  já 
a  esse  tempo  eram  as  abundantes  minas  auríferas  explora- 
das por  paulistas,  cujas  famílias  edificaram,  n'aquellas  pa- 
ragens agrestes,  as  primeiras  povoações  de  onde  partiram^ 
em  destino  á  corte  portugueza,  centenas  de  canoas  carre- 
gadas do  precioso  metal,  em  diversas  expedições. 

Os  naturaes  não  viam  com  bons  olhos  estes  usurpadores 
audaciosos  de  suas  terras,  e  não  perdiam  lanço  de  lhes 
fazer  grandes  damnos. 

A's  vezes,  pela  calada  nocturna,  uma  cabilda  de  índios 
bravos  extravasava  dos  bosques,  aos  pulos,  e  arrasava  o 
povoado.  Outras  vezes  eram  as  expedições  atacadas  e  mas- 
sacrados os  exploradores  nos  pântanos,  á  embocadura  dos 
rios,  pelos  guerreiros  das  selvas. 

Cuyabá  assenta  nas  margens  do  rio  do  mesmo  nome, 
grande  affluente  do  caudaloso  Paraguay.  Limiíam-lhe  os 
horizontes,  a  norte  e  leste,  alturas  de  collinas  cobertas  das 
mais  opulentas  vegetações,  Comprazem-se  os  roteiros  em 
louvar  a  feracidade  admirável  do  torrão  e  a  excellencia  do 
clima  cálido  mas  saudável  do  antigo  logarejo  brazilico,  ele- 


227 


vado  á  cathegoria  de  cidade  por  alvará  do  rei  D.  João  VI, 
que  llie  conferiu  as  preeminências  de  capital  em  1820. 

Privilegiada  estancia !  Ouro  nas  entranhas  do  solo  para 
a  sede  maldita  dos  homens,  seivas  exuberando  da  gleba  pa- 
ra a  vida  prodigiosa  das  esplendidas  florestas. 

Da  vida  intellectual  de  Cuyabá  não  rezam  as  chronicas, 
E'  todavia  licito  presumir  do  apurado  gosto  litterario  dos 
seus  filhos,  um  dos  quaes  denomina  A  Relíquia  —  «o  livro 
sublime». 

Num  pedaço  abençoado  da  terra  brazileira,  próximo  dos 
sertões  incultos  —  saibam-no  quantos  se  inclinam  hoje  pe- 
rante a  obra  gloriosa  do  Mestre  —  vivia  pois,  em  fins  do 
século  XIX,  um  amigo  perspicaz  das  lettras  portuguezas, 
devotadamente  empenhado  no  ameno  entretenimento  de 
averiguar  as  phases  da  lua,  durante  as  peregrinações  de 
Theodorico  Raposo  pelas  terras  santas,  com  a  camisa  da 
Maricócas  debaixo  do  braço. 

«Não  podia  ser  cheia  a  lua  da  noite  seguinte...»,  mur- 
murava o  sisudo  cuyabense,  embrenhando-se  pelas  moitas 
balsâmicas  á  hora  da  sesta  e 

«Seguindo  os  voos  da  erradia  mente 

«Sob  a  odorosa  cúpula  fremente 

«Dos  bosques,  onde  os  ventos  sussurravam. 


como,  em  versos  deliciosos,  cantava  um  eminente  lyrico 
do  seu  paiz. 


Numa  obra  publicada  ha  poucos  annos  e  optimamente  do- 
cumentada, Marie  Robinson  Wright  cita  um  facto  que  im- 
pressiona deveras  e  deve  ter  contribuído  para  engrossar 
por   esse  mundo  fora,  a  onda  de  emigrantes,  em  demanda 


228 


da  fortuna.  Escreve  o  auctor  do  New-Brazil  acerca  da  ci- 
dade do  ouro : 

<íSo  rich  in  gold  is  this  régio n  that  specimens  of  the  pre- 
cious  metal  are  frequently  found  in  the  streets  after  a  heavy 
raín.  (1) 

Em  logar  de  correr  aventuras,  estouvadamente,  na  terra 
do  Egypto  e  na  Palestina,  para  ganhar  as  boas  graças  da 
tia  e  fazer  jus  á  herança  apetecida,  porque  não  foi  o  am- 
bicioso Theodorico  a  Cuyabá,  sacudir  a  arvore  das  pata- 
cas? Em  duas  palhetadas  ficava  rico,  como  umCreso,  sem 
precisar  de  recorrer  ao  misero  expediente  de  vender  cuei- 
ros do  Menino  Jesus  para  arranjar  a  vida,  depois  de  ter 
passado  a  juventude  a  ouvir  missas  e  a  rezar  terços,  com  o 
fim  de  agradar  ao  estafermo  da  beata  vingativa  que  o  des- 
herdou. 


No  prefacio  da  Reliquia  vemos  rebatidas,  com  altivez  lu- 
sitana, as  phantasiosas  locubrações  do  egrégio  Topsius, 
que  sempre  falava  com  admiração  do  seu  companheiro  sau- 
doso da  romagem,  a  quem  ficou  devendo  trinta  mil  reis.  As 
affirmações  censuráveis  do  doutíssimo  tudesco  eram  de  na- 
tureza a  desacreditar  o  futuro  senhor  do  Mosteiro,  peran- 
te a  burguezia  liberal  do  seu  paiz.  Merecida  portanto  a 
enérgica  contestação  do  fidalgo. 

Não  ha  vislumbre  de  irreverência  ou  de  fatuidade  na  mis- 
siva de  Cuyabá,  louvado  seja  o  nome  dulcíssimo  de  Jes- 
choua  de  Nazareth.  Por  esse  motivo,  Eça  de  Queiroz  não 
respondeu  em  tempo  ao  seu  admirador  fanático  e  lunático, 


•  li  Marie  Robinson  Wright—  The  New  Brasil,  its  resoitrces  and 
attractions:  tCuyabá»,  pag.  431. 


229 


e  eu  não  hesito  hoje  em  legar  á  posteridade  o  inédito  do- 
cumento que  guardei,  durante  vinte  annos,  entre  as  paili- 
nas  do  delicioso  livro  <'onde  a  Realidade  sempre  vive,  ora 
embaraçada  e  tropeçando  nas  pezadas  roupagens  da  His- 
toria, ora  livre  e  saltando  sob  a  caraça  vistosa  da  Farça.  > 

Paris,  10  de  julho  de  1918. 

Teu  amigo 

J.  DE  Mello  Vianna. 


Cuyabá,  10  de  julho  de  1898. 

Ao  £"x.™°  Snr.  Dr.  Eça  de  Queiroz 
48,  rue  de  Laborde  —  Paris. 


Mestre : 


O  vosso  sublime  livro  —  A  Relíquia  —  contem  um  engano 
que  é  o  seguinte: 

A'  pagina  186  da  2.*  edição,  no  final  do  segundo  capitu- 
lo lê-se: 

«Recolhemos  tarde,  quando  por  sobre  Moab,  para  os  la- 
dos de  Makeros,  a  lua  apparecia  fina  e  recurva  como  esse 
alfange  de  ouro  que  decepou  a  cabeça  ardente  de  loka- 
nan.» 

A'  pagina  539,  desde  a  ultima  linha  lê-se: 

«Quando  nessa  noute  acampamos  em  Bethel,  vinha  a  lua 
cheia  sahindo  por  traz  dos  montes  negros  de  Qilead.  > 


230 


A  noute  a  que  se  refere  o  trecho  da  pag.  186  é  a  do  so- 
nho de  Theodorico;  a  noute  a  que  se  refere  a  pag.  339 
(principio  do  4.°  capitulo)  é  a  que  se  seguio  immediatamen- 
te  ao  sonho. 

Na  primeira,  a  lua  é  minguante,  porque  «apparecia  fina 
e  recurva  como  esse  alfange. .  .*  e  porque  o  planeta  appa- 
receu  tarde  da  noite  para  os  lados  deMakeros,  que  fica  ao 
oriente  de  Jericó,  onde  se  achava  Theodorico. 

Não  podia  pois  ser  clieia  a  lua  da  noute  seguinte. 

Utn  fanático  admirador  vosso. 


Eça  de  Queiroz  em  Paris 


(Algumas  recordações.  . .) 


Pedem-me  algumas  linhas  emotivas  sobre  esse  grande  vi- 
dente da  Prosa  moderna  em  Portugal,  o  super-artista  das 
mais  feéricas  paginas,  esse  genial  Eça  de  Queiroz.  Conlie- 
ci-o  de  perto,  n'este  Paris  hoje  sangrando  dolorosamente, 
no  meio  da  maior  tragedia  de  todos  os  séculos.  Chegara  da 
Inglaterra  para  vir  occupar  o  cargo  de  cônsul  de  Portugal 
em  Paris.  Foi,  se  bem  me  recordo,  o  Marianno  Pina  quem 
nos  pozera  em  contacto,  n'um  almoço  intimo  dcs  bonle- 
vards.  Depois,  estreitámos,  mais  de  perto,  mais  intimas  re- 
lações, no  seu  bureau  modesto  da  rued'Artois,  o  rez-de- 
chaussée,  esquina  da  rue  de  Berri,  onde  estava  installadoo 
luzo  consulado.  Eça,  de  monóculo,  rabona  curta,  chapéu 
de  coco,  um  pouco  curvado,  sorriso  levemente  irónico  á 
flor  dos  lábios,  surgia  todas  as  tardes,  por  volta  da  uma  e 
meia  para  as  duas  no  bureau,  —  com  alguns  livros  debaixo 
do  braço,  um  maço  de  provas»  dMmprensa  e  os  seus  dois  in- 
separáveis Figaro  e  o  Times.  E  deixando  cahir  o  monóculo, 
estendia-nos  a  mão,  sempre  tão  cuidada,  perguntando  no- 


232 


vas  de  Portugal,  que  todo  o  interessava,  com  uma  reli- 
giosa saudade. . . 

De  vez  em  quando,  nas  amiudadas  visitas  ao  consulado, 
vinha  com  escritores  amigos.  Fiz-lhe  conhecer  Paul  Bon- 
netain,  o  romancista  do  Opium  e  do  Charlot  s^amuse,  Fran- 
cis de  Poictevin,  Paul  Verlaine  e  Léon  Bloy.  Porque  esse 
curioso  espirito,  de  tão  audaciosos  themas,  esse  tempera- 
mento ardente,  cheio  de  rythmo  e  de  rubro  colorido,  era, 
no  fundo,  um  timido.  Não  conhecia,  para  assim  dizer,  meia 
dúzia  de  homens  de  lettras  em  Paris,  não  frequentava  os 
cafés  litterarios,  nunca  puzera  os  pés  no  Tortoni  onde  pon- 
tificava todas  as  tardes  o  chronista  Aurélien  School,  ou  no 
Napolitano,  onde  imperava  olympicamente  Catulle  Men- 
des. 

Eça  de  Queiroz  vivia  apenas  com  os  seus  livros,— e  para 
a  sua  família,  n'uma  roda  toda  intima  d'amigos,  como 
Eduardo  Prado  e  o  Batalha  Reis.  Mais  tarde,  o  Arruda 
Botelho,  que  fundava  a  Revista  Moderna  onde  o  romancista 
tanto  collaborou  e  onde  publicou  A  Illustre  Casa  de  Ra- 
mires, foi  um  assiduo  da  caza  de  Eça  em  Neuilly  sur 
Seine. 

Infelizmente,  estou  escrevendo  sem  notas  complementa- 
res, n'um  modesto  quarto  d'hotel  de  Bordéus,  ainda  com- 
balido da  serie  d'abalos  nervosos  que  recebi  no  ultimo  mez 
de  Paris,— após  as  terríveis  horas  passadas  nas  caves,  ou- 
vindo o  estampido  das  bombas  dos  gothas  e  o  uivo  sinistra 
das  sereias,  entre  os  tiros  de  barragem  dos  fortes.  Não  te- 
nho aqui  todos  os  rnateriaes  que  deixei  no  meu  apparte- 
ment  de  Paris:  as  cartas  tão  encantadoras  d'esse  artista  de 
raça  e  sobretudo  aquella  em  que  elle,  simples  e  bom,  mal 
agradecia  a  minha  critica  ao%  Maias  e  me  falava  com  pai- 
xão do  suicídio  do  Anthero. 


233 


D'uma  vez  preguei  um  susto  a  Eça.  Foi  por  occasião 
d'uma  viagem  em  balão  livre  que  realisei  com  o  senador 
Cypriano  Jardim  (Visconde  de  Monte-São)  n'um  fim  de 
tarde  dominical,  em  agosto  de  1888,  desde  asTulherias  até 
além  de  Meaux,  —  uma  larga  passeata  de  50  a  60  kilome- 
tros.  N'essa  noite  não  houve  musica  nem  palestra  amena 
nos  salOes  do  Conde  de  Valbom,  que  era  então  o  nosso  mi- 
nistro em  Paris.  O  Eça,  que  em  companhia  de  Marianno 
Pina,  director  da  Ilustração,  me  vira  subir  no  aeronave  do 
Jardim  do  Caroussel,  ficara  muito  impressionado  e  dissera 
a  vários  portuguezes: 

—  Que  loucura !  Sem  nunca  terem  ainda  subido  em  balão h 
Só  o  Jardim  é  que  deve  conhecer  um  pouco  a  complicada 
maneira  de  se  equilibrar  nos  ares.  Mas  o  Xavier!  que  lou- 
cura ! 

E  foi  por  isso  que  nos  salões  do  Valbom  supplicára  para 
que  não  tocassem  piano. O  que  nos  teria  succedido?  Talvez 
áquella  hora,  eu  e  o  Cypriano,  estivéssemos  em  franga- 
lhos, n'algum  distante  recanto  da  França,  os  dois  corpos 
transformados  n'uma  massa  sangrenta,  após  a  queda  irre- 
mediavelmente fatal  e  horrivel. 

Felizmente  nada  nos  succedera  de  trágico.  Fora  uma 
aventura  banal.  E  no  dia  seguinte,  no  Riche,  o  Eça,  n'um 
almoço  intime,  pedia-me  para  lhe  contar  com  todas  as  sen- 
sações, o  relato  do  nosso  passeio  aéreo,  entre  os  telhados 
de  Paris  e  as  estrellas.  Foi  o  Pina  quem  fez  a  chronica  da 
aventura  n'um  trecho  alegre  de  prosa,  nas  colunas  do  ^^- 
porter,  a  folha  de  Oliveira  Martins,  órgão  lisboeta  dos  Ven- 
cidos da  Vida. 


Eça  de  Queiroz  era  sobretudo  d'uma  extrema  bondade.. 
Ao  Consulado  da  rue  de  Artois  vinham  amiudadas  vezes 


234 


alguns  lusitanos  bohemios,  sem  eira  nem  beira,  pedinchan- 
do.. .  E  o  Eça  dizia-lhes  sempre  : 

—  Irra!  isso  já  chega  a  ser  uma  grande  pouca  vergonha: 
Ainda  lhe  dei  ha  três  para  quatro  dias  uns  dez  francos  e 
você  volta  de  novo  a  reclamar,  inventando  historietas. . . 

E  depois  mostrando-se  ainda  mais  irritado: 

—  Não.  E'  escusado.  Não  lhe  dou  nem  mais  um  sou. 

Mas. . .  procurando  a  mão  do  pedinte,  ás  escondidas,  pa- 
ra que  a  gente  o  não  surpreendesse,  dava-lhe  ainda  outros 
dez  francos;  e  accrescentando : 

—  Ora  vá-se  embora !  Que  o  não  torne  a  vêr  por  cá.  Pro- 
cure trabalho,  que  isso  não  é  vida. . . 

E  ficávamos  depois,  nós  ambos,  a  discutir  philosophica- 
mente  a  imoralidade  da  esmola,  com  vagas  theorias  anar- 
chistas  contra  a  caridade  e  pregando  a  justiça  integral  que 
íios  não  avilta  na  caridade  christã. 

—  Mas  quando  um  ervte  humano  tem  fome,  podemos  dis- 
cutir teorias  de  Bakounine,  antes  de  lhe  darmos  uma  fa- 
tia de  pão,  ou  uma  moeda  de  cinco  francos? 

—  Não,  dizia-me  o  Eça.  Depois  de  lhe  darmos  o  pão  e  a 
"moeda  de  prata  é  que  devemos  discutir  com  o  pobre  diabo 
as  theorias  anarchistas  contra  a  esmola. 

Porque  esse  funcionário  do  Estado,  tão  querido  na  cor- 
te, tendo  por  Íntimos  vários  aristocratas  de  raça,  era  no 
fundo  o  mais  revoltado  espirito  que  conhecemos,  entreso- 
nhando  a  realisação  do  paraízo  civico  de  Platão,  uma  so- 
ciedade harmónica,  cheia  de  justiça  e  de  belleza. 


Mas,  certo  dia,  entrando  no  Consulado,  vim  encontrar  Eça 
de  Queiroz  verdadeiramente  irritado :  acabava  de  lêr  o  prin- 
cipio da  traducção  do  seu  Primo  Baziíio,  em  folhetins  diá- 
rios, no  jornal  parisiense  La  France,  tradução  atabalhoa- 


235 


damente  feita  por  M.™^  de  Rute,  aPrinceza  Rattazzi.  Dias 
depois  levei  eu  mesmo  ao  escritório  de  Eça  o  editor  Savi- 
ne,  que  devia  publicar  em  volume  a  trapalhada  incorrectis- 
8ima  da  Rattazzi.  Combinou-se  logo  ali  a  maneira  de  evitar 
a  publicação  do  livro,  porque  Savine  se  achava  já  muito 
arrependido  de  ter  assignado  um  tratado  com  a  traductora. 
E  o  Cousin  Basille  não  chegou  a  apparecer  na  livraria  da 
rua  das  Pyramides. 

E'  uma  pena  enorme  vêr  que  não  existe  uma  tradução 
completa  das  obras  d'Eça  de  Queiroz  em  francez,  obras 
que,  lançadas  no  grande  mercado  mundial  por  uma  casa  edi- 
tora de  Paris,  deviam  receber  a  consagração  universal. 

No  emtanto  o  seu  nome  não  é  desconhecido  da  elite.  Um 
mez  depois  da  morte  do  romancista,  em  Neuilly,  fui  visitar 
Emílio  Zoia  em  companhia  do  meu  amigo  Alfredo  Xavier 
Lobato,  que  me  trouxera  de  Lisboa  uma  mensagem  de  sau- 
dação ao  auctor  áofaccuse.  E  no  meio  da  nossa  palestra, 
ZoIa  disse-me  com  absoluta  segurança,  exprimindo  um  sen- 
timento profundo : 

—  Os  senhores  perderam  agora  um  grande  romancista,  o 
vosso  Eça  de  Queiroz.  Tenho  todas  as  suas  obras.  E  con- 
sidero-o  superior  a Flaubert,  que  foi  no  emtanto  o  meu  Mes- 
tre. 

Eis  o  que  pensava  o  maior  romancista  da  França  do 
maior  romancista  portuguez.  Palavras  de  justiça  que  im- 
mortalisam! 

Paris  —  Bordéus,  1918. 

Xavier  de  Carvalho. 


S.  Crístóvam 


(lendo  as  «Ultimas  Paginas»). 


Per  cidades  e  campos  sempre  errante , 
simples  como  Jesus  Nosso  Senhor, 
Cristóvam  foi  o  símbolo  do  amor, 
foi  da  Bondade  o  cavaleiro  andante. 

Dera-lhe  Deus,  num  corpo  de  gigante 
uma  alma  de  criança  e  o  são  Vigor 
dum  colossal  atleta.  A  sua  dor 
era  não  ser  ainda  mais  possante, 

não  ser  mais  forte  e  mais  infatigável 
pTa  arrostar  co'a  miséria  dolorida 
da  pobre  humanidade  lastimável. 

. . .  E  Cristóvam  foi  santo . . .  sem  saber, 
porque  ser  santo  é  dedicar  a  Vida 
a  viver  para  os  outros  e  sofrer. . . 

António  Amargo. 


\7/ C-%^  '»*"-     ^ -r.^-^-^ ^^       J^Ut  -/?>-■» 


%:  -Ú 


5r: 


".51  -^^ 


-^^^i^-í^'-e-C:3Ít^ 


EÇA  DE  Queiroz 
Estatueta  em  bronze  de  F.  da  Silva  Gouveia 


Sobre  Eca  de  Queiroz 


(excerpto) 


olho,  antes  de  escrever,  o  seu  retrato.  Tem  uma  cabeça 
longa  e  magra,  uma  mascara  de  clown-gentilhomem  :  bocca 
sensual  e  sardónica  a  que  o  bigode  espesso  e  forte  vem  es- 
conder as  commissuras  ;  os  oliios,  d'um  brilho  aveliudado, 
são  bellos  e  cheios  de  bondade,  d'uma  agudeza  sempre 
moça;  o  nariz  é  fino,  fariscante,  um  nariz  de  requintado 
poeta,  para  aspirar  jardins  e  axillas  d'oiro  ;  o  mento  em  an- 
gulo, as  sobrancelhas  crespas ;  e  o  cabello  ralo,  em  risca 
ao  lado,  cortado  com  um  bom  gosto  anti-litterario,  que  me 
evoca,  não  sei  porquê,  uma  calote,  uma  calote  de  pierrot 
grizalho.  Como  entala  o  monóculo  á  direita,  tem  esse  lado 
contrahido  em  rictus,  o  que  lhe  dá  á  physionomia  um  ar 
estranho,  uma  asymetria  de  linhas  e  expressões :  d'ahi  tal- 
vez um  não  sei  quê  macabro,  pelo  contraste  do  clownismo 
d'uma  face  com  a  calma  muscular  da  outra.  E  resumo  pr'a 
mim  a  minha  analyse :  uma  expressão  estranha  de  humorista, 
de  sensual  poeta  e  homem  bondoso,  n'um  arranjo  bem  cuidado 
de  mundano.  Como  dizem  os  inglezes,  well  groommed.  O 


238 


corpo  é  «um  poste  de  osso,  suspendendo  fios  eléctricos  de 
nervos»,  na  phrase  tão  mordente  de  Fialho ;  e  a  atitude, 
não  lhes  sugere  logo  uma  cegonha,  uma  cegonha  nostálgica, 
febril,  pela  elegância  pernalta  um  nada  lúgubre,  sob  o  dan- 
dysmo  sóbrio  que  a  disfarça?  E  de  memoria,  lembro  o  re- 
trato de  Columbano,  outros  retratos.  Evoco  os  camaradas 
do  seu  génio.  Oliveira  Martins  e  Anthero,  os  mais  amados, 
Junqueiro,  subtil  e  adunco,  é  uma  espécie  de  Shylock  me- 
taphysico,  tendo  em  vez  do  vicio  dos  dobrões  a  obsessão 
augusta  da  Verdade.  A  cabeça  de  Oliveira  Martins,  a  mais 
meditativa  e  concentrada,  lembra  um  mocho,  ensimesmado 
até  á  hypnose  em  visões  trágicas :  é  a  do  poeta-medium 
d'uma  Raça.  A  de  Anthero,  um  lião  mystico,  «era  de  santo 
e  de  piloto  do  Báltico»  (1).  A  de  Eça  de  Queiroz  é  o  Índice 
numullar  da  sua  obra,  o  sinete  em  arestas  do  seu  génio. 
Na  minha  sede  de  a  ler  bem  claro,  rapo-lhe  o  bigode  men- 
talmente, e  tenho-a  agora  em  frente  a  mim,  desnuda.  É  a 
expressão  que  eu  disse  em  mais  vincado,  confrangida  e  do- 
lorosa um  pouco.  Como  o  lábio  superior  é  muito  alto  e  as 
comissuras  escondidas  se  descobrem,  o  sensualismo  da 
bocca  é  mais  amargo  :  ha  um  scepticismo  transido  em  toda 
a  mascara.  Vejo-o  assim  mais  intimo,  mais  elle,  esse  grande 
artista  que  amei  sempre  :  posso  palpar-lhe  com  os  olhos  a 
caveira,  e  só  em  confronto  com  a  Morte,  se  vê  bem.  A  vida 
interior  d'um  artista  é  sempre  trágica,  e  eu  sinto  nodal,  no 
drama  de  Eça  (o  que  a  muitos  parecerá  um  paradoxo)  uma 
sede  de  fé  inextinguivel.  No  seu  scepticismo  tão  calumnia- 
do,  no  dandy  que  retalha  de  monóculo,  movendo  certos 
personagens  como  títeres,  mas  não  é  difficil  auscultar  mais 
fundo,  um  génio  portuguez  bem  de  raiz,  um  grande  inter- 
prete da  Raça,  autochtono,  e  a  essência  do  seu  ser  que  é 


(1)  E.  de  Queiroz  no  Iii  Memoriauí  de  Anthero. 


239 


toda  lyrica,  apesar  da  ganga  cosmopolita  em  que  o  enter- 
ram aquelles  cuja  visão  é  parcial,  e  os  estúpidos,  que  são  o- 
maior  numero.  Haverá  um  dia  em  Portugal  um  critico?  Por 
mais  que  sonde  a  névoa,  não  me  parece  que  venha  n'e8t& 
instante.  Se  o  Encoberto  da  Critica  surgir,  ha-de  exhumar 
das  bandaletas  das  escolas,  de  molde  naturalista  hoje  em 
poeira  onde  o  seu  génio  se  debateu  por  muito  tempo,  infe- 
rior a  si  mesmo,  suffocado,  —  o  galbo  raro  de  humorista- 
poeta,  de  psychologo  (criador  em  menor  grau)  —  e  de  ar- 
tista subtil,  delicadíssimo,  como  evocador  de  frescos,  de- 
paysagens,  como  imaginativo  Visual. 

Vou  interrogar  uma  hora  ou  duas  a  emoção  que  me  deu 
a  sua  obra,  e  dizel-a  com  humildade  e  com  leveza. 

Deitando  ainda  o  olhar  ao  seu  retrato,  é  o  ironisía  que 
primeiro  evoco.  Lembremos  episódios  ao  acaso,  em  que  a 
índole  do  seu  huinour  se  revele.  É  em  casa  de  Luiza,  no> 
«Primo  Bazilio),  um  dos  serões  familiares.  Oiçamos  um. 
instante,  um  só  instante  : 

«Mas  D.  Felicidade,  que  olhava,  ao  pé  de  Julião,  as  gra- 
vuras do  Dante,  illustrado  por  G.  Doré,  que  elle  folheava, 
com  o  volume  sobre  os  joelhos,  exclamou,  de  repente: 

< —  Ai  que  bonito  !  que  é?  Muito  bonito  !  Viste,  Luiza? 

«—  É  um  caso  d'amor  infeliz,  sr.^  D.  Felicidade  —  disse 
Julião.  — É  a  historia  triste  de  Paulo  e  Francesca  de  Rimi- 
ni.  E  explicando  o  desenho  :  —  Aquelia  senhora  sentada  é 
Francesca :  este  moço  de  guedelha,  ajoelhado  aos  pés  d'ella, 
e  que  a  abraça,  é  seu  cunhado,  e,  lamento  ter  de  o  dizer, 
seu  amante.  E  aquelle  barbaças,  que  lá  no  fundo  levanta  a 
reposteiro  e  saca  da  espada,  é  o  marido  que  vem,  e  zás!  — 
E  fez  o  gesto  de  enterrar  o  ferro. 

«—  Safa  !  —  fez  D.  Felicidade,  arripiada.  E  aquelle  livro 
cabido  o  que  é  ?  Estavam  a  ler  ? 


240 

<'—  Sim. . .  Tinham  começado  por  ler,  mas  depois. . . 
Qiiel  gioriio  piá  no  vi  leggiemi  avante, 

o  que  quer  dizer  :  —  E  nós  não  lemos  mais  em  todo  o  dia  ! 

«—  Puzeram-se  a  derriçar  —  disse  D.  Felicidade  com  um 
sorriso. 

« —  Peor,  minha  rica  senhora,  peor  !  Porque,  segundo  a 
mesma  confissão  de  Francesca,  este  moço,  o  da  guedelha, 
■o  cunhado, 

La  bocca  me  bacciõ  intto  tremante, 

o  que  significa,  —  A  boca  me  beijou  tremendo  todo. . . 

«—  Ah  I  fez  D.  Felicidade,  com  um  olhar  rápido  para  o 
Conselheiro.  —  É  uma  novella  ? 

«— É  o  Dante,  D.  Felicidade —  acudiu  com  severidade  o 
Conselheiro  —  um  poema  épico,  classificado  entre  os  me- 
lhores. Inferior,  porém,  ao  nosso  Camões!  Mas  rival  do 
famoso  Milton  !» 

A  luxuria  de  poiluir,  reduzindo  a  farça  n'um  tal  meio,  um 
dos  instantes  mais  altos  da  poesia  do  mundo,  é  para  mim 
d'uma  tristeza  má.  Hysteria  de  negação,  vazio  horrível.  Os 
senhores  riem  deliciados,  como  eu  :  mas  que  um  segundo 
só  de  pensamento  faça  precipitar  o  nosso  riso,  e  sentire- 
mos como  tine  falso,  como  sabe  a  exaspero  pessimista. 
Lembremo-nos.  O  caricaturista-clown  que  assim  deforma,  é 
Eça  de  Queiroz,  não  é  Gervásio  :  é  uma  grande  alma  de 
poeta,  um  sensitivo.  Esses  tercetos  prodigiosos,  bronze  e 
chamma,  echoavam  dentro  d'elle  n'esse  instante,  no  próprio 
instante  em  que  escreveu  a  scena.  Releu-os  com  certeza 
muitas  vezes :  sab:a-os  de  cór,  ia  jurar.  Viu  meihordo  que 
nós,  no  aer  bruno  Paolo  e  Francesca  errarem  enlaçados : 


241 


tremeu  ao  sopro  de  simoun  eterno  :  —  como  comprehender 
que  seja  elle  que  debruça  sobre  as  gravuras  de  Doré,  a 
D.  Felicidade  e  o  conselheiro  ?  Eu  bem  sei  que  a  scena  é 
natural,  d'uma  verosimilhança  flagrantíssima;  mas  que  o 
humour  de  Eça  a  escolhesse,  é  o  que  importa  fixar  sob  o 
meu  angulo. 

Quando  Theodorico  deixa  o  Egypto,  a  caminho  de  Jeru- 
salém, vae,  na  caleche  que  o  leva,  a  dizer  adeusinho  com 
o  lenço  á  doce  Maricoquinhas :  depois,  diz  elle,  eu  cahi sobre 
a  almofada  de  chita  como  cae  um,  corpo  m^rto.  D'esta  Vez, 
como  não  ha  citação  e  o  leitor,  em  geral,  não  é  subtil,  pou- 
cos vêem  paraphraseado  em  burlesco,  o  grande  verso  final 
do  mesmo  canto : 

E  caddi  come  cadde  un  cuorpo  muorto. 

Theodorico  cae  na  almofada  de  chita  da  caleche,  como 
Dante  no  terceiro  canto  do  inferno.  Mas  onde  a  aura  nihi- 
lista  mais  se  sente,  é  ainda  na  Relíquia,  na  visita  ao  Jardim 
das  Oliveiras.  É,  na  obra  do  humorista,  o  instante  mais  ge- 
lado do  clownismo.  A  epilepsia  denegar  mima  aqui  a  frieza 
a  mais  commum  ;  é  monstruosa  á  força  de  banal,  debonho- 
mia  ôca,  familiar.  Faz  o  vácuo  em  nós,  e  gela  o  riso.  Só  os 
imbecis  não  sentem  que  é  demais,  e  que  ha  sob  a  epiderme 
de  frieza,  qualquer  coisa  de  fatal,  de  trágico.  Oiçamos  co- 
mo Theodorico,  o  /^a/7£7Sã<7,  entra  no  jardim  de  Géthsemani : 

«Empurrei  a  portinha  verde,  pintada  de  fresco,  com  a  sua 
aldraba  de  cobre  ;  e  penetrei  no  pomar  onde  Jesus  ajoelhou 
e  gemeu  sob  a  folhagem  das  Oliveiras.  Alli  vivem  ainda, 
essas  arvores  santas  que  ramalharam  embaladoramente  so- 
bre a  sua  cabeça  fatigada  do  mundo  !  São  oito,  negras,  car- 
comidas pela  decrepitude,  escoradas  com  estacas  de  ma- 


242 


deira,  amodorradas,  já  esquecidas  d'es8a  noite  de  Nizan 
em  que  os  anjos,  voando  sem  rumor,  espreitavam  através 
dos  seus  ramos  as  desconsolações  humanas  do  filho  de 
Deus...  Nos  buracos  dos  seus  troncos  estão  guardados 
enxós  e  podões :  nas  pontas  dos  galhos  raras  e  ténues  fo- 
lhinhas, d'um  verde  sem  seiva,  tremem  e  mal  vivem  como 
os  sorrisos  d'um  moribundo. 

«E  em  redor,  que  hortasinha  caridosamente  regada,  estru- 
mada com  devoção !  Em  canteiros,  com  sebes  de  alfena, 
verdejam  frescas  alfaces :  as  ruasinhas  areadas  não  têm  uma 
folha  murcha  que  lhes  macule  o  asseio  de  capella  :  rente  aos 
muros,  onde  rebrilham  em  nichos  doze  Apóstolos  de  louça, 
correm  alfobres  de  cebolinho  e  cenoura,  fechados  por  chei- 
rosa alfazema. . .  Porque  não  floria  aqui  era  tempos  de  Je- 
sus tão  suave  quintal  ?  Talvez  a  plácida  ordem  d'estes  utei& 
legumes  acalmasse  a  tormenta  do  seu  coração !» 

Era  curioso  confrontar  este  fragmento  com  o  da  «Jeru- 
salém» de  Loti,  sobre  o  mesmo  jardim  das  Oliveiras.  Dir- 
me-hão  :  não  é  Eça  de  Queiroz  quem  falia,  é  Theodorico. 
Mas  Theodorico  é  um  personagem  de  farça,  um  delicioso 
fantoche,  e  o  humour  de  Eça,  cabriolando  d'esse  trampo- 
lim, podia  permittir-se  o  que  quizesse.  Nada  o  forçava:  não 
foi  para  revelar  um  personagem,  para  exprimir  o  caracter 
do  seu  títere,  que  Eça  de  Queiroz  escreveu  esse  episodio, 
obra-prima  de  humour,  perturbante  de  aparente  cynismo  e 
de  seccura.  De  onde  vem  pois,  que  significa  o  impulso  anar- 
chista,  destructivo,  que  da  belleza  mais  pura  ao  heroisma 
mais  puro,  tudo  projecta  em  farça,  prostituído,  com  uma 
espécie  de  sadismo  bon-enfant  ?  Sob  a  cerusa  que  reboca  o 
clown,  ha  rosetas  de  febre,  podem  crer.  O  humorista  e  o 
poeta  são  só  um.  Podia  citar  mais,  analysar,  mas  o  resíduo, 
para  mim,  seria  o  mesmo.  O  seu  humour  corre  a  gamma 


243 


toda,  tem  um  virtuosismo  prodigioso ;  desarticuia-se  como 
o  lápis  de  Bordalio  n'um  baile  esfusiante  de  fantoches,  re- 
flectido em  espelhos  deformantes,  côncavos  e  convexos, 
em  farândola  ;  e  medita  em  cegonha,  elegantíssimo,  empoa- 
do de  luar  n'um  vôo  brusco,  para  além  dos  seus  quadros 
de  costumes,  dos  scenarios  dos  seus  contos  e  romances. 
Mas  na  raiz  —  como  eu  o  sinto  doloroso,  producto  do  seu 
triplo  pessimismo  :  pessimismo  de  escola,  de  realista ;  pes- 
simismo de  portuguez  do  nosso  tempo;  e finalmente,  pessi- 
mismo physiologico  de  fraco,  de  sensitivo  mórbido,  tarado. 
Tudo  isto  é  dito  condensadamente,  mas  quem  tem  de  en- 
tender, entende  assim.  O  seu  humouré  uma  mascara  de  poe- 
ta no  carnaval  penitenciário  que  é  viver.  Sob  a  impassibili- 
dade que  o  maquilha,  pulsa  um  idealista  confrangido,  um 
lyrico  que  se  vinga  em  clownerias,  neurasthenicamente, 
tristemente,  da  torpeza  dos  homens  e  das  coisas.  E'  uma 
mascara  de  velludo  ou  de  seda,  palhetada  de  lua  ou  quasi 
lujíubre  (1),  que  vem  em  passo  de  ave  ou  que  é  macabra. 
Que  a  intuição  do  nosso  amor  lh'a  arranque,  e  a  face  do 
poeta  que  então  vemos,  ao  mergulhar  nos  seus  os  nossos 
olhos,  não  é  d'um  clown  :  é  dolorosa.  Para  mim,  a  essência 
do  seu  hiimour  é  um  lyrismo  pisado,  confrangido,  um  bater 
de  azas  feridas  sobre  o  lodo.  O  seu  humour  é  de  estirpe 
heinesca ;  o  criador  de  Accacio  e  de  Pacheco  começou  imi- 
tando o  Intermezzo  (2).  Não  quero  dizer  que  seja  sempre  as- 
sim (systematizar  é  sempre  falso),  mas  é  assim  nos  momen- 
tos dominantes.  Ha  paignas  que  escorrem  mocidade,  em  que 
o  riso  tine  claro  e  são,  e  o  humour  espuma  como  um  vinho 
verde,  sob  uma  latada  do  Minho,  em  pleno  julho.  São  po- 
rém excepções,  alacridade,  folias  de  estudante  á  flor  das 


<1)  o  período  final  do  Crime  do  Padre  Amaro,  por  exemplo. 
i2)  Nas  Prosas  Barbaras: 


244 


coisas,  ou  bolas  de  sabão  que  o  sol  irisa  e  não  deixam  ves- 
tígios ao  sumir-se.  O  humour  que  tem  a  sua  garra,  é  outro. 
É  quasi  uma  vingança  do  Destino,  que  á^ix  nervos  de  stra- 
divarius  a  um  poeta,  e  o  fez  nascer  em  Portugal.  Como  o 
desespero  de  Camiilo  e  Fialho,  e  o  pessimismo  buddhico 
de  Anthero  (ironia  mais  alta,  transcendente),  o  sentido  pro- 
digioso do  sen  humour  é  um  symptoma  d'este  mal  sem  cura, 
do  grande  ma!  de  haver  nascido  portuguez.  Mal  delicioso, 
mal  amado,  que  em  Oliveira  Martins,  supremamente,  teve 
o  seu  representante  trágico,  o  dramaturgo  mystico  da  Raça. 

Na  nossa  terra,  Eldorado  de  gágás  e  de  medíocres,  tudo 
que  é  superior  é  calumniado.  Accusam  Eça  (mesmo  um  ho- 
mem de  génio,  entre  imbecis)  de  ser  litterariamente,  com  a 
fascinação  perigosa  do  seu  charme,  um  ser  varrido  de  amor 
ao  seu  paiz,  por  pura  perversão  e  por  systhema,  desnacio- 
nalisando-o  em  cada  livro,  com  um  cynismo  diabólico  de 
dandy,  para  quem  o  escarneo  é  já  condescendência.  Uma 
vez  pontificado  isto,  dada  a  preguiça  mental  da  nossa  gente, 
foi  um  leit-motiv  com  mil  variações,  ao  sabor  de  ideologias 
e  de  taras,  com  a  volúpia  que  energúmenos  teem  sempre, 
tentando  achincalhar  tudo  que  é  grande.  Não  houve  cre- 
tino-de-letras,  que  não  repetisse,  — e  escrevesse  —  ,  ter  sido 
a  obra  de  Eça  dissolvente,  depressiva  e  annuladora  de  ener- 
gias, apotheosando  por  contraste  o  que  é  estrangeiro,  e  de- 
primindo o  que  é  nosso  por  instinto,  n'uma  apostasia  de  re- 
voltar as  boas  almas.  Teve  de  pagar,  olá  se  teve  !  —  depois 
da  morte  sobretudo— ,  ter  sacudido  aos  repelões  de  riso, 
o  fakírismo  de  todos  os  medíocres,  da  sociedade  portugueza 
em  coma,  hypnotísada  a  olhar  o  próprio  umbigo.  Foi  um 
deboche  de  conselheiros  e  fadistas,  e  sel-o-ha  por  muito 
tempo  ainda.  Centenas  de  criaturas  que  o  decalcam,  moem 
este  cliché  a  cada  instante.  E  é  o  contrario  precisamente 


245 


que  é  verdade.  Calumniam-no  assim,  admirando-o;  crendo 
sinceramente  admiral-o.  Não  admira  quem  quer,  meus  bons 
senhores.  Analysemos  a  calumnia,  um  pouco.  O  Crime  do 
Padre  Amaro,  por  exemplo,  o  seu  primeiro  e  o  seu  melhor 
romance,  termina  assim,  como  se  lembram  : 

«E  o  homem  de  estado,  os  dois  homens  de  religião,  íodoe 
três  em  linha,  junto  ás  grades  do  monumento,  gozavam  de 
cabeça  alta  esta  certeza  gloriosa  da  grandeza  do  seu  paiz 
—  alli  ao  pé  d'aquelle  pedestal,  sob  o  frio  olhar  de  bronze 
do  velho  poeta,  erecto  e  nobre,  com  os  seus  largos  hom- 
bros  de  cavalleiro  forte,  a  epopeia  sobre  o  coração,  a  es- 
pada firme,  cercado  dos  chronistas  e  dos  poetas  heróicos 
da  antiga  pátria  —  pátria  para  sempre  passada,  memoria 
quasi  perdida  1» 

Não  é  um  incidente :  é  a  convergência  moral  de  todo  um 
livro.  Eis  o  fecho  de  abobada,  o  echo  ultimo  d'um  pessi- 
mismo doloroso  e  lúcido,  repercutindo  em  nós  por  muito 
tempo,  da  obra  amada  e  trabalhada  muitos  annos,  que  o  re- 
velou um  escritor  perfeito,  e  em  que  apesar  dos  cânones 
realistas,  e  da  pretensa  impassibilidade  do  seu  humoiir,  a 
sensibilidade  de  Eça  corre  a  jorros.  Pois  não  é  bem  fla- 
grante? Pois  não  sentem  ?  Será  preciso  comentar  ainda? 
É  preciso  (como  n'outra  acepção  elle  dizia  á  critica  de  Por- 
tugal e  do  Brazil)  uma  estupidez  córnea  ou  máfécynica,  para 
não  vêr  nas  palavras  que  lhes  cito  uma  amargura  de  raiz, 
em  ferida,  que  por  não  vir  burlescamente  expressa,  á  Por- 
tugal, meu  berço  de  innocente,  não  deixa  de  ser  funda  e  bem 
Vivida,  ou  melhor,  é  bem  vivida  e  funda. 


António  Patrício. 


Uma  pagina  anonyma  de  Eça  de  Queiroz 


Escrevi  tantas  vezes  sobre  Eça  de  Queiroz  e  os  seus  li- 
vros, na  vida  do  eminente  escriptor  e  depois  da  sua  morte, 
que  tudo  o  que  hoje  aqui  pudesse  dizer  da  sua  personali- 
dade litteraria  não  seria  mais  do  que  uma  redite  de  ideias, 
impressões  e  juizos  já  largamente  notados  e  desenvolvidos. 

Alem  d'isso,  contemporâneo  e  amigo  do  glorioso  roman- 
cista, a  minha  opinião  a  seu  respeito  é,  em  tudo,  conforme 
com  aquella  que  a  critica  de  ha  vinte  e  cinco  a  trinta  annos 
definitivamente  formulou  sobre  o  auctor  e  a  sua  obra.  E, 
assim,  julgo  inútil  proclamar  eu,  mais  uma  vez,  que  Eça  de 
Queiroz  foi  um  dos  mais  pessoaes  e  mais  bem  dotados 
d'entre  os  grandes  homens  de  lettras  do  ultimo  quartel  do 
século  XIX ;  que  foi  elle  o  creador  poderoso  do  nosso  ro- 
mance de  observação,  e,  ao  mesmo  tempo,  o  mais  extranho, 
o  mais  imprevisto,  o  mais  phantasioso  dos  nossos  humoris- 
tas; que  o  seu  estylo  attingia  a  perfeição  dentro  do  máximo 
requinte  artístico  e  se  caracterisou  pela  pericia  de  lapidario 
com  que  talhava  e  facetava  a  sua  phrase;  que  o  seu  espi- 
rito alliou  á  graça  a  profundidade,  á  phantasia  alada  e  bor- 


247 


boleteante  o  senso  vivo  da  realidade ;  e  que  o  seu  vasto 
labor  é,  emfim,  um  dos  mais  belios  e  mais  sólidos  monumen- 
tos da  litteratura  portugueza  contemporânea  e  a  sua  gloria 
de  artista  a  d'um  verdadeiro  Mestre  já  consagrado  e  indis- 
cutido. 

Tudo  isto,  dito  e  escripto  pelas  primeiras  pennas  de  Por- 
tugal—e n'uma  época  em  que  as  havia  tão  brilhantes  quanto 
auctorisadas— representa  uma  espécie  de  opinião  cathego- 
rica,  quasi  um  dogma,  que  não  precisa  de  novas  definições. 

Por  isso,  não  querendo  deixar  de  associar-me  á  homena- 
gem que  dois  admiradores  de  Eça  de  Queiroz  lhe  quize- 
ram  prestar  com  a  publicação  d'este  livro,  limitar-me-ei 
a  fazer  aqui  uma  verdadeira  e  curiosa  revelação  litteraria. 
Vou  exhumar,  d'um  velho  jornal,  uma  pagina  anonyma  e 
esquecida  do  fino  humorista,  evocando  simultaneamente  a 
historia  d'essa  pagina  faiscante  de  verve,  —  historia  que 
constitue  uma  scena  interessante  da  vida  litteraria  e  jorna- 
lística de  ha  trinta  annos,  eé,  para  mim,  uma  das  melhores 
e  mais  saudosas  recordações  d'um  convívio  de  espirito  e  de 
coração,  que  foi  um  dos  encantos  de  minha  remota  mocidade 
e  uma  das  mais  altas  e  deliciosas  mercês  que  a  sorte  bemfa- 
seja  me  dispensou. . . 


No  dia  21  de  Fevereiro  de  1887,  que  era  uma  segunda- 
feira  gorda,  publicava  A  Província  — o  órgão  politico  que 
Oliveira  Martins  fundara  no  Porto,  dois  annos  antes,  para 
apoiar  o  movimento  chamado  da  Vida  Nova  —  um  numero 
carnavalesco,  que,  pela  elevação  e  finura  do  seu  espirito 
e  o  seu  raro  valor  litterario,  destacava  singularmente  das 
jogralices  rasteiras  com  que  na  imprensa  se  celebravam, 
de  ordinário,  as  folias  do  Entrudo. 


248 


Por  esse  tempo,  viera  a  Portugal,  e  dera  sessões  em  Lis- 
boa e  no  Porto,  um  adivinho  inglez,  Mr.  Stuart  Cumber- 
land,  que  revelava  os  pensamentos  dos  circumstantes,  des- 
cobria objectos  por  elles  escondidos,  escrevia  n'um  quadro 
os  números  que  fixavam  mentalmente,  e  fazia  outros  curio- 
sos exercícios  de  suggestão  e  percepção  psychologica. 

A  farça  carnavalesca  da  Provinda  consistia  n'um  longo 
artigo,  que  occupava  as  duas  primeiras  paginas  do  jornal  e 
em  que  se  descrevia  uma  imaginaria  sessão  do  adivinho  nas 
salas  da^sua  redacção.  Era  todo  um  borbulhar  de  humoris- 
mo, de  charges  politicas  e  litterarias,  de  allusões  aos  acon- 
tecimentos do  momento  e  a  personalidades  em  evidencia 
n'essa  época.  O  êxito  foi  verdadeiramente  sensacional. 

Quem  era  o  auctor  d'esse  escripto  notável  ? 

No  sabbado  seguinte,  o  chronista  da  Provinda,  que  assi- 
gnava  João  Ratão  (e  que  era  a  mesma  pessoa  que  estas  li- 
nhas está  saudosamente  escrevendo, . .)  dizia  na  sua  chro- 
nica  hebdomadaria  intitulada  A  Semana: 

«O  grande  caso  da  semana  foi  o  apparecimento  de  Mr. 
Cumberland.  O  pobre  João  Ratão  encontra,  porém,  esta 
veia  já  explorada  e  gasta  peio  jornal  em  que  escreve. 

«O  nosso  numero  phantastico  de  segunda-feira  tomou 
conta  do  adivinho  ingiez,  e  por  tal  forma  o  aproveitou,  que 
eu  me  acho  apenas  agora  com  o  magro  osso  da  simples  re- 
portage.  E  essa  mesma,  bom  Deus  I  já  está  feita  e  mais  que 
feita... 

«Havia  uma  coisa  que  eu  poderia  aqui  contar— e  esta  bem 
mais  interessante,  creiam,  do  que  as  próprias  e  reaes  ses- 
sões do  illustre  suggestor.  Esta  coisa  era  a  boa  e  alegre 
noite  em  que  essa  longa  troça  foi  elaborada  e  escripta.  Se 
soubessem  o  nome  dos  collaboradores  :  Se  soubessem  que, 
n'esse  kaleidoscopio  de  ditos,  de  charges,  de  epigrammas^ 


j 


249 


trabalharam  quatro  dos  primeiros  nomes  da  nossa  littera- 
lura  !  Se  eu  lhes  pudesse  dizer  as  phrases,  os  alvitres,  a8 
gargalhadas,  no  meio  dos  quaes  se  amalgamou  esse  artigo,, 
já  agora  famoso ! 

«Mas  não.  Seria  indiscreto.  O  carnaval  passou.  Já  não  é 
tempo  de  matar  os  mascarados,  de  lhes  denunciar  os  perfis 
atravez  do  loup  que  os  occulta. 

«Paciência  !  A  historia  das  lettras  pátrias  ficará  sem  esta 
pequena  nota  viva  da  biographia  de  quatro  nomes  illustres. 
Os  criticos  do  futuro  embasbacarão  com  esta  minha  chro- 
nica,  irritados  da  prudência  que  lhes  rouba  algumas  paginas 
intimas  sobre  as  individualidades  da  litteratura  portugueza 
no  ultimo  quartel  do  século  xix. 

«Lamento  a  falta  que  isso  vai  fazer  aos  criticos.  A\as  nada 
lia  n'este  mundo  que  me  obrigue  a  ser  indiscreto. .  ..> 

Posso  sêl-o  hoje!. . .  Trinta  e  dois  annos  passaram  já  so- 
bre esse  episodio  da  nossa  vida  litteraria  que  o  chro- 
nista  da  Província  tão  veladamente,  n'uma  meia  inconfi- 
dência, revelava  então  aos  seus  leitores.  Dos  que  collabo- 
raram  n'esse  numero  do  brilhante  jornal  portuense,  só  trez 
sobreviventes  restam.  Eu  sou  um  d'elles.  Contarei,  pois^ 
essa  historia  que,  ao  tempo,  certas  conveniências  e  melin- 
dres me  vedavam  de  referir. 

Os  quatro  primeiros  nomes  da  nossa  litteratura,  a  que  eu 
fazia  allusão,  eram  estes,  nem  mais,  nem  menos :  Anthero 
de  Quental,  Oliveira  Martins,  Eça  de  Queiroz  e  Guerra 
Junqueiro.  Os  restantes  collaboradores  foram  os  redacto- 
res -effectivos  da  Provinda :  Joaquim  Gonçalves,  o  econo- 
mista e  jornalista  distinctissimo,  Fernando  Maya,  o  bri- 
lhante official  de  cavallaria  e  illustrado  escriptor  militar» 
Queiroz  Velloso  e  eu.  Mas  quem,  n'essa  collaboração,  teve 
a  parte  mais  larga,  quem,  principalmente,  redigiu  o  artigo» 


250 


aproveitando  as  lembranças,  as  suggestões,  os  ditos,  os 
-apartes,  que  de  todos  os  lados  rompiam  e  esfusiavam,— foi 
Eça  de  Queiroz. 

Estou  a  vêl-o,  de  pé,  curvado  sobre  a  alta  mesa  de  tra- 
balho de  Oliveira  Martins,  esguio  no  comprido  frak  negro 
escorrido  ao  longo  do  corpo  esquelético,  o  perfil  adunco 
■contrahido  no  seu  rictiis  irónico,  o  monóculo  encravado  na 
arcada  superciliar,  a  mão  fina  e  delicada  correndo  vertigi- 
nosamente sobre  as  largas  folhas  de  papel  assetinado. 

Era  no  gabinete  de  trabalho  de  Oliveira  Martins,  na  linda 
e  recatada  casa  do  século  XVIII,  em  que  elle  então  habi- 
tava no  Porto,  n'esse  recanto  quasi  aldeão  das  Aguas  Fér- 
reas, que  o  implacável  haussmanismo  m.unicipal,  maniaca- 
mente  alinhador  e  rectificador,  esqueceu,  por  milagre,  n'um 
dos  flancos  da  extensa  artéria  da  rua  da  Boa-vista.  Essa 
casa  amiga,  esse  gabinete  recolhido  e  intimo,  que  me  era 
tão  familiar,  entre  que  commovidas  recordações  os  evoco 
sempre  !  O  escriptorio,  que  já  algures  descrevi,  era  uma 
sala  rectangular,  onde,  cortando  um  angulo,  entre  duas  ja- 
nellas,  dominava  a  sombria  guarnição  do  fogão,  encimado 
por  um  espelho,  tudo  de  velho  castanho  pomposamente  en- 
talhado. Sobre  as  paredes  brancas  sobresaiam  as  altas 
estantes  em  que  uns  milhares  de  volumes  se  alinhavam  na 
mais  perfeita  ordem,  alguns  quadros  hespanhoes  e  estam- 
pas antigas,  e  as  espaldas  das  cadeiras  de  solla  lavrada, 
orladas  pela  reluzente  pregaria  amareila.  A  um  dos  topos, 
ficava  a  única  porta  de  accesso,  d'onde,  para  o  gabinete, 
se  descia  por  dois  degraus.  Velava-a  um  pesado  e  grosso 
reposteiro  listrado,  em  tons  escuros.  A  disposição  d'esse 
aposento,  que  era  uma  espécie  de  annexo  da  casa,  as  pa- 
redes em  cal,  a  penumbra  de  que  o  envolviam  sombras  de 
arvores  contíguas,  o  seu  ar  reservado  e  silencioso,  fizeram 
com  que  se  lhe  chamasse  a  sacristia. . . 


251 


No  fogão  flammejava  um  enorme  brazeiro  de  hulha.  O 
fumo  azulado  do  tabaco  estendia,  por  toda  a  sala,  a  sua  g^ri- 
saille  diaphana.  Junto  do  lume.  Oliveira  Martins,  com  o  seu 
fez  vermelho  na  cabeça,  Anthero,  bamboleando  a  magra 
perna  crusada  e  anediando  serenamente  a  longa  barba  loira, 
enterravam-se  nas  poltronas  com  a  volúpia  dos  friorentos. 
Os  mais  espalhavam-se  em  redor. 

A  cada  instante,  Eça  de  Queiroz  interrompia  a  escripta 
e  lia  um  trecho  do  trabalho  já  feito,  entre  um  coro  de  rui- 
dosas gargalhadas.  Outras  vezes  pedia  ideias,  exigia  ditos 
sublimes,  reclamava  génio!...  E  logo  remergulhava  na  re- 
dacção d'essa  formidável  e  tintamarresca  pasquinada. 

Mas,  já  pela  noite  adeante,  um  novo  e  adventício  colla- 
borador  cahiu  em  meio  d'essa  jovial  companhia.  Uma 
creada,  correndo  o  reposteiro,  annunciou: 

—  O  snr.  João  Burnay. 

E,  de  súbito,  no  vão  da  porta,  ao  cimo  dos  degraus,  uma 
extranha  figura  veio  surprehender-nos,  n'uma  atíitude  thea- 
tral.  Era  um  escossez,— um  escossez  authentico,  na  cabeça 
o  pequeno  boitnet  com  a  pluma  d'aguia,  o  kilt  caindo  em 
pregas  até  ao  joelho,  o  plaid  crusado  no  tronco,  a  bolsa 
de  pelle  á  cinta,  as  pernas  nuas  acima  dos  cothurnos  de 
xadrez,  grandes  fivelas  de  prata  nos  sapatos.  Dir-se-ia  a 
apparição  de  Lord  Ravenswood  n'um  dos  actos  da  Lueia  de 
Lammermoor. . . 

A  acclamação  com  que  foi  recebido  esse  imprevisto  high- 
lander!  João  Burnay  era  um  intimo  de  quasi  todos  os  pre- 
sentes, a  quem  elle  encantava  com  a  sua  excentricidade 
bohemia,  a  sua  verve  endiabrada  e  inesgotável. 

Por  esse  tempo,  esse  phantastico  engenheiro,  de  quem 
Ramalho  Ortigão  traçou  nas  Farpas  o  perfil  originalíssimo, 
tomara  a  grande  empreitada  da  construção  do  caminho  de 
ferro  de  Ambaca.  Vinha  justamente  ao  Porto  tratar  d'e3se 


252 


considerável  negocio  com  os  gros  bonnets  da  finança  tri- 
peira, interessados  na  empreza.  Mas,  como  se  estava  no 
Carnaval,  achou  preferível  vir  em  travesti...  E,  n'essa 
toilette,  por  lá  girou  durante  dias,  visitando  os  amigos, 
irequentando  os  theatros,  jantando  nos  restaurantes,  de- 
batendo largamente  as  clausulas  e  as  verbas  do  seu  con- 
tracto com  os  graves  e  conspícuos  burguezes  da  Cidade 
Invicta. 

Este  incidente  apenas  por  curtos  instantes  interrompeu 
a  grande  oJ>ra.  Eça  de  Queiroz  retomou  a  penna  e  João 
Burnaj',  d'ahi  a  pouco,  lançava  meia  dúzia  de  epigrammas, 
que  visavam,  sobretudo,  o  seu  famoso  primo,  o  Conde  de 
Burnay,  alvo  habitual  dos  seus  dardos  irónicos  e  a  quem 
elle  chrismára  com  aquella  alcunha,  que  se  tornou  popular, 
do  Topa-a-tudo. 

Era  já  noite  velha  quando  se  pôz  o  ponto  final  n'essa 
ph  antas  ia  buffa. 

Reproduzil-a  toda,  i:oje,  não  seria  sem  interesse  como 
exhibição  d'um  valioso  documento  litterario;  mas  ha  muita 
coisa  n'ella  que  mal  se  comprehenderia  agora  sem  longos 
commentarios  á  politica  do  tempo,  aos  acontecimentos 
coevos,  a  factos  que  passaram,  a  pessoas  de  varias  cathe- 
gorias,  cuja  notoriedade  ephemera  se  apagou  nas  sombras 
do  esquecimento. 

Além  dMsso,  o  que  aqui,  principalmente,  desejo  reprodu- 
zir, é  o  que,  n'essa  collaboração,  foi,  sem  duvida,  obra  ex- 
clusiva de  Eça  de  Queiroz,  —  e  bem  se  reconhece  pelo 
vinco,  pelo  mordente  de  sua  phrase  inconfundível. 

Começava  o  compte-rendu  da  fabulosa  sessão  por  dar  a 
nota  da  assistência,  que  era  tudo  o  que  se  pode  imaginar 
de  mais  charivarico. 

Misturadas  com  individualidades  reaes  — escriptores,  ar- 
tistas, pessoas  da  sociedade,  typos  populares,  políticos 


253 


n'e88e  momento  influentes,  appareciam  figuras  históricas, 
personagens  de  romance  e  de  theatro  e  outras  de  pura 
phantasia. 

Ao  lado  de  Anthero  de  Quental,  estava  o  propheta  Aba- 
cuc.  Lopo  Vaz  e  João  Arroyo  sentavam-se  ao  pé  de  Ber- 
tholdo  e  Bertholdinho,  Camillo  Castello  Branco  junto  do 
visconde  de  Corrêa  Botelho.  Via-se  Ophelia  «enlaçada  á 
Sr.*  D.  Albertina  Paraizo/>,  Gomes  Leal  «carregado  com  o 
Anti-Christo»,  «o  duque  de  Bolama  pelo  braço  do  sr.  Hintze 
Ribeiro,  amortalhados  ambos  em  gran-cruzes  >,  Affonso  II, 
o  Gordo,  ladeando  «Alberto  Pimentel^  o  Magro> ,  Dumas 
filho  com  a  Dama  das  Camélias;  a  um  canto  o  jornalista 
Borges  de  Avellar,  Coge  Çofar,  a  actriz  Josepha  d'0IiV3i- 
ra,  o  conselheiro  Acácio,  o  anonymo  de  Sahagun,  Priamo, 
Eurico  o  Presbytero,  e  Assis  «o  especialista  celebre«  ;  a 
outro,  Serpa  Pimentel,  Carrilho,  Simão  o  Magico,  Hircio 
e  Pansa,  Mendonça  e  Costa,  Gaspar  Ferreira  Baltar.  E  ao 
cabo  de  enorme  lista,  de  que  apenas  dou  uma  reduzida 
amostra,  vinham  ainda  «um  cavalheiro  embuçado,  sombras, 
um  homem  triste  de  Angeja,  assignante  do  Coniniercio  do 
Porto,  e  outras  multidões.» 

Seguía-se  a  apresentação  de  mr.  Cumberland,  de  que  Eça 
de  Queiroz  fazia  assim  o  retrato  : 

«Mr.  Cumberland  é  um  gentkinan  gordo,  de  cabello  côr 
de  milho,  corado,  prospero,  mostrando  no  porte  e  nos  mo- 
dos o  tranquillo  bebedor  de  cerveja  e  o  homem  correcto  de 
negócios.  Vestido  de  preto,  com  luvas  claras  e  uma  gra- 
vata tranquilla,  mr.  Cumberland  só  revela  os  poderes  so- 
brenaturaes,  de  que  o  dotou  o  destino,  por  cinco  cavelri- 
nhas  d'oiro  que  lhe  tilintam  nos  berloques  do  relógio.  Tem 
maneiras  sóbrias,  reservadas,  e  na  breve  conversação  que 
tivemos  com  elle,  no  vão  d'uma  janella,  mostrou-se  homem 


254 


culto,  penetrante  e  conhecedor  a  fundo  da  questão  palpi- 
tante dos  tabacos.  De  vez  em  quando,  contráe  a  venta, 
como  um  coelho  manso,  e  pisca  o  olho  direito :  n'estas  oc- 
casiões  derrama-se-lhe  na  physionomia  alguma  coisa  de  si- 
nistro e  de  amável,  que  prende.» 

E  continuava,  fazendo  a  descripção  dos  salões  da  Pro- 
vinda : 

^<No  momento  em  que  mr.  Cumberland,  depois  de  ter 
dado  explicações  repassadas  de  cortezia  ao  nosso  amigo 
Araújo,  se  adeantou,  sacudindo  risonhamente  os  seus  ber- 
loques lúgubres,  —  o  aspecto  das  salas  era  tão  surprehen- 
dente  que  fazia  pensar  nos  explendores  de  Harun-el-Ras- 
chid. 

«Como  a  multidão  dos  convidados,  a  emoção,  o  gaz,  as 
digestões  difficeis,  e  aquelle  ardente  calor  que  as  ideias 
fortes  sempre  deixam  nos  lugares  em  que  se  agitam,  torna- 
riam os  salões  um  forno  suffocante,  os  nossos  lacaios  ti- 
nham aberto  largamente  as  janellas  ogivaes  que  dão  sobre 
os  nossos  jardins. 

«Das  nossas  magnólias  em  flôr  subia  um  aroma  capitoso, 
e  tão  romântico,  tão  inebriante  de  mysterio  e  paixão,  que^ 
por  momentes,  vimos  emmagrecer  Borges  e  asr.*  D.  Guio- 
mar Torrezão. 

«Felizmente,  os  nossos  repuxos  espalhavam  uma  frescura 
adorável,  cantando  com  tão  doce  melodia,  que  o  mimoso 
conselheiro  Thomaz  Ribeiro  correu  á  varanda,  julgando 
distinguir  nelles  o  rythmo  do  seu  D.Jayme. 

«Entre  as  nossas  roseiras  alvejavam  os  nossos  mármo- 
res; nas  nossas  relvas  lantejoulavam  as  nossas  illumina- 
çôes ;  no  céu  rebrilhava  a  nossa  lua. 

«Dentro,  os  divans,  as  poltronas,  os  bancos  de  carvalho 


i 


255 


lavrado,  desappareciam  sob  as  sedas  amplas  dos  vestidos  e 
as  abas  ligeiras  das  casacas.  Na  primeira  anciedade  de 
bem  examinar  mr.  Stuart  Cumberland,  renques  de  cava- 
lheiros, encarrapitados  sobre  as  nossas  mezas  da  Renas- 
cença italiana,  tocavam  com  as  calvas  ou  com  as  guedelhas 
nos  caixilhos  das  nossas  telas  de  Velasquez,  de  Parra- 
zio  e  de  Resende,  e  na  orla  dos  mappas,  onde  estão  dese- 
nhadas, a  cores  ou  em  relevo,  passadas  e  futuras  campa- 
nhas. , .  eleitoraes. 

«Na  massa  pallida  dos  focinhos  alvoroçados  reluziam  os 
óculos  do  sr.  Borges,  promontoriava  o  queixo  do  sr.  Luciano 
Cordeiro,  destacava  o  nariz  triste  de  Eurico  o  Presbytero. 
A  cuia  da  sr.*"  D.  Cecília  Fernandes  cobria  sobre  os  map- 
pas geographicos  o  disputado  circulo  de  Baião.  Hircio  e 
Pansa,  velhos  cônsules  do  quadro,  graves  nas  suas  togas,, 
cochichavam  mirando  de  soslaio  com  pasmo  o  chino  do- 
sr.  Machado  d'Eça  em  quarto  crescente.  Era  solemne!» 

N'esta  altura  era  o  discurso  de  Cumberland  á  assisten^ 
cia,  Cumberland's  speech,  n'uma  cómica  algaravia  de  portu- 
guez  e  inglez.  Depois  o  adivinho  fazia  a  sua  primeira  sorte 
suggestiva,  que  era  uma  engraçada  allusão  ás  dissenções 
que,  n'essa  época,  lavravam  no  partido  regenerador  e  de- 
terminaram a  chefatura  de  António  de  Serpa  Pimentel,  como 
um  elemento  ponderador  entre  as  rivalidades  de  Lopo  Vaz 
e  Hintze  Ribeiro. 

Vinha  então  a  sorte  dedicada  á  «Provinciav>.  É  toda  da  au- 
ctoria  de  Eça  de  Queiroz,  e  pôde  considerar-se  o  melhor 
trecho  d'essa  fina  arlequinada  litteraria. 

Sabe-se  que  entre  Camillo  e  Eça  houve  mais  d'uma  vez. 
leves  incidentes,  —  arrufos  passageiros  e  sempre  cortezes,. 
polvilhados  do  sal  da  ironia  e  que  se  liquidavam  com  sim- 
ples boutades,  pessoalmente  inoffensivas.  Camillo  tinha  urr> 


256 


leve  ciúme  da  gloria  nascente  do  auctor  do  Crime  do  Padre 
Amaro.  Eça,  que  admirava  o  talento  creador  de  Camillo.a 
paixão  fremente  que  convulsionava  muitas  das  suas  obras, 
o  poder  do  seu  estylo  e  a  mordedura  cáustica  do  seu  sar- 
casmo, tinha  a  phobia  do  romantismo,  que,  por  uma  con- 
tradição singular,  adorava  na  poesia  (era  um  ardente  hugo- 
latra)  tanto  quanto  detestava  na  novella. 

Por  essa  occasião,  ou  pouco  antes,— não  posso  precisar 
agora,  — Camillo  fora  feito  visconde.  Como  Garrett,  o  au- 
ctor do  celebre  epigramma: 

Foge,  cão, 
Que  te  fazem  barão  ! 

—  Mas  para  onde, 
Se  me  fazem  visconde  ? . . . 


Camillo,  que  tanto  troçara  os  titulares  de  fresca  data, 
deixara  também  inscrever  o  seu  grande  e  glorioso  nome 
no  accessivel  nobiliário  do  Constitucionalismo. 

Na  relação  dos  que  assistiam  á  festa,  já  vimos  desdo- 
brar-se  a  personalidade  do  Mestre:  Camillo  Castello  Bran- 
co ao  lado  do  visconde  de  Correia  Botelho,  —  o  escriptor 
separado  do  titular.  É  da  scisão  d'e3sa  entidade  illustre  que 
Eça  de  Queiroz  se  serviu  para  os  extranhos  effeitos  da  sua 
funambulesca  blague. 

Eis  a  sorte  dedicada  á  Provinda : 

«Logo  que  se  fez  um  silencio,  mr.  Cumberland,  dirigin- 
do-se  ao  nosso  Redactor  em  chefe,  teve  a  amabilidade  de 
dedicar  ao  nosso  jornal  a  sorte  inédita  que  ia  apresen- 
tar. 

«Dirigiu-se  ao  sr.  visconde  de  Correia  Botelho  e  pedin- 
do-lhe  que  escondesse  o  seu  objecto  mais  odiado,  retirou-se 


< 
et 

D 

O 


o 
« 

g 

H 
O 

O 

X 

< 


N 
O 

o; 


o* 

O 


< 

z 
u 

<y 

Q 

O 
oí 
u 

z 


z 

p 


257 


immediatamente  para  o  nosso  explendido  gabinete  persa, 
onde  lhe  tínhamos  preparado  algumas  velhas  garrafas  de 
Porlo,  1640  (rs.)  — data  memorável,  O  adivinho  sorriu,  sem 
adivinhar  a  nossa  suggestão. 

«Apenas  mr.  Cumberland  se  retirou,  o  sr.  visconde  de 
Correia  Botelho  sobraçou  o  illustre  auctor  do  Amor  de  Per- 
dição, e  contendo-lhe  com  mão  de  ferro  o  estrebuchar,  di- 
rigiu-se  á  varanda  para  o  ir  esconder  no  saguão. 

«A  assembléa  protestou  contra  a  irreverência: 

«  —  Não!  nunca!  É  uma  gloria  nacional! 

«Debalde  um  dos  nossos  redactores  explicou  adverbiosa- 
mente  que  o  nosso  saguão  não  era  o  saguão  commum  — 
mas  um  parterre  de  roseiras.  Os  gritos  continuavam  : 

«  —  Não!  nunca!  Ao  saguão,  nunca! 

«O  sr.  visconde  teve  que  ceder.  Com  o  esguio  auctor  das 
Memorias  do  Cárcere  a  debater-se-lhe  debaixo  do  braço, 
olhou  em  volta  e  dirigiu-se  a  um  dos  nossos  vastos  tintei- 
ros de  prata  manoelinos.  Ouviu-se  o  baque  d'um  corpo 
magro  em  tinta  grossa  —  e  viram-se  dois  pés  agudos  a  per- 
near  no  alto. 

«E  —  quanto  pôde  a  suggestão  !  —  logo  começaram  a 
transbordar,  em  vez  de  tinta,  obras  de  todas  as  cores,  fei- 
tios e  tamanhos,  já  impressas  e  brochadas  :  romances,  con- 
tos, biographias,  diccionarios,  defezas  da  religião,  ataques 
á  mesma,  phantasias,  folhetins,  tão  copiosos,  tão  torren- 
ciaes,  que  de  toda  a  parte  se  elevou  um  grito : 

«—Basta  !  Basta  !  Não  nos  afogue  !  Tire-o  !  tire-o  ! 

«O  sr.  visconde,  contrariado,  tirou  o  romancista  do  ne- 
gro charco,  sacudindo-o  com  esmero.  Dos  pingos  espargi- 
dos em  redor,  sobre  os  tapetes,  verificamos  ao  outro  dia 
terem  ainda  nascido  tortulhinhos  de  prosa. . . 

«Hesitou  um  pouco  o  sr.  visconde,  e  de  repente,  com  o 
romancista  debaixo  do  braço,  a  pernear  sempre,  correu, 

EÇA  DS  (QUEIROZ  j  n 


258 


n'um  lampejo  de  inspiração,  a  esconde!-o  no  seio  vasto  e 
gracioso  d'aquelia  senhora  a  quem  mr.  Cumberland,  com 
um  correcto  anglicismo,  chamara  a  sr.*  Torrezona. 

«Raras  vezes  temos  visto,  na  nossa  longa  carreira  jorna- 
lística, um  escriptor  pernear  tão  desabridamente.  Por  fim 
rompeu  aos  gritos  : 

«  —  Brutalidades,  não  !  Estamos  aqui  para  nos  di- 
vertirmos entre  cavalheiros  de  sociedade...  Violências, 
não! 

<A  assembléa  condemnou  com  um  murmúrio  a  sanha 
odienta  do  sr.  visconde,  que,  encolhendo  os  hombros,  com 
o  gesto  de  César  nas  Termopylas,  sorriu,  abriu  desmesura- 
damente a  bocca  e,  como  quem  engole  espadas,  absorveu 
o  romancista. 

«O  pasmo  era  esmagador.  Pairava  nos  ares  a  magestade 
de  mr.  Cumberland,  invisível  como  a  Providencia.  Olha- 
va-se  por  toda  a  parte.  Seria  uma  íllusão?  As  senhoras  sa- 
cudiram os  vestidos,  os  homens  palpavam  as  algibeiras. 
Sumira-se  o  auctor  da  Corja!  O  glorioso  humorista  estava 
definitivamente  eliminado.  E  no  meio  da  sala,  de  pé,  o  se- 
nhor visconde  emmudecera,  empanzinado. 

«Foi  então  que,  n'um  silencio  em  que  se  podiam  ouvir 
segredar  os  nossos  antípodas,  surgiu,  risonho  e  agitando  os 
berloques  fúnebres,  o  suggestor  Cumberland. 

«Não  hesitou  um  momento;  caminhou  direito  ao  sr.  Vis- 
conde, a<4arrou-lhe  o  pescoço  com  uma  das  mãos,  com  a  ou- 
tra os  tornozelios;  e,  com  a  facilidade  de  quem  quebra  uma 
canna,  fel-o  estalar  pelo  meio  !  Houve  desmaios.  Do  sr.  vis- 
conde escoou-se  no  chão  um  corpo  ténue:  e  mr.  Cumber- 
land, tomando-o  na  ponta  dos  dedos,  mostrou  á  assembléa 
o  sr.  Camillo  Castello  Branco. 

«Mas,  ai!  quão  mudado!  Onde  se  sumira  o  sarcástico  ar- 
reganho? Para  onde  fora  o  lábio  fremente  de  verve?  Onde 


259 


se  escondia  aquella  direitura  de  porte  que  parecia  esparti- 
lhada em  adjectivos  d'aço?  Tudo  desapparecera !  Tudo  es- 
tava perdido  para  as  lettras! 

«Na  nossa  assembiéa  havia  uma  sussurração  de  descon- 
solo e  saudade.  Meninas  suspiravam;  e  a  sr.'^  Torrezona 
comprimia  ais  no  seu  copioso  seio. 

«Então  o  sr.  Camilio  Casiello  Branco,  esvaído  e  dimi- 
nuído, murmurou: 

«— Mettam-me  outra  vez  dentro  do  sr.  visconde!  Só  lá 
dentro  estou  bem!  Bem  para  dentro,  lá  no  meio,— onde  está 
a  coroa! 

«Logo  mr.  Cumberland  ajustou  de  novo  o  titular  partido, 
niettendo-lhe  o  recheio  do  romancista ;  e  no  meio  de  pal- 
mas, hurrahs,  gritos,  urros,  cacarejar  de  gallos  e  piar  de 
corujas,  terminou  esta  sorte  que  ficará  memorável  na  his- 
toria litteraria,  e  gravada  nos  annaes  gloriosos  da  Provin- 
da.» 

Soberbo  e  extraordinário  espirito  este,  que  a  tudo  se 
adaptava,  e  a  tudo,  desde  o  romance  á  farça,  dava  o  realce 
da  graça  e  da  beileza  e  o  cunho  da  sua  personalidade,  tão 
differenciada  do  commum  !  O  que  acaba  de  lêr-se  é  bem 
d'elle.  Sente-se-lhe  o  sabor  particular,  o  fino  bouquet  como 
d'um  vinho  perfumado  e  generoso.  É  a  tournure  muito  ca- 
racterística do  seu  espirito,  da  sua  veia  cómica,  fluindo  ri- 
camente em  contrastes  absurdos,  em  deformações  carica- 
turaes.  A  ninguém  pôde  restar  duvidas  de  que  a  penna  que 
traçou  estas  linhas  é  a  mesma  que  escreveu  algumas  das 
mais  scintillantes  e  hilariantes  paginas  das /^íír/7a5,  que  tra- 
çou as  grotescas  figuras  do  Raposão  e  do  Topsius  da  Relí- 
quia, e  creou  o  conselheiro  Acácio,  — a  immortal  encarna- 
ção lusitana  de  mr.  Prud'homme. 

Esta  foi  a  parte  principal  da  intervenção  de  Eça  de  Quei- 


260 


roz  n'esta  burlesca  producção,  que  se  diria  devaneada  e 
escripta,  não  n'um  cenáculo  de  auctores  cathegorisados, 
mas  na  roda  picara  e  jovial  dos  heroes  de  Murger.  Toda- 
via, embora  a  sua  collaboração  fosse  n'ellas  parcial,  quero 
ainda  citar  duas  passagens  em  que  elle  ajudou  a  emoldurar 
em  prosa  duas  soberbas  pochades  poéticas,  —  uma  de  Guerra 
Junqueiro,,  outra  de  Anthero  de  Quental. 
A  primeira  tinha  a  rubrica  de  Entremets  lyrico. 

«O  illustre  poeta  d'estado  honorário,  sr.  conselheiro 
Thomaz  Ribeiro,  foi  o  heroe  d'este  episodio  memorável  da 
nossa  soirée. 

«Havia  um  certo  cançaço  depois  de  tão  fortes  emoções  ; 
e  mr.  Cumberland,  adivinhando  o  desejo  de  todo  o  mada- 
mismo,  convidou  o  festejado  estadista  a  recitar  alguns  dos 
seus  bocadinhos  d'oiro  em  obsequio  ás  senhoras. 

«—Minhas  senhoras,  retorquiu  o  sr.  conselheiro,  é  muito 
lisongeiro,  muito  honroso  para  mim,  mas  não  vinha  prepa- 
rado. . .  Se  tivesse  tido  alguma  antecipação. . . 

<'A  instancias  do  sr.  duque  d' Ávila  nomeou-se  uma  com- 
missão  para  implorar  a  s.  ex.^  que  recitasse  alguns  dos 
seus  harmoniosos  decretos,  ou  das  suas  mimosas  porta- 
rias. 

«O  sr.  conselheiro  não  resistiu  mais  e,  acompanhado  pela 
sr.'  Torrezona,  que  desferia  eolicamente  o  sr.  Alberto  Pi- 
m.entel,  tirou  o  lenço  bordado,  prenda  de  mysteriosa  oda- 
lisca, cofiou  o  bigode  plangente,  afogou  o  olho  em  ternura 
nova,  e,  com  voz  oleaginosa,  trinou: 

Sou  par  do  reino,  bacharel  formado, 
Lyrio  nevado,  trovador  christão. 
Brizas  do  Tejo  que  passaes  balsâmicas, 
Epithalamicas,  tara,  tan,  tão,  tão... 


261 


Trazei,  pousae-me  n'esta  fronte  bella, 
Pura  e  singela,  divinal,  gentil, 
Os  beijos  castos  que  as  meninas  Peres 
Dão  aos  alferes,  sob  o  céo  d'abril ! 

Trazei-me  os  sonhos  perfumados,  ledos, 
Almos  segredos  que,  escutando  bem, 
Á  meia  noite  Julieta  arrulha. 
Quando  a  patrulha  vae  passando  além! 

Trazei-me  os  echos  dos  defuntos  pianos. 
Que  eram  ha  annos,  ao  ouvir  meus  ais, 
Martyrisados  pelas  viscondessas, 
Em  cem  cabeças  de  comarca,  ou  mais! 

Sou  par  do  reino,  bacharel  formado. 
Condecorado  com  a  Conceição; 
Tarirarira,  rira,  rira,  rira, 
Tarirarira,  rira,  rira,  rão ! 

«Bis!  bis!  exclamaram  todos. 

«E  o  sr.  Borges  gritava  enthusiasmado: 

«—Vis!  Vis! 

«Então  o  sr.  conselheiro,  sorrindo,  repetiu : 

Tarirarira,  rira,  rira,  rira, 
Tarirarira,  rira,  rira,  rão! 

«Foi  um  delírio!» 

Esta  engraçada  parodia  a  um  dos  rythmos  favoritos  do 
illustre  poeta  do  D.Jayme  é,  como  disse,  de  Guerra  Jun- 
queiro. 


262 


Anthero  fez  para  o  capitulo  intitulado  Episodio  lyrico  : 
Evocação  os  alexandrinos  huguescos  que  ahi  se  lêem,  e  cujo 
verso  final,  paraphrase  do  famoso 

Dejà  Napoléon  perçait  sons  Bonaparte 

é  uma  felicíssima  troiivaille. 

Eis  o  episodio: 

«Mephistophelico,  com  o  seu  nariz  adunco,  na  primeira 
fila,  via-se  o  nosso  Guerra  Junqueiro,  n'essa  noite  particu- 
larmente glorioso.  Passavam-lhe  na  mente,  incendiada  pe- 
los explendores  da  festa,  trovões,  montanhas,  abysmos  e 
vozes  do  infinito.  Mr.  Cumberland  adivinhou  immediata- 
mente  que  a  alma  do  grande  Hugo  se  aninhara  no  cérebro 
do  nosso  querido  Junqueiro  e  lhe  estava  revelando  lá  den- 
tro um  grande  segredo  poético. 

<^E  não  querendo  privar  os  nossos  convidados  d'uma  pri- 
m^«r  posthuma  do  épico  da  Lenda  dos  Séculos,  tomou  pela 
mão,  que  a  cerveja  respeitara,  (1)  o  nosso  querido  Junqueiro 
e,  levando-o  á  pedra,  obrigou-o,  por  successivas  sugges- 
tões,  a  vomitar  as  porções  de  Hugo  que  o  affrontavam  : 

Je  suis  mort.  Me  voilà.  Je  rayonne  dans  Tombre. 
Je  suis  Téclair,  je  suis  la  voix,  je  suis  le  nombre  ! 

Les  soirs,  autour  de  moi,  comme  un  essaim  d'abeilles, 
Voltigent.  Oh  firmament,  jardin  de  fleurs  vermeilles, 


il  Guerra  Junqueiro,  que  era  cnião  um  crrande  amador  de  cerveja, 
batendo-se  bock  a  bock,  ás  mesas  do  Camanho,  com  os  mais  copiosos  be- 
bedores da  Pllsener,  ferira,  dias  antes,  uma  das  mãos  no  gargalo  d'uma 
garrafa,  que  sa  quebrara  quando  o  poeta  a  desrolhava- 


263 


Que  mon  souffie  caresse  et  que  ma  vaste  main 
Cueille  d'un  large  geste,  auguste  et  surhumain, 

Je  fhabite!  Oh  lueur!  Je  rève  sur  la  cime! 

Et  mon  nombril  s'etale  aux  bords  noirs  de  Tâbime. 

Je  suis  tout.  Oh!  je  suis  le  repôs  et  Ia  !utte, 
De  rinfini  muet.  Je  suis  rharmoniflúte!. . . 

II  dit.  —  El  dans  Ia  fauve  et  sombre  immensité, 
Dans  un  nimbe  effrayant  d'horreur  et  de  clarté, 

Étonnant  Touragan,  et  Taigle,  et  Tescargot, 
Sous  Dieu  le  Père  on  vit— percer  le  père  Hugo! 

«Estes  quatro  últimos  versos,  que  o  nosso  glorioso  Jtin- 
i^ueiro  addidonou  á  confidencia  astral  de  Victor  Hugo,  fi- 
zeram dizer  ao  nosso  Eça  de  Queiroz: 

«—Sempre  odiando  o  Padre  Eterno,  que  tanto  fez  por 
elle!...  Bem  ingrato,  este  Abilio! 

«Uma  parte  da  assembléa  desgraçadamente,  por  ignorar 
a  língua  franceza,  não  poude  apreciar  as  belíezas  fortes 
d'esta  poesia  épica  de  Hugo.  Os  leitores  da  Provinda  dirão" 
se  elia  é  sublime,  ou  não. 

«Mas  decididamente  não  foi  este  o  mais  bello  successo 
da  soirêe.  Pois  merecia  sêl-o  i>- 

O  faceto  artigo  descrevia  ainda  outras  sortes  do  adivi- 
nho, não  menos  burlescas  do  que  estas,  mas  em  que  a  colla- 
boração  do  grande  humorista  foi  secundaria  on  nulla.  Por 
isso  não  citarei  esses  trechos. 


264 


Ah !  não  a  esquecerei  nunca,  essa  noite  alegre  de  bohe- 
mia  do  espirito,  de  Carnaval  liíterario,  em  que  esses  gran- 
des intellectuaes  foliavam  como  picrrots  enfarinhados,  ati- 
rando ás  mãos  ambas  sobre  a  multidão,  sobre  os  políticos» 
os  litteratos,  os  homens  do  dia,  os  confeiíie  as  serpentinas 
da  chalaça,  das  allusões  picantes,  da  desenvolta  phantasia 
clownesca! 

Já  lá  vae  quasi  o  terço  d'um  século!...  Mas,  no  fundo 
da  minha  memoria,  revivo  essa  scena  adorável,  com  a  pre- 
cisão e  a  nitidez  de  pormenores  d' um  successo  da  véspera. 
E  os  homens  illustres,  que  d'eila  foram  os  actores,  surgem 
aos  meus  olhos,  saudosos  e  humedecidos  pela  emoção» 
como  elles  então  eram,  todos  na  força  da  edade,  na  plena 
madureza  dos  seus  magnificos  talentos,  no  auge  da  gloria, 
que  já  os  havia  consagrado  entre  os  maiores  escriptores  do 
seu  tempo. 

Não  o  guardarei,  porém,  avaramente  para  mim,  no  cofre 
secreto  — e  já  tão  cheio!  — das  minhas  recordações,  esse 
episodio  da  intimidade  de  tão  altos  espíritos,  que  uma 
grande  e  fraterna  amisade  ligava  então. 

A  «pequena  biographia»  é,  frequentemente,  para  a  Vida 
dos  homens  notáveis,  para  a  revelação  do  seu  caracter, 
para  a  accentuação  da  sua  personalidade,  tão  suggestiva  e 
luminosa  como  o  é,  para  o  estudo  e  comprehensão  d'uma 
época,  «a  pequena  historia. 

A  quantos,  d'entre  os  novos,  que  só  de  tradição  ou  pe- 
las suas  obras,  conhecem  essas  gloriosas  individualidades, 
não  revelará  esta  anedocía  um  traço  inédito  das  suas  phy- 
sionomias,  mostrando-as  n'um  aspecto  ignorado  d'essa  ca- 
maradagem intellectual  em  que  os  seus  espíritos,  tocando- 
se  nos  contactos  da  conversa,  pareciam  tirar  d'esse  choque 
intellectual  todo  um  chispar  fulgurante  e  deslumbrador  de 
grandes  pensamentos  e  de  esplendidas  phrases  ! 


265 


Ouvir  conversar  esses  homens  constituía,  com  effeito,  um 
regalo  epicurista  de  intelligencia,  uma  verdadeira  delicia 
espiritual.  A  sua  companhia  era  como  uma  Academia  inti- 
ma, onde  se  debatiam  —  e  com  que  elevação  !  —  os  mais 
transcendentes  problemas  da  philosophia  e  do  saber  con- 
temporâneos, as  questões  mais  fundamentaes  da  vida  social 
e  politica,  e  luminosamente  se  discreteava  sobre  as  coisas 
serenas  das  lettras  e  das  artes, 

E  como  eram  simples  e  naturaes  esses  Mestres,  sem  vai- 
dades, sem  pretensão,  sem  pedantismo,  sem  poses  olympi- 
cas  ou  ares  cathedraticos,  fazendo  quasi  esquecer  a  sua 
superioridade  pela  sua  discreção  e  modéstia,  pela  sua  to- 
lerância e  a  sua  benévola  bonhomia  !  Ao  pé  d'elles,  os  pe- 
quenos mal  sentiam  a  sua  pequenez,  —  e  até,  ás  vezes,  o 
clarão  do  seu  génio  parecia  que  lhes  emprestava  um  pouco 
da  sua  luz,  como  o  explendor  do  sol  flammejante  empresta 
á  lua  apagada  a  sua  pai  lida  e  vaga  claridade !. . . 


Luiz  de  Magalhães. 


tça  de  Queiroz  na  intimidade 


Dizem  os  franceses  que  não  ha  grandes  homens  para  os 
seus  criados  de  quarto.  E'  um  absurdo,  como  absurdos 
são  muitos  anexins  populares  que  o  povo  repete  incon- 
scientemente. Eu  creio,  ao  contrário,  que  é  na  intimidade 
que  mais  se  afervora  a  admiração  pelos  que  realmente  a 
merecem. 

Para  penetrar  a  admirável  psicologia  de  Eça  de  Queiroz, 
é  preciso  íel-o  conhecido,  tel-o  ouvido,  tel-o  seguido  aten- 
tamente na  sua  afectuosidade,  no  modo  superior  como  apre- 
ciava os  homens  e  comentava  os  acontecimentos.  Não  era 
só  a  linha  fidalga  que  o  distinguia  fisicamente:  era  a  sua 
fidalguia  moral  que  transparece  em  todos  os  actos  da  sua 
vida. 

Quem  o  conhecesse,  não  podia  deixar  de  o  amar. 

Havia  no  seu  trato  intimo  a  bondade  nativa  que  caracte- 
risa  as  almas  de  eleição.  O  que,  principalmente,  o  preocu- 
pou sempre,  foi  a  sorte  dos  pequenos  e  dos  humildes.  A 
sua  alma  confrangia-se  diante  das  desgraças  alheias.  Quer 


267 


se  tratasse  de  um  individuo  explorado  pelo  egoismo  do  seu 
semelhante,  quer  se  tratasse  de  um  povo  oprimido  pela 
mão  de  nm  tirano,  a  sua  critica  era  implacável.  Domina- 
va-o  um  sentimento  de  justiça.  E  dessa  modalidade,  que 
assinala  um  espirito  de  revolta,  derivou  a  sua  tendência 
socialista,  tendência  revelada  ij^ualmente  nos  escritos  dos 
seus  brilhantes  companheiros:  Antero  de  Quental,  Ramalho 
Ortigão,  Oliveira  Martins. 

Eça  teve,  a  mais,  a  rara  virtude  de  se  ter  mantido  fiel 
nos  seus  princípios. 

Não  mudou.  De  uma  simplicidade  tocante,  não  o  embria- 
gou nunca  a  ambição  que  a. tantos  outros  tem  precipitado 
no  abismo.  A  única  coisa  que  o  desvanecia  era  a  sua  arte, 
a  suprema  perfeição  da  sua  obra. 

Dizia  Quy  de  Maupassant  que  todo  o  escritor  devia 
escrever  um  único  livro,  durante  a  sua  vida,  e  rasgal-o 
na  véspera  da  sua  morte.  Foi  este  ideal  de  perfeição  má- 
xima que  provocou  a  constante  tortura  de  Eça  de  Quei- 
roz. Porque,  pode  bem  dizer-se  que  êle  foi  um  torturado, 
correndo  incessantemente  em  demanda  de  um  ideal  inatin- 
gível. 

Depois  da  publicação  de  uma  das  suas  melhores  obras, 
perguntei- lhe,  um  dia,  se  estava  satisfeito.  Encolheu  os 
hombros  e  respondeu-me:  «Se  fosse  hoje  teria  feito  coisa 
melhor». 

Todos  sabem  como  êle  trabalhava,  um  pouco  á  maneira 
de  Balzac. 

Compunha  os  seus  livros  sobre  as  provas,  que  se  iam 
desdobrando  sucessivamente  em  outros  tantos  capítulos. 
Era  um  artista,  na  verdadeira  acepção  da  palavra. 

Assisti  certa  noite  á  representação  do  Rei  Lear,  maravi- 
lhosamente interpretado  pelo  actor  Rossi.  Quando  o  fui  fe- 
licitar ao  camarim,   êle,  colocando  a  mão  sobre  o  peito, 


268 


exclamou  com  veemência :  «A  minha  Arte !»  Compreendi 
admiravelmente  aquele  gesto.  Com  egual  rasão  o  poderia 
ter  aplicado  a  si,  Eça  de  Queiroz.  A  sua  arte,  por  ninguém 
ainda  foi  egualada  em  Portugal. 

Eça,  por  estranho  que  o  facto  pareça  a  alguns,  foi  um  re- 
volucionário e  dos  mais  temíveis.  Espalhou  ideias,  refor- 
mou costumes  e  preparou  a  sua  geração  para  a  prática  da 
democracia. 

E  tudo  isto  fez  serenamente,  conscientemente,  sem  ruído, 
alheio  ao  reclame  que  odiava,  no  seu  isolamento  de  con- 
templativo, como  quem  cumpre  uma  altíssima  missão  so- 
cial. 

Uma  tarde,  fui  encontral-o  muito  aborrecido,  no  gabinete 
do  consulado.  Perguntei-lhe  o  que  tinha:  —  «Imagine  a  mi- 
nha desgraça !  —  replicou.  Escreveu-me  o  meu  editor  a  pe- 
dir-me  que  consinta  na  afixação  de  cartazes,  para  anunciar 
uma  obra  minha.  O  meu  nome,  em  letra  redonda,  nas  es- 
quinas, calcule. . .  E',  para  mim,  uma  doença.  Tenho  horror 
a  ver  o  meu  nome  em  letra  redonda.» 

Interessava-se  muito  pelas  questões  sociaes.  Nos  seus 
folhetins  para  a  Gazeta  de  Noticias,  do  Rio  de  Janeiro, 
transparecia  a  paixão  que  o  dominava.  Falava-me  neles  com 
vivacidade.  E,  não  ocultava  o  seu  prazer,  em  comentar 
largam.ente  os  factos  a  que  se  referia,  com  incomparável 
justeza  de  critério  e  uma  perfeita  previsão  dos  aconteci- 
mentos. 

Eça  marcou  uma  época,  como  escritor.  Teve  a  intuição  do 
espirito  do  seu  tempo,  o  que  o  tornou  ainda  maior.  Foi 
iim  homem  adorável  na  intimidade,  que  nunca  perdeu  o  seu 
ar  de  bon-enfant,  caprichando  pela  educação  e  pelo  caracter, 
ambos  primorosos.  Se  pode  haver  homens  perfeitos  na 
terra,  êle  aproximou-se,  quanto  possivel,  da  perfeição.  Pos- 
suindo, como  poucos,  a  noção  do  dever,  não  descurou  a 


269 


sua  vida  material.  O  funcionário  egualou  o  amigo  e  o  chefe 
de  família.  Foi  embalado  no  sonho  e  acariciado  pelos  rúti- 
los ideais  que  tornam  o  homem  moralmente  forte. 

«Só  pela  riqueza  do  espirito,  os  povos  se  engrandecem 
e  vencem  ou  serão  vencidos.» 

Agosto  de  1919. 

Magalhães  Lima. 


Eça  de  Queirós,  académico 


Neste  In  Memoriam,  fica  bem  a  contestação  documenta- 
da, á  afirmativa,  feita  em  público  e  razo,  de  que  Eça  de 
Queirós  não  foi  sócio  da  Academia. 

No  conceito  do  torturado  estilista: 

«Desde  que  uma  Academia  existe,  qual  é  no  fundo 
a  sua  missão?  Evidentemente  constituir  um  Directó- 
rio intelectual  que  mantenha  na  literatura  o  gosto 
impecável,  a  delicadesa,  a  finura  do  tom  sóbrio,  as 
puresas  da  forma 

«Ora  eu  não  afirmo  nem  ne^o  a  influência  literá- 
ria das  Academias,  easua  utilidade  na  vida  pensante 
duma  nação.  Sem  Academias  a  Inglaterra  produziu, 
produz,  uma  literatura  de  incomparável  nobresa  e 
originalidade.  Mas,  no  dizer  de  dois  mestres,  Sainte- 
Beuve  e  Renan,  á  Academia  deve  a  literatura  france- 
sa aquelas  qualidades  perfeitas  que  a  tornaram  em 
todos  os  tempos,  e  em  todos  os  géneros,  um  modelo, 


271 


e  cjue  no  século  xviii,  fizeram  dela  o  mais  persuasivo 
e  efectivo  agente  da  civilisação  que  houve  na  Euro- 
pa.) • 

Este  era  o  juizo  do  famoso  escritor  ácêrca  das  Acade- 
mias em  geral,  opinião  confirmada  posteriormente. 

Em  1S83  já  Eça  estava  notabilisado,  sobraçando,  a  sua 
"obra  capital  de  romancista»-'  —  ©  Crime  do  Padre  Amaro ^ 
o  Primo  Bazilio,  e  o  celebre  Aíisferio  da  Estrada  de  Cintra, 
Em  15  de  março,  reunida  a  Academia  na  sua  fradesca  sala, 
foi  apresentada  a  candidatura  a  sócio  correspondente.  Pas- 
sados vinte  oito  dias  foi  lido  o  parecer.  Silveira  da  Mota» 
em  testemunho  de  consideração  pelo  eminente  escritor, 
propoz  que  fosse  logo  votado.  Todavia,  praxes  regulamen- 
tares o  impediram.  Eça  foi  eleito  académico  a  26  de  abril 
de  1883,  apressando-se  a  agradecer  tam  subida  honra: 

///.'"<'  e  Ex."'o  Snr.  —  Teiiíw  presente  a  communica- 
ção  em  que  V.  Ex.<^  se  digna  annunciar-me  que  a  Aca- 
demia Real  das  Sciencias  de  Lisboa  me  nomeou  seu  só- 
cio correspondente ;  —  ^  venho  respeitosamente  rogar  a 
V.  Ex.'^  queira  ser,  perante  essa  illustre  e  douta  corpo- 
ração, o  interprete  do  subido  apreço  e  sentimentos  de 
profundo  reconhecimento  com  que  recebi  a  honra  de  ser 
admettido  a  co-operar  nas  suas  alias  funcções  littera- 
rias.  Sirva-se  V.Ex.^  pessoalmente  acceitar  a  expressão 
da  min/ia  grande  admiração  e  estima. 

José  Abaria  d' Eça  de  Queiroz,  Lisboa,  aos  25  de  maio 
de  IS83  —  /IL»"^  e  E\.'"o  Sr.  José  Maria  Latino  Coe- 


'  Eça  de  Qv.eiroz,  Xotas  Contemporâneas.  2'  ediçio  1913.  p.  194. 
'  Fialho  dAlmeida,  art.  na  revista  Braztl  e  Portugal. 


272 

lho,  Secretario  da  Academia  Real  das  Scieitcias  de  Lis- 


Eça,  no  assento  que  a  Academia  lhe  deu,  só  viu,  «como 
devia,  —  êle  o  afirma  nas  Notas  Contemporâneas,  —  o  idi^ov , 
a  simpatia,  a  honra,»-'  e...  a  amisade  de  Ramalho  Orti- 
gão influenciando  nessa  candidatura. 

Creio  nunca  ter  comparecido  ás  sessões  da  Academia,  e 
também  nunca  colaborou  nas  suas  publicações. 


Eça  pertenceu  á  geração  coimbrã  evidenciada  pela  pole- 
mica : —  Bom  senso  e  bom  gosto.  Foi  um  prefacio  apadri- 
nhando a  prosa  de  Pinheiro  Chagas  quem  a  provocou.  Essa 
a  causa  inicial  do  resentimento  entre  os  dois  escritores, 
agravado— em  1880,— por  luta  jornalística.  Sarcasticamen- 
te,  Eça  não  podia  ser  mais  agressivo.  Ridicularizou  o  ad- 
versário colocando-o  num  sarau  em  casa  do  senhor  marquez 
de  Marialva,  calçando  «sapato  de  fivela  em  passo  de  mi- 
nuete>s  e  saudando  uma  secia  galante  de  quem  comparou 
«os  olhos  negros  a  duas  figas  de  Cupido». 

Admirável  ironia  demolidora  1  Mas  «a  sciencia  da  vida 
está  em  saber  esperar»  — afirmou  Tailiarand. 

No  outono  de  l>yS7  o  Diário  do  Governo  annunciou  o  con- 


'  Este  oficio  é  publicado  com  especial  autoHsaçXo  dada  em  3  de  Abril 
de  1917  pelo  Secretario  Geral  da  Academia  das  Sciencias  de  Lisboa, 
Adriano  Augusto  de  Pina  ViJai.  Respeitei  escrupulosamente  a  ortogra- 
fia dfiste  documento. 

■  Eça  de  Queiroz,  ob.  cie  p.  190. 


273 


curso  académico  para  o  prémio  D.  Luiz.  Eça  terminara  ha- 
via poucos  meses  a  Relíquia.  Ora,  escreve  êle  : 

Quando  a  Academia  «abre  largamente  as  suas  portas, 
convida  todos  os  homens  de  letras  a  trazerem  as  suas  obras 
para  coroar  a  mais  digna  —  pareceu-me  que  se  eu,  despre- 
sando  este  apelo  aparatoso,  me  conservasse  afastado,  de 
costas  voltadas  para  a  arena,  sem  me  misturar  aos  meus 
companheiros  de  literatura,  num  soberbo  desdém  da  Aca- 
demia e  das  suas  coroas,  me  mostraria  singularmente  des- 
cortês e  pedante.  Por  isso,  atirando  uma  capa  de  pape!  par- 
do aos  ombros  do  meu  livro,  o  único  que  tinha  nesse  ano 
do  Senhor,  a  Relíquia,  ordenei-lhe  que  fosse  á  Academia.»  ' 

Lá  o  esperava  o  seu  <  homem  fatal /  — Pinheiro  Chagas. 
Mas,  também  lá  estava  o  seu  mais  liai  e  melhor  amigo:  — 
Ramalho  Ortigão. 

Concorreram :  Abel  Botelho  com  o  Germano,  Coelho  de 
Carvalho  com  as  Viagens,  Guilhermino  de  Barros  com  os 
Cantos  do  fim  do  século,  Henrique  Lopes  de  Mendonça  com 
o  Duque  de  Vizeu,  Sousa  Monteiro  com  os  Amores  de  Júlia 
€  Teotónio  Flávio  de  Oliveira  com  o  drama  Egas  Aíoniz. 

Coube  a  Pinheiro  Chagas  redigir  o  parecer  do  júri.  Eça, 
ante  este  «homem  fatal/>,  anteviu  logo  a  irreverente  e  des- 
preconceituosa  Relíquia  preterida  sem  escândalo. 

No  dia  10  de  dezembro,  o  circunspecto /or/ja/  do  Com- 
mercio  iniciava,  folhetinescamente,  a  publicação  do  extenso 
relatório,  no  qual  Pinheiro  Chagas  se  justifica : 


«Aparece-nos  neste  concurso  um  dos  nomes  mais 
ilustres,  e  mais  justamente  ilustres  da  literatura  por- 


'  Eça  de  Queiroz,  ob.  cit  p.  19i). 

EÇA  Dl  QrEIROZ  jg 


274 


tuguesa  de  hoje,  o  nome  de  Eça  de  Queirós.  O  grande 
romancista,  o  escritor  potente  e  original,  que  se  re- 
velou de  um  modo  deslumbrante  no  Crime  do  Padre 
Amaro,  que  encontrou  no  Primo  Basílio  inspirações 
verdadeiramente  shakespearianas  é  hoje,  sejam  quais 
forem  as  reservas  que  os  seus  processos  literários 
inspirem  a  uns,  a  repugnância  que  outros  sintam  pela 
escola  em  que  ele  pretendeu  filiar-se,  uma  gloria  na- 
cional. Esses  processos  de  estilo,  essas  afectações 
de  investigação  muida  e  revoltante,  meras  inspirações 
de  Escola,  mudam  como  as  modas  do  vestuário,  mas 
a  beleza  artística  das  creações,  a  eterna  verdade  hu- 
mana dos  tipos  ideados  pelos  grandes  poetas  e  ro- 
mancistas, ficam  como  a  eterna  formosura  que  os 
séculos  vão  sempre  admirando  nos  quadros  dos  gran- 
des mestres.  As  altíssimas  toucas  piramidaes  das  mu- 
lheres do  séc.  XV,  os  enormes  cabeções  engomados 
das  mulheres  do  séc.  xvi,  os  ridículos  turbantes  das 
nossas  avós  espantam  primeiro  o  nosso  gosto  costu- 
mado a  outros  aspectos,  mas  a  imortal  belesa  que 
nesses  acessórios  tem  uma  moldura  que  julgamos  ri- 
dícula, como  os  nossos  netos  hão  de  achar  também 
ridícula  a  que  nós  admiramos,  arranca-nos  logo  ura 
grito  de  admiração.  Que  importa  também  que  os  per- 
sonagens de  Shakespeare  se  desentranhem  em  re- 
quintadas imagens  gongoricas,  que  os  Gregos  de  Ra- 
cine, conversem  entre  si  com  a  polidez  estudada  dos 
salões  de  Versailles,  que  os  personagens  de  Dumas 
declamem,  que  os  de  Eça  de  Queirós  se  percam  no 
labirinto  de  uma  adjétivação  copada  e  de  pormeno- 
res escusados?  Nada  disso  impedirá  que  os  séculos 
se  reconheçam  nas  suas  creações  o  sangue  verdadei- 
ro de  um  coração  deveras  humano  a  correr  nas  veias 


275 


dos  entes  por  eles  creados.  E  quem  accrescenta  uma 
figura  só  que  seja  á  vasta  galeria  que  a  arte  forma, 
e  em  que  a  humanidade  se  retrata,  tem  certa  a  im- 
mortalidade. 

«Por  estranha  anomah'a  sucede  que  os  grandes  ho- 
mens ligam  uma  importância  suprema  exactamente  ao 
que  é  transitório,  ao  que  desaparece  com  o  gosto 
do  tempo,  com  a  escola  da  voga.  O  futuro  ha  de  ras- 
gar muitas  paginas  do  Primo  Basílio  que  são  talvez 
as  mais  queridas  do  autor,  como  salta  os  trocadilhos 
eufuisticos  do  Hamlet,  os  madrigais  do  Briíannico,  as 
declamações  do  Antony  para  ir  procurar  em  capítulos 
6  acenas  imortais  a  eterna  expressão  da  angustia, 
do  amor,  da  duvida,  de  tudo  o  que  perturba,  comove 
e  agita  o  homem  na  sua  passagem  na  terra. 

«Mas  será  a  Reliquia  um  desses  grandes  livros  de 
Eça  de  Queirós  deante  dos  quais  desapareceriam  to- 
das as  competências  ?  Não  é.  A  Reliquia  foi,  segundo 
a  expressão  francesa,  uma  «mèprise»  do  autor.  Ima- 
ginou, supomos,  que  seria  original  e  extranho  fazer 
contemplar  e  descrever  a  paixão  de  Cristo  por  um 
pateta  moderno,  um  devasso  reles,  vicioso  e  beato, 
mantido  por  uma  tia  no  culto  piegas  de  Nossa  Se- 
nhora da  Conceição  e  no  sagrado  horror  das  saias,  e 
fazendo  ás  furtadelas  as  suas  incursões  pelo  campo 
do  amor  barato,  e  do  cigarro  e  da  genebra  á  mesa 
do  botequim.  Este  homem,  transportado  fantastica- 
mente para  a  Jerusalém  do  templo  de  Cristo,  Vendo 
e  descrevendo  o  grande  drama  sagrado,  devia  dar  ao 
inundo  um  Evangelho  burlesco,  impio  de  certo,  muito 
mais  escandaloso  que  as  Alemorias  de  Judas,  mas  que 
podia  ser  em  todo  o  caso  uma  obra  d'arte  notável. 
Acontece  porem  que  o  autor  parece  ter  feito  á  parte 


276 


o  seu  romance  da  Paixão  de  Cristo,  colocando-o  de- 
pois á  pressa  nas  paginas  do  outro.  Quem  adormece 
é  Teodorico,  e  quem  sonha  é  o  autor,  e  com  grande 
surpresa  nossa,  vemosjaquele  adorador  de  santinhos, 
e  frequentador  das  ruas  suspeitas  de  Lisboa  sonhan- 
do que  vê  a  Paixão  de  Cristo  em  todo  o  seu  gran- 
dioso aspecto  histórico.  Mal  se  pode  imaginar  o  dis- 
paratado efeito  que  produz  este  contraste,  e  peor  é 
ainda  quando  o  autor  se  lembra  de  súbito  que  é  o  seu 
protogonista  que  está  sonhando  e  introduz  nas  scenas 
mais  belas  uma  nota  que  arripia  com  uma  desafina- 
ção  flagrante  :  —  Teodorico  a  sonhar  que  acende  um 
cigarro  no  meio  da  agitação  que  produz  em  Jerusa- 
lém a  noticia  da  morte  de  Cristo  !  Mas  a  que  propó- 
sito vem  este  sonho  fantástico  ?  Serve  para  transfi- 
gurar Teodorico?  Voltando  á  realidade  com  as  im- 
pressões do  sonho,  aquele  burguês  devasso  e  tolo 
sente  a  sua  alma  inundada  de  uma  luz  nova?  Sae 
daquela  chrisálida  de  chinelos  e  de  barrete  de  algo- 
dão uma  borboleta  mistica  ?  Nada  d'isso.  Teodorico 
volta  a  ser  o  que  fora,  a  sua  transformação  no  final 
do  romance  em  nada  modifica  a  sua  fisionomia  bur- 
lesca, Singular  equivoco  foi  este,  e  que  nos  faz  supor 
que  o  sr.  Eça  de  Queirós  não  quiz  sacrificar  trabalho 
já  feito  com  intuitos  diversos  para  refazer  a  grande 
scena  histórica  já  por  ele  traçada,  co!ocando-a  no 
foco  da  luneta  de  Teodorico.  Pois  esse  ponto  de  vista 
funambulesco,  e  pouco  simpático,  porque  é  sempre 
repugnante  ver  sacrificadas  ao  aviltante  motejo  offen- 
bachiano  as  grandes  scenas  consoladoras  da  história 
da  humanidade,  era  em  todo  o  caso  o  ponto  de  vista 
carateristico  do  romance.  Se  Eça  de  Queirós  recua- 
va diante  da  profanação  de  corrigir  o  drama  do  Evan- 


277 


gellio  com  a  equação  pessoal  do  seu  Teodorico,  para 
que  inventou  este  personagem,  e  o  colocou  em  situa- 
ção de  presenciar  tam  j^randiosas  scenas  ?  Que  si- 
gnifica o  sacrilégio  à  Pigault-Lebrun  da  camisa  con- 
fundida com  a  coroa  de  espinhos,  se  a  alma  de  Teo- 
dorico se  mostra  apta  para  compreender  o  que  ha  de 
grandioso  e  de  sublime  no  drama  de  Cristo?  Eis  o 
defeito  irremediável  do  livro,  defeito  que  o  coloca 
longe  das  obras  primas  com  que  o  sr.  Eça  de  Quei- 
rós tem  enriquecido  a  literatura  portuguesa. 

«Mas  o  génio  do  escritor  sente-se  em  todo  o  caso 
nesse  livro,  tam  falto  de  unidade  lógica,  e  o  sonho 
da  Paixão,  logo  que  o  leitor  se  esqueça  de  quem  é  o 
personagem  que  sonha,  é  de  uma  belesa  verdadeira- 
mente admirável.  Sobretudo  apontamos,  como  um 
dos  trechos  mais  brilhantes,  que  resplandecem  na 
nossa  literatura,  a  transição  da  realidade  para  o  so- 
nho. E'  meia  noite,  o  protogonista  acorda  ou  julga 
acordar  na  sua  tenda  de  viajante,  e  vê  á  luz  vacilante 
da  vela  o  sábio  alemão  que  o  acompanha,  como  que 
revestido  de  uma  túnica  antiga.  Montam  a  cavalo  e 
partem  para  Jerusalém.  A  estrada  toma  diante  dos 
seus  olhos  um  singular  aspéto.  As  ferraduras  dos  ca- 
valos resoam  no  asfalto  das  antigas  vias  militares  ro- 
manas, perpassam  deante  dos  olhos  do  viajante,  no 
rápido  galopar,  estalagens  estranhas  onde  se  lêem 
inscrições  latinas,  vem  á  estrada  um  asceta  bíblico, 
um  profeta,  vestido  de  peles  de  animaes,  magro  e 
hirsuto,  soltar  imprecações,  passam  fatigados  uns  le- 
gionários, e  OHVe-seao  longe  o  estrépito  da  caravana 
da  Galiíea.  E  o  autor  pinta  tudo  isto  n'umas  meias 
tintas  com  tal  arte  combinadas,  que  parece  efetiva- 
mente  que  em  torno  de  todas  estas  paisagens  e  de 


278 


todos  estes  personagens  flucíua  aquele  veo  de  ne- 
blina que  dá  um  tom  Vaporoso  ao  scenario  e  ás  figu- 
ras dos  sonhos,  que  esses  rumores  não  tem  ecos,  são 
baços  como  os  que  em  sonhos  ouvimos,  e  que  nós 
também  vamos  de  um  momento  para  o  outro  acordar 
nessa  tenda  da  Palestina,  vendo  vacilar  no  chão  as 
sombras,  e  á  cabeceira,  ao  sopro  do  vento,  a  luz  tre- 
mula da  vela. 

«Se  um  trecho  destacado  bastasse  para  darmos  a 
palma  a  uma  obra  qualquer,  tel-a-ia  decerto  a  Relí- 
quia; se  podessemos  ver  a  obra  completa  do  autor 
por  traz  do  livro  que  nos  é  enviado,  não  exitariamos 
decerto  em  o  colocar  no  primeiro  plano.»  ^ 

Perdido  no  jornalismo  da  época,  este  relatório  foi  edita- 
do, pela  Academia,  em  folheto  hoje  raríssimo.  Isto  justifica 
a  sua  transcrição  integral,  no  concernente  a  Eça. 

Tais  foram  as  relações,  dirétas  e  indirétas,  de  Eça  de 
Queirós  com  a  Academia,  Dos  conflitos  literários  com  Pi- 
nheiro Chagas  — «sempre  este  homem  fatal»  — escreverei 
n' outra  oportunidade. 

Aqui  ficam  estas  notas  documentais  para  a  biografia  do 
notável  critico  da  sociedade  portuguesa  no  século  xix,  ven- 
cido da  vida,  e  vencedor  na  perfectibilidade  suprema  da  sua 
obra  requintadamente  artística. 

1919.  Set. 

Álvaro  Neves. 


'  Eça  escreveu  acCrca  deste  parecer  uma  carta  a  Mariano  Pina,  de 
25  de  junho-1888,  com  o  titulo:  «A  Academia  e  a  literatura»  Cf.  Notas 
Contemporâneas,  2.'  edição,  p.  137-206. 


—  Foi  Eça  de  Queirós  um  plagiador? 


(EXTRACTO) 


Quando  se  fala  de  Eça  de  Queirós,  raro  se  não  fala  dos 
seus  «plágios».  Os  plágios  são  o  mas,  o  mais  terrível  mas, 
que  surde  a  cada  instante  — sempre  cruel  na  sua  franqueza 
bruta  ou  na  sua  hipócrita  benevolência—  aposto  à  obra  de 
arte  do  eminente  Escritor. 

Colaram-lhe,  em  afastado  tempo,  o  achincalhante  dístico 
de  «plagiador»,  —  e  a  lusa  inércia  mental  repete-o  sem  ces- 
sar, engrossando  cada  vez  mais  a  voz,  aponto  de  o  tornar, 
a  bem  dizer,  como  que  a  característica  de  Eça  de  Queirós, 
e  sem  que  por  sombras  procure  averiguar  se  os  olhos  do 
cérebro  veriam  o  que  os  olhos  da  cara  vêem...  quando 
vêem ! 

Assim,  a  jjrande  figura  de  Eça,  artista  inconfundível,  vem 
seguindo  pela  cascalhenta  vereda  mental  da  sua  pátria,  por 
entre  a  poeirada  literária  que  o  vendaval  do  elogio  —  mú- 
tuo e  próprio  — faz  remoinhar,  vaiado  pela  gente  da  sua 
terra  —  da  sua  terra !  —  que  se  esbofa  às  orlas  do  caminho : 
—  Plagiador!  Plagiador! 


280 


O  façanhoso  D.  Quixote  passeava  a  sua  poética  loucura 
nas  ruas  áe  Barcelona,  reconhecido  por  toda  a  gente— por- 
que toda  a  gente  lhe  via  no  balandrán  de  pano  leonado  o 
traiçoeiro  cartaz :  «Este  es  don  Quijote  de  la  Mancha.» 

Eça  é  o  Plagiador,  —  o  «Super-plagiador.),  como  na  Itá- 
lia chamam  a  Gabriel  d'Annunzio,  — não  porque  esta  gente 
berradora  que  lhe  sai  ao  caminho  o  conheça  atentamente, 
mas  porque  soletra  o  maldito  letreiro  que  em  afastado 
tempo  lhe  colaram  nas  costas. . . 

No  entanto,  vozes  se  teem  erguido,  no  deserto  da  lusa 
inércia  mental,  esforçando-se  por  que  a  justa  verdade  bri- 
lhe com  nitidez;  — são  vozes,  porém,  que  se  apagam  nos 
próprios  ecos,  como  sons  que  se  reflectem  a  uma  curta  dis- 
tância, —  em  contraposição  à  corrente  dos  assacadores  de 
plágios  que  se  avoluma  clamorosamente,  parecendo  não 
haver  já  forças  humanas,  nem  divinas,  que  se  lhe  possam 
opor. 

Farei  passar  por  estas  páginas  algumas  dessas  vozes, 
apoiando  a  minha,  — para  que  fiquem  devidamente  conjuga- 
das, e  assim  possam,  num  coro  intenso,  abalar  eficazmente 
a  cerebral  atonia  portuguesa. 


Entre  as  vozes,  que  a  verdade  alenta,  especificarei  a  de 
um  dos  homens  mais  ilustres  deste  Portugal,— o  cauteloso, 
vivo  e  profundo  pensador  José  Pereira  de  Sampaio  (Bruno)^ 
excepcional  homem  de  um  país  onde  a  regra  é  não  pensar, 
e  que,  por  isso  mesmo,  está  quási  esquecido,  senão  igno- 
rado, pelos  seus  compatriotas. 

Bruno,  em  1886,  no  livro  a  Geração  nova  —  Ensaios  críti- 


281 


cos  —  Os  novelUsias  (1),  depois  de  se  haver  referido  às  tôlus 
acusações  de  plágio  feitas  ao  Primo  Bazilio  (considerado 
variante  de  Eugénie  GrandeU!)  e  ao  Crime  do  Padre  Ama- 
ro (2)  (tido  como  inspirado  na  Fatite  de  f  Abbé  Mourd,  que 
foi  publicada  posteriormente  ! !),  escrevia  (3) : 

«Quando  appareceu  o  Mandarim,  recordou-se  uma  narra- 
tiva, com  o  mesmo  nome,  de  Augusto  Vitu,  n'uma  collecçào 
detestável,  ingenuamente  justificando  o  titulo  de  Contes  à 
dormir  debout;  também  se  fallou  que,  pelo  menos,  Eça  de 
Queiroz  copiara  de  Jules  Verne,  nas  Atiribulations  {s,\c) 
d'un  chinois  en  Chine,  a  sua  descripção  de  Peking,  como  se 
o  litterato  portuguez  não  tivesse  de  proceder  sobre  o  re- 
lato de  alguém  na  pintura  d'uma  localidade  onde  nunca  poz 
os  pés. 

«Uma  e  outra  accusação  são  de  tal  modo  absurdas  que 
não  chegam  a  adquirir  íóros  de  que  se  discutam.  O  conto 
de  Vitu  não  passa  d'uma  semsaboria  e  a  descripção  de  Ju- 
les Verne  fornece  es  informes  de  qualquer  artigo  de  diccio- 
nario  geographico  ;  é,  litterariamente,  insignificante. 

«O  caso  do  Mandarim  procede  d'um  conceito  moralista, 
celebre  na  litteratura  contemporânea.  Um  pessimista  ou  uni 
niystico,  não  se  averiguou  ainda  se  Rousseau  se  Chateau- 
briand,  se  outro  d'onde  o  segundo  o  tirou,  propòe,  para 
dar  ideia  da  inconsistência  moral  do  homem,  este  problema 
de  saber  se  o  mais  virtuoso  não  será  capaz  de,  para  Ilie 
herdar  a  riqueza,  supprimir  um  botão  de  crystal  ignorado 
no  fundo  da  China,  comtanto  que  para  isso  não  lhe  exijam 
mais  do  que  formular  o  desejo  homicida  no  silencio  do  seit 
coração. 


(1)  Porto  1886. 
(21  Pág.  173. 
(3)  Pág.  174-17; 


282 


«Esta  these  frívola  deu  logar  a  muitas  aliusões  littera- 
rias,  conforme  em  Balzac  se  vê  no  dialogo  entre  Horácio 
Bianchon  e  Eugénio  de  Rastignac  ;  tornada  fundo  commum 
para  o  desenvolvimento  artistico,  originou  e  originará  con- 
tos vários,  como  em  Méry  e  em  Léon  Gozlan,  comedias 
como  em  Lambert  Thiboust,  vaudevilles  como  o  de  lettra 
de  Albert  Monnier  e  Edouard  Martin. 

«Censurar,  pois,  o  romancista  portuguez  de  ter  trabalha- 
do, aliás  com  a  mais  rutilante  pessoalidade,  sobre  um  ter- 
reno neutro,  equivale  simplesmente  a  desconhecer  a  lei  de 
formação  das  grandes  creações  litterarias,» 

Os  paralelos  entre  passos  de  Júlio  Verne  e  Eça  de  Quei- 
rós vêem  nas  Influências  estrangeiras  em  Eça  de  Queirós, 
de  João  de  Meira  (1).  São  quatro  !  João  de  Meira  apresen- 
ta-os  para  mostrar  que  «Eça  não  procurou  exclusivamente 
no  livro  de  Jules  Verne,  os  elementos  da  descrição  de  Pe- 
quim. Todos  os  pormenores  de  vestuário,  de  bricabraque, 
de  usos  domésticos,  de  culinária,  que  aparecem  no  Afa/zrfa- 
rim,  encontram-se  no  romance  de  Jules  Verne.»  (2)  —  São 
coisas  demais  para  quatro  exíguos  paralelos  apenas. . . 

O  que  se  conclui  é  que  Eça,  tendo  de  colher  alguns  ele- 
mentos, puramente  descritivos,  sobre  a  China,  os  foi  bus- 
car a  um  livro  de  Júlio  Verne,  por  o  ter  mais  à  mão  natu- 
ralmente, e  não  estar  para  a  maçada  de  os  ir  buscar  a  outros 
livros. 

Havia  de  pôr  os  chineses  vestidos  à alentejana,  ou  acor- 
rerem toiros  à  antiga  portuguesa,  ou  a  entornarem  carras- 
cão  numa  taberna  minhota?  Havia  de  ir  ver  a  Porcalhota 
para  imaginar  Pequim  ?  Se  lhes  parece  ! 


(11  Famalicão  1912. 
(2'  Obr.  cit.,  pag.  8-9. 


283 


As  Tribulations  foram  «para  o  Alandari/n- aíirma  João 
de  Meira  (1)  —  o  que  mais  tarde  foram  as  Memoires  de  Ju- 
das para  a  Relíquia. ^>  —  E  foram,  pois  que  não  passaram  de 
meros  textos  fornecedores  de  materiais.  (2)  Devendo-se 
acrescentar  que  P.  delia  Gattina  se  não  cansou  muito  a 
criar. . .  Foi  à  Bíblia,  a  Juvenal  e  Marcial,  a  Voltaire,  além 
dos  evangelhos  apócrifos  em  que  as  Memórias  se  baseiam, 
como  confessa  o  Autor,  e  urdiu  a  sua  obra,  na  qual  Eça, 
em  segunda  mão,  encontrou  depois  materiais  para  construir 
livremente,  pessoalmente. 

No  mesmo  caso  estão  muitos  paralelos  que  se  teem  feito 
entre  passos  da  Relíquia  e  de  obras  de  Flaubert. 

E'  claro  que,  se  Eça  de  Queirós  se  preocupasse  com  o 
saber-se  onde  êle  pousava  as  pontas  dos  pés  para  erguer 
os  seus  voos  artísticos,  lhe  seria  fácil,  por  estudo,  por 
mais  vasta  leitura,  por  habilidade,  diluir  ou  mascarar  os 
trabalhos  subsidiários  da  sua  obra.  Eça  de  Queirós,  porém, 
não  era  homem  que  se  prendesse  com  isso:  era  um  verda- 
deiro artista,  avesso  a  erudição,  e  tendo  lido  o  seu  Flau- 
bert e  outros  livros  de  arte,  contentou-se  com  servir-se 
quási  só  dos  subsídios  que  aí  encontrou,  amalgaraando-os 
na  sua  imaginação,  trocando  épocas  e  países,  sem  respeito 
pela  história,  embriagado  apenas  por  efeitos  literários. 

Não  é,  porém,  nesses  subsídios  que  alguém  pode  ver  «plá- 
gios», nem  sequer  «influências»,— mas  «fontes»,  que  é  coisa 
muitíssimo  diversa.  A  influência  de  Flaubert  não  está  nes- 
sas miuçalhas  subsidiárias,  que  Eça  podia  ir  buscar  a  ou- 
tros livros,  sem  que  no  entanto  deixasse  de  ser  um  influen- 
ciado pelo  autor  da  Salammbô.  Há,  por  exemplo,  alguma 
influência  de  J.  Verne  em  Eça  de  Queirós? 


Obr.  cit.,  pag.  8. 
(2)  Vid.  obr.  cit.,  de  João  de  Meira. 


284 


E  «fontes»  teem-nas  todos  os  literatos,  os  artistas  de 
maior  originalidade,  principalmente  quando,  como  no  caso 
de  que  se  trata,  pretendem  vivificar  gentes,  costumes,  fa- 
ctos, paisagens  de  nós  muito  distantes,  no  lugar  ou  no 
tempo. 

O  Mysterio  da  estrada  de  Cintra,  essa  curiosa  estroinice 
literária,  onde  a  uma  espontânea  ginástica  de  imaginação 
se  uniu  um  propósito  folhetinescamente  sensacional,  não 
escapou  também  ao  tremendo  apodo. 

Foi  o  Dr.  Adolfo  Coelho  que  lho  jogou.  Diz  êle  (1): 

«Aperfeiçoando-se  como  escritor,  Eça  permaneceu  fiel  a 
essa  direcção,  que  o  afastava  da  seguida  com  Ramalho  em 
O  mysterio  da  estrada  de  Cintra,  cujo  ponto  de  partida  fora 
plagiado  duma  historia  phantasiada  por  um  noticiarista  no 
Progresso  e  ordem.» 

O  sr.  António  Cabral  teve  a  paciência  de  ir  folhear  a  col- 
lecção  do  Progresso  e  ordem,  atrás  da  notícia  a  que  o  ilus- 
tre Professor  aludia.  Folheou,  e  encontrou  nada  menos  de 
três  notícias,  que  o  leitor  pode  ver  na  sua  obra  Eça  de 
Queiroz,  de  pág.  2ô0  a  262.  Conclui-se  que  elas  nenhuma 
relação  teem  com  a  narrativa  do  Mysterio,  — o  que  aliás  diz 
com  as  afirmações  dos  autores  acerca  da  génese  do  roman- 
ce. (2) 

Mas  que  tivessem?  Suponhamos  que  sim,  que  o  ponto  de 
partida  (passe  o  barbarismo  por  conta  alheia)  de  o  Mysterio 
foi  qualquer  notícia  de  periódico.  E  daí?  Que  importava  a 


(1)  Alexandre  Herculano  e  o  ensino  publico,  Lisboa  1910.  pag.  220. 
(2,  Vid.  Prefácio  da  2."  ed.  de  O  Mysterio  da  Estrada  de  Cintra  e 
as  Farpas,  ed.  de  18S7,  II,  pag.  221-222. 


285 


severa  afirmação  do  Dr.  Adolfo  Coellio?  Poderá  alguém 
dirigir  censuras,  as  mais  leves  censuras,  a  um  escritor  que, 
para  a  feitura  de  uma  obra  de  arte,  aproveite  a  magra  no- 
tícia de  um  sucesso  qualquer?  Não  é  lícito,  pois,  literatizar 
um  facto  real  ou  imaginário,  uma  informação  que  se  colhe, 
uma  tradição,  um  documento,  uma  página  de  Iiistória,  ou 
coisa  que  o  valha,  quer  tal  se  aproveite  como  sugestão  ape- 
nas, quer  como  estruma  fundamental? 

...  Se  isto  não  é  lícito, —  faça  o  obséquio  de  atirar  a 
primeira  pedra  o  literato  que  não  seja  plagiador! 

O  mesmo  se  dirá  de  acusações  idênticas  como  a  do  sr. 
A.  Cabral,  que  foi,  no  seu  livro  citado,  confrontar  o  caso 
do  Castelo  de  Faria,  narrado  em  Fernão  Lopes,  e  aprovei- 
tado por  Herculano  nas  Lendas  e  narrativas  (mas  este  não 
é  plagiador  !...),  com  o  conto  entretecido  em  a  Ilustre  Casa 
de  Ramires. 

Agora,  a  conferência  do  Casino. 

—  Inspirou-se  em  Proudhon!  descreveu  quadros  de  Cour- 
bet,  encostando-se  a  Proudhon  !  —logo  é  um  plagiador. 

A  modos  que  não  passa  de  um  plagiador  quem  se  inspira 
em  opiniões,  doutrinas,  modos-de-ver  de  outrem  !  Por  este 
andar,  nada  de  mestres,  nem  de  discípulos  !  Nada  de  esco- 
las !  Cada  qual  tem  de  arrancar  dos  miolos  teorias  suas, 
doutrinas  suas,  originalidades  absolutas,  —  e  ninguém  as 
pode  aceitar  e  seguir,  é  claro ! 

Dirão  :  Eça  podia  aceitar  as  ideias  de  Proudhon,  assimi- 
lando-as,  e  apresentando-as  depois  com  o  cunho  pessoal. 

A  objecção  não  invalida  o  que  ficou  dito  sobre  mestres  e 
discípulos  e  escolas,  mas  aceita-se.  E,  logo  de  entrada, 
pregunto  :  —  Quem  assegura  que  Eça  não  deu  cunho  pes- 
soal à  conferência  ?  Deve  notar-se  que,  no  lance,  o  <'Cunho 
pessoal»  representa  muito,  muitíssimo,  porque  o  Artista  se 


286 


não  dedicou  a  estudar  por  meúdo  o  assunto,  compulsando 
livros,  sopesando  opiniões,  rebuscando  sugestões,  para  daí 
tirar  —  o  que  é  fácil  a  toda  a  gente  —  conclusões  emmas- 
carantes  dos  elementos  contribuintes.  Eça,  como  Artista, 
e  só  Artista,  que  era,  —  delineou  sem  vagares  nem  pro- 
fundezas a  sua  palestra,  —  e,  atendendo  à  sua  feição  literá- 
ria, ao  tema  que  escolheu  e  ao  seu  tempo,  só  por  milagre 
êle  poderia  deixar  de  ir  impregnar-se  das  ideias,  então  re- 
tumbantes, de  Proudhon. 

Quem  testemunhará  o  vinco  pessoal  da  conferência?  Mais 
uma  vez  Bruno,  que,  na  Geração  Nova  (1),  escreve: 

«Baseára-se no  livro  posthumo  de  Proudhon  sobre  o 

principio  da  arte,  não  passando  a  sua  conferencia  d'uma 
amplificação  das  theses  do  grande  doutrinário,  em  que  a 
sagacidade  do  conferente,  ainda  assim,  devia  corrigir,  sem 
lhe  contradizer  a  essência  do  pensamento,  as  originarias 
falsidades  de  julgamento  esthetico,  subordinado  a  um  cri- 
tério mais  de  renovador  social  do  que  de  interpretante, 
livre  de  quaesquer  suggestões  de  espirito  de  partido,  phi- 
losophico  ou  politico.;) 

Se  era  naturalíssimo  que  Eça,  falando  do  realismo  na 
arte,  se  baseasse  em  Proudhon,  —fatal  era.  que,  com  tal 
base,  se  referisse  a  Courbet.  Pois  qual  é  o  núcleo  do  livro 
de  Proudhon,  senão  Courbet?  Quem  provocou  o  livro? 
Para  que  foi  escrito  o  livro?  Courbet  e  sempre  Courbet, 
transfigurado  por  Proudhon,  que  lhe  dá  alores  estranhos  e 
grandiosos  com  que  o  pintor  afinal  nunca  sonhara.  Falar  de 
Proudhon,  do  seu  livro,  do  realismo  na  arte,  e  não  falar  de 
Courbet,  tipo  de  pintor  realista,  seria  até  um  contra-senso. 


(1)  Pag.  149-150. 


287 


E  faria  sentido  falar  de  Gustavo  Courbet,  sem  alusão 
aos  seus  quadros,  que  tanto  escândalo,  tam  ruidosas  dis- 
cussões levantaram  ? 

Pelo  relato,  que  da  conferência  então  publicou  o  Diário 
de  Notícias,  vê-se  que  Eça  descreveu  espirituosamente  três 
quadros  de  Courbet,  cano  exemplo  do  realismo  na  arte. 

—  dE  para  descrever  espirituosamente,  precisaria  o  Mestre 
da  descrição  e  da  ironia,  de  ir  buscar  tintas  e  graça  a  ou- 
trem? 

Eça  não  tinha  visto  os  quadros,  pelo  que  afirmam,  —  e 
foi  isso  que  levou  os  críticos  a  censurá-lo,  como  se  todos 
nós  não  tivéssemos  falado  muitas  vezes  em  coisas  que  nun- 
ca Vimos,  e  como  se  fosse  razoável  que,  dissertando-se 
acerca  de  Courbet  e  do  seu  realismo  na  arte,  se  não  exem- 
plificasse esse  realismo.  A  necessidade  dessa  exemplifica- 
ção é  que  levou  o  conferente  a  descrever  os  quadros,  e 
vendo-os,  através  da  descrição  de  Proudhon,  não  o  plagiou, 
pois  que  o  fêz  com  a  sua  graça  e  com  a  sua  maneira,  tanto 
mais  que  o  assunto  a  isso  à  maravillia  se  prestava. 

Teem-se  feito  ainda  confrontos  que,  à  falta  de  espaço, 
melhor  é  nem  os  enumerar,  pois  que  as  parecenças  não  de- 
rivam senão  de  as  ideias,  os  tipos  ou  os  factos  visados  se- 
rem comuns,  —  confrontos  que  chegam  até  ao  ridículo, 
quando  se  pretende  achar  «plágio»  em  o  nome  Paraizo,  de 
o  Primo  BazíUo  (de  Paradou,  de  la  Faute  de  l' Abbé  Mouret)  ; 
no  vocativo  «madrinha»,  nas  cartas  a  M.e  Jouarre,  (de  igual 
vocativo  de  Musset  a  M.e  Jaubert);  e  no  i\i\x\o  Prosas  bár- 
baras (do  título  Poèmes  barbares,  de  Leconte  de  Lisle) ! 


288 


E'  conhecido  o  soneto  de  Gerardo  de  Nerval— £"/  Desdi- 
chado,  qife  principia : 

«Je  suis  le  ténébreux,  — ie  veuf,  — !'inconsolé, 
Le  prince  d'Aquiíaine  à  ía  tour  abolie: 
Ma  seule  étoíle  est  morte,  — et  mon  luth  constellé 
Porte  le  soleil  noir  de  la  Mélancolie.»  (l) 

Batalha  Reis  (2)  pôs  em  confronto  estes  versos  com  os 
seguintes  passos  de  Eça: 

<'Eu  era  o  tenebroso,  o  inconsolável,  o  viuvo.  (3) 

Passamos  lentos,  desconsolados  e  alumiados  pelo  sol 
negro  da  melancolia.»  (4) 

«Luzia  um  grande  sol,  nas  negro;  o  sol  da  melanco- 
lia...).. (5) 

• 

Fazendo  tais  confrontos,  Batalha  Reis  não  acoimou  Eça 
de  plagiador,  mas  sim  disse  que  era  «evidente  nas  páginas 
das  Prosas  barbaras,  a  influencia  dos  próprios  escriptos 


(1)  CEuvres  choisies.  Paris  iLa  Renalssance  du  livre)  s.  d.  pág.  16. 
(2i  Prosas  barbaras,  3.'  ed.,  P3rto  1917,  pág.  xxxiv,  nota. 

(3)  Das  tXotas  marginaes».  obra  clt.,  pág.  8,  n.°  xv. 

(4)  Idem,  pág.  1112,  n."  xx. 

(5!  <Symphonia  de  abertura>  in  Gaaeta  de  Portugal,  de  7  de  outubro 
de  1866  =  apud  Prefácio  citado,  de  Batalha  Reis,  nas  Prosas  barbaras, 
pág.  XXXIV,  nota. 


t 


289 


originaes  de  Gerardo  de  Nerval,  principalmente  adosniys- 
teriosos  e  phantásticos  sonetos  que  começam 

«Je  suis  le  ténébreux,»  etc.  (1) 

Influência  e  não  plágio. 

Eça,  escrevendo  eu  era  o  tenebroso,  o  inconsolável,  o  viu- 
vo, repetia  propositadamente,  às  claras,  o  verso  de  Nerval. 
Não  plagiava,  repetia,  com  a  consciência  de  que  a  frase  era 
bem  conhecida,  bem  divulgada,  entre  o  público  ilustrado, 
mormente  pelo  que  constituía  a  sua  roda,  cuja  opinião  Ilie 
havia  de  importar  singularmente. 

Escrevendo  sol  negro,  Eça  repete  ainda,  impressionado 
pela  expressiva  beleza  dessa  original  união  vocabular,  pa- 
lavras conhecidas,  tam  conhecidas  como  as  outras  que  no 
mesmo  soneto  se  encontram  ;  mais  ainda,  porque  Hugo  as 
aproveitou  em  les  Conteinplations,  como  já  o  notava  Bata- 
lha Reis. 


Et  Ton  voit  tout  au  fond,  quand  Vczú  ose  y  descendre, 
Au  délà  de  la  vie,  et  du  souffie  et  du  bruit, 
Un  affreux  soleil  noir  d'ou  rayonne  la  nuit!  (2) 

E  bastará  uma  rápida  leitura  de  les  Contemplations,  no- 
meadamente da  poesia  especificada,  para  se  ver  quanto  esta 
obra  também  influenciou  nas  Prosas  barbaras. 


(1)  Prosas  barbaras,  ed.  cit.,  pág.  xxxiv. 

(2)  V.  Hugo,  Les  Contemplations,  II,  Aujourd'hui  — 1843-1855,  poesia 
n."  XXVI,  cCe  que  dit  la  bouche  d'ombre,»  —  Paris  (J.  Rouff  et  C.  Ei  s.  d., 
pág.  46  do  último  tomo.— O  soneto  de  Nerval  é  de  1833  e  a  poesia  de  Hugo 
.0  datada  de  Jersey,  185õ. 


EÇA  9B  QUEIROZ 


19 


290 


Terminando  esta  catalogação  de  falsos  «plágios,»  sem  dú- 
vida enfadonha,  mas  sem  dúvida  também  necessária,  para 
se  opor  um  entrave,  senão  intenso,  ao  menos...  extenso, 
à  torrente  progressiva  de  depreciação  a  um  nosso  grande 
Artista  origina!,  — vou  estampar  uma  série  de  cotejos,  em 
que  parece  terem  o  seu  tanto  de  razão  os  tremendos  acusa- 
dores, . . 


«Oh,  que  differentes  se 
mostravam  estes  caminhos, 
estas  collinas,  que  eu  vira 
dias  antes,  em  torno  á  Ci- 
dade Santa,  dessecadas  por 
um  vento  d'abstracçâo,  e 
brancas,  da  cor  das  ossadas. . . 
Agora  tudo  era  verde,  rega- 
do, murmuroso,  e  com  som- 
bras.» (1) 


. . .  «la  triste  Judée,  dessé- 
chée  comme  par  un  vent 
brúlant  d'absíraction  et  de 
mort.»  (2) 


«repelliu  primeiro  o  «II  préférc  quitter  la  vie 

vinho  de  Misericórdia,  que  dans    la  parfaite   clarté   de 

lhe  daria  a  inconsciência...  son  esprit,  et  attendre  avec 

O  Rabbi  queria  entrar  com  unepleineconsciencelamort 

a  alma  clara  na  morte  por  qu'il  avaií  voulue  et  appe- 

que  chamara!. . .   Jvlas  José  lée.»  (3) 
de  Ramatha,  Nicodemus,  es- 


(1)  A  Relíquia,  3.*  ed..  páp.  219-220. 
(2(  E.  Renan,  La  Vic  de  Jesus,  pág.  28. 
(3)  E.  Renan,  obra  cii  ,  pág.  419. 


tavam  lá  vigiando.  Ambos 
lhe  lembraram  as  coisas  pro- 
mettidas  uma  noite  em  Be- 
thania...  O  Rabbi  então  to- 
mou a  malga  das  mãos  da  mu- 
lher de  Rosmophin,  e  be- 
beu.» (1). 


291 


Toda  esta  costa  do  Gran- 
de Verde  então,  desde  By- 
blos  até  Carthago,  desde 
Eleusis  até  Memphis,  estava 
atulhada  de  deuses.  Uns  des- 
lumbravam pela  perfeição  da 
sua  beiieza,  outros  pela  com- 
plicação da  sua  ferocidade. 
Mas  todos  se  misturavam  à 
vida  humana,  divinisando-a: 
viajavam  em  carros  trium- 
phaes,  respiravam  as  flores, 
bebiam  os  vinhos,  deflora- 
vam as  virgens  adormecidas. 


«HILARION 

<  lis  (faux  Dieux)  se  pen- 
chaient  du  haut  des  nuages 
pour  conduire  !es  epées  ;  on 
les  rencontrait  au  bord  des 
chemins,  on  les  possédait 
dans  sa  maison ;  —  et  cet- 
te  familiarité  divinisait  la 
vie.»  (2) 


«O  amigo,  perguntou  elle  «Antoine  aperçoit  un  jar- 

(o  Diabo),  nunca  esteve  em  din,  éclairé  par  des  lampes. 

Babylonia?»   Ahi   todas   as  II  est  au  milieu  de  lafoule, 

mulheres,  matronas  ou  don-  dans    une    avenue    de    cy- 

zellas,    se    vinham    um   dia    prés 


(1)  A  Relíquia,  ed.  cit.,  pág.  335. 

(2)  Flaubcrt,  La  Tentation,  éd.  déf.,  Paris  1913,  pág.  217. 


292 


prostituir  nos  bosques  sagra- 
dos, em  honra  da  deusa  My- 

litta Umas,  estendendo 

um  tapete  na  herva,  agacha- 
vam-se  como  rezes  pacien- 
tes ;  outras,  erguidas,  nuas, 
brancas,  com  a  cabeça  es- 
condida n'um  véo  preto, 
eram  como  esplendidos  már- 
mores entre  os  troncos  dos 
alamos.  E  todas  assim  espe- 
ravam que  qualquer,  atiran- 
do-lhe  uma  moeda  de  prata, 
lhes  dissesse:  «Em  nome  de 
Vénus !» 


Au  pied  des  cyprès,  des 
femmes  sont  accroupies  en 
ligne  sur  des  peaux  de  cerf, 
toutes  ayant  pour  diadème 
une  tresse  de  cordes.  Quel- 
ques-unes,  magnifiquement 
habillées,  appellent  à  haute 
voix  les  passants.  De  plus  ti- 
mides  cachent  leur  figure 
sous  leur  bras,  tandis  que  par 
derrière,  une  matrone,  leur 
mère  sans  doute,  les  exhorte. 
D'autres,  la  tête  enveloppée 
d'un  châle  noir  et  le  corps 
entièremente  nu,  semblent 
de  loin  des  statues  de  chair. 
Dès  qu'un  homme  leur  a  jeté 
de  Targent  sur  les  genoux, 
elles  se  lèvent.»  (1) 


«Depois  o  Diabo  contava- 
me  como  brilhavam,  doces  e 
bellas,  na  Grécia,  as  religiões 
da  Natureza 

a  belleza  de  Vénus 

era  como  uma  condensação 
da  belleza  de  Hellenia.»(2) 


«VÉNUS 

«Je  faisais  avec  ma  úem- 
ture  tout  Thorizon  de  THel- 
lénie. 

Ses  champs  brillaient  des 
roses  de  mes  joues,  ses  riva- 
ges  étaient  découpés  d'après 
la  forme  de  mes  lèvres ;  et 
ses  montagnes,  plus  blanches 


(1)  Flaubert,  Ibidem,  pág.  191  192  e  192-193. 

(2)  A  Reliqtría,  ed.  cit.,  pág.  136,  137  e  138. 


293 

que  mes  colombes,  palpi- 
taient  sous  Ia  main  des  sta- 
tuaires.»  (1) 


«Crucif icai-o . . .  Mas 

não  sou  eu  que  derramo  esse 
sangue ! 

O  levita  macilento  bradou 
com  paixão : 

—  Somos  nós,  e  que  esse 
sangue  caia  sobre  as  nossas 
cabeças ! 

E  alguns  estremeceram  — 
crentes  de  que  todas  as  pa- 
lavras têm  um  poder  sobre- 
natural e  tornam  vivas  as 
coisas  pensadas.»  (2) 


«Alors  il  (Mannaêi)  éten- 
dit  les  bras  du  côté  deSion; 
et,  la  taille  droite,  le  visage 
en  arrière,  les  poings  fermés, 
lui  jeta  un  anathème,  croyant 
que  les  mots  avaient  un  pou- 
voir  effectif.»  (3) 


«As  lagrimas  rolavam  pela  «Hannon    dénonça    Tindi- 

sua  face,  tristes  como  a  chu-    gnité  d'un  tel  outrage  ; 

va  por  um  muro  em  ruinas.  et  des  pleurs  coulaient  sur  sa 

E  a  minha  piedade  foi  gran-  face  comme  une  pluie  d'hi- 

de  por  aquelie  Rapsodo  das  Ver  sur  une  muraille  en  rui- 

ilhas  da  Grécia.»  (4) ne.»  (5) 


Ideia  semelhante  à  expressa  no  primeiro  passo  —  deste 
último  lanço  de  confrontações— se  encontra  noutro  lugar  da 
Relíquia : 


(1)  Flaubert,  La  Tentatíoti,  ed.  cit.,  pág.  2á0. 
i2)  .1  Relíquia,  ed.  cit..  pág.  28P. 

(3)  Flaubert,  Trois  Contes,  nouv.  ed.,  Paris  1913,  pág.  174. 

(4)  A  Relíquia,  ed.  cit.,  pág.  347. 

(5)  Flaubert,  Salamwhô,  éd.  déf..  Paris  1914.  pág.  131. 


294 


«Elias  (as  colinas  de  Judá)  succedem-se,  lívidas,  redon- 
das como  craneos,  resequidas,  escalvadas  por  um  vento  de 
maldição :»  (1) 

Aproxime-se  ainda  da  última  transcrição  acima  feita,  es- 
toutra : 

«E  uma  inquietação  engolfou-se  em  minha  alma  como  um 
vento  triste  n'uma  ruina. . .»  (2) 

E   então   avistei,  errando  <:Une  forêt  de  cheveux  et 

por  cima  dos  penedos  sobran-  depoils  lui  couvraitla  figure, 

ceiros  ao  caminho,  um  ho-  ne  laissant  voir  qu'unepetite 

mem  estranho,  bravio,  cober-  bande  du  front,  des  pommet- 

to  com  uma  pelle  de  carneiro,  tes  cuivrées  et  deux  yeux 

que  me  recordou  Elias  e  to-  profonds  et  étincelants.  Une 

das  as  cóleras  da  Escriptura;  vieille  loque  de  poils  de  cha- 


(1)  A  Relíquia,  ed.  cit.,  pág.  182. 

i2|  Ibidem,  pag.  384.— Nas  obras  de  Eça  de  Queirós  há  muitos  outros 
«■ventos».  Encontro  agora  mais  os  seguintes  : 

— cPorque  Roma  é  sobre  a  terra  como  um  grande  vento  da  natureza;» 
A  Reliquia,  ed.  cit.,  pág.  257.— cOs  seus  cabellos  (de  Tópsiusi  ondeavam 
agitados  por  um  vento  de  inspiração».  Ibidem,  pág.  374.  —  «Subitamente , 
saudades  dolentes  do  passado,  cinzas  que  me  cobriam  a  alma  foram  var- 
ridas por  um  fresco  vento  de  mocidade  e  de  modernidade.  ••»  Ibidem, 
pág.  387.— «Um  a  um,  entrevi  os  amigos  perpassarem,  como  longas  som- 
bras levadas  por  um  vento  de  terror».  Ibidem,  pág.  454.  —  «João.  Mar- 
cos, Lucas  e  Matheus,  imagens  rígidas,  envolvidas  n'essas  roupagens 
violentas  que  ura  vento  de  prophecia  parece  agitar.»  Os  Maias,  2-*  ed., 
II,  pág.  129-130.  —  . . .  «para  lhe  fallar  da  Revista,  d'um  forte  vento  de 
espiritualidade  e  de  virtude  viril  que  se  devia  fazer  soprar  sobre  o 
paiz.  •  •»  Ibidem,  pág.  254.  —  . . .  «deslumbrados  pelo  Lyrlsmo  Épico  da 
Legende  des  Siècles,  o  livro  que  um  grande  vento  nos  trouxera  de 
Guemese}'»  —  «A  Correspondência  de  Fradique  Mendes,  2.'  ed.,  Porto 
1902,  pág.  6.  —  E  se  mais  catara,  mais  achara. . . 


295 


o  peito,  as  pernas  pareciam 
de  ííranito  vermelho ;  por  en- 
tre a  grenha  e  a  barba,  rudes, 
emmaranhadas,  fazendo-Ihe 
como  uma  juba  feroz,  osolhos 
refulgiam-Ihe  desvairada- 
mente... Descobriu-nos ;  e 
logo  sacudindo  os  braços 
como  quem  arremessa  pe- 
dras, despediu  sobre  nós  to- 
das as  maldições  do  Senhor! 
Chamou-nos  «pagãos»,  cha- 
niou-nos  <'cães->:  gritava 
«malditas  sejam  as  vossas 
mães,  sêccos  sejam  os  peitos 
que  vos  crearam» !  Cruéis  e 
cheios  de  presagios  cahiam 
os  seus  brados  do  alto  das 
rochas :  e,  retardado  pelos 
passos  lentos  da  agua,  To- 
psius  encolhia-se  na  capa  co- 
mo sob  uma  saraiva  incle- 
mente. (1) 


meau,  serrée  à  la  tailíe  par 
une  courroie,  lui  descenda! t 
jusqu'aux  genoux,  laissant 
nus  le  cou,  la  poitrine,  les 
jambes,  les  piedsqueTonau- 
rait  dit  de  granit  rouge.»  (2) 

«Sur  un  monticule,  à 

côté,  um  hommeparlait(Iao- 
kanann).  II  avait  une  peau  de 
chameau  autour  des  reins,  et 
sa  tête  ressemblait  à  celle 
d'un  lion,  Dès  qu'il  m'aper- 
çut,  il  crachá  sur  moi  (Héro- 
dias)  toutes  les  malédictions 
des  prophètes.  Ses  prunelles 
flamboyaient;  sa  voix  rugis- 
sait;  11  levait  les  bras,  com- 
me  pour  arracher  le  tonerre. 
Impossible  de  fuir  !  les  roues 
de  mon  char  avaient  du  sable 
jusqu'aux  essieux;  et  je 
m'éloignais  lentement,  m'a- 
britant  sous  mon  manteau, 
glacée  par  ces  injures  qui 
tombaient  comme  une  pluie 
d'orage.»  (3) 


(1)  A  Relíquia,  ed.  cit.,  pág.  216 

(2i  P.  delia  Gattina,  Les  Ménioires  de  Judas,  pág.  1S9:— (Referência 
ao  Bàtlstal. 

(3)  Flaubert,  Trois  Contes,  nouv.  ed.,  Paris  1913,  pág.  181. 


296 


A  comparação  com  o  granito  faz-me  lembrar  le  Roman  de 
la  Momie,  onde  há  esta  frase  (1) : 

«Entre  la  brassière  et  la  ceinture,  le  torse  apparaissait 
luisant  et  poli  comme  le  granit  rose  travaillé  par  un  ou- 
Vrier  habile.» 

A  sua  penitencia,  durante  «Je  me  suis  refugie  à  Col- 

vinte  annos  de  claustro,  fora  zim;  et  ma  pénitence  fut  sf 

tão  dura  e  alta  que  já  não  te-  haute  que  je  n'avais  plus  peur 

mia  o  tentador.  (2)  de  Dieu.»  (5) 


Então,  pensando  que  Lis- 
boa, o  meio  dormente  em  que 
me  movia,  era  favorável  ao 
desenvolvimento  d'estas  ima- 
ginações—  parti,  viajei  so- 
briamente, sem  pompa,  com 
um  bahú  e  um  lacaio. 

Visitei,  na  sua  ordem  clás- 
sica, Paris,  a  banal  Suissa, 
Londres,  os  lagos  taciturnos 
da  Escócia;  ergui  a  minha 
tenda  diante  das  muralhas 
evangélicas  de  Jerusalém  ;  e 
d'Alexandria  a  Thebas,  fui 
ao   comprido    d'esse    longo 


«L'Égypte  s'étalait  sous 
nous,monumentale  etsérieu- 
se,  longue  comme  le  corridor 
d'un  temple,  avec  des  ©belis- 
ques à  droite,  des  pyramides 
à  gaúche,  son  labyrinthe  au 
milieu,  —  » (4) 

«II  voyagea.  II  connut  Ia 


(li  Teófilo  Gautier,  Lc  Roman  de  la  momie,  nova  ed.,  Paris  (Cbar 
pentier)  1917,  pág.  112. 
i2)  Contos,  pág.  141. 

(3)  Flaubert,  La  Teníation  de  Saint  Anioine,  ed.  cit.,  pág.  5. 

(4)  Flaubert,  ia  Jewroí/oK,  pág.  209-210. 


297 


Egypto  monumental  e  triste 
como  o  corredor  d'um  mau- 
soléo.  Conheci  o  enjoo  dos 
paquetes,  a  monotonia  das 
ruínas,  a  melancolia  das  mul- 
tidões desconhecidas,  as  des- 
illusões  do  boulevard :  e  o 
meu  mal  interior  ia  crescen- 
do.» (1). 


méiancolie  des  paquebots, 
les  froids  réveils  sur  la  tente, 
Tétourdissement  des  paysa- 
geset  des  ruines,  Pamertume 
des  sympathies  interrom- 
pues.»  (2) 


Aí  ficam,  neste  último  grupo  de  confrontações,  muitas 
futilidades  ainda,  muita  coisa  sobre  que  se  poderiam  cerzir 
fundamentados  comentários  favoráveis  para  Eça  de  Quei- 
rós. 

Suponhamos,  porém,  que  em  tudo  isso  há  sintomas  de 
plágio,  e  a  este  grupo  juntemos  tudo  o  mais  que,  a  tal  pro- 
pósito, se  tem  dito  e  escrito  contra  o  Romancista,  e  a  que 
nesta  parlenda  ainda  se  não  aludiu.  Incluam-se  aqui  as  acu- 
sações de  Camilo  e  de  quantos,  com  mais  ou  menos  autori- 
dade, com  maior  ou  menor  vigor,  teem  entrado  na  famige- 
rada campanha.  E  excursionemos  um  pouco. 


Isto  de  plágio  >  é  matéria  complexa  e,  realmente,  difícil 
de  diagnosticar.  Nem  tudo  que  luz  é  oiro;— mais  vezes  do  que 
se  cuida,  as  aparências  enganam. 

Há  concordâncias  de  palavras— que,  sendo  ordinárias,  pa- 
recem extraordinárias... 


(1)  O  Mandarim,  2.^  ed.,  pág.  71-72. 

(2)  Flaubert,  LÉducation  setitinieiitale,  pág.  510. 


298 


J.  de  Meira  (1)  recordou,  a  tal  propósito,  o  começar  de  la 
Joie  de  vivre,  de  Zo!a  (2): 

«Comme  six  haures  sonnaient  au  coucou  de  Ia  salle  à 
manger,  Chanteau  perdit  toutespoir.  II  selevapéniblement 
du  fauteuil  ou  il  chauffait  ses  lourdes  jambes  de  goutteux, 
devant  un  feu  de  coke.  Depuis  deux  heures,  il  aítendait 
madame  Chanteau,», . ., 

para  o  comparar  com  o  princípio  de  o  Primo  Bazilio : 

«Tinham  dado  onze  horas  no  cuco  da  sala  de  jantar.  Jorge 
fechou  o  volume  de  Luiz  Figuier,  que  estivera  folhean- 
do» . . . 

O  romance  francês  foi  publicado  mais  tarde  que  o  portu- 
guês ;  se  se  houvesse  dado  o  contrário,  impossível  seria 
convencer  os  catadores  de  «plágios-  de  que  Eça  não  tivesse 
plagiado  Zola,  —  apesar  de  ss  tratar  de  uma  simples  iden- 
tidade de  palavras,  sem  qualquer  chorume  artístico. 

Há,  igualmente,  concordâncias  de  ideias,— reproduzidas 
de  modo  mais  ou  menos  semelhante. 

Acho  excelente,  para  prova  disso,  os  epistolados  de  Gus- 
tavo Flaubert  e  Gustavo  Modena,  pois  que,  sendo  publica- 
dos após  a  morte  desses  dois  Gustavos,  não  é  possível  re- 
ceio de  cópia  ou  sugestão.  Bastará  ver  os  cotejos  que,  na 
sua  obra  acerca  de  plágios,  fêz  Giuriati(3),  autor  que  aberta- 
mente confessa  (na  tradução  espanhola  que  possuo) :  — 
«Tradúzcanse  ai  italiano  los  fragmentos  (que  publicou)  de 


(1)  InJliiCncias  estrang.  em  Eça  de  Queiroz,  pig.  3. 

(2)  Emilio  Zola,  La  Joie  de  vivre,  Paris  (Charpentieri  1834,  pág.  1. 

(3)  D.  Giuriati,  El  Plagio,  trad.  de  Luís  Marco.  Madrid  (La  Espafla 
modernai  s.  d.,  pág.  174  e  segg. 


299 


Flaubert,  y  parecerán  escritos  por  Modena ;  traduzcanse 
ai  francês  los  fragmentos  de  Modena,  y  parecerán  escritos 
por  Flaubert.  Uno  es  lo  pensamiento  que  los  anima,  una  la 
forma  que  este  encarna,  y  diríase  que  las  frases  han  salido 
de  una  misma  pluma.»  (1) 

A  identidade  de  ideias  é  tanto  mais  frequente,  quanto 
mais  íntima  fôr  a  identidade  de  temperamentos  entre  os  es- 
critores. 

Dizia  Baudelaire  : 

«Je  puis  vous  marquer  quelque  chose  de  plus  singulier  et 
de  presque  incroyable.  En  1846  ou  47,  j'eus  connaissance 
de  quelques  íragments  d'Edgar  Poe  :  j'éprouvais  une  com- 
motion  singulière.  Ses  ceuvres  completes  n'ayant  été  ras- 
semblées  qu'après  sa  mort  en  une  édition  unique,  jeus  la 
patience  de  me  lier  avec  des  Américains  vivant  à  Paris 
pour  leur  emprunter  des  collections  de  journaux  qui  avaient 
été  édités  par  Poe.  Et  alors,  je  trouvai,  croyez-le,  si  vous 
le  voulez,  des  poèmes  et  des  nouvelles  dont  j'avais  eu  la 
pensée,  mais  vague  et  confuse,  mal  ordonnée  et  que  Poe 
avait  su  combiner  et  mener  jusqu'à  la  perfection.v  (2) 

E,  de  facto,  comprovando  esta  afirmativa  de  Baudelaire, 
encontram-se  nas  suas  (Eiivres  posthumes  «des  esquisses  de 
nouvelles  et  de  drames  tout  à  fait  dans  !e  goút  de  Poe. 
Nous  relevons,  du  reste,  dans  ce  curieux  ouvrage,  des  no- 
tes confidentielles  de  Baudelaire  qui  montrent  bien  intime 
parente  de  ces  deux  grands  degeneres :» (5) 


(1)  Obra  cit.,  pág.  182. 

(2)  Baudelaire  a  Armando  Fraisse,  Salut  public,  de  Lião,  Agosto  de 
1869,— apud  Emilio  Lauvriòre,  Edgar  Poe—sa  vie  et  son  anvre,  Paris 
1904,  pág.  644. 

(3)  Emílio  Lauvrière,  obra  cit.,  pág.  614,  nota  3. 


300 


Não  se  julgue,  porém,  que  só  entre  homens  proximamente 
ao  mesmo  nível  intelectual,  se  dão  estas  coincidências.  Con- 
ta o  Sr.  Dr.  J.  Leite  de  Vasconcelos,  na  Lusa  (1) : 

. . .  «citando  a  expressão  radiantia  arma  virorum  do  men- 
cionado poema  [poema  latino,  atribuído  a  Angilbert,  poeta 
carolingeo]  de  Angilbert,  compara-o  o  sr,  Wilmotte,  pg. 
ICfô  [do  livro  Le  Français  à  la  tête  épique,  Paris  1817],  com 
outra  de  Vergilio  {Eneid.  viii,  616),  e  com  a  do  Roland, 
1031,  luisent  dl  elme.  Ora  lembro-me  que,  quando  eu  era 
criança,  houve  na  minha  terra,  na  Beira,  tal  desavença  en- 
tre povos  limítrofes,  por  causa  da  divisão  de  maninhos,  que 
foi  preciso  ir  tropa  de  Lamego  serenar  os  ânimos  :  um  meu 
vizinho,  que  era  analfabeto,  disse  então,  aludindo  a  que  os 
povos  se  acomodariam :  «quando  eles  virem  o  sol  a  luzir 
nas  baionetas. . .»  E  já  se  vê  que  não  tinha  em  mente  nem 
textos  rolandianos,  nem  vergilianos.» 

Corre  entre  o  povo  a  frase  não  morreremos  no  mesmo  dia, 
a  sublinhar  o  facto  muito  vulgar  de  simultaneamente  duas 
pessoas  terem  a  mesma  ideia,  expressando-a  ou  praticando-a 
da  mesma  maneira. 

Dá-se  entre  os  indivíduos  o  que  se  dá  na  humanidade.  A 
tal  respeito,  sob  o  título  de  Tradição  e  Reprodução,  publi- 
cou o  Dr.  Leite  de  Vasconcelos,  na  referida  revista  via- 
nense,  (2)  uma  nota  breve,  mas  de  substancial  alcance,  com- 
provativa de  que  «percorrendo  os  capítulos  da  nossa  Etno- 
grafia moderna,  encontraremos  numerosos  elementos  ma- 
teriais, morais  e  intelectuais  que nos  fazem  evocar  fa- 
ses sociais  que  ficam  muito  afastadas  da  civilização  de  que 


(1)  Lusa,  revista  de  Viana-do-Castelo,  i,  pág.  161,  nota  1?.' 

(2)  Lusa,  I.  pág.  2-3. 


301 


gozamos.»  (1)  «Nuns  casos  temos  verdadeiras  supervivên- 
cias  do  passado;  noutros  reproduz-se este  espontaneamen- 
te.» (2) 

Muitíssimas  vezes  onde  se  pretende  ver  cópia,  imitação, 
plágio,  não  há  senão  espontaneidade. 

O  cérebro  humano  labora  dentro  de  certa  esfera,  e  é  for- 
mado dos  mesmos  tecidos  que  identicamente  se  associam  e 
identicamente  funcionam.  O  laborar  mais  ousado,  mais  im- 
petuoso, bate  sempre  nos  limites  dessa  esfera.  Que  admira, 
portanto,  que  haja  coincidências  ? 

Diversas,  indubitavelmente,  são  as  doenças  nervosas,  mas 
por  serem  doenças  dum  mesmo  sistema,  cujas  reacções  gi- 
ram dentro  de  um  limitado  circuito,  há  muitos  contactos 
na  sua  sintomatologia. 

«Os  cérebros  humanos,  nas  mesmas  condições,  produzem 
os  mesmos  resultados»,  di2  o  douto  etnógrafo  ha  pouco  ci- 
tado, (3)  e,  apesar  das  excepções  fatais,  não  deixa  a  frase 
de  constituir  uma  regra  verdadeira. 

A  possibilidade  das  coincidências,  vocabulares  ou  não, 
fêz  confessar  a  Júlio  Denis,  ao  encontrar  semelhança  en- 
tre um  trecho  de  Octávio  Feuillet  e  um  seu,  o  seguinte, 
pelo  sr.  António  Cabral  recordado  na  sua  obra  acerca  de 
Eça  de  Queirós  (4) : 

«Com  estas  e  outras  descobertas  aprende-se,  à  custa 
própria,  a  não  ser  precipitado  em  attribuir  propósitos  de 
plagiário  a  quem  innocentemente  muitas  vezes  o  foi.  Nin- 
guém se  deve  persuadir  de  que,  depois  de  tantos  séculos 


(K  Loco  cit.,  págr.  2. 

(2)  Loco  cit.,  pág.  3. 

(3)  J.  Leite  de  Vasconcelos,  Ensaios  Ethnographicos,  n  voL.  Espo- 
sende (Colecção  de  Silva  Vieira)  1903,  pág.  5. 

(4|  Eça  de  Queirós,  pág.  305. 


302 


de  litteratura,  ainda  qualquer  possa  ter  pensamentos  ou 
conceber  imagens  absolutamente  novos.» 

Deverá  notar-se  ainda  —  frizo-o  mais  uma  vez  —  que  há 
repetições  ou  parecenças  de  palavras  que  não  teem  signi- 
iicado,  isto  é,  que  são  fúteis,  sem  polpa  artística.  Meras 
palavras,  —  e  que  disso  não  passam.  Depois,  é  um  erro 
grave  julgar,  sistematicamente,  como  plágio  a  reprodução 
de  uma  ideia.  A  originalidade  pode  estar,  intensa,  na  forma 
como  a  ideia  é  expressa.  (1)  Há  ideias  comuns,  traduzidas 
originalmente,  —  como  também,  muitas  vezes,  natural  é 
que  se  reproduzam  as  mesmas  ideias  pelas  mesmas  formas. 
Giuriati,  na  obra  que  citei,  (2j  exemplifica  admiravelmente 
o  que  assevero.  E,  após  haver  recortado  trechos  poéticos 
que,  versando  o  mesmo  assunto,  teem  coincidências  for- 
mais, declara  (5): 

«Ninguno  de  estos  admirables  poetas  es  reo  de  imitación 
servil.  Y  sin  embargo,  sobre  el  mismo  assunto,  todos  dicen 
poço  más  ó  menos  las  mismas  cosas. 

En  tercer  lugar  (después  de  excluir  la  odiosa  hipótesis 
dei  plagio  por  las  dos  primeras  razones,  el  amor  legítimo 
a  los  textos  clásicos  y  la  necesidad  de  plasmar  unos  mis- 
mos  pensamientos),  conviene  proceder  a  un  examen  toda- 


■1)  Com  um  exclusivismo  inadmissível  afirmou  Paulo  Souda3-  que  na 
literatura  o  assunto  não  é  nada,  e  que  a  maneira  de  o  tratar  é  tudo.  Pe- 
tit  Teutps,  n.°  895,  de  1899,  apud  Giuriati,  obra  cit.,  pág.  48- 

—  O  sr.  dr.  Fidelino  de  Figueiredo,  na  Historia  da  literatura  rea- 
lista, Lisboa  (Liv.  clássica  edit.'  1914,  págr.  Iõ2,  escreve,  atai  propósito, 
as  seguintes  acertadas  palavras:  ..-a  originaUdade  duma  idéa  não  está 
só  em  ser  apresentada  pela  primeira  vez,  está  também  no  modo  de  ser 
apresentada,  que  lhe  imprime  caracter  e  decide  do  seu  destino.» 

(2)  Pág.  166  e  segg. 

iSPág.  168-169. 


303 


via  más  difícil,  aún  más  delicado.  Admitida  la  semejanza, 
es  necessário  preguntarse  si  ha  concurrido  la  voluntad  dei 
escritor  y  hasta  qué  punto.  Porque  en  Ias  obras  de!  hom- 
bre  como  en  Ias  de  Ia  naturaleza  se  presentan  semejanzas 
accidentales,  que  hieren  los  sentidos  y  llegan  a  confundir 
nuestra  pobre  sindéresis.  A  cada  uno  de  nosotros  le  ha 
ocurrido  en  la  vida  ese  fenómeno.  Vemos  a  veces  personas 
cuyas  facciones  nos  parecen  idênticas  a  Ias  de  otras  a 
quienes  conocimos  en  tiempos  pasados  o  en  lugares  leja- 
nos.  éEs  ilusión  nuestra  lo  que  nos  engana  a  primera  vista  ? 
No  siempre.  Cuanto  más  nos  aproximamos,  más  salta  a 
nuestros  ojos  la  identidad:  tenemos  que  detener  en  Ia  calie 
a  esas  personas,  tenemos  que  saludarlas  y  provocar  su  sa- 
ludo,  tenemos  que  oir  su  voz  para  que  desaparezca  Ia  equi- 
vocación. 

Precisamente  por  eso,  la  prudência  requiere  cerciorarse 
de  si  el  plagio  aparente  y  que  resiste  ai  martillo  de  la  cri- 
tica no  contendrá  otros  contraindicios  que  sirvan  para  dis- 
culpar  ai  autor  de  lo  que  con  injusticia  se  le  atribuye.» 
Etc,  etc. 

De  todo  este  aranzel  se  conclui  que  há,  indiscutivel- 
mente, muitos  motivos  de  erro  na  indicação  de  plágios. 
Propositadamente  alonguei  a  transcrição  última,  porque 
ela,  de  um  modo  pitorescamente  claro,  veio  realçar  mais 
uma  causa  de  engano,  proveniente  da  nossa  irreflexão,  das 
nossas  primeiras  impressões  (1);  e  aqui  relembro  os  leito- 
res que  à  margem  dos  livros,  tam  só  levados  pelas  aparên- 
cias, vão  apontando  plágios.  —  Quantas  acusações  graves 


il)  o  autor  italiano  exemplifica  estes  lapsos  de  irreflexão,  estas  ilu- 
sões, noutros  lugares. —  \'id.,  per  exemplo,  pág.  163  e  segg. 


304 


e  sem  base  séria,  assim  se  não  fazem,  ainda  que  fora  de 
qualquer  intuito  malfazejo?! 

Os  motivos  que  induzem  a  erro,  derivados  de  parentesco 
intelectual  ou  psíquico,  de  afinidade  de  circunstâncias,  de 
igualdade  de  assuntos,  de  aparências  mal  apreciadas,  de 
simples  coincidência  de  palavras,  e  de  outras  origens  que 
não  paga  a  pena  espiolhar,  —  esses  factores  múltiplos  são, 
pois,  complicados,  de  muito  difícil  exame,  e  tornam  por 
isso  mesmo  sobremaneira  falível  a  crítica,  a  destrinça  do 
que  é  original,  do  que  é  espontâneo  e  do  que  o  não  é. 

Dêmos  de  partido,  no  entanto,  àqueles  que  sejam  pessi- 
mistas —  o  não  haver  razão,  no  último  grupo  de  cotejos 
acima  exposto,  para  as  considerações  que  aí  ficam.  Supo- 
nha-se  que  em  todos  esses  cotejos  há  concordâncias  de 
imagens,  de  belezas  artísticas  arrancadas  á  fantasia,  que  é 
onde  os  apontados  motivos  menos  lugar  teem,  por  ser  nos 
voos  da  imaginação  criadora,  reprodutora  e  sobretudo  plás- 
tica, onde  o  coeficiente  pessoal  mais  se  estrema.  Supo- 
nha-se  o  pior. 

* 


O  escritor  não  se  forma  — por  geração  espontânea.  E' 
um  produto  de  inumeráveis  e  diversíssimos  factores:  facto- 
res que  herdou  e  factores  que  adquire.  O  escritor,  dentro 
da  regra  humana,  tem  atrás  de  si  uma  árvore  de  antepas- 
sados que  o  determinou  a  êle,  e  sofre,  pela  sua  vida  adean- 
te,  influências  sem  conto.  Tem  tendências,  tem  simpatias, 
tem  aspirações,  tem  vontade.  Modifica  ou  avinca,  orienta 
ou  corrije  o  seu  modo-de-ser,  sob  a  educação  que  lhe  é 
dada  ou  a  que  êle  próprio  a  si  dá. 

O  Artista  sente-se  levado  num  turbilhão  de  influências, 
que  por  fim  lhe  dão  directriz,  personalidade,  mas  ainda 


Uma  personagem  viva  de  «O  Crime  do  Padre  Amaro»: 

o   LEIRIENSE  JÚLIO  TeLES, 
QUE  FIGURA   NAQUELE   ROMANCE  COM   O  NOME 

DE  Artur  Couceiro 


305 


nessa  orientação  definitiva  não  escapa  a  influências  várias. 
O  artista  afeiçoa-se  e  aperfeiçoa-se. 

No  seu  cérebro  há  um  vulcão  de  ideias,  de  fragmentos 
de  ideas,  de  esboços  de  ideas:  interseccionam-se  nele  efei- 
tos de  complexas  causas  —  do  que  o  cerca,  do  que  brota 
dentro  de  si;  do  que  vê,  do  que  ouve,  do  que  lê,  do  que 
sonha,  do  que  cria.  O  esforço  mental  suga  delirantemente 
raizes  inúmeras,  inspirando-se  em  inúmeras  origens,  E'  uma 
tempestade  de  pensamentos,  de  imagens,  de  recordações, 
de  frases  que  escachoa  no  cérebro  do  artista  —  e  quando 
começa  o  trabalho  febril  da  plasmação  do  assunto  delineado 
mentalmente,  iqne  espanta  que  pelo  bico  da  pena  escorram 
partículas  de  outrem  provenientes? 

Para  que  assim  não  suceda,  impõe-se  uma  excelente  me- 
mória, capaz  de  atentamente  diferençar  o  que  é  próprio  de 
o  que  é  alheio.  Memória  que  não  possua  estas  qualidades 
de  localização  e  reconhecimento,  conduzirá  o  seu  dono  a 
repetições  involuntárias  —  a  plágios  involuntários  ou  incons- 
cientes, como  se  lhes  costuma  chamar. 

O  fenómeno  é  conhecido;  regista-o  até  qualquer  tratado 
de  filosofia  elementar. 

Ribot  refere-se  circunstanciadamente  a  êle  em  les  Mala- 
dies  de  la  mêmoire.  (1)  Não  é  necessário,  porém,  nem  con- 
veniente, irmos  aos  extremos,  considerando  estados  mór- 
bidos. Nos  estados  normais,  encontramos  ameúde  essa 
falta  de  localização  e  reconhecimento,  à  nossa  volta  e  em 
nós  mesmos  até.  Um  facto  sucedido  com  certas  pessoas 
—  para  citar  exemplos  —  é  contado  repetidas  vezes;  e, 
sendo  assimilado  e  recontado  por  outras  pessoas,  estas 
chegam  a  convencer-se  absolutamente  de  que  êle,  o  facto, 


(1)  13*  ed.,  Paris  (Alcan)  1906,  pág.  32  e  segg. 

KÇA  DK  QUKIBOZ  20 


306 


se  deu  com  elas.  Encontrei  isto  muitas  vezes  nas  escolas 
que  frequentei.  <^Paríidas»  de  certos  estudantes,  contadas 
por  outros  como  suas,  com  indestrutível  convicção. 

E',  pois,  um  fenómeno  correntio,  que  o  exagero  dos  es- 
tados mórbidos  comprova,  —  sabido  como  a  patologia  mi- 
nistra elementos  magníficos  para  o  estudo  da  fisiologia. 

Assim,  o  Artista,  arrebatado  pela  sua  febre  de  arte,  e 
por  conseguinte  em  condições  desfavoráveis  para  a  memó- 
ria se  exercer  perfeitamente,  repete  sem  querer  pensamen- 
tos ou  imagens  de  outros. 

E,  como  involuntariamente  repete,  mais  ou  menos,  o  que 
outros  disseram,  o  que  em  outros  leu  ou  de  outros  ouviu, 
assim  também,  involuntariamente,  se  repete  a  si  mesmo, — 
e  melhor  exemplo  não  me  ocorre  do  que  o  seguinte: 

«E  as  palmeiras  da  margem  fronteira  recortavam-se  no 
poente  amarello  —  como  feitas  em  relevo  de  bronze  sobre 
uma  lamina  d'ouro.;>  (1) 

«...  as  palmeiras  de  Giseh,  finas  e  como  de  bronze  so- 
bre o  ouro  da  tarde.» (2) 


(li  A  Relíquia,  ed.  cit.,  pãg.  121. 

(2|  A  Correspondência  de  Fradique  Mendes,  2.*  ed.,  POrto  (Char- 
droni  1902,  pág.  56.  —  «Palmeira  de  bronse»,  frase  que,  assim  insulada, 
se  pode  considerar  um  lugar-comum,  encontra-se,  por  isso  mesmo,  nou- 
tros passos,  até  no  próprio  Eça  tanto  a  ideia  se  lhe  tinlia  fixado  no  cé- 
rebro: :  «solitária,  no  meio,  uma  vetusta  palmeira  arqueava  o  seu  pena- 
cho, immovel  e  como  de  bronze  :»  --1  Reliquia,  ed.  cit.,  pág.  265.— Obser- 
vo isto,  e  escolho  tal  exemplo  da  Reliquia,  para  atalhar  uma  nova  pos- 
sível acusação  de  plágio,  fincada  nisto  deFlaubert :  «Desgrenadiers,  des 
amandiers,  des  cyprès  et  des  m3-rthes,  immobiles  comme  des  feuillages 

de  bronze,» Salammbô,  ed.  def.,  pág.  79.  —  be  bem  que  pudessem  ir 

buscar  o  seguinte  de  Gautier:  ...  «des  captiís  de  la  mauvaise  race  de 
Schéto  portaient  des  urnes  remplies  de  sei  et  d'huile  d'olive,  ou  trempait 
une  mèche  dont  la  flamme  crépitait  vive  et  claire,  et  se  tenaient  rangtE- 


307 


Supondo-se  o  pior,  isto  é,  que  não  tenham  cabimento  os 
motivos  de  erro  na  indicação  de  plágios,  —  desta  maneira 
se  deve  explicar  o  encontrarem-se  nas  obras  de  Eça  algu- 
mas reminiscências  de  outros  autores.  São  repetições  in- 
conscientes, involuntárias,  que  êie,  se  as  topasse  e  se  se  im- 
portasse com  mudá-las,  facilmente  as  safaria  ou  as  disfar- 
çaria, pois  que  para  isso,  e  muito  mais,  lhe  sobravam  recur- 
sos de  escritor  e  de  artista. 

A  leitura  insistente  dos  autores  adorados,  a  sua  contínua 
convivência  espiritual  com  eles,  são  causas  que  exuberan- 
temente justificam  a  possibilidade  de  tais  repetições,  — ra- 
ras repetições  aliás,  e  que  de  maneira  nenhuma  ofuscam  o 
carácter  original  das  suas  obras,  olhadas  como  devem  ser 
olhadas. 

Á  catadela  minuciosa,  por  esquírolas,  de  «semelhanças», 
nenhum  escritor  resistirá,  por  mais  original  que  seja,  — 
desde  que  o  catador  tenha  o  suficiente  grau  de  leitura  e 
paciência. 

O  Corvo,  de  Poe,  é  uma  poesia  de  brilhante  originalidade, 
cuja  feitura  o  próprio  autor  denunciou  na  «Génese  de  um 
poema».  (1)  Todavia,  decomposta  a  poesia  em  meúdos  fra- 
gmentos, não  tem  faltado  quem  lhes  encontre  parecenças 
com  isto  ou  aquilo  deste  ou  daquele  autor.  Veja-se  a  aná- 
lise que  vem  incerta  no  livro  de  Lauvrière.  (2). 

Não  é,  porém,  justo  nem  racional  que  se  apreciem  os  tra- 


en  ligne, Immoblles  comme  des  lampadaires  de  bronze.»  Le  Roman 

dela  ntomie,  ed.  clt.,  pág.  122.  —  E  se  procurassem  mais,  mais  encon- 
trariam. 

(1)  Encontra-se  traduzida  em  português,  no  volume  O  rei  Peste,  da 
Biblioteca  universal  antiga  e  moderna,  2."  ed.,  Lisboa  1S90,  pág.  21  e 
segg. 

i2i  Edgar  Poe  —  sa  vie  et  sou  oeuvre,  Paris  Alcani  19CU,  pág.  391  e 
segg. 


308 


balhos  literários  por  fragmentos,  muitas  vezes  reduzidos  a 
palavras  quási  sem  expressão.  Ninguém  dirá,  por  exemplo, 
que  o  Corvo  não  seja  nitidamente  original.  (1) 

Demais,  queiram  os  senhores  riscar  a  meia  dúzia  de  fra- 
ses incriminadas  nas  obras  de  Eça  de  Queirós,  —  e  Eça  de 
Queirós  ficará  sendo  Eça  de  Queirós,  um  «eminente  artista 
que  não  é  só  uma  honra  nacional,  mas  uma  das  mais  altas 
figuras  literárias  da  Europa  contemporânea»  —  nas  autori- 
zadíssimas  palavras  de  Bruno.  (2) 

O  que  se  depreende,  em  conclusão,  de  quanto  aí  ficou  dito 
currente  calamo,  é  que,  nas  acusações  a  Eça,  tem  havido 
muita  leviandade,  muita  ignorância,  lamentáveis  confusões 
entre  <'plágio»  e  «fonte»  e  «influência.» 

Referindo-se  ao  nosso  escritor,  escreveu  a  sr.*  Condessa 
de  Pardo-Bazán  no  seu  livro  acerca  do  Naturalismo  (5) : 

«Peninsular,  português,  y  no  francês,  es  el  novelista  que 
más  de  cerca  ha  seguido  à  Flaubert,  aquel  Eça  de  Quei- 
roz, también  fino  ironista,  también  copista  satírico  de  los 
costumbres  de  província,  y  también  estudiador  de  los  es- 
tragos dei  esnobismo  en  un  alma  femenina,  mucho  menos 
estética,  pêro  no  menos  real,  que  la  de  Madama  Bovary. 
Por  seguir  fielmente  las  huellas  de  su  modelo,  Eça  de  Quei- 
roz tuvo  su  correspondiente  visión  de  la  antigiledad  y  de 
los  países  orientales  en  La  Relíquia,  y  acaso  en  el  Manda- 
rin,  donde  el  pesimismo  es,  si  cabe,  más  amargo  que  en 
ninguna  página  dei  maestro.» 


(li  Ponhamos  de  parte,  por  infundadas,  as  acusações  de  que  o  Corvo 
é  uma  cópia  de  um  poema  persa  ou  a  tradução  de  uma  poesia  do  pai  do 
poeta- ..  —  Vid.  Lauvrière,  obr.  cit.,  pág.  406,  nota. 

(2.  A  Geração  nova,  Porto  1886,  pág.  148. 

(3i  La  literatura  francesa  moderna— El  NaturalistMO,  Madrid  (Re- 
nacimiento)  s.  d.,  pág.  65. 


309 


Em  poucas  palavras,  a  ilustre  Crítica  espanhola  faz  res- 
sair as  afinidades  entre  Eça  e  Flaubert  e  a  "influência» 
que,  por  isso  mesmo,  este  deveria  exercer  sobre  êle. 

Por  seguir  fielmente  las  huellas. . . 

Será  talvez  conveniente  explicar  que  a  frase  não  quere 
dizer  que  Eça  de  Queirós  seguisse  Flaubert,  pondo  o  pé 
nas  pegadas  dele,  mas  livremente,  pondo  os  pés  à  sua  von- 
tade, afirmando  a  sua  personalidade  artística  de  um  modo 
profundamente,  brilhantíssimamente  original.  (1) 

Viana-do-Castelo,  1918. 

Cláudio  Basto. 


(li  A  necessidade  de  acomodar  o  meu  trabalho  a  este  livre,  forçou-me 
a  resumi-lo  muito,  especialmente  na  documentação.  Quando  houver  en- 
sejo, se  publicará  na  integra,  aparte. 


o  monumento  a  Eça  de  Queiroz 


Teixeira  Lopes 


Ka  mais  de  dezasseis  anos  que  foi  inaugurado  o  monu- 
mento a  Eça  de  Queiroz,  no  largo  do  Barão  de  Quintela, 
e  quem  hoje  por  ali  passa  e  o  admira,  ou  não  sabe,  ou  já 
se  não  lembra  do  que  então  se  disse  acerca  do  grande  es- 
critor e  do  artista  que  concebeu  e  executou  a  obra  glori- 
ficadôra.  E  todavia,  na  historia  ainda  não  organisada  dos 
monumentos  de  Lisboa,  penso  que  este  não  figurará  com 
menos  relevo  de  que  qualquer  dos  outros.  Essa  historia 
deve  fazer-se,  quando  mais  não  seja,  para  nos  revelar  o 
nosso  modo  de  vêr  e  sentir  em  questões  artísticas  e  nos 
deliciar  com  o  inesperado  de  certas  apreciações. 

Porque  Lisboa,  a  tal  respeito,  pensa  de  um  modo  muito 
caracteristicamente  obnoxio  e  sobre  maneira  obsoleto.  Lis- 
boa vive  e  sente  ainda  em  pleno  século  xviii  e,  nas  suas 
sentenças,  quer  de  ordem  artística,  quer  de  ordem  moral, 
até  quando  alegremente  prevarica,  revela-se  a  mais  digna 
e  submissa  neta  de  Pina  Manique,  numa  eterna  sobrevivên- 
cia da  sua  escola.  Lisboa  é  ainda,  quanto  a  mim,  fundamen- 


311 


taltnente  casquilha  e  convenciona!,  como  se  era  nos  saudo- 
sos tempos  da  Senhora  D.  Maria  I ;  e  Eça  de  Queiroz  assim 
também  pensava.  Lembra-me  do  que  me  disse  acerca  dos 
Peraltas  e  sedas  de  Marcehno  de  Mesquita,  comedia  de  que 
muiio  gostava.  Tendo-lhe  eu  perguntado  se  não  via  na  so- 
ciedade ali  representada  o  fiel  retrato  da  actuai  sociedade 
lisboeta,  respondeu-me  imediata  e  vivamente  que  sim,  que 
tudo  se  passava  hoje  dessa  mesma  form.a,  nos  salsifrés  de 
Lisboa :  os  assuntos,  as  opiniões  das  senhoras  e  dos  homens 
que  as  acompanham,  a  musica  de  salão  ou  de  teatro,  e  até 
os  aspectos  exteriores  da  religião.  Tudo  é  casquilho  e  salsa 
como  nessa  época  em  que  eu  pressinto  sobretudo  uma 
constante  e  feroz  antipatia  para  com  as  manifestações  ins- 
piradas pela  pura  graça  franceza.  As  cousas  da  graciosa 
arte  do  século  xviii  em  França  tornam-se  amaneiradas  e  pe- 
sadas entre  nós  ;  e  esse  gosto  amaneirado  ainda  hoje  o  en- 
contro dominando  na  escolha  que  o  genuino  lisboeta  faz  de 
um  quadro,  de  uma  peça  de  arte  decorativa,  de  um  proje- 
cto arquitectónico.  E'  vêr,  por  exemplo,  a  arquitectura  ban- 
caria que,  nas  ruas  da  baixa,  vai  substituindo  a  linha  sóbria 
dos  edifícios  pombalinos,  e  os  Vários  e  estapafúrdios  casos 
de  prédios  e  chalets  espalhados  pela  cidade  e  seus  arredo- 
res. É  sempre  o  mesmo  amaneirado  de  uma  peça  do  Rato, 
das  pratas  de  D.  João  V,  da  religião  das  madres  Paulas. 

O  monumento  a  Eça  de  Queiroz  não  conseguiu  agradar 
aos  lisboetas,  porque  não  respeita  os  convencionalismos 
tão  queridos  dos  nossos  Peraltas  e  Sécias,  o  arranjo  arrebi- 
cado, os  arredondamentos  constructivos,  as  curvas  gros- 
sas e  sornas  de  que  eles  não  prescindem  e  com  que,  por 
exemplo,  se  deliciam  no  monumento  ao  Pinheiro  Chagas, 
posto  com  toda  a  evidencia,  para  seu  deleite  máximo,  no 
passeio  predilecto,  no  ponto  mais  frequentado  pela  popula- 
ção da  cidade;  ou  ainda  naquelas  quatro  estatuas,  que  pa- 


312 


rece  terem  sido  destinadas  ao  monumento  de  D.  Maria  I, 
não  levado  a  efeito,  e  que  !á  mais  acima,  aí  por  alturas  da 
rua  Alexandre  Herculano,  exibem  a  sua  sensaboria  aos 
olhos  dos  transeuntes.  Tendo,  pois,  desprezado  as  condi- 
ções do  mercado,  não  podia  o  monumento  do  Eça  conquis- 
tá-lo, e  o  mercado  zangou-se ;  e  francamente,  aqui  para  nós, 
com  muita  razão.  Pois  então  Lisboa. . . 

Antes  de  mais  nada,  devo  porem  citar  um  outro  caso  do 
mais  deplorável  fracasso,  em  que  uma  senhora  das  relações 
da  minha  familia  quiz  também  conquistar  a  sociedade  ele- 
gante de  Lisboa.  Conheci-a  em  Paris,  ha  talvez  uns  vinte 
anos.  Era  nova,  de  alto  e  brilhante  porte,  verdadeira  Flor 
de  altura,  linda,  esbelta,  ostentando  uns  prodigiosos  cabe- 
los fulvos,  alegre,  vivíssima,  cantando  e  tocando  piano 
muito  bem,  tendo-se  em  alto  conceito  e  não  duvidando  de 
si  nem  um  só  instante.  Plasticamente  era  um  tipo  de  mulher 
muito  afim  da  Verdade  do  monumento  de  Eça  de  Queiroz, 
mas  ainda  mais  vibrante  e  nervosa.  Disse-me  que  ia  casar 
e  pensava  estabelecer-se  em  Lisboa,  donde  não  era  e  que 
não  conhecia.  Queria  dominar,  embora  o  não  confessas- 
se ;  sentia-se  com  direito  para  isso.  E,  como  eu  reconhe- 
cesse o  seu  acentuado  temperamento  combativo,  de  intele- 
ctual nada  amorosa,  aconselhei-a  a  que  procedesse  com 
cautela  na  conquista  a  que  porventura  visasse,  porque  Lis- 
boa não  se  deixa  Vencer  sem  muito  geito,  muita  lisonja  e 
hipocrisia.  Ela  não  fez  caso  dos  meus  conselhos.  Chegou, 
surpreendeu,  irritou  as  mulheres;  despertou-lhes  todas  as 
invejas  possíveis,  e  desnorteou  os  homens  ;  e  ao  cabo  de 
poucos  dias  gosava  das  honras  da  inevitável  alcunha,  elae 
o  marido.  O  peor  de  tudo  sucedeu  porem,  quando  após  al- 
guns anos  de  ausência,  cá  voltou  de  novo,  mas  só,  sem  a 
companhia  do  esposo,  e  quiz  ainda  frequentar  o  meio  em  que 
anteriormente  brilhara  e  que  abertadente  havia  afrontado. 


313 


Falava-se  dela  nos  jantares  elegantes  e  nas  soirces  da 
alta  burguezia,  por  toda  a  parte;  abocanhavam-na  e  per- 
guntavam porque  viera  sem  o  marido.  Essa  falta  de  enca- 
dernação marital,  do  editor  responsável  para  quantas  ale- 
grias por  aí  se  expandem  livremente,  perdeu  a  pobre  e  ho- 
nestissima  senhora  que  abalou,  parece-me,  para  nunca  mais 
cá  voltar.  E  creio  ter  eu  também  concorrido  para  um  tal 
resultado.  Uma  noite  em  que  ela  brilhantemente  cantara  e 
tocara,  voltou-se  para  mim  e  diz-me  alto  e  bom  som,  como 
sempre  fazia: 

—  Vamos  conversar  um  bocado,  pai  Arroyo. 

E  fomos  sentar-nos  numa  pequena  saleta  contigua  ao  sa- 
lão da  musica,  onde  ninguém  estava  ao  tempo.  Queria 
ouvir-me  sobre  a  sua  maneira  de  cantar,  sobre  o  desenvol- 
vimento que  a  sua  voz  tomara,  e  principalmente  sobre  a 
egualdade  ou  desegualdade  dos  três  registos  vocais.  A  con- 
versa não  durou  muito;  apesar  disso  fomos  constantemente 
vigiados  pelos  profissionaes  da  reinação  amoruda,  que  vi- 
nham uns  após  outros  observar-nos,  como  usam  fazer  os 
peixes  do  aquário  de  Algés.  Isto  sensibilisou-me  por  causa 
deles.  E,  quando  a  dama  voltou  para  o  salão,  recordando 
uma  velha  anedota  do  velhíssimo  e  catarroso  Duque  de 
Ávila,  que  afirmava  nunca  ter  havido  nada  entre  ele  e  certa 
princeza,  aliás  desavergonhada  e  adultera,  assegurei-lhes 
que  nada  tinha  havido  entre  mim  e  a  dama,  e  que  se  me  afi- 
gurava que  também  nada  haveria  entre  eles  e  ela;  que  me 
palpitava  isso  e  lho  dizia  para  seu  socego,  deles. 

Entretanto  as  madamas  ao  que  parece,  tomavam  as  do- 
res, pelos  maridos,  primos,  cunhados  e  mais  parentes,  e  não 
perdoaram  á  esquiva  e  esbelta  cantora,  a  sua  indiferença 
por  tanta  cousa  e  tanta  pessoa  que  elas  adoram.  Nem  tão 
pouco  admira  que  não  perdoassem  ao  escultor  do  monu- 
mento do  Eça  o  facto  de  dar  á  Verdade  uma  figura  tão  di- 


314 


versa  da  delas,  de  a  não  fazer  á  imagem  da  sua  Hipocrisia, 
e  pelo  contrario  de  a  representar  sob  um  aspecto  tão  apa- 
rentado com  a  Flor  de  altura,  sincera  e  franca,  que  de  cá 
desarvorara  para  sempre. 

Esse  estado  dos  espíritos  desdobrou-se,  porem,  em  po- 
lemica varia,  e  mais  uma  vez  muito  tempo  e  muito  papel  se 
perdeu  inutilmente.  Porque  a  obra  é  bela  e  ficou,  e  porque 
Eça  de  Queiroz  e  Teixeira  Lopes  são  dois  grandes  artistas 
de  um  paiz  em  que  não  ha  muito  que  deitar  fora  no  género. 
Facto  é,  contudo,  que  os  críticos  agravaram  a  situação, 
como  na  maioria  dos  casos  sucede,  por  aquela  conhecidís- 
sima tendência  de  só  quererem  encontrar,  na  obra  que  pa- 
rece analisarem,  as  suas  próprias  idéas,  os  seus  modos  de 
sentir,  que  só  trazem  consigo  a  velocidade  adquirida  dos 
tempos  idos. 

Por  essa  ocasião  publiquei  eu  vários  artigos,  não  só  acer- 
ca desse  monumento,  como  também  do  elevado  a  Oliveira 
Martins  no  cemitério  dos  Prazeres,  vindo  logo  depois  o 
sr.  Jaime  Batalha  Reis  manifestar  a  sua  opinião  que,  muito 
honrosamente  para  mim,  afina  pela  nota  admirativa  da  mi- 
nha exposição  ;  artigos  estes  que  apareceram  todos  na  Re- 
vista literária  do  Século,  entre  Novembro  de  1903  e  Junho 
de  1904,  e  de  que  vou  extratar  umas  quantas  passagens,  con- 
tando desde  já  com  a  autorisação  do  ilustre  diplomata. 

Dizia-se,  em  primeiro  logar,  que  não  tendo  ainda  sido  le- 
vantados monumentos  á  Trindade  Sagrada —  Herculano, 
Garrett  e  Castilho  — nem  tão  pouco  a  Camilo,  mal  parecia 
levantá-lo  a  Eça  de  Queiroz  «o  qual  não  tem  o  valor  des- 
ses». Eu  confesso-me  incapaz  de  os  comparar,  aos  cinco  íl- 
lustres  portuguezes;  julgo-os  até  incomparáveis,  em  vir- 
tude da  diferença  das  suas  obras,  mas  principalmente  por- 
que nos  achamos  pouco  afastados  do  tempo  em  que  eles 


315 


viveram;  só  um  maior  afastamento  permitirá  medir-lhes 
bem  a  sua  grandeza  e  a  influencia  que  exerceram. 

Mas,  além  de  isso,  tal  afirmativa  parece  conter,  implicita- 
mente, pelo  menos  uma  suposição  senão  o  convencimento 
de  que  só  aos  promotores  desta  obra  assiste  o  direito  de 
levantar  monumentos  aos  artistas  e  pensadores  nacionaes: 
que  o  sr.  conde  de  Arnoso,  a  quem  se  deve  a  iniciativa  do 
monumento,  e  o  grupo  dos  seus  amigos  e  companheiros, 
entre  os  quaes  se  conta  o  escultor,  tão  desinteressado  como 
os  outros,  que  essas  pessoas  são  as  únicas  que  teem  o  di- 
reito e  o  dever  de  exercer  uma  tal  acção, 

Cumpre-me  reclamar  para  mim,  e  para  nós  todos,  um  di- 
reito que  a  todos  pertence,  e  penso  até  que  a  iniciativa  do 
sr.  conde  de  Arnoso,  fazendo  despertar  outras  iniciativas 
semelhantes,  concorrerá  para  o  pagamento  imediato  de  uma 
divida  em  aberto  por  que  os  quatro  grandes  extinctos  es- 
tão esperando  ha  já  tantos  annos.  Julgo,  portanto,  apenas 
louvável  e  digna  de  ser  tomada  como  exemplo  uma  acção 
que  a  tantos  se  afigura  condenável ;  e  explico-a  por  um  fa- 
cto iniludível  para  mim.  É  que  Eça  de  Queiroz,  pelo  seu 
adorável  caracter,  feito  de  bondade,  de  graça  e  de  suprema 
tolerância,  soube  crear  em  redor  de  si,  alem  de  um  mundo 
de  admiradores,  tão  numeroso  como  o  dos  outros  quatro, 
uma  coorte  de  amigos  absolutamente  subjugados  pelo  seu 
encanto  pessoal.  Essa  atmosfera  de  profunda  simpatia,  que 
talvez  faltasse  aos  outros,  teve  mais  força  do  que  a  admi- 
ração literária  isolada  e  sem  ternura  ;  e  nós,  portuguezes, 
que  mais  vivemos  pelo  coração  do  que  nos  guiamos  pela 
cabeça,  obedecemos  agora  á  fatalidade  do  temperamento  e 
o  monumento  fez-se. 

Se  foi  erro,  e  se  é  nobre  o  confessá-lo,  não  creêmos  po- 
rém uma  junta  oficial  de  privilegiados  com  direitos  e  deve- 
res que  pertencem  a  todos;  e  glorifiquemos  esses  grandes 


316 


homens  se  somos  capazes  de  o  fazer,  para  o  que  não  fal- 
tará espaço  em  Lisboa,  tanto  mais  quanto  o  logar  que  o 
monumento  a  Queiroz  ocupa  é  modesto  e  adrede  escolhi- 
do, para  não  ser  ocupado  individamente  outro  de  mais  épico 
destino. 

O  monumento,  sem  arquitecturas  pomposas  e  oficiaes, 
apenas  composto  de  uma  figura  de  mulher  e  do  busto  de 
homem  emergindo  de  um  bloco  de  mármore  branco,  ergue-se 
do  solo  arrelvado  sobre  o  fundo  escuro  de  um  feixe  de  pal- 
meiras, e  olha  para  o  palacete  fronteiro,  o  que  foi  do  Conde 
de  Farrobo.  Instalação  modesta,  sem  luxos  de  jardineiro 
caro  a  rodeá-lo,  numa  praça  pequena  cercada  de  edifícios 
nada  grandiosos,  que  não  é  centro  de  reunião  nem  de  cru- 
zamento de  ruas,  que  não  tem,  emfim,  nada  que  a  torne  in- 
vejável, nem  recommendavel  para  altos  destinos.  Para  os 
outros  ficou  tudo  quanto  ha  de  magestoso  em  Lisboa,  o 
que  é  largamente  frequentado  e  de  grandes  proporções. 

<'Que  Eça  de  Queiroz  escreveu  em  francez»,  afirmam 
ainda.  E  este  grito  que,  certamente  já  não  sôa  pela  primeira 
vez  na  nossa  atmosfera  artistica  ou  literária,  foi  repetido 
por  muitos  e  calou  fundo.  Entretanto  suponho  que  toda  a 
nossa  vida  de  arte  esteve  e  estará  preza  ás  mais  iniludíveis 
influencias  estrangeiras  e  que,  só  a  elas,  podemos  attribuir 
as  épocas,  as  obras  e  os  monumentos  da  nossa  respectiva 
historia. 

Se  a  Sé  de  Coimbra  é  estructuralmente  franceza,  a  Ba- 
talha é  caracteristicamente  ingleza  e  foi  talvez  projectada 
pelo  secretario  do  Duque  de  Lencastre,  que  era  arquitecto, 
creio.  Herculano  pressentira  já  a  influencia  franceza  nos 
Jeronymos,  hoje  justamente  atribuída  aBoytac.  Italiana  foi 
entre  nós  a  arquitectura  dos  séculos  xvii  e  xviii,  como  fla- 
menga foi  a  pintura  que  usa  reunir-se  em  redor  do  nome  de 


317 


Grão  Vasco.  A  rocaille  franceza  deu  o  nosso  D.  João  V  e, 
mais  ou  menos,  se  sente  a  Influencia  espanhola  nas  artes 
decorativas  de  Portugal.  Estrangeira  foi  a  influencia  que, 
penetrando  o  nosso  movimento  literário  quinhentista,  subs- 
tituiu, por  uma  lingua  artificial,  reconstruída  directamente 
do  latim,  a  lingua  rude,  mas  bem  mais  caracteristicamente 
portugueza  em  que  escrevera  Fernão  Lopes.  E  estrangeira 
é  toda  a  nossa  musica  culta;  toda  ela  é  musica  italiana,  ou 
franceza,  feita  em  Portugal,  por  portuguezes.  Parece  pois 
que  Queiroz  obdeceu,  pura  e  simplesmente,  á  tradição. 

Educado  no  moderno  movimento  literário  estrangeiro, 
foi  buscar  ao  francez  formas  e  expressões  que  ele  julgou 
necessárias  para  dizer  cousas,  muitas  das  quais  nenhum  ou- 
tro havia  dito  entre  nós.  Pouco  a  pouco,  porém,  modificava 
o  seu  léxico,  ao  mesmo  tempo  que  aperfeiçoava  a  forma 
geral  do  seu  estilo.  Obedeceu  a  uma  necessidade  sincera 
e,  contemporaneamente,  sofreu  uma  evolução ;  e  á  medida 
que  foi  dando  á  lingua  uma  muito  maior  plasticidade,  no- 
vos ritmos  ou  cadencias,  novas  locuções  e  novas  formas 
de  adjectivação  rara  ou  imprevista,  que  creou  emfim  um 
mais  rico  instrumento  de  expressão,  influía  poderosamente 
nos  escritores  da  sua  época  e  nos  que  lhe  sucederam.  Essa 
evolução  no  processo  formal  não  se  deu  porém  rapida- 
mente e  sem  esforço;  foi  lenta  e  dolorosa  para  ele;  e  por 
isso  mesmo  ficava  surprehendido  vendo  como  os  novos  tão 
cedo  escreviam  tão  bem,  com  tão  visível  facilidade.  Não 
attríbuia  esse  facto  á  sua  influencia,  não  via  que  os  novos, 
taes  quaes  são,  só  poderam  existir  após  ele. 

Evidentemente  com  Eça  de  Queiroz  a  língua  portugueza 
não  é  o  que  havia  sido  com  os  clássicos  e  com  os  românti- 
cos; e  esse  facto  a  ele  principalmente  se  deve  attribuir. 
Reconheçamos,  pois,  o  esforço  do  homem,  a  sua  sede  de 
perfeição  nunca  desmentida  e  os  resultados  obtidos,  con- 


318 


frontando  os  seus  primeiros  escritos  com  os  últimos,  os  es- 
critores de  hoje  com  os  de  trinta  annos  antes.  E  ainda  quan- 
da  muito  de  francez  tenha  aí  ficado,  crime  de  que  ninguém 
julgava  isento  o  Garrett,  sem  duvida  alguma  o  mais  inte- 
ressante dos  literatos  precursores  de  Eça  de  Queiroz,  certa 
é  que  este  gerou  uma  grande  corrente  de  movimento  esti- 
lístico, uma  procura  de  formas  novas,  facto  de  não  pequena 
e  vulgar  importância. 

Quero  crer  que  se  essa  influencia  foi  má,  se  na  evolução 
produzida  sob  um  tal  impulso  a  lingua  se  desnacionalisa  pro- 
fundamente, ela  jamais  produzirá  as  chinezices  dos  aman- 
tes do  classicismo,  os  preciosismos  arrebicados  e  subtis  de 
uma  literatura  sem  idéas  próprias,  sem  vida  e  até  sem  o 
interesse  de  outros  tempos.  Porque  Queiroz,  sejam  quaes 
fossem  os  seus  defeitos,  tinha  na  frase  de  J.  Batalha  Reis, 
um  poder  de  crear  vida  absolutamente  desconhecido  antes 
de  ele,  principalmente  se  atentarmos  na  diversidade  e  gra- 
dação dos  seus  efeitos  expressivos. 

Este  facto  de  evolução  no  processo  que,  como  não  podia 
deixar  de  ser,  acompanhou  a  evolução  da  sua  concepção  ar- 
tística e  que  outros,  melhor  e  com  muito  mais  autoridade 
do  que  eu,  já  haviam  apontado,  tive  de  o  citar  para,  como 
sei,  explicar  a  obra  do  artista-escultor.  Este  toma,  para 
tema,  a  seguinte  frase  de  Queiroz,  a  qual  em  parte  define 
o  critério  da  sua  producção  após  o  período  romântico  das 
Prosas  barbaras: 

«Sobre  a  nudez  forte  da  verdade  o  manto  diáfano  da  fan- 
tasia.» 

Evidentemente  nem  esta,  nem  outra  qualquer  expressão 
concisa  pôde  concentrar  em  si  o  conjunto  e  completa  evo- 
lução da  obra  do  romancista ;  e  sobretudo  afigura-se-me 
que  o  escultor,  na  sua  conceção,  de  facto  superior  e  íncon- 


319 


testavelmente  pessoal,  não  simbolisou  rigorosamente  o  que 
o  tema  encerra  em  si. 

Sem  por  forma  alguma  querer  saber  se  tal  devia  ser  ou 
não  devia  ser  a  representação  simbólica  da  obra  de  Quei- 
roz, encarando  apenas  a  obra  do  escultor  tal  qual  ele  a  dá, 
julgo  que  o  tema  indicado  só  seria  bem  traduzido  pela  Ver- 
dade revestida  ou  vista  através  da  forma  creada  pelo  es- 
critor, isto  é  :  o  facto  real  (que  é  o  que  ali  quer  dizer  Ver- 
dade) coado  através  do  temperamento  do  artista,  que  se 
filiara  na  escola  realista  chamada,  e  portanto  como  ele  o 
Via  sob  o  império  da  sua  comoção  estética. 

Parece-me  porem  que  tal  não  é  a  expressão  artística  en- 
contrada pelo  escultor.  Vejo  ali  apenas  a  Verdade  simbo- 
lisada  por  uma  mulher  de  formas  adoráveis,  sadias  e  fortes; 
de  uma  euritmia  perfeita,  como  dirão  os  críticos,  o  busto 
puro  não  deformado  pelo  espartilho,  com  uma  cabeça  um 
tanto  grande,  a  expressão  do  rosto  aberta  e  encantadora, 
quasi  completamente  nua  mas  de  uma  castidade  indiscutí- 
vel, ela  sorri  docemente  para  o  escritor  e  deixa  cair,  dos 
braços  abertos,  as  roupagens  que  a  cobrem.  Superiormente 
a  ela,  o  artista  profundamente  concentrado  fita-a  com  a 
máxima  persistência. 

Mas  essa  Verdade  julgo-a  ainda  não  expressa,  mas  sim- 
plesmente observada  peio  escritor :  ainda  não  tem  os  con- 
tornos, o  ritmo  das  curvas  alteradas  pela  sua  visão  esté- 
tica ;  está  ainda  fora  dele,  não  tocada  da  graça  helénica 
que  eu  sinto  atravessar  toda  a  obra  de  Queiroz.  O  monu- 
mento para  mim  traduz,  pois,  o  instante  em  que  o  roman- 
cista encara  de  frente  a  Verdade,  forte  e  bela  em  si  mesma, 
que  lhe  sorri  e  o  escolhe  para  ele  a  revelar  em  toda  a  nu- 
dez ao  mundo  da  arte.  E  se  é  como  penso,  sem  a  menor 
preocupação  de  fazer  uma  critica  que  vise  a  achar  contra- 
dicções,  porque  mais  de  uma  Vez  tenho  encontrado,  até 


320 


fora  do  campo  artístico,  essa  ilusão  do  génio  productor, 
ponho  completamente  de  parte  o  tema  que  nos  induz  em 
erro,  não  me  preocupo  com  o  assunto  e  vejo  apenas  a  obra 
do  escultor  ;  e  essa,  forçoso  é  confessá-lo,  é  superiormente 
bela  e  sugestiva,  independentemente  do  seu  pretendido 
tema. 

Do  bloco  de  mármore,  da  sua  base,  levanta-se  a  figura 
da  mulher  e  o  busto  olha-a  de  cima  para  baixo;  a  estatua 
é,  como  dissemos,  admirável  de  modelação  e  de  expressão; 
não  lhe  fica,  porém,  inferior  o  busto  do  romancista.  Numa 
semelhança  fisionómica  notável,  a  fronte  e  as  faces  do 
rosto  aparecem-nos  vincadas  pela  mais  intensa  concentra- 
ção. O  escultor  apaixonára-se  pela  estranha  cabeça  do  ro- 
mancista, pela  multiplicidade  dos  seus  planos  onde  nada  é 
vulgar;  onde,  pelo  contrario,  a  intensa  vibração  do  cérebro 
raro  serenamente  se  condensa  em  linhas  de  excecional  tor- 
tura, mas  que,  ao  mesmo  tempo,  se  fundem  numa  homoge- 
neidade, ou  harmonia  completa.  Vira-o  porem  encerrado  em 
si  mesmo,  na  mais  absoluta  contemplação,  como  que  esque- 
cido da  própria  personalidade,  de  absorvido  que  está  na  vi- 
são da  vida  real. 

Nada  mais  contém  o  monumento.  Não  assenta  em  subs- 
tructuras  arquitectorais,  sem  significação  simbólica  para 
representar  a  obra  do  romancista.  Procura  forma  na  ausên- 
cia de  formas  anteriores,  e  acha-se  pago  de  sobejo  pela 
nota  fortemente  pessoal  que  marca  a  conceção  da  figura 
alegórica  da  mulher  e  pela  superior  execução  do  busto  e  do 
monumento  em  geral. 

Eu  não  sei,  nem  quero  saber  se  a  conceção  obedece  ás 
regras  geraes  da  contrucção  dos  monumentos;  sei  só  que 
é  nova,  que  é  pessoal  e  que  é  superiormente  bela.  Não  é 
arte  de  receitas. 

Felizmente. 


321 


E  nào  se  me  dava,  por  varias  razões,  de  ter  a  sorte  rara 
do  feliz  proprietário  do  palácio  que  foi  do  conde  de  Farro- 
bo  :  para  todas  as  manhãs,  ao  levantar  da  cama,  cançado 
das  mentiras  inestéticas  da  véspera,  dizer  com  os  meus  bo- 
tões: —  Vamos  lá  ver  a  Verdade  e  o  Eça  que  se  estão  a  na- 
morar esteticamente  ali  por  debaixo  da  palmeira. 

Entretanto  surge  no  meu  espirito  uma  necessidade  de 
maior  vegetação  em  redor  do  monumento,  mas  sobretudo 
de  vegetação  propriamente  nossa.  Queiroz  dá-nos  na  sua 
obra  a  sociedade  portugueza  sua  contemporânea  do  sul  do 
paiz,  como  Camillo  nos  faz  vêr  a  do  norte.  Que  a  verdade 
pois  irrompa  do  seio  de  um  jardim  portuguez,  gracioso  e 
elegante,  de  um  massiço  de  verdura  nossa,  de  flores  nos- 
sas, entre  as  quais  esse  feixe  de  palmeiras,  que  tão  bem  se 
acclimam  para  áquem  do  Mondego,  tem  o  seu  logar  pró- 
prio. Mas  que  irrompa  das  profundezas  da  nossa  natureza 
que  Eça  tão  profundamente  sentiu  e  descreveu. 


Terminada  a  serie  dos  meus  artigos,  a  que  atrás  me  re- 
firo e  de  que  mais  tarde  deverei  ainda  extractar  uma  pe- 
quena parte,  enviei-os  ao  sr.  Jaime  Batalha  Reis,  por  saber 
de  antemão  que  o  interessaria  a  polemica  travada  em  Lis- 
boa, a  ele  que  tantas  vezes  se  havia  batido  por  artistas  di- 
gnos da  sua  admiração  :  Eça  de  Queiroz,  Columbano,  O. 
Martins,  Teixeira  Lopes  ;  e  fui  gentilmente  recompensado 
pela  carta  que  ele  me  dirigiu  e  veio  publicada  a  20  de  junho 
de  1904  na  Revista  do  Século.  Nessa  bela  carta,  depois  de 
citar  a  conversa  que  teve  em  Paris  com  um  intendedor  de 
cousas  de  arte  que  achava  seu  geitinho  em  Teixeira  Lopes, 
até  ao  ponto  de  esperar  fazer  dele  alguma  cousa,  embora 
reconhecesse  que  o  escultor  não  começara  bem,  dando  o 
Caim,  um  aleijado  e  um  vesgo,  e  a  Viuva,  uma  creatura 

■Ç.L   DK  4USt30Z  21 


322 


vulgar,  ordinária  e  sem  nobreza;  e  depois  de  manifestar  a 
sua  tristeza  por  ter  julgado  que  agora  os  Conselheiros  Acá- 
cias, os  grandes  Pachccos,  os  Steinbrockeiis,  os  Basilios,  os- 
viscondes  Reinaldos,  os  Cohens  e  mais  personagens  da  ri- 
quíssima comedia  de  Eça  de  Queiroz  lhe  louvavam  o  estila 
e  o  recomendavam,  se  comoviam  com  a  vida  poderosa  e 
completa  das  suas  creações,  reconheciam  a  sua  originali- 
dade e  distincção,  a  ironia  transcendente,  ou  a  permanente- 
delicadeza  de  observação,  a  finura  e  a  gradação  das  meias 
tintas,  que  admiravam  finalmente  com  entusiasmo  e  como- 
ção as  obras  do  grande  romancista,  acrescenta  : 

«Mas  logo  verifiquei  que  os  meus  queridos  artistas  con- 
tinuavam a  estar  incompreendidos ;  que  os  inovadores  de 
ha  37,  de|ha  29,  de  ha  19  e  de  ha  14  anos  podiam  ainda  hoje 
considerar-se  revolucionários ;  que  a  luta  tinha  de  conti- 
nuar, —  d'esta  vez  contra  os  sempre  antigos,  mas  também 
contra  os  recemchegados ;  —  e  senti-me  novo,  e  forte,  e 
despreocupado,  como  nos  tempos  em  que,  para  mim,  o  Por- 
tugal intellectual  principalmente  se  continha  nas  improvi- 
sações, nas  discussões  enciclopédicas,  alegres,  imprevistas 
e  esperançosas  com  o  João  de  Deus,  o  Anthero  de  Quen- 
tal, o  Eça  de  Queiroz,  o  Oliveira  Martins,  o  Lobo  de 
Moura. . .  e  alguns  outros,  —  poucos  mais,  —  semelhantes 
libertinos  e  bandidos. 

<'Soube  por  exemplo,  com  intensa  alegria,  que  os  modelos 
apresentados  por  Teixeira  Lopes,  em  concursos  oficiaes, 
para  monumentos  a  grandes  homens  portuguezes,  haviam. 
sido  regeitados  ;. . .  que  muitos  dos  nossos  mais  respeita- 
dos criticos  lhe  acham  pouca  imaginação,  o  declaram  sim- 
ples «santeiro»,  «canteiro»  banal,  classificam  de  ordinária 
e  insignificante  a  figura  do  tumulo  de  Oliveira  Martins,  e 
acusam  de  indecorosa  a  estatua  do  largo  do  Quintela. 

«Sobre  o  Eça  de  Queiroz  li,  encantado,  as  velhas  acusa- 


323 


ções :  que  não  sabia  portuguez,  que  é  um  desconhecido, 
qiie  nada  ha  digno  de  menção  nos  seus  primeiros  contos 
fantásticos,  que  os  seus  romances  são  inteiramente  porno- 
gráficos... 

E  fiquei  felicissimo.» 


Seguidamente  passa  a  descrever  e  a  apreciar  a  figura 
modelada  por  Teixeira  Lopes  para  o  tumulo  de  Oliveira 
Martins,  que  considera  uma  das  mais  comovedoras  '■^dentre 
todas  as  obras  de  escultura  moderna»,  que  conhece  e  termi- 
nando pela  critica  ao  monumento  de  Eça  de  Queiroz,  cujas 
«formas  como  formas»  lhe  parecem  mais  dif iceis  de  expres- 
sar do  que  a  anterior.  E  escreve  : 

«Um  alto  rochedo  de  mármore  branco  parece  sair  da  ter- 
ra, ir,  insensivelmente,  tomando  formas  orgânicas,  e  pira- 
midando  para  o  Ceo.  As  linhas  de  direcção  das  massas, 
rugas  longitudinais,  todas  predominantemente  no  mesmo 
sentido,  vão  como  que  subindo  curvas  e  alastradas  perto 
do  terreno,  de  cuja  horizontalidade  se  soltam,  —  conver- 
gentes depois  para  um  centro  superior,  alargando-se  um 
momento  em  dois  largos  movimentos  lateraes,  que  formam 
um  cruzamento  obliquo,  sem  que  as  massas  centraes  dei- 
xem de  continuar  a  evolução  ascensional.  Na  base  a  rocha 
amacia-se,  amarrota-se  em  panejamentos,  e,  mais  acima, 
organisa-se,  espiritualisa-se,  nas  formas  d'uma  forte  mulher 
núa,  e  no  busto,  de  cabeça  triste  e  severa,  que  atentamente 
se  inclina  para  a  olhar. 

«Duas  cousas  eu  preferiria  talvez  diferentes  n'este  con- 
junto de  formas : 

<  Prefiriria  que  o  manto  tivesse  caido  completamente  do 
braço  direito  e  não  parasse,  á  mesma  altura  dos  dois  bra- 
ços, formando  um  semi-circulo  simétrico  a  meia  altura  do 


324 


grupamento  (1).  Prefiriria  que  a  rocha,  nos  pontos  em  que 
ainda  se  mostra  rocha,  parecesse  estar  incorporada  na  pe- 
dreira natural,  —  e  não  já  toda  ela  picada  pelo  escopro  do 
canteiro. 

<Mas  quando  catástrofes  históricas  e  naturaes  arrasa- 
ram Lisboa,  os  trechos  das  pregas  d'esses  panejamentos,  e 
d'es8e  corpo  de  mulher,  serão,  julgo  eu,  adorados  nos  mu- 
seus de  então,  como  o  são,  nos  museus  de  hoje,  os  fragmen- 
tos esboroados  dos  escultores  gregos. 

<  Consideremos,  por  ultimo,  o  assunto  literário  : 

<E'  esta  figura  a  melhor  representação  da  «Verdade»? 
<£'  a  contemplação  e  a  realísação  da  Verdade  a  melhor 
síntese  da  obra  de  Eça  de  Queiroz  ? 

<  Não  poderá  jamais  uma  obra  d'arte  completamente  sin- 
tetisar  a  obra  intellectual  e  sentimental  d'um  grande  escri- 
tor. Pôde  um  monumento,  quando  muito,  sugerir,  cele- 
brar, fixar,  vagamente,  um  lado,  uma  feição,  um  momento 
do  seu  génio.  Mil  realisações  formaes  representarão,  todas 
ellas,  com  egual  propriedade,  o  espirito  e  o  trabalho  com- 
plexo d'um  grande  escritor.  Nada  mais  fácil  que  provar, 
dada  uma  formula  de  simbolisação  qualquer,  que  ^550  não 
é,  de  modo  nenhum,  a  mais  adequada.  E  será,  quanto  a  mim, 
desconhecer  os  limites  de  expressão  das  artes  da  fornia  e 
côr,  o  não  vêr  que,  aparte  certos  símbolos  muito  biografi- 


(1)  E'  tanto  mais  para  notar  esta  observação  do  Sr.  Batalha  Reis> 
quanto  é  certo  que  estando  eu  um  dia  a  discutir  a  obra  de  Donatello  com 
Teixeira  Lopes,  este  a  fizera  também  relativamente  á  estatua  do  Poggio 
que  se  encontra  na  catedral  de  Florença,  e  cujos  panejamentos  se  do- 
bram em  pregas  caídas  dos  dois  lados  do  corpo  e  á  altura  dos  joelhos. 
O  nosso  escultor  condenava  essa  mesma  simetria  que  vamos  encontrar 
na  l'erdade  do  seu  monumento  a  Eça  de  Queiroz,  o  que  me  leva  a  crer 
que  o  fez  muito  intencionalmente,  depois  de  ter  porventura  tentado  um 
outro  arranjo  e  de  o  ter  condenado. 


325 


cos,  todos  os  monumentos  podem  servir  para  todos  os  ho- 
mens. 

<A  retórica  da  alegoria  adotada,  — e,  porventura,  as  opi- 
niões ponderosas  do  Conselheiro  Acácio,  que  é  hoje,  como 
se  tem  visto,  um  dos  mais  zelosos  admiradores  de  Eça  de 
Queiroz,  —  levaram  Teixeira  Lopes  a  dar  á  cabeça  do  iró- 
nico escritor,  uma  gravidade,  uma  severidade,  que  eu  nunca 
lhe  conheci. 

«Eis  por  que  prefiro  o  busto  primitivo,  espirituoso,  iró- 
nico, e,  ao  mesmo  tempo,  dolorosamente  dramático  que  eu 
vi  em  gesso,  e  que  Teixeira  Lopes  destinava  para  o  monu- 
mento.» 


Em  Janeiro  do  mesmo  ano  de  1904  defendia  eu,  porem,  a 
respeito  desse  promenor  um  modo  de  vêr  diferente.  Dizia 
que  Eça  de  Queiroz  tinha  o  habito  de  andar,  de  se  sentar, 
de  se  fotografar  numa  quasi  única  atitude,  um  pouco  incli- 
nado para  a  frente  e  olhando  para  baixo  ;  assim  o  vejo  no 
grupo  fotográfico' dos  Vencidos  da  Vida,  na  pagina  interes- 
sante que  Raphael  Bordalo  Pinheiro  lhe  consagrou  no  Álbum 
das  Glorias,  em  muitos  outros  casos ;  assim  também  o  vi, 
quer  na  rua,  quer  em  casa,  e  ainda  assim  o  viu  o  escultor. 
Eça  tinha,  contudo,  um  rictus  irónico,  que  imprimia  cara- 
cter á  sua  fisionomia  e  que  este  não  reproduziu  ;  quero 
crer  que  lhe  sobejasse  razão  para  isso,  que  no  momento 
de  contemplação  calma  e  profunda,  de  máxima  concentra- 
ção, todo  o  esforço  se  fixe  no  cérebro,  imobilisando-se  os 
músculos  da  face.  O  busto  de  Teixeira  Lopes  dar-nos-ia, 
pois,  a  expressão  fisionómica  do  observador-artista  no  mo- 
mento em  que  a  visão  dos  casos  da  Vida  o  absorvia  com- 
pletamente, e  será  uma  sincera  expressão  de  elevado  valor 
psicológico.  Quem  direito  tem  a  apreciar  o  facto,  afirmou- 


326 


me  que  o  busto  é  o  retrato  mais  fiel  que  existe  do  Eça  de 
Queiroz  (1). 

Pareceu-me  porem  que  devia  ainda  discutir  a  falta  de 
convencionalismos  arquitectónicos  no  monumento  e  a  sua 
situação  no  largo  Quintela.  Afirmava  eu,  como  hoje  afir- 
mo, que  não  concebo  Eça  de  Queiroz  assente  era  arquite- 
cturas de  épocas  passadas  ;  e  como  a  não  haja  nova,  a  não 
ser  a  do  ferro  que  lhe  não  é  aplicável,  vejo-o  mais  comple- 
tamente sem  nenhuma.  A  sua  obra  é  por  via  de  regra  con- 
siderada pouco  estructural,  como  o  é  quasi  sempre  a  obra 
dos  portuguezes  cuja  imaginativa  constructiva  peca  por  de. 
feito.  Somente,  de  essa  inferioridade,  se  assim  quizerem 
charaar-lhe,  resulta  no  Eça  um  encanto  próprio  que  veio 
ajuntar-se  ao  do  seu  sonho  de  uma  intensidade  indiscutí- 
vel :  o  vago  acentua-se,  amplifica-se. 

Dada  porem  a  expressão  desse  sonho,  o  monumento  de 
Teixeira  Lopes  afigura-se-me  mal  instalado  no  local  onde 
o  poseram  ;  falta-Ihe  ali  a  atmosfera  juvenil,  a  amplitude, 
o  enquadramento  vago  que  a  natureza  do  seu  sonho  de  arte 
reclama.  Depois  não  é  possível  observá-lo  longamente.  Nin- 
guém pôde  sentar-se  em  frente  do  grupo  para  o  contem- 
plar, ali,  no  sitio  onde  ele  está.  Suponho  porem  que  a  es- 
colha do  local  obedeceu  a  um  sentimento  louvável :  —  o  de 
que  muitos  vissem  a  obra  glorificadora.  Mas  houve  nisso 
ura  engano.  Na  rua  do  Alecrira  toda  a  gente  passa  no  elé- 
ctrico, cora  rapidez  nada  estética,  embora  muito  confor- 
tável ;  e  custa  a  deixar  a  excelente  carruagem  para  estar 
muito  tempo  de  pé,  ao  sol,  a  contemplar  o  monumento. 
Além  disso,  o  largo  do  Quintela  tem  um  aspecto  pesado  e 


(li  Conta-se  que  um  velho  creado  de  Eça  de  Queiroz  declarara  que  o 
seuretrato,  no  monumento,  estava  muito  bom,  mas  que  o  da  setihora  nem 
por  is3o 


327 


"duro  ;  a  palmeira  é  de  uma  rijidez  metálica  ;  os  altos  pré- 
dios apertam  o  horisonte  numa  moldura  de  durezas  antipá- 
ticas. O  monumento  requer  pois  outro  local,  a  meu  vêr. 

Em  Paris  destinou-se  o  gracioso  Pare  Monceau  a  monu- 
mentos de  artistas  cujas  obras  tem  um  cunho  de  acentuada 
elegância.  Já  lá  está  Guy  de  Maupassant  e  parece  que  em 
breve  lá  estarão  também  representados  Corot,  Chopin, 
Bizet  e  Qounod.  Em  Lisboa  ha,  penso  eu,  um  jardim  que 
Teune  qualidades  da  mesma  natureza  do  parque  parisiense, 
se  bem  que  em  grau  superior,  o  do  Príncipe  Real  (hoje  do 
Rio  de  Janeiro).  Ali  gostaria  eu  de  vêr,  de  um  lado,  o  mo- 
numento de  Queiroz  encostado  a  uma  forte  espessura  de 
arbustos  que  lhe  tapasse  o  fundo,  de  arbustos  bem  nossos ; 
nessa  atmosfera  o  monumento  adquiriria  uma  muito  maior 
irradiação  luminosa  de  sonho,  de  graça  e  de  formosura.  E, 
de  outro  lado,  seria  para  desejar  uma  obra  erguida  á  memo- 
ria de  Camilo,  aquele  a  quem  todos  comparam  o  Eça,  de 
quem  todos  se  lembram  quando  se  fala  do  Eça.  Assim  fi- 
cariam no  mesmo  jardim  os  dois  romancistas  que  mais  in- 
tensamente interpretaram  a  sociedade  portuguesa:  Camilo, 
que  deu  a  do  norte,  Eça  a  do  sul  do  paiz.  Na  antiga  Patriar- 
cal, além  disso,  ha  bancos  para  os  estetas  se  sentarem  á 
■sombra  das  arvores  protectoras,  e  as  casas  não  nos  afe- 
ctam, não  nos  interceptam  a  vista ;  para  cima  de  nós  ha 
apenas  o  ceu,  o  ar,  a  luz,  e  as  ruas  de  acesso  descem  de 
todos  os  lados  (1). 

Esta  minha  idea,  em  que  naturalmente  ninguém  atentou, 
•correspondia  porém  a  uma  outra  necessidade  de  ordem  es- 


(1)  Segundo  me  consta  alguém  propoz  recentemente,  num  jornal  de 
Lisboa,  que  se  transferisse  o  monumento  do  largo  do  Quintela  para  o 
Jardim  da  Estrela.  Salvo  erro,  parece-me  que  Isso  corresponderia  a  lun 
enterro  de  1*  classe. 

O  Jardim  da  Estrela  I ! . . . 


328 


tética.  Teixeira  Lopes  nào  se  impoz  como  devia,  coin  o  seu 
alto  valor  artístico,  para  obter  melhores  adaptações  das 
suas  estatuas,  quer  no  monumento  do  Eça,  quer  no  do  Oli- 
veira Martins,  dos  Prazeres,  Contentou-se  com  modestos 
materiais,  na  sua  nobre  ambição  de  exprimir  a  profunda 
admiração  que  sentia  por  esses  dois  ilustres  portuguezes  ; 
aceitou  tudo  e  não  impoz  o  emprego  de  instalações  gran- 
diosas, dignas  dele.  Assim,  no  monumento  de  Eça,  com- 
posto de  pedras  sobrepostas  e  não  de  um  só  bloco,  desta- 
cam-se  violentamente  as  juntas  horisontais  feitas  a  cimento 
que  vai  enegrecendo  com  o  tempo.  O  meu  desejo  era  pois 
que  se  esculpisse  novamente  o  monumento  num  grande 
bloco,  muito  mais  espesso  do  que  o  actual,  sem  juntas  al- 
gumas; ou  que  busto  e  estatua  da  Verdade,  feitos  em  már- 
more de  Garrara,  irrompessem  de  um  grande  bloco  de  ou-^ 
tro  mármore  mais  escuro. 

Era  esse  o  monumento  que,  quanto  a  mim,  melhor  fica- 
ria colocado  no  jardim  do  Rio  de  Janeiro ;  e,  ao  do  largo  do 
Quintela,  dar-se-ia  um  belo  destino  :  A'  maneira  do  que  os 
francezes  fizeram  com  a  estatua  da  Vitoria  de  Samotracia, 
ficaria  encostado  á  parede  do  museu  das  Janelas  Verdes, 
no  primeiro  patamar  da  escadaria  de  entrada.  Se  tal  pro- 
jecto se  realisasse,  tornava-se,  ao  mesmo  tempo,  urgenie 
pensar  no  monumento  a  Camilo  Castelo  Branco.  E  assim 
sucedeu,  caso  que  me  causou  o  prazer  de  que  talvez  nem- 
tudo  se  perdesse  de  quanto  escrevi  a  este  respeito.  Por- 
que, passado  tempo,  organisou-se  uma  comissão  para  tra- 
tar de  erigir  uma  estatua  a  Camilo,  estatua  que  nunca  viu 
a  luz  do  sol ;  e  depois  de  muita  discussão  em  que  eu  não 
tomei  parte,  não  sendo  vogal  da  referida  comissão,  foi  es- 
colhido—por  «/z/7/z//n/úfGí/í— para  escultor  dessa  obra,  An*- 
tonio  Teixeira  Lopes,  autor  dos  monumentos  de  Eça  de 
Queiroz  e  Oliveira  Martins. 


329 


E  lambem  votou  o  falecido  Barbosa  Colen,  um  dos  mais 
violentos  adversários  do  artista,  apesar  de  dolorosamente 
surpreendido  por  não  se  haver  ainda  pensado  no  Hercula- 
no, Garrett  e  Castilho  —  em  matéria  de  monumentos  —  e 
passar-se  directamente  de  Camões  para  Eça  de  Queiroz, 
ali  a  dois  passos  um  do  outro,  dizia  ele. 

Agora  deram  em  apedrejar  o  monumento  do  largo  do 
Quintela.  Já  quebraram  os  dedos  da  mão  direita  á  estatua 
da  Verdade ;  concertaram-nos  depois,  mas  voltaram  a  que- 
brá-los. Ficarão  por  aí  ?. . . 

Outubro  de  1919. 

António  .^rroyo.. 


Nos  meus  tempos  de  rapaz 


Já  lá  vão  uns  bons  trinta  anos;  um  grupo  de  rapazes  en- 
tretinhamo-nos,  nas  horas  sobejas  dos  trabalhos  escolares, 
em  trocar  impressões  acerca  das  produções  literárias,  que 
enfeitavam  os  mostradores  das  livrarias,  aguçando-nos  o 
apetite  e  levando-nos,  quasi  sempre,  os  parcos  cobres  das 
bolsas  pouco  providas.  No  grupo,  não  muito  numeroso, 
-constituído  espontaneamente  pela  simpatia  de  indivíduos 
que,  embora  de  tendências  estéticas  diferentes,  tinham  como 
laço  comum  a  paixão  pelas  letras,  havia  de  tudo  quanto  pe- 
regrava  no  meio  académico  d'então ;  o  Luis  Serra,  o  João 
Climaco  e  o  Calado  Nunes,  poetas;  o  Lemos  de  Nápoles, 
apaixonado  pelas  artes  plásticas  e  critico  acerado  das  ex- 
posições de  pintura;  o  Caldas  Cordeiro  e  quem  estas  linhas 
escreve,  incapazes  um  e  outro  de  perpetrarmos  o  mais  pe- 
queno atentado  em  verso,  mas  apaixonados  pela  prosa  que 
devorávamos  numa  ânsia  insaciável  do  conhecimento  dos 
bons  mestres. 

Reuniamo-nos  onde  calhava ;  nas  nossas  escolas,  nos  jar- 
dins, nas  casas  de  cada  ura  de  nós,  mas  nunca  nos  cafés,  de 


331 


cujos  frequentadores  desdenhávamos,  embora  já  por  essa 
época  o  Fialho  de  Almeida,  aquém  todos  liamos  e  admirá- 
vamos, pontificasse  no  Martinho.  E  o  nosso  desdém  dos  ca- 
fés provinha  do  facto  de  haver  saído  duma  das  bancas  do 
Martinho  a  baboseira,  que  chegou  a  ter  foros  de  cidade,  de 
<]ue  Eça  de  Queiroz,  no  Crime  do  Padre  Amaro,  não  tivera 
mais  trabalho  do  que  traduzir,  nem  sempre  com  felicidade, 
Lafaute  de  l'abbé  Mouret  de  Zoia,  depois  de  aí  também  se 
proclamar  que  Camões  era  uma  gloria  nacional  que  se  acre- 
ditava por  fé,  visto  ninguém  que  se  prezasse  de  bom  gosto 
litterario,  ler  similhante  maçador! 

Ora  no  reduzido  grupo  a  que  eu  pertencia,  encontra- 
vam-se  admiradores  entusiastas  de  Eça  de  Queiroz,  capa- 
zes de  desagravarem  o  bom  nome  literário  do  que  eles  con- 
sideravam o  mais  alto  representante  da  novelística  portu- 
guesa do  tempo.  D'aí  a  nossa  aversão  quasi  religiosa  pelos 
cafés  e  seus  frequentadores,  que  ousavam  abocanhar,  a 
nossos  olhos  sacrilegamente,  o  estilista  inimitável,  o  psicó- 
logo profundo,  o  castigador  cáustico  e  justo  duma  socie- 
dade em  decomposição,  como  aquela  retratada  e  impereci- 
velmente  fixada  nas  paginas  do  Crime  do  Padre  Amaro  e  do 
Primo  Basilio,  as  duas  novelas  de  Eça,  ao  tempo  publica- 
das. 

Eça  foi,  pois,  o  mestre  dilecto  d'aquele  punhado  de  ra- 
pazes, que,  á  excepção  de  dois,  se  encontram  já  no  numero 
dos  idos  d'esta  vida.  E  com  que  carinho,  com  que  amor 
liamos  as  paginas  inimitáveis  do  grande  artista,  embora  um 
ou  outro  mais  gramaticão  se  arripiasse  ás  vezes  com  este 
ou  aquele  galicismo,  que  viesse  á  supuração  na  prosa  tão 
vivida,  tão  maleável  e  flexível  do  mestre!  Ha  impressões 
indeléveis  no  nosso  espirito,  que  nos  acompanham  forman- 
do o  quadro  que  restringe  o  campo  das  nossas  saudades 
mais  sentidas,  das  nossas  emoções  mais  fundas,  por  desper- 


332 


tadas  por  vibrações  do  sentimento  estético,  ainda  quando 
este  se  amarfanha  e  oblitera  por  a  nossa  actividade  mental 
haver  sido  atraída  para  outros  terrenos  menos  floridos  e 
variegados.  Impressões  tais  são  as  que,  ainda  hoje,  o  meu 
espirito  conserva  da  obra  de  Eça  de  Queiroz,  tão  frescas, 
tão  vivas,  como  se  acabassem  de  ser  gravadas  no  córtex 
cerebral.  E  é  por  isso  que,  ainda  hoje,  para  mim,  O  Prima 
Basílio  é  no  romance  português  uma  jóia  de  inestimável 
preço,  por  mais  estranho  que  o  caso  possa  parecer  àqueles 
que  não  conheceram  a  sociedade  aí  descrita  e  não  podem, 
portanto,  apreciar  a  justesa  e  a  finura  do  grande  artista  que 
tal  preciosidade  burilou. 

Para  mim,  de  toda  a  galeria  de  tipos  focados  por  Eça  de 
Queiroz  na  sociedade  do  seu  tempo,  nenhuns  ha  que  igua- 
lem, em  verdade,  Luisa,  a  simpática  vitima  duma  educação 
falsa  e  convencional,  arrastada  á  perdição  pela  lubricidade 
canalha  dum  primo  e  martirizada  pela  vesga  e  hedionda  Ju- 
liana, a  criada  rancorosa  e  mordida  de  inveja;  Sebastião, 
o  grande  Sebastiarrão,  a  alma  boa  e  generosa,  que  na  feli- 
cidade e  paz  alheias  encontra  a  máxima  alegria  para  o  seu 
espirito  fundamental  e  irreductivelmente  afectivo  :  o  Acá- 
cio, o  conselheiro,  o  ôco  empanturrado  da  sua  pessoa,  que 
ainda  agora,  embora  noutras  modalidades  e  com  outras 
vestimentas,  nos  atravanca  por  aí  a  toda  a  hora  o  caminho. 
Ha  quem  apode  de  imoral  O  Primo  Basilio,  bem  sei ;  mas 
esses  são  os  capadinhos  que,  ás  ocultas,  se  lambem  de  goso 
com  as  páginas  porcas  dos  romances  só  para  homens,  ou  se 
rebolam  em  ademanes  grotescos  e  efeminados,  que  estão  a 
pedir  desinfecção  ou  um  justiceiro  ponta-pé. 

Já  lá  vão  uns  bons  trinta  anos,  e  como  eu  desejaria  agora 
reviver  esses  belos  e  despreocupados  dias  d'então !  O  Cal- 
das Cordeiro,  levando  a  sua  admiração  por  Eça  e  Camilo  a 
ponto  de  subscrever  as  suas  prosas  com  o  pseudónimo  de 


333 


Camilo  Queiroz,  Luis  Serra  e  João  Climaco  procurando 
encontrar  a  mais  perfeita  e  a  mais  bela  forma  para  as  suas 
concepções  poéticas,  Calado  Nunes  sempre  embevecido  na 
sua  adoração  por  João  de  Deus  e  fazendo  nesjaças  aos  ami- 
gos com  os  primores  da  sua  alma  bondosíssima,  com  as  ma- 
ravilhas dos  seus  versos  só  de  poucos  conhecidos  e  com  os 
admiráveis  traços  do  seu  lápis  de  caricaturista  eximio,  Le- 
mos de  Nápoles,  sempre  de  lance  em  riste  contra  os  artis- 
tas da  velha  escola  e  preconizando  entusiasmado  as  organi- 
sações  artisticas  de  Carlos  Reis  e  Costa  Motta,  que  tão 
brilhantemente  lhe  confirmaram  os  vaticínios.  E  quem  pude- 
ra ainda  reviver  as  belas  horas  espirituais  que  Eça  de  Quei- 
roz nos  proporcionou  a  todos  nós,  tão  seus  admiradores, 
<]ue  nem  sequer  tínhamos  a  coragem  de  procurar  ser-lhe 
apresentados.  É  que  tínhamos  por  ele  tamanha  adoração, 
<íue  se  nos  afigurava  um  sacrilégio  o  nós,  pigmeus,  apro- 
ximarmo-nos  da  sua  personalidade  de  desmedida  grandeza. 


Agostinho  Fortes. 


o  espólio  de  Fradique 


Exactamente  quando  a  nova  geração  aflorava  dentre  as 
rendas  do  berço  é  que  Fradique  Mendes  se  deixou  morrer 
em  Paris  nesse  fatal  inverno  de  1888,  da  mesma  morte  que 
êle  e  César  foram  os  dois  a  apetecer  —  inopinatam  aique 
repentinam.  A  culpa  teve-a,  sem  querer,  o  velho  general 
Terran-d'Azy,  levando,  por  engano,  a  rica  pelissa  de  Fra- 
dique, ao  sair  duma  festa  em  casa  da  condessa  de  La  Ferté, 
companheira  de  Fradique  na  sua  celebrada  viagem  á  Islân- 
dia. O  que  veiu  a  suceder  depois  é  desgraçadamente  do  co- 
nhecimento de  todos. 

Posto  que  confortável  e  rica,  Fradique  sentiu  uma  repu- 
gnância invencível  ao  encontrar-se  no  vestiário  do  palácio 
La  Ferté  com  a  pelissa  duma  pessoa  que  sinceramente  de- 
testava sempre  pela  sua  rabugice  e  pelo  seu  catarro.  A 
noite  estava,  porém,  seca  e  límpida.  Sem  uma  hesitação, 
Fradique,  em  casaca,  preferiu  atravessar  a  pé  a  praça  da 
Concórdia.  Não  reparou  na  aragem,  que  corria  finíssima, 
—  uma  aragem  certamente  afiada  durante  léguas  e  légua?- 


Eça  de  Queiroz 

EM  NEUILLY,    vestido   DE   MANDARIM 


335 


ao  longo  das  planícies  do  norte  e  que  já  o  velho  André  Va- 
sali  comparava  a  um  punhal  traiçoeiro... 

Na  manhã  seguinte,  quando  o  seu  criado  Smith,  velho  es- 
cocês do  clan  dos  Macduffs,  ás  nove  horas  bem  batidas 
lhe  entrou  no  quarto,  gritando,  como  de  costume:— «Mor- 
ning,  Sir  !»,  Fradique,  despertando,  achou-se  tomado  duma 
tosse  impertinente,  ainda  que  leve.  Não  se  preocupou  muito 
Fradique,  seguro  da  sua  robustez  que  resistira  ás  incle- 
mências dos  mais  contraditórios  climas  do  mundo.  E  cum- 
prindo imperturbavelmente  o  seu  imperturbável  horário,, 
marchou  caminho  de  Fontainebleau,  instalado  no  alto  dum 
inail-coach,  e  atraído  pela  camaradagem  espirituosa  dalguns 
amigos.  A'  noite,  ao  recolher,  queixou-se  de  arripios.  Dois 
dias  passados,  Fradique  «tinha  vivido»,  —  como  costuma- 
vam dizer  os  antigos,  expirando  com  tanta  serenidade,  que 
Smith,  durante  minutos,  supôs  que  seu  amo  adormecera, 
simplesmente.  Ao  caracterizar  a  doença  — uma  forma  rarís- 
sima de  pleurisia,  o  dr.  Labert  não  se  conteve  que  não  ex- 
clamasse :  —  Toujours  de  la  chance,  ce  Fradique  l 

Debaixo  dum  ceu  cinzento  de  neve,  as  ruas  de  Paris  vi- 
ram atrás  dos  restos  de  Fradique  um  punhado  das  mais  glo- 
riosas figuras  da  França  nas  coisas  da  arte  e  do  bom-sa- 
ber.  Houve  quem  o  chorasse,  —  rostos  lindos  e  misérias 
ignoradas.  Porque,  Fradique,  apesar  de  scético,  gostava 
de  acudir  aos  males  humanos,  embora  envolto  em  cabaias 
de  seda.  Deixaram-no  tranquilamente  no  Père-Lachaise,  — 
informam-me  que  não  longe  da  sepultura  de  Balzac,  onde, 
todos  os  anos,  pela  Festa  dos  Mortos,  Fradique  mandava 
poisar  um  ramo  de  violetas  de  Parma,  em  lembrança  das  flo- 
res mais  amadas  pelo  grande  autor  de  La  Comédie  Hamaine ^ 
Por  sua  vez,  nunca  as  rosas  se  secam  sobre  o  bocado  de 
mármore  que  cobre  as  cinzas  de  Fradique. 

Não  se  apagaram  ainda  os  ecos  da  curiosidade  levan- 


336 


tada  á  volta  dos  seus  manuscritos.  Pensador  verdadei- 
ramente pessoal  e  forte,  —  como  o  definiu  na  Gazette  de 
France  esse  subtilissimo  psicólogo  que  se  escondia  sob  o 
pseudónimo  de  Alceste,  de  Fradique  quasi  se  poderia  dizer 
o  que  Dumas  Filho  dizia  a  Bourget  de  Flaubert :  —  «Foi 
um  gigante  que  deitou  ao  chão  uma  floresta,  para  fazer 
uma  boceta».  Impresso,  nada  mais  se  lhe  conhece,  rialmen- 
te,  do  que  as  Lapidarias,  publicadas  na  Revolução  de  Se- 
tembro, e  o  precioso  poemeto  Laus  Veneris  Tenebrosa,  apa- 
recido aí  pelos  fins  de  69,  ás  vésperas  da  Outra-Querra,  na 
Revue  de  Poêsie  et  d' Ari.  As  Lapidarias  marcavam  nas  in- 
fluências recebidas  a  transição  do  Victor  Hugo  da  Legende 
des  Siècles  para  o  Leconte  de  Lisle  dos  Poèmes  Barbares  et 
An  fiques.  Mordido  muito  de  perto  pelo  lirismo  rebelde  de 
Swimburne,  no  Laus  Veneris  Tenebrosce,  Fradique  Mendes 
sacrificaria  um  pouco  á  moda  esotérica  dos  cenáculos  que 
frequentava,  recordado,  sem  dúvida,  dos  Francisca  meoe  lau- 
des de  Baudelaire,  peça  curiosamente  trabalhada  em  estilo 
de  baixa-latinidade  e  dirigida  por  Baudelaire,  — «o  maganão 
das  Flores  do  mah,  —  na  frase  do  próprio  Fradique  — ,  «a 
uma  modista  erudita  e  devota».  Mas,  pequenos  desperdícios 
dum  dos  maiores  talentos  do  seu  tempo,  o  que  era  isso, 
afinal,  para  quem,  como  Fradique,  possuidor  duma  vasta 
e  compreensiva  inteligência,  dispunha  também  dos  maiores 
tesoiros  da  sensibilidade  e  do  requinte  ?  O  que  se  apurou 
na  roda  dos  seus  íntimos  é  que  Fradique  deixara  manuscri- 
tos. Eça  de  Queiroz  assevera-nos  com  uma  segurança  que 
pressupõe  quasi  palavra  de  honra,  que  na  casa  da  rua  de 
Varennes  os  entrevira  mais  duma  vez  adentro  dum  cofre 
espanhol  do  século  xv,  a  que  Fradique  chamava  com  dis- 
traído desdém  — a  «vala  comum».  Ora  no  seu  testamento 
Fradique  ordenou  terminantemente  que  os  misteriosos  ori- 
ginaes  do  cofre  se  entregassem  á  mesma  Libuska,  de  quem 


337 


tanto  falava  nas  suas  cartas  a  M.fne  de  Jouarre,  aponto  de 
que  no-la  tornou  uma  imagem  familiar  «com  os  seus  velu- 
dos brancos  de  Veneziana  e  os  seus  olhos  claros  de  Juno». 

Casada  com  um  diplomata  silencioso  e  vago,  que  mor- 
rera em  Paris  duma  anemia  vagarosa,  e  que  escrevia  capi- 
tene  (pertencera  na  Rússia  ás  Guardas-Imperiais)  em  vez 
de  capitaine,  Varia  Lobrinska  era  da  família  dos  príncipes  de 
Palidoff.  Tão  depressa  enviuvou,  Madame  Lobrinska,  ro- 
deada de  aias  e  de  crepes,  recolheu  aos  seus  domínios  de 
Starobelsk,  no  governo  de  Karkoff.  Voltou,  porém,  com  a 
flor  dos  castanheiros,  —  e  a  sua  risonha  e  luxuosa  viuvez 
nunca  mais  abandonou  Paris.  Andava  então  Fradique  preo- 
cupado com  o  estudo  das  literaturas  siavas,  perdido  de  todo 
com  a  beleza  dum  dos  seus  mais  antigos  poemas,  —  O  Jul- 
gamento de  Libuska,  que  se  descobrira  por  acaso  nos  arqui- 
vos do  castelo  de  Zelene-Hora.  No  salão  de  M.n^e  de  Jouar- 
re, M.me  Lobrinska  e  Fradique  travaram  relações.  Natural- 
mente, na  conversa,  houve  alusões  ao  poema.  Por  gentileza 
dos  condes  de  Colloredo,  seus  parentes  e  senhores  de  Zelene- 
Hora,  Madame  Lobrinska  estava  na  posse  duma  raríssima 
reprodução  das  duas  folhas  de  pergaminho  em  que  se  en- 
contrava essa  velha  epopeia.  Releram  ambos,  juntos,  o  texto 
heróico  na  oferta  preciosa  dos  condes  de  Colloredo.  E  um 
instante  veiu  —  não  sei  se  se  lembram  —  em  que,  como  os 
dois  amorosos  de  Dante,  «não  leram  mais  no  dia  todo»... 

Fradique  começou  a  tratar  Madame  Lobrinska  por  /./- 
biiska,  —  di  rainha  que  nos  aparece  no  Julgamento,  de  branco 
vestida,  como  Beatriz,  e  mais  resplandecente  do  que  a  pró- 
pria sabedoria.  Por  seu  lado.  Madame  Lobrinska  tratava 
por  Lúcifer  a  Fradique. 

Chegou,  entretanto,  o  novembro  funesto,  aquele  novem- 
bro funesto  em  que  Lúcifer,  ou  seja  Fradique  Mendes,  mor- 
reu, como  César,  de  morte  inopinatam  atque  repentinam.  E 


338 


com  solene  tristeza  Madame  Lobrinska  recolheu  de  novo 
ao  seu  senhorio  de  Starobelsk,  no  governo  de  Karkoff. 
Murmurou-se  por  Paris,  em  sorrisos  discretos,  que  a  filha 
dos  Palidoff  ia  chorar,  entre  o  silêncio  respeitoso  dos  seus 
nuijiks,  a  sua  segunda  viuvez,  —  «até  que  viessem  os  lila- 
zes. . .»  — acrescentava-se  com  malícia.  Mas  os  lilazes  vie- 
ram, vieram  outra  vez  as  flores  dos  castanheiros,  —  e  Ma- 
dame Lobrinska  não  voltou. 

Será  talvez  bom  recordar  que  o  marido  de  Madame  Lo- 
brinska arrastara  seis  anos  de  diplomacia  estagnada  no  Rio 
de  Janeiro,  esperando,  —  conta  Eça  de  Queiroz,  de  quem 
me  estou  socorrendo  como  autoridade  de  peso  para  o  pre- 
sente estudo  —  por  aquela  apetecida  legação  da  Europa 
que  o  príncipe  de  Gortchakoff,  Chanceler  do  Império,  afir- 
mava pertencer  a  Madame  Lobrinska  par  droit  de  beauté  et 
de  sagesse.  Essa  legação  nunca  chegou.  E  no  seu  longínquo 
exílio,  perfumado  duma  inexprimível  saudade  da  neve.  Ma- 
dame Lobrinska  decidiu  aprender  o  português.  Aprendeu-o 
t  io  saborosamente  que  Fradique  mostrou  a  Eçaumatradu- 
çIo''da  elegia  de  Lavoski,  — .4  colina  do  Adeus,  como  sendo 
un  mimo  de  pureza  e  de  estilo.  Pena  é  que  a  tradução  de 
Madame  Lobrinska  se  tivesse  extraviado,  porque  assim 
apreciaríamos  melhor  os  recursos  de  emoção  da  mulher  a 
quem,  por  extraordinária  homenagem,  Fradique  legou  a 
posse  dos  seus  manuscritos. 

Discute-se  o  que  fossem  os  manuscritos  de  Fradique. 
E;a,  apenas  começou  a  coleccionar-lhe  as  cartas,  dirigiu-se 
imediatamente  a  Madame  Lobrinska,  comunicando-lhe  o  seu 
grande  desejo  de  fixar  num  estudo  de  larga  e  carinhosa 
crítica  a  psicologia  excepcional  do  glorioso  amigo  morto. 
Solicitava  para  isso  o  romancista  dos  Maias  e  da  /lustre 
Casa  à  herdeira  enigmática  dos  papeis  de  Fradique,  se  não 
uns  excertos  dos  originais  acumulados  no  cofre  espanhol 


339 


do  século  XV,  «ao  menos  algumas  revelações  sobre  a  sua 
naturczav).  Madame  Lobrinska  respondeu  com  polidas  pala- 
vras que,  na  recusa  que  delicadamente  envolviam,  mostra- 
vam bem,  na  própria  expressão  de  Eça,  —  que  debaixo  dos 
claros  olhos  de  Juno  existia  uma  razão  claríssima  de  Mi- 
nerva. 

Em  letra  grossa  e  redonda,  numa  imensa  folha  de  papel 
de  linho,  onde,  por  sob  uma  coroa  de  oiro,  se  lia  a  oiro  a 
divisa  Per  terram  ad  ccelum,  a  Libuska  de  Fraá\qne-Lucifrr 
persistia  em  manter  o  mistério,  cada  vez  mais  denso,  eni 
que  jazia  o  espólio  literário  do  auctor  das  Lapidarias.  *<0s 
papeis  de  Carlos  Fradique  —  dizia  Madame  Lobrinska  na- 
quele mesmo  português  natural  e  doce  da  sua  tradução  da 
Colina  do  Adeus—,  tinham-lhe  sido  confiados,  a  ela  que 
vivia,  longe  da  publicidade  e  do  mundo  que  se  interessa  e 
lucra  na  publicidade,  com  o  intuito  de  que  para  sempre  con- 
servassem o  caracter  íntimo  e  secreto  em  que  tanto  tempo 
Fradique  os  mantivera  ;  e  n'estas  condições  o  revelar  a  sua 
natureza  seria  manifestamente  contrariar  o  recatado  e  altivo 
sentimento  que  dictara  esse  legado  ! . . .»  E  com  firmeza  ine- 
xorável assim  fechava  a  uma  curiosidade  piedosa  o  cofre 
espanhol  do  século  xv,  — a  interdita  •^vala-commum»  do  or- 
gulho de  Fradique,  a  esta  hora  desfeito  na  poeira  das  coisas 
sem  nome,  depois  do  assalto  dos  camponeses  de  Karkoff 
aos  domínios  de  Starobelsk. 

Perante  a  negativa  obstinada  de  Madame  Lobrinska,  vá- 
rias suposições  se  desenharam  entre  os  companheiros  de 
Fradique  acerca  do  que  se  conteria  dentro  desse  cofre, 
mantido  em  tão  severo  e  religioso  resguardo.  Aventavam 
alguns  de  que  se  tratava  de  dois  trabalhos  em  esboço,  a 
que  Fradique  aludia  com  frequência,  como  sendo  o  tema 
mais  cativante  para  a  sensibilidade  e  para  o  pensamento  da 
sua  época,  —  íerrivel  época  de  transição  ;  —  uma  Teoria  da 


340 


Vontade  e  uma  Psicologia  das  Religiões.  Teixeira  de  Azeve- 
do, porém,  — o  Teixeira  de  Azevedo  que  em  outros  tempos 
espavoria  os  cónegos  da  sua  visinhança  declamando  noite 
velha  a  Charogne  de  Baudelaire  — ,  cuidava,  ao  contrário 
de  muitos,  que  nos  papeis  de  Fradique  o  que  devia  existir 
era  um  romance  de  fortes  pinceladas  épicas,  ressuscitando 
um  tipo  de  civilisação  extinta,  conforme  o  modelo  de  Flau- 
bert  na  Salamnibô. 

Fundava-se  Teixeira  de  Azevedo,  para  a  sua  afirmação, 
numa  carta  de  Fradique  a  Oliveira  Martins,  aí  por  volta 
de  1880 :  —  «Que  dirá  você,  dilecto  Oliveira  Martins,  — 
confidenciava  então  o  poeta  bizarro  das  Lapidarias  — ,  se 
um  dia,  desprecavidamente,  no  seu  lar  receber  um  tomo 
meu,  impresso  com  solemnidade  e  começando  por  estas  li- 
nhas :  —  <'Era  em  Babylonia,  no  mez  de  Sivanú,  depois  da 
colheita  do  bálsamo?...»  Mais  senhor  áo  facto,  e  como 
Fradique  amando  os  grandes  espectáculos  cosmopolitas, 
com  a  retina  avezada  a  distinguir  dum  golpe  o  traço  que 
marca,  o  aspecto  que  caracteriza,  Ramalho  Ortigão  parti- 
cipava de  outro  parecer.  Só  Memorias  se  aferrolhariam  no 
cofre  espanhol  do  século  xv,  pela  singela  e  pronta  razão  de 
que  «só  a  Memorias  se  pôde  coherentemente  impor  a  con- 
dição de  permanecerem  secretas». 

Fosse  como  fosse,  eu  inclino-me  antes  para  a  opinião  de 
Eça  de  Queiroz.  Fradique  não  nos  deixou  nem  um  volume 
de  psicologia  nem  um  romance  epo-histórico.  E  muito  me- 
nos «Memórias»,  elucida  Eça—,  inexplicáveis  num  homem 
que  se  estonteava  no  amor  da  idéa  abstracta.  Neste  ponto 
discordo  eu  do  ilustre  editor  da  Correspondência  de  Fradi- 
que. Fradique,  para  mim,  não  se  estonteava  com  o  amor  da 
ídéa  abstracta.  Victima  como  a  sua  geração  do  conflito  en- 
tre a  ideologia  e  a  realidade,  Fradique,  se  o  tomarmos  como 
uma  figura-símbolo,  é  precisamente  como  Antero  um  for- 


341 


midavel  e  dolorosissimo  crucificado  mental.  Se  Antero,  pe- 
las exigências  duma  profunda  estrutura  católica,  se  lançou 
arrojadamente  na  «selva  oscura»  da  sua  noite  filosófica, 
Fradique,  reflectindo  hereditariedades  mais  antagónicas, 
decidiu-se  por  essa  espécie  de  renúncia  que  é  sempre  o  dan- 
dismo  da  inteligência  e  o  sibaritismo  da  sensibilidade. 

Fixemo-nos  num  detalhe  da  maior  importância  para  a 
ressurreição  psíquica  de  aquilo  que,  em  verdade,  signifi- 
cou Fradique  Mendes,  até  ao  dia  de  hoje  festejado  como 
um  dizedor  de  ironias  scintilantes,  mas  sem  dúvida  o  exem- 
plar mais  representativo  da  influência  do  chamado  "inaldii 
siècle^  na  sociedade  portuguesa,  contemporânea  da  Rege- 
neração. Quando  Eça,  pelo  braço  do  Vidigal,  visitou  Fra- 
dique no  antigo  Central,  ao  Cais  do  Sodré,  nos  aposentos 
do  varão  insigne  o  calor  desfolhava  um  ramo  de  rosas  so- 
bre volumes  de  Darwin  e  do  Padre  Manuel  Bernardes.  Ro- 
sas, Darwin  e  Manuel  Bernardes  :  —  o  encanto  das  flores 
e  o  encanto  do  estilo,  sorvido  como  um  perfume  breve, 
como  uma  luxúria  passageira;  ao  contato  de  dureza  feroz, 
brutalissima,  da  vida  sem  Deus,  a  geração  de  Fradique  pro- 
curava enganar-se,  inventando  ídolos  :  se  a  existência  se 
decompunha  como  a  Charogne  de  Baudelaire,  —  «Alors,  o 
ma  beauté . . . ^  ^— ,  procurássemos-lhe  ao  menos  o  hálito  em- 
briagante,  embora  efémero  e  mentiroso.  Darwin  pesava, 
na  sua  negação  feroz,  em  cima  dos  nervos  e  da  alma  duma 
mocidade  que  trazia  nas  suas  veias  a  inquietação  sagrada 
dos  grandes  avós  do  romantismo.  Antero,  porque  reagiu  e 
protestou,  suicidou-se,  por  fim,  sem  descobrir  a  fórmula  de 
conciliação  em  que  a  razão  e  o  sentimento  se  abraçassem 
embaladoramente.  Fradique,  mercê  de  circunstâncias  de 
que  investigaremos  os  motivos,  seguiu  por  caminhos  na 
aparência  diversos,  mas  os  mesmos  no  fundo  e  na  essên- 
cia. Optando  pelo  ^<aroma  dos  vasos  vazios  >  —  na  palavra 


342 


amargurada  de  Renan,  Fradique  demite-se  do  mundo  um 
pouco  à  Petrónio,  e  muito  à  imagem  e  semelhança  do  scé- 
tico  dos  Soiivenirs  d'enfance  et  de  jeiínesse. 

Porque  o  caso  de  Fradique  é  nas  nossas  letras  um  caso 
de  renanismo  puro,  é  que  a  mim  se  me  afigura  que  Fradi- 
que não  foi  nada  um  homem  da  ideia  abstracta.  O  que  ha- 
via em  Fradique  era  um  excesso  de  inteligência  — um  gosto 
indominável  de  análise.  Fradique  não  praticou  a  regra  que 
Antero  preceituava  em  mais  de  uma  das  suas  cartas :  — 
iiSaber  até  qual  limite  se  pôde  saber.y>  Ora  como  a  inteligên- 
cia por  si  é  impotente  para  resolver  a  tortura  do  coração 
e  do  entendimento,  Fradique,  compondo  a  sua  atitude  se- 
gundo a  atitude  de  Renan,  decidiu-se  a  ser  em  vez  duma 
das  dramatis  persona  da  tragédia  do  século,  como  Amiel  ou 
o  poeta  dos  Sonetos,  um  espectador  amável,  resignando-se 
com  amabilidade  às  cruezas  sórdidas  da  vida.  Nem  por  isso 
o  seu  calvário  seria  menos  cruciante,  nem  nele  teremos 
menos  que  aprender. 

O  processo  do  «espírito-de-análise»  informa-o  com  mão 
de  mestre  nos  seus  Essais  de  psychologie  contemporaine  esse 
mestre  de  verdade  que  é  Paul  Bourget.  Verif  icar-lhe  as  con- 
sequências funestas  na  mentalidade  nacional  é  estudar  em 
conjunto  a  geração  de  Fradique,  não  só  culminante  em  Por- 
tugal, mas,  sem  duvida,  na  sua  expressão  literária,  uma 
das  mais  representativas  da  Europa  Ocidental.  Em  seme- 
lhante estudo,  que  num  dia  mais  sereno  constituirá  para 
mim  uma  das  minhas  mais  queridas  realizações, —  em  seme- 
lhante estudo  se  ha-de  gravar  como  em  nenhum  a  genea- 
logia directa  e  forte  da  poderosa  corrente  tradicionalista 
que  hoje  absorve  o  melhor  das  inteligências  moças  no  nosso 
país.  Antero,  Oliveira  Martins  e  Eça  de  Queiroz  são  ver- 
dadeiros professores  de  nacionalismo,  enriquecendo  com  a 
sua  experiência  e  sua  angústia  de  antecipados  a  admirável 


343 


síntese  nacionalista  que,  num  futuro  bem  próximo,  encherá 
a  consciência  colectiva  da  Pátria  dum  sentido  novo  e  dum 
vigor  inesperado. 

Como  os  seus  amigos  de  perto,  Fradique  é  também  um 
inactual,  é  também  um  antecipado.  O  seu  cosmopolitismo 
intelectual  conduziu-o  pelo  culto  íntimo  da  emoção  estética 
às  portas  dum  completo  sistema  de  nacionalismo  artístico 
e  político.  Admiram-se  que  eu,  ao  escrever  do  paradoxal 
Fradique,  acrescente  ao  paradoxo  constante  do  seu  tempe- 
ramento um  paradoxo  mais  :  —  Fradiqtie,  mestre  da  Contra- 
Revolução?  Pois,  sem  paradoxo,  o  acrescento  e  afirmo. 
Ignoro  o  que  conteria  o  misterioso  cofre  espanhol  do  sé- 
culo XV,  a  preciosa  vala-comiim  do  orgulho  preciosíssimo 
de  Fradique.  No  entanto,  se  Madame  Lobrinska  tivesse 
atendido  às  solicitações  de  Eça  de  Queiroz,  do  fundo  da 
trabalhada  e  cubicada  caixa  não  sairia  nem  uma  Teoria  da 
Vontade  nem  uma  Psicologia  das  Religiões.  Talvez  saísse 
antes,  embora  em  esqueleto,  embora  em  borrão,  um  livro 
que  se  leria  agora  com  espantosa  oportunidade  :  —  Filoso- 
fia da  reacção  na  política  e  na  arte. 


Importa  conhecer  porque,  ao  ocupar-me  do  espólio  de 
Fradique,  eu  me  manifesto  assim  com  tão  tranqíiila  segu- 
rança. Infelizmente  para  mim,  infelizmente  para  todos  nós, 
com  o  falecimento  em  abril  de  1901  —quando  floriam  outra 
vez  os  lilazes  —  de  Madame  Lobrinska,  nunca  mais  regres- 
sada da  sua  neve  e  dos  seus  crepes,  o  cofre  espanhol  do 
século  XV  não  ficou  preservado  contra  o  desinteresse  sa- 
crílego de  qualquer  herdeiro  indiferente  da  filha  dos  Pali- 


344 


doff.  Por  intermédio  dum  diplomata  russo  que  eu  convivi 
em  Vigo,  jogando  um  eterno  poker  e  presagiando  o  fim  das 
civilizações  através  da  teoria  maieméLÚcsL  àas  Unhas  descon- 
tínuas,—^or  intermédio  desse  expatriado,  como  eu,  o  mais 
que  pude  apurar  foi  que  o  domínio  de  Starobelsk  ardera 
ultimamente,  em  seguida  a  um  assalto  enraivado  dos  cam- 
pesinos de  Karkoff,  sendo  até  violadas  as  sepulturas  do 
carneiro  senhorial  —  que  triste  sorte  a  da  Libnska  adoráve^ 
áo  Julgamento!— e.  não  ficando  da  residência  opulenta  mais 
que  um  monte  gigantesco  de  ruinas  acarvoadas. 

Perdidos  os  elementos  directos  e  positivos  para  a  recons- 
tituição do  pensamento  de  Fradique,  em  que  de  ha  muito  e 
com  enlevado  amor  me  empenhava,  não  me  ficou  outro  re- 
curso senão  o  de  surpreender  com  a  possível  exactidão  a  li- 
nha tónica  do  seu  espírito  na  carta  que  a  piedade  enterne- 
cida de  Eça  conseguiu  salvar  dum  olvido  deprimente. 

Ao  determinar  a  psicologia  de  Fradique,  eu  considerei-a 
já  como  uma  demonstração  de  puro  renanisino.  Não  é  difí- 
cil de  o  documentar,  desde  que  se  entenda  o  que  por  rena- 
nisnio  se  deverá  entender.  Entende-se,  naturalmente,  por 
ausência  gostosa  de  afirmação,  por  diletantismo  guloso  das 
formas  e  das  idêas,  sem  preferir,  sem  escolher,  porque  se 
para  uns  «ao  Começo  era  a  Acção»,  para  Renan  e  para 
Fradique,  ao  Começo  e  ao  Fim  era  simplesmente  — o  Nada. 
Mas  preguntar-me-ão  :  —  «Dado  um  ta!  negativismo  estru- 
tural, dada  uma  tal  impossibilidade  de  vontade  e  de  crença, 
como  é  que  se  pretende  enfileirar  Carlos  Fradique  Mendes 
entre  os  doutores  da  Contra-Revolução?  Pelas  mesmas  cau- 
sas, conquanto  que  em  órbita  e  plano  diversos,  porque  Re- 
nan é  autor  da  Reforme  morale  et  intellectuelle  e  figura,  na 
livraria  de  todo  o  bom  reaccionário,  ao  lado  de  Ronaid  e 
de  Maistre,  alternando  com  Augusto  Comte,  Le  Play  e 
Taine.  Não  nos  precipitemos,  porem,  olhando,  antes  de  mais 


345 


nada,  aos  antecedentes  e  à  formação  de  Fradique,  —  ao 
que  Léon  Daudet  chamaria  o  seu  <iheredoy>.  ^ 

Representante  da  varonia  ilustre  daquele  naveí^ador  D. 
Lopo  iMendes,  que,  filho  sei^undo  da  antiga  casa  da  Trofa 
—  Eça,  manifestamente  equivocado  sobre  a  lição  errada  de 
algum  Nobiliário,  escreve  «Troba»  e  não  «Trofa»,  acabou 
em  donatário  duma  das  melhores  capitanias  dos  Açores, 
Carlos  Fradique  Mendes  descendia  duma  velha  e  rica  fa- 
mília insular  com  passagem  larga  nas  Crónicas  e  na  Torre 
do  Tombo.  O  pai,  assevera  Eça  que  fora  um  homem  magni- 
ficamente belo,  embora  de  inclinações  rudes  —  o  que  lhe 
custou  uma  morte  prematura,  dum  desastre,  na  caça.  Por 
seu  lado,  «airosa,  pensativa  e  loura»,  a  mãi  de  Fradique 
merecera  dum  poeta  melancólico  da  Terceira  a  designação 
lírica  de  (^'Virgem  d'Ossian».  E'  ainda  Eça  quem  nos  conta 
que  morrera  duma  febre  apanhada  no  campo,  «onde  andava 
bucólicamente,  n'um  dia  de  sol  forte,  cantando  e  ceifando 
feno».  Ninguém  mais  restava  a  Fradique  além  dum  tio,  Ta- 
deu Mendes,  que  vivia  em  Paris,  preparando  com  Luís 
Napoleão  e  com  Morny  «a  salvação  da  Sociedade»,  com 
S  maiúsculo,  —  ninguém  mais  restava  a  Fradique,  pequeno 
e  órfão,  senão  sua  avó  materna,  D.  Angelina  Fradique, 
«velha  estouvada,  erudita  e  exótica  (vide  A  Correspondência 
de  Fradique  Mendes,  a  pags.  15,  quarta  edição),  que  colec- 
cionava aves  empalhadas,  traduzia  Klopstock  e  perpetua- 
mente sofria  dos  «dardos  d'Amor».  Eça  é  o  primeiro  a  no- 
tar que  a  primeira  educação  de  Fradique  se  acentuara  logo 
como  «singularmente  emaranhada».  O  capelão  de  D.  Ange- 
lina, egresso  beneditino,  iniciou  Fradique  nos  mistérios  do 
Catecismo  e  do  Latim,  inculcando-lhe,  entre  «outros  prin- 
cípios sólidos»,  no  dizer  de  Eça,  —  o  horror  à  Maçonaria . 
Creio  bem  que  mais  tarde,  quando  Balzac,  Proudhon  eRe- 
nan  levassem  Fradique  ao  limiar  da  Contra-Revolução,  o 


346 


pobre  frade,  ardendo  em  ira  sagrada  contra  os  pedreiros- 
livres,  passaria  no  espírito  do  poeta  das  Lapidarias  como 
uma  imagem  tutelar,  internecidamente  reabilitada. . . 

Pois  dos  cuidados  do  capelão  da  casa  resvalou  Fradique, 
sem  mais  transição,  para  os  dum  coronel  francês,  que  nas 
barricadas  de  Julho  provara,  de  peito  às  balas,  o  entusiasmo 
brusco  da  sua  brusca  exaltação  jacobina.  Nas  leituras  ino- 
centes da  meninice  de  Fradique,  o  Feliz  independente  do 
mundo  e  da  fortuna  Viu-se  substituído  pelas  Ruinas  de  Pal- 
myra  e  pela  Pucelle.  Voltaire  e  Volney  escorraçavam  o  nosso 
diáfano  P.-  Teodoro  de  Almeida.  E  para  que  a  confusão 
resultasse  mais  completa,  um  alemão,  «que  ajudava  D.  An- 
gelina a  enfardelar  Klopstock  na  vernaculidade  de  Filinto 
Elysio»,  e  se  apresentava  como  parente  de  Kant,  avocou  a 
criança  ao  seu  raciocínio  quadrado,  envolvendo  Fradique 
nas  enxúndias  filosóficas  da  Critica  da  Razão-Pura,  muito 
antes  de  lhe  sombrear  o  buço  no  lábio  superior. 

Só  a  reacção  instintiva  do  temperamento  de  Fradique  o 
salvou  da  morte  certa  que  em  tão  verdes  anos  lhe  provo- 
caram os  preceptores  da  sua  inteligência.  Herdara  do  pai 
o  gosto  da  vida  rústica,  aos  saltos  pelos  montes,  com  os 
galgos  atrás.  Assim  se  defendeu  até  que  aos  dezasseis  anos 
a  avó  o  mandou  para  Coimbra  a  estudar  Humanidades,  dei- 
xando á  responsabilidade  de  Eça  a  inconfidência  que  co- 
mete a  págs.  16  da  já  citada  quarta  edição  de  A  Corres- 
pondência, quando  atribui  a  propósitos  menos  honestos  essa 
resolução  da  virtuosa  senhora. 

Não  seguiremos  agora  Fradique  ao  longo  da  sua  irre- 
quieta existência  de  escolar.  Nem  tampouco  nos  deitaremos 
a  correr  com  êle  as  sete  partidas  da  Esfera,  depois  que  a 
avó  lhe  morreu,  repentinamente,  debaixo  dum  caramanchão 
de  rosas,  por  uma  sesta  lenta  de  junho,  ouvindo  o  seu  co- 
cheiro, —  é  de  Eça  o  detalhe  —  repicar  a  viola  com  os  de- 


347 


dos  enlaçados  de  anéis.  O  farto  milhão  de  cruzados  da  sua 
herança  bastava  a  Fradique  para  uma  ostentação  calculada 
de  príncipe.  Viajou  as  viagens  mais  inacreditáveis,  cortando 
o  mar  de  banda  a  banda —  desde  as  civilizações  adormeci- 
das do  Oriente  ao  tumulto  modernista  duma  rua  de  Chicago, 
tudo  a  sua  ânsia  de  ver  experimentou  com  gulosa  sobrance- 
ria, tudo,  afinal,  lhe  deixou  no  fundo  da  alma  aquele  «per- 
fume das  urnas  vazias»  que  seria  a  chaga  sempre  aberta 
da  sua  aparente  felicidade. 

Com  um  ancestralismo  tão  contraditório,  Fradique  não 
encontrou  na  sua  infância  a  disciplina  que  naturalmente 
desse  uma  direcção  fecunda  ao  seu  eu  tão  carregado  de 
originalidade,  tão  rico  de  emoção,  tão  cheio  do  sentido  ele- 
vado das  coisas.  Dispondo  de  si  e  dispondo  de  dinheiro, 
com  uma  mocidade  abundante  e  atraente,  Fradique,  ao  de- 
sembocar nas  avenidas  do  mundo,  viveu  num  âmbito  mais 
largo  o  conflito  que  Antero  superiormente  descreve  na  sua 
Carta  auto-biografica  a  Wilhelm  Storck. 

<0  facto  mais  importante  da  minha  vida  durante  aquelles 
annos  —  confessa  ao  seu  traductor  o  poeta  dos  Sonetos  — , 
e  provavelmente  o  mais  decisivo  d'ella,  foi  a  espécie  de  re- 
volução intellectual  e  moral  que  em  mim  se  deu,  ao  sair, 
pobre  creança  arrancada  do  viver  quasi  patriarchal  de  uma 
província  remota  e  immersa  no  seu  plácido  somno  históri- 
co, para  o  meio  da  irrespeitosa  agitação  intellectual  de  um 
centro  (Coimbra),  onde  mais  ou  menos  vinham  repercutir-se 
as  encontradas  correntes  do  espírito  moderno».  E  Antero 
continua  :  —  «Varrida  n'um  instante  toda  a  minha  educação 
catholica  e  tradicional,  cahí  num  estado  de  duvida  e  incer- 
teza, tanto  mais  pungentes,  quanto,  espirito  naturalmente 
religioso,  tinha  nascido  para  crer  placidamente  e  obedecer 
sem  esforço  a  uma  regra  reconhecida.  Achei-me  sem  direc- 
ção, estado  terrível  de  espirito,  partilhado  mais  ou  menos 


348 


por  quasi  todos  os  da  minha  geração,  a  primeira  em  Portu- 
gal que  sahiu  decididamente  e  conscientemente  da  velha  es- 
trada da  tradição». 

Fradique,  da  camada  e  da  convivência  de  Antero,  acha-se 
abrangido  nas  palavras  impressionantes  dum  dos  seus  mais 
escutados  amigos.  A  unidade  interior  de  Antero  não  a  pos- 
suía Fradique,  já  pelo  descoordenado  da  sua  hereditarieda- 
de, já  pelo  franco  desenraizamento  que  bem  cedo  começava 
a  operar  na  sua  psicologia.  Tanto  pelas  tiradas  revolucio- 
nárias do  coronel  das  barricadas  de  julho,  como  pelos  kan- 
tismos  de  segunda  mão  com  que  o  adormentava  o  primo  do 
filósofo  de  Koenigsberg,  colaborador  de  D.  Angelina  Fra- 
dique nos  seus  contrabandos  de  Klopstock  para  o  casticismo 
férreo  de  Filinto.  Mas,  modalidades  aparte,  o  tipo  mental 
de  Fradique  é  o  tipo  mental  de  Antero,  quando  este  consi- 
dera a  sua  geração  como  a  primeira  que  em  Portugal  saíra 
da  velha  estrada  da  tradição  consciente  e  resolutamente. 

«Era  o  tempo  em  que  eu  e  os  meus  camaradas  de  Cená- 
culo—reforça Eça  — deslumbrados  pelo  lyrismo  épico  da 
Legende  des  Siècles,  «o  livro  que  um  grande  vento  nos  trou- 
xera de  Guernesey»  —  decidíramos  abominar  e  combater  a 
rijos  brados  o  lyrismo  intimo  que,  enclausurado  nas  duas 
pollegadas  de  coração,  não  comprehendendo  d" entre  todos 
os  rumores  do  Universo  senão  o  rumor  das  saias  d'Elvira, 
tornava  a  Poesia,  sobretudo  em  Portugal,  uma  monótona  e 
interminável  inconfidência  de  glorias  e  martyrios  de  amor»  . 
Um  pouco  mais  velho,  Fradique,  partindo  do  Hugo  das  Le- 
gendes, descobrira  já  Leconte  de  Lisle  e  Baudelaire.  O  seu 
cosmopolitismo  vincava-se  artisticamente  na  escolha  do 
«motivo  raro»  pela  predilecção  concedida  ao  diabolista  das 
Fleurs  du  Mal  e  ás  decorações  bizarras  dos  Poènies  antiqaes 
e  dos  Poèines  barbares.  No  fundo,  a  ironia  que  lhe  havia  de 
entregar  um  scetro  de  elegância  intelectual  não  passava 


349 


duma  forma  macia  de  pessimismo  que,  tornado  espectro 
metafísico  invencível,  obrigaria  Antero  a  despedaçar  a  ca- 
beça com  um  tiro  de  revólver  junto  a  uma  inscrição,  onde 
precisamente,  ao  alto,  se  lia,  por  contraste  arrepiante,  a 
palavra  «esperança». 

Como  prova  do  pessimismo  de  Fradique,  — e  o  pessimis- 
mo de  Fradique  é  o  pessimismo  tão  bem  caracterizado  nos 
mais  miúdos  e  variados  aspectos  por  Paul  Bourget  nos 
Essais  de  psyclwlopne  contemporaine,  —  eu  assinalo,  sobre- 
tudo, o  seu  dandismo  estreme.  Dandismo  de  inteligência, 
dandismo  de  sensibilidade,  diletantismo  no  pensar  e  no  sen- 
tir. A  vida,  para  Fradique,  não  se  vivia  —  saboreava-se, 
transformando-se  quanto  possível  num  manjar  precioso  e 
exquisito.  Não  é  que  Fradique  se  abandonasse  ás  solicita- 
ções dum  petronismo  vulgar.  Pelo  contrário,  desviado  das 
grandes  verdades  tradicionais,  sem  a  ilusão  compensadora 
do  humanitarismo  revolucionário,  Fradique  não  se  resi- 
gnava a  ser  um  cínico,  porque,  apesar  de  tudo,  uma  voz 
secreta  teimava  em  falar  dentro  dele.  D'aí  o  «dandy»,  — 
procurando  defender-se  do  seu  nihilismo  interior  pela  mira- 
ragem  bem  fugaz  dos  «Paraísos  artificiaes».  Choremos  por 
Fradique,  no  entanto,  que  nem  ao  menos  acreditava  no 
ópio,  no  haschich,  em  Baudelaire,  «o  maganão,  —  como  lhe 
chamava  —  das  Flores-do-Mah. 

Breve  se  lhe  desfariam  os  «Paraísos  artificiaes»,  trans- 
posta a  fase  de  perturbação  literária,  de  que  o  poemeto 
Laus  Venerís  Tenebrosa,  denuncia  o  período  agudo.  Não  du- 
raria mais  a  influência  de  Leconte  de  Lisle,  marcando  para 
as  sensações  da  sua  exigência  estética  o  cânon  apolíneo  da 
beleza  marmórea  e  impassível. . .  Ai  de  nós,  ai  de  Fradique 
—  o  demónio  da  sciência  picara-lhe  venenosamente  o  enten- 
dimento e  não  era  por  acaso  que  nos  aposentos  do  Hotel- 
Central,  ao  lado  do  P.'  Manuel  Bernardes,  —  contista  entre 


350 


os  contistas  da  nossa  terra !  —  espreitava  a  lombada  agres- 
siva dum  volume  de  Darv;inl  O  evolucionismo  nos  seus  ex- 
cessos devastadores  obrigava-se,  como  uma  serpe  entre 
relva  macia  —  latet  anguis  in  herbis — debaixo  do  gosto  apu- 
rado de  Carlos  Fradique  Mendes,  descendente  de  D.  João 
Mendes,  da  casa  de  Trofa  —  e  não  Troba,  como  reincide 
Eça—,  e  donatário  no  século  xv  duma  das  capitanias  mais 
famosas  dos  Açores. 

Com  esse  medo  tão  peculiar  do  seu  tempo,  por  toda  a 
decaída  mitologia  racionalista,  Fradique  não  obteve  a  ne- 
cessária estabilidade  do  seu  ser,  senão  aportando  definiti- 
vamente ao  renanismo.  O  esmero  de  Renan  pelo  brunido  do 
estilo  transparece  em  Fradique  no  cuidado  da  frase  castiça 
e  própria.  E'  de  Renan  a  curiosidade,  tão  evidente  em  Fra- 
dique, pelas  grandes  necrópoles  adormecidas,  pelas  civili- 
zações sagradas  do  Oriente.  Ainda  que  rijo  e  transbordante 
de  seiva,  —  a  inexgotavel  seiva  insular  dum  bom  tronco  de 
descobridores,  — o  diletantismo  intelectual  de  Fradique  em- 
purrou-© lentamente,  como  a  Renan,  para  a  inércia  da  bon- 
dade, para  o  uso  e  abuso  da  crítica,  que  esteriliza  o  impulso 
e  reduz  o  homem  a  um  simples  espectador  de  si  mesmo. 
«Se  Napoleão  fora  tão  crítico  como  eu,  costumava  decla- 
rar o  autor  da  Histoire  du  Peuple  d' Israel— Vião  daria  nunca 
o  golpe  de  Brumário).  Outro  tanto,  em  mais  diminuta  es- 
cala, ocorria  com  Fradique,  que,  excepcionalmente  dotado 
em  face  dos  contemporâneos,  não  deixou  atrás  dêle  mais 
que  uma  panóplia  de  observações  cheias  de  luminosidade 
e  de  sarcasmo. 

Mas  a  aparentar  Fradique  com  Renan  surgem-nos  mais 
subsídios  ainda.  Lembram-se  decerto  daquela  esplêndida 
carta  dirigida  a  Guerra  Junqueiro,  sobre  o  essencial  das 
religiões,  como  sendo,  não  o  seu  conteúdo  teogónico  ou 
teológico,  e  sim  o  seu  revestimento  litúrgico,  a  sua  parte 


351 


pura  e  exclusivamente /or/zm/.  Registamos  factos,  não  dis- 
cutimos doutrina.  E  até,  em  certo  modo,  a  origem  açoriana 
de  Fradique,  reflectindo  na  sua  ancestralidade  as  longas 
reminiscências  do  mar,  contribuiria  para  que  o  seu  espíri- 
to, —  urna  vazia  chorando  a  ausência  dos  antigos  perfu- 
mes — ,  se  aquietasse  no  relativismo  doce  de  Renan,  tão 
impregnado  do  Oceano,  como  bretão  que  era,  e  dos  mais 
secularmente  enraizados. 

Um  comentador  superficial  atalhará  nesta  altura  :  —  Que 
afinidade  existe,  porém,  entre  Fradique,  mundano  completo 
e  rematado,  e  Renan,  pessimista,  embora  dum  pessimismo 
tão  condescendente,  como  a  sua  condescendência  natural 
de  cura-de-almas  transviado?  Eu  já  indiquei  o  dandismo 
como  um  sinal  da  filosofia  pessimista  de  Fradique.  Recor- 
demo-nos  de  que  o  dandismo  foi  para  a  literatura  doente 
dos  últimos  cinquenta  anos  um  tema  constante  e  por  vezes 
superiormente  tratado.  Barbey  d'Aureviily  celebrou-o  num 
livro  com  tanto  de  esquecido  como  de  notável.  Nas  evoca- 
ções doloridas  da  época,  Lord  Brummel  figura  ao  lado  de 
Luís  da  Baviera  e  de  Charles  Baudelaire,  como  o  crucifi- 
cado do  seu  orgulho  desmedido,  que  na  mentira  transitória 
das  formas  pretendia  ocultar  o  vácuo  que  o  esperava  de 
perto,  ensinando-lhe,  pelo  dedo  da  Morte,  os  caminhos  ine- 
vitáveis do  Nada.  Pessimismo,  diabolismo  e  dandismo,  são 
assim  aspectos  mais  ou  menos  agravados  da  espessa  noite 
negativista  que,  graças  ao  Senhor,  já  viemos  encontrar  no 
declínio. 

Ao  diletantismo  de  Renan  pediremos,  pois,  o  sinónimo 
correspondente  ao  dandismo  de  Fradique.  Renan-sofista, 
adivinhando  em  tudo  a  goela  insaciável  do  Nada,  é  o  molde 
moral  em  que  se  enquadra  sem  constrangimento  Fradique- 
dandy,  afectando  posturas  irónicas  diante  de  «Ramézes  fo- 
tografado. O  fim  inopinaturn  atque  repentinuni  que  Fradique 


352 


tanto  apetecera  para  si  como  já  o  apetecera  César,  o  que 
é  senão  uma  confissão  de  niilismo  espiritual,  com  toda  a 
sua  relutância  perante  a  face  da  Dôr,  sem  sentido  para  uma 
criatura  que  perdera  o  sentido  das  verdades  supremas  da 
Fé?  E'  nesse  aspecto  que  Renan  se  nos  revela  extraordi- 
nariamente grande.  Conta-no-lo  Jean  Psichari,  no  romance 
recente  Sceur  Antheltnine.  Genro  de  Renan,  de  Jean  Psichari 
—  incrédulo  e  sofista  como  o  sogro,  nasceu  Ernesto  Psi- 
chari,—o  convertido  admirável  de  Le  VoyagediiCenturion, 
morto  gloriosamente  em  combate,  com  o  rosário  enlaçado 
á  espada,  durante  a  retirada  de  Charleroi. 

Pois  no  capítulo  Les  deiix  Ernest—  o  avô  e  o  neto,  Jean 
Psichari  testemunha- nos  a  coragem  assombrosa  do  velho 
Renan,  defendendo-se  até  á  última  da  preocupação  finalista 
e  gritando  com  uma  voz  sem  réplica:  —  <^^Je  sais  qu'utiefois 
mort  rien  ne  restera  de  moi-même ;  je  sais  que  je  ne  serai  plus 
rienl  Rien!  Rien!»  E  Psichari  acrescenta  —  «A  gradação 
das  maiúsculas  crescentes  não  nos  transmite  senão  imper- 
feitamente a  força  dessa  afirmação  máscula,  heróica  e  vi- 
brante >.  A  resposta  á  voz  sem  réplica  de  Renan  deu-lha 
vinte  anos  depois  seu  neto  —  o  seu  representante  directo. 
Certamente,  se  Fradique  tivesse  um  filho,  o  filho  desse  fi- 
lho responderia  com  um  acto  pleno  de  fervor  á  sua  renún- 
cia espontânea  e  desdenhosa.  Não  é  isto,  porém,  o  que  no 
momento  presente  nos  importa.  O  que  nos  importa  é  de- 
monstrar a  afinidade  do  dandismo  de  Fradique  com  o  pes- 
simismo de  Renan.  No  episódio  da  morte  do  segundo  res- 
salta tracejado  com  energia  o  vínculo  que  estreitamente  os 
ligava  entre  si.  Morrer  bem,  —  Plaudite  m'^s/  — exclamava 
Augusto,  agonisante  —  foi  a  preocupação  de  Renan,  como 
foi  a  preocupação  de  Fradique,  pondo  como  maior  ambição 
o  retirar-se  da  scena  do  mundo  cora  dignidade  e  sem  desa- 
linho. 


353 


Nesta  forma  de  pessimismo  concluirá  Fradique,  desviado 
quasi  desde  o  berço  da  estrada  serena  da  Tradição.  Supo- 
nho inútil  definir  o  que  seja  Tradição,  sociológica  e  filoso- 
ficamente encarada.  Evidentemente  que  não  é  mais  que  o 
tesoiro  amontoado  da  experiência  das  gerações,  baseando 
o  desenvolvimento  da  sociedade  na  lei  fundamental  da  con- 
tinuidade. A  quimera  individualista  do  Romantismo,  actuan- 
do irracionalmente  por  intermédio  dum  falso  conceito  do 
Homem,  pretendeu  conceber  a  sociedade  não  como  uma 
criação,  mas  como  uma  construção.  As  consequências  aflo- 
raram depressa,  no  coice  dos  mais  desfrenados  teorismos. 
Deslocado  dos  seus  alicerces  naturais  e  históricos,  Portu- 
gal ressentiu-se  logo  da  estranha  e  impetuosa  paranóia, 
<]ue  se  importara  de  França.  A  desnacionalização  começou 
com  as  reformas  líricas  da  gente  da  emigração  liberal.  Mas 
á  geração  de  Fradique  pertenceu  o  papel,  a  um  tempo  des- 
truidor e  renovador.  Por  ela  é  que  Portugal  tomou  deveras 
■contacto  com  as  grandes  correntes  do  pensamento  europeu. 
A  Carta-autobiográfica  de  Antero,  é,  a  semelhante  respei- 
to, um  documento  não  só  pessoal,  mas  colectivo. 

Pesa  sobre  Antero  e  os  seus  amigos  a  acusação  de  que 
ninguém  preparou  tanto  como  eles  a  miséria  dos  tempos 
actuais.  É  um  erro,  — se  não  lhe  quisermos  chamar  uma  ca- 
lúnia,—só  filho  da  profunda  ausência  da  cultura  que  manda 
em  senhora  absoluta  no  nosso  infortunado  país.  E'  indubi- 
tável que  a  geração  de  Antero,  —  no  seu  próprio  testemu- 
nho, —  foi  a  primeira  que  em  Portugal  saiu  conscientemente 
áo  leito  seguro  da  Tradição.  Mas,  ao  sair,  encontrou-se, 
ávida  de  mestres  que  lhe  utilizassem  o  entusiasmo,  com  o 
pensamento  forte  dum  Balzac  em  literatura  e  dum  Proudhon 

KÇ4  DE  QrEIKOZ  2  3 


em  economia.  Por  Balzac  e  por  Proudhon,  —  hoje  unidos, 
como  doutores  da  Contra-Revolução,  no  mesmo  alvo  de 
restauração  social  e  intelectual,  a  geração  de  Fradique  des- 
cubriria  as  cumiadas,  donde  novamente  se  havia  de  avistar, 
no  seu  esplendor  perdido,  a  antiga  pátria  tradicional.  O  que 
roía  e  desfibrava  Portugal  senão  o  Liberalismo  ?  Na  gera- 
ção de  Fradique  o  Liberalismo  acharia,  embora  ainda  nas 
suas  rudimentares  manifestações  destrutivas,  o  primeiro 
a  Iversário  que  o  atacou  de  frente  e  com  resoluta  coragem. 

Oferece-nos  a  correspondência  de  Antero,  como  elemento 
persuasivo,  um  trecho  singularmente  interessante,  em  qu& 
o  nome  de  Balzac  aparece  abraçado  ao  nome  de  Proudhon» 
Numa  carta  de  1866,  dirigida  ao  seu  amigo  Germano  Vieira 
iMeireles,  já  Antero  reparava:  — Os  romances  de  Balzac sãa 
una  verdadeira  historia  intima  do  nosso  século,  e tenho admi. 
rado  como  em  certas  coisas  capitães  (como  a  influencia  da. 
bancocracia,  a  anarchia  do  livre- cambio,  as  illusões  do  cons- 
titucionalismo, etc.)  a  sua  observação  despreocupada  da  socie- 
dade se  encontra  e  concorda  com  a  critica  systematica  do 
grande  Proudhon^^.  Será  por  Proudhon,  rialmente,  —  pelo 
vigor  desapiedado  das  suas  análises  á  falsa  e  criminosa  eco- 
nomia liberal,  que  não  só  Antero,  mas  com  Antero  Oliveira 
Martins,  se  aproximarão  no  futuro  da  idéa  integral  de  Pá- 
tria, restituída  ás  condições  vitais  do  seu  renascimento  pelo 
regresso  ás  duas  grandes  verdades  que  encheram  dum  cla- 
rão imorredoiro  a  obra  de  Balzac. 

Na  imaginação  de  Oliveira  Martins  podia  imenso  a  fan- 
tasia romântica  dum  Michelet.  Mas  Proudhon  corrig;u-lhe 
os  exageros  apaixonados  da  improvisação,  e  o  Portugal 
Contemporâneo  cedo  evidenciou  a  regra  segura  que  entre- 
garia solidamente  ao  Oliveira  Martins  do  Projecto  de  lei  da 
Fomento  Rural  a  compreensão  económica  da  Nacionalidade. 
Assim  se  percebe  que,  agradecendo  em  março  de  1888  a  Fre- 


355 


derico  Diniz  de  Ayalla  o  seu  livro  Gôa  antiga  e  moderna, 
Antero  comentasse :  —  *Por  outro  lado,  a  politica  anti-por- 
tugiieza  do  partido  regenerador  n'esta  questão,  é  mais  uma 
completa  manifestação  da  incompatibilidade  do  liberalismo 
com  o  nacionalismo,  cujas  raízes  e  essência  são  muito  outras». 

De  nada  mais  se  carece  para  sustentarmos  com  rigorosa 
irrefutabilidade  o  sentido  francamente  contra-revolucioná- 
rio  da  geração  de  Eça  e  de  Antero,  —  que  é  a  geração  de 
Fradique.  Uma  única  excepção  haverá  a  destacar,  — é  a  de 
Guerra  Junqueiro.  Mas  Guerra  Junqueiro,  psicológica  e 
literariamente  um  caso  de  puro  hebraísmo,  não  tardará 
muito  a  ser  restituido  ás  proporções  medianas  da  sua  esta- 
tura intelectual,  agrandada  tão  somente  pela  paixão  polí- 
tica dum  país,  onde  a  noção  das  coisas  do  pensamento  se 
mede,  por  via  de  regra,  através  daquela  pitoresca  inocên- 
cia mental  que  já  foi  o  maior  título  de  celebridade  de  Mr. 
Homais,  boticário  em  Rouen.  De  resto,  a  excepção  só  me 
confirma  no  meu  juizo.  E  é  socorrido  por  semelhante  crité- 
rio que  um  espírito  bem  intencionado  precisa  de  examinar, 
—  como  superiormente  o  fez  Hemetério  Arantes — ,  o  exacto 
significado  da  conversão  de  Ramalho  Ortigão  ao  tradicio- 
nalismo político.  E'  que  a  sua  acção  de  panfletário  incan- 
sável não  traduzira  de  modo  nenhum  uma  demolição  por 
demolição.  Obedecera  antes  ao  inato  gosto  de  medida  e  de 
arranjo,  que  Ramalho  nos  comunicou  mais  tarde,  ao  atingir 
o  polo  positivo  da  sua  mentalidade. 

O  que  sucedeu  com  Ramalho,  sucedeu  com  Eça.  O  Eça 
inexorável  da  primeira  fase  é  o  Eça  que  escalpeliza  uma 
sociedade  de  postiços,  em  que  a  mentira  se  aninhara  de- 
baixo do  disfarce  duma  aparência  de  honradez.  Nós  sabe- 
mos, por  pesada  herança,  o  que  o  Constitucionalismo  re- 
presentou para  a  ruina  de  Portugal!  Eça  não  o  poupou, 
com  o  ímpeto  irresistível  dos  que  atacam  de  cara,  sem  olhar 


356 


aos  golpes  que  descarregam.  Como  observador,  observou, 
—  não  concluiu,  Forçaram-lhe  as  conclusões,  quando  o  su- 
puseram batendo-se  para  perpétua  glória  dos  Imortais-Prin- 
cípios.  Se  Eça  hoje  vivesse,  ver-se-ia  onde  é  que  Eça  to- 
mava lugar.  Tomava  lugar,  não  com  os  homens,  mas  com 
as  gerações,  —  não  com  os  bandos,  mas  com  a  Nacionali- 
dade. Eis  porque  não  me  excedo,  asseverando  que  a  solu- 
ção que  Ramalho  deu  ao  conflito  da  sua  inteligência,  não 
é  uma  solução  meramente  individual,  como  individual  não 
é  a  Carta-autobiográfica  de  Antero.  É  a  solução  que  se 
daria  Eça,  que  se  daria  Oliveira  Martins,  que  se  daria'An- 
tero  de  Quental,  —  se  é  que  se  a  não  deram !  — ,  se,  por 
acaso,  a  presença  dolorosa  dos  factos  os  tivesse  acabado 
de  esclarecer. 

Quanto  a  Eça,  —  porque  de  Oliveira  Martins,  de  Antero 
e  de  Ramalho  a  prova  encontra-se  feita,  —  quanto  a  Eça, 
ainda  agora  sordidamente  enegrecido  no  seu  nome  como 
um  desnacionalizado  e  um  desnacionalizador,  não  é  dificil 
a  qualquer  criatura  de  boa-vontade  destruir  sem  esforço 
essa  calúnia  inqualificável.  Quem  compreendeu,  como  Eça, 
a  psicologia  de  Eduardo  Prado,  não  nos  deixa  suspeitas 
acerca  da  sua,  em  matéria  contra-revolucionária.  Não  olvi- 
demos que  Eça,  por  influxo  de  Antero,  se  havia  educado 
na  convivência  forte  dos  livros  de  Proudhon.  Não  é  demais 
repetir  que  Proudhon  é  hoje  um  dos  doutores  mais  vulga- 
rizados da  Contra-Revolução.  Pois  Eça  já  o  citava,  des- 
preocupadamente, como  tal.  Nas  Notas  contemporâneas,  Eça 
define  o  jacobinismo  segundo  Proudhon,  a  quem  chama 
uma  espécie  de  Santo  Agostinho  ou  de  S.  Tomás  da  igreja 
socialista!  De  olhos  poisados  em  tão  autorizada  fonte,  o 
jacobinismo  é,  de  feito,  para  Eça,  não  uma  doutrina,  mas 
«uma  doença  maligna  de  coração  e  de  cérebro». 

O  sinal  mais  evidente  de  que  são  bem  portuguesas  no 


357 


fundo  as  intenções  de  Eça  de  Queiroz  está  na  Revista  de 
Portugal,  — nm  dos  raros  órgãos  de  cultura,  com  que  entre 
nós  se  pretendeu  coalhar  nacionalismo  consciente  e  elevado. 
Foi  na /?^i'/5írtcf^Pí7/-/tí^íz/,  por  exemplo,  que  Alberto  Sampaio, 
—  o  nosso  Fustel — ,  publicou  algumas  páginas  suas  sobre 
a  nossa  organização  social  depois  dos  romanos  e  antes  de 
Afonso  Henriques,  —  prefácio  largo  e  monumental  à  Histo- 
ria de  Alexandre  Herculano.  Na  Revista  de  Portugal  saíram, 
antes  de  enfeixados  em  volume.  Os  filhos  de  D.João  I.  Por 
lá  deixou  vestígios  da  sua  erudição  o  insigne  Martins  Sar- 
mento. E  à  Revista  de  Portugal  pertence  a  glória  de  guar- 
dar os  ensaios  críticos  do  malogrado  Moniz  Barreto  e  as 
suas  crónicas  de  política  internacional,  tão  ricas  de  actuali- 
dade e  de  ensinamentos.  E  já  não  falo  da  circunstância  de 
ser  ali  que  as  cartas  do  nosso  chorado  Fradique  viram  a 
publicidade  pela  primeira  vez. 

Eça  inquiriu,— e  inquiriu  com  finalidade  filosófica—,  das 
causas  da  nossa  decadência.  Escutemo-lo  num  breve  tre- 
cho:—«O  pae  d'um  amigo  meu,  em  1856  ou  1848,  n'um 
ódio  repentino  a  tudo  o  que  lhe  lembrava  o  velho  Portugal, 
foi-se  á  sua  mobília  antiga,  de  pau  preto  torneado  e  de  as- 
sentos de  couro  lavrado,  e  n'um  só  dia  vendeu,  queimou, 
sepultou  em  sótãos,  dispersou  todas  essas  formas  vetustas 
que  lhe  vinham  do  passado;  depois  correu  a  um  estofador 
da  esquina,  e  comprou  ao  acaso,  n'um  lote,  uma  mobília 
franceza.  O  que  este  homem  fez,  todo  o  Portugal  o  fez. 
N'um  rompimento  desesperado  com  o  velho  regimen,  tudo 
quebrou,  tudo  estragou,  tudo  vendeu.  Achou-se  de  repente 
nú ;  e  como  não  tinha  já  o  caracter,  a  força,  o  génio,  para 
de  si  mesmo  tirar  uma  nova  civilização,  feita  ao  seu  feitio, 
e  ao  seu  corpo,  embrulhou-se  á  pressa  n'uma  civilização 
já  feita,  comprada  n'um  armazém,  que  lhe  fica  mal,  e  lhe 
não  serve  nas  mangas.» 


358 


Pertence  a  transcrição  ao  capítulo  O  Francezismo  das 
Ultimas  Paginas.  Para  quem  acuse  levianamente  Eça  de 
Queiroz,  e  com  Eça  a  sua  geração,  de  estrangeirismo  e 
desenraizamento,  Eça  responde-lhe  aí  com  o  coração  nas 
mãos,  num  largo  e  carinhoso  exame  de  consciência.  Nas- 
cido e  medrado  numa  sociedade  toda  torcida  e  aleijada  pela 
obsessão  das  formas  gaulesas,  —  é  bom  que  nos  recorde- 
mos da  infância  de  Fradique!— ,  Eça  de  Queiroz  é  uma  ví- 
tima, como  vítima  foi  a  sua  geração,  a  quem  forçaram  a 
pensar  e  a  sentir  em  mau  francês.  Por  isso  O  Francezismo 
é,  quanto  a  mim,  o  testamento  de  Eça  de  Queiroz.  Se  Eça 
não  concluiu,  —  repito—,  é  que  a  sua  energia  se  consumiu 
inteiramente  a  limpar  as  cavalhariças  de  Augias.  Mas  con- 
cluiu por  si  e  por  êle, — insisto  novamente — ,  Ramalho  Or- 
tigão. Atravessava-se  uma  época  de  análise,  —  a  outros 
seria  permitido  o  suor  da  reconstrução.  No  entanto,  não 
contribuiu  pouco  para  ela  Eça  de  Queiroz,  não  sendo  de 
mais  que  dispensemos  ainda  ao  seu  nacionalismo  alguns 
momentos  de  atenção  cuidadosa. 

Fixemo-nos  vCA  illustre  casa  de  Ramires,  e  tanto  nos  basta. 
Em  A  illustre  casa  de  Ramires  legou-nos  Eça  a  mais  completa 
e  mais  escrupulosa  monografia  que  se  conhece  duma  famí- 
lia portuguesa.  Já  o  crítico  António  Arroio  nas  Notas  sobre 
Portugal  o  acentuava  inteligentemente.  Com  a  percepção 
amoravel  da  nossa  paisagem,  A  illustre  Casa  denuncia  na 
obra  de  Eça  a  posse  soberana  do  estilo  e  das  suas  adestra- 
das faculdades  de  romancista.  Fechava-se  para  Eça  a  hora 
do  sarcasmo  depurador,  vinha-lhe  ao  espírito  uma  ânsia  no- 
bre, —  a  ânsia  de  se  amoldar  à  imagem  e  semelhança  da 
pátria  em  que  nascera.  As  figuras  de  Os  Maias,  do  Padre 
Amaro,  de  A  Relíquia,  de  O  primo  Bazilio,  cerravam  a  ga- 
laria hipócrita  e  criminosa  do  Portugal  da  Carta,  que  amor- 
daçara e  desnaturara  o  Portugal  de  Ourique.   O  escritor 


359 


dirigia-se  agora  ao  Portuga!-português.  Dirige-se  com  tanto 
enternecimento,  com  tanta  religiosidade,  que  nM  illiístre 
Casa  quási  chega  a  existir  virtude  na  maneira  discreta  como 
Gracinha  cái. 

Em  Gonçalo  Mendes  ergueu  Eça  um  símbolo,— e  um  sím- 
bolo tocante.  E'  bem  o  símbolo  duma  raça  apática,  trans- 
viada do  rumo  superior  dos  seus  destinos.  Mas  lá  no  fun- 
do não  se  extinguiram  ainda  as  boas  energias  ancestrais. 
Dormem  apenas.  E  um  pequeno  incidente,  uma  mais  sa- 
cudida comoção  moral,  é  bastante  para  que  a  cachoeira 
represada  se  despenhe  outra  vez  e  Gonçalo  assista  dentro 
de  si  à  ressurreição  daqueles  tantos  Ramires  arcaicos  que 
lhe  ganharam  o  solar  e  lhe  estilizaram  o  apelido. 

Já  se  desenhava  de  atrás  a  volta  de  Eça  de  Queiroz  à 
Terra  e  ao  Sangue.  De  certo  modo,  a  disposição  literária  de 
que  nasceram  os  capítulos  mais  sadios  de  A  Cidade  e  as  Ser- 
ras indica-nos  o  começo  desse  baptismo  novo,  em  que  o 
escritor  iria  reconciliar  a  riqueza  da  sua  pena  com  a  for- 
mação natural  do  seu  temperamento.  Ha  uma  passagem  em 
A  Cidade  e  as  Serras,  que  reputo  expressiva.  É  a  passagem 
em  que  os  convivas  do  202,— Eça  esqueceu-se  de  enumerar 
Fradique  entre  eles,  —  ouvem  atentamente,  através  do  Paris 
subterrâneo,  os  ecos  duma  cançoneta  excitante  que  um  apa- 
relho próprio  lhes  transmite  de  qualquer  teatro  em  voga  nos 
carnets  do  canalhismo  elegante.  Chegam  aos  ouvidos  ávidos 
das  relações  cosmopolitas  de  Jacinto  Galeão  as  leticências 
maliciosas  da  cançonetista.  É  o  brilho  mórbido  da  civiliza- 
ção, é  o  farelo  imundo  que  se  escondia  dentro  dos  pomos 
célebres  de  Chateaubriand.  Saudoso  dos  horisontes  fami- 
liares, o  estoira-vergas  do  Zé-Fernandes,  do  vão  duma  jb- 
nela,  vê  seguir  a  lua  alta,  por  cima  dos  Campos-Elísios. 
Recorda-se  então  do  luar  na  serra,  chovendo  a  jorros  sobre 
as  aldeias  quietas.  São  dois  traços  somente.  Mas,  em  dois 


360 


traços  rápidos,  é  dado  o  contraste  entre  o  Paris  gasto  e 
inútil,  embora  doirado,  e  a  vida  simples  de  ação  e  bonda- 
de, ao  ar  livre,  no  coração  da  natureza.  Julgo  ser  este  epi- 
sódio o  verdadeiro  nó  que  prende  o  Eça  analista  ao  Eça 
construtivo.  Claro  que  já  antes  disso,  aqui  e  alêm,  talvez 
mais  por  instinto  do  que  por  deliberação,  Eça  nos  fora 
apontando  as  jornadas  do  seu  itinerário  nacionalista.  To- 
davia, parece  que  não  me  engano,  ao  supor  que  no  episódio 
referido  se  traduz  intencionalmente  a  mudança  íntima  do 
escritor. 

E  surge-me  aqui  o  ensejo  para  inserir  com  oportunidade 
u:n  detalhe  duplamente  curioso  e  impressionante,  porque 
nos  elucida  sobre  os  processos  que  Eça  empregava  na  com- 
posição, ao  mesmo  tempo  que  nos  ensina  com  que  amor 
profundo  o  escritor  se  embebia  nas  coisas  do  nosso  passa- 
do. Anda  na  memória  de  todos  a  morte  do  bastardo  de 
Bayão,  nM  illustre  Casa.  É,  sem  discordância,  uma  das  ma- 
ravilhas mais  extraordinárias  da  prosa  portuguesa.  Pois 
Eça  não  ideou  a  scena  espantosa.  Unicamente  a  extraiu 
das  letras  encaracoladas  dum  códice  medieval,  a  que  Her- 
culano alude  em  uma  das  notas  à  sua  História,  insuflando- 
-Ihe  Eça  toda  a  espantosa  rialidade  que  a  anima  e  que  é 
sempre  a  minha  tortura  quando  a  leio.  O  caso  deu-se,  efe- 
ctivamente. Deu-se  na  mesma  ocasião  em  que  a  novela  o 
coloca,  reinando  precisamente  D.  Afonso  II  e  estando  as 
Senhoras-Infantas  cercadas  em  Montemor.  Cercava-as  por 
ordem  del-rei  um  tal  Martim  Anes  de  Riba-de-Avisela.  Der- 
rotado, Martim  Anes  meteu-se  por  um  paul,  — dos  muitos 
que  ainda  há  no  vale  do  Mondego.  Conta  o  Nobiliário, 
chamado  do  «Colégio  dos  Nobres»,  que,  ao  arrancarem-no 
de  lá,  vinha  agonizante,  porque  as  sanguessugas  o  tinham 
chupado  todo. 

Em  nada  se  diminui  o  valor  da  criação  formidável  de  Eça 


361 


de  Queiroz.  Em  arte,  o  que  não  é  rial,  é  pelo  menos  verí- 
dico. Quando  se  cái  nos  domínios  da  pura  invenção,  já  se 
não  é  Eça,  —  é-se  simplesmente  Júlio  Dantas.  Eça,  como 
grande  mestre,  soube  tirar  da  verdade  aquela  beleza  domi- 
nadora que  os  medíocres  costumam  baldadamente  pedir  á 
fantasia.  Justo  é  que  nós  o  amemos,  não  como  o  Eça  im- 
placável da  ironia  que  não  perdoa,  mas  como  o  obreiro  in- 
ternecido  dum  Portugal-Maior  que  está  para  renascer.  Sen- 
tiu Eça  o  seu  país  com  o  coração  e  com  o  talento.  No 
5.  Cristóvão  a  missa  ao  Diabo,  por  entre  o  escuro  da  noite 
e  da  floresta,  é  tudo  embebido  dum  conhecimento  largo  do 
nosso  folclore.  Eça  comprazia-se  cada  vez  mais  no  estudo 
das  nossas  tradições  populares.  E  um  ligeiro  facto  nos  de- 
monstrará como  na  sua  última  fase  o  próprio  criticismo  do 
escritor  se  modificava  e  adoçava  ao  tocar  naarca-santa  da 
pátria. 

Recordemo-nos  de  que  foi  na  Revista  de  Portugal  que  a 
correspondência  de  Fradique  apareceu  a  público.  No  es- 
tudo que  a  precede,  Eça  de  Queiroz,  a  propósito  dos 
apontamentos  recolhidos  por  Fradique  sobre  cultos  pri- 
mitivos, na  sua  viagem  ao  Zambeze,  transmite-nos  um 
bocado  de  conversação  tido  duma  vez  na  rua  de  Varennes 
numa  noite  de  ruidosa  invernia.  Ao  calor  do  fogão  e  do 
café,  circulava  nos  lábios  a  tese  predilecta  de  Fradique- 
-Renan  acerca  da  essência  das  religiões.  Com  aquele  traço 
sóbrio  e  incisivo  que  foi  sempre  o  encanto  da  palavra  de 
Fradique,  o  neto  de  D.  Lopo  Mendes  levantava  diante  dos 
olhos  dos  seus  convivas  todo  o  mistério  fundíssimo  da 
selva  africana.  Eça,  seduzido,  não  se  conteve:  —  ^<Fradi- 
que!  dporque  não  descreve  Você  essa  sua  viagem  á  Afri- 
ca?» Veiu  de  seguida  o  pasmo,  a  surpreza  de  Fradique, 
—  um  pasmo  e  uma  surpreza  sem  afectação.  «Era  a  vez 
primeira,  —  explica  Eça  — ,  que  eu  sugeria  ao  meu  amigo 


362 


a  idea  de  compor  um  livro».  E  o  futuro  revelador  da  Cor- 
respondência não  encontra  outra  maneira  de  exprimir  o 
«spanto  que  assomou  à  face  de  Fradique,  de  ordinário  im- 
perturbável, senão  comentando:  — «Foi  como  se  lhe  tivesse 
proposto  uma  epopeia  sobre  o  senhor  D.  João  VI!»  Isto 
lê-se  na  Revista  de  Portugal.  Já  se  não  lê,  porém,  em  A  cor- 
respondência de  Fradique  Mendes,  editada  em  volume.  Talvez 
tocado  por  uma  visão  mais  justiceira  da  história,  Eça  de 
Queiroz  deixou  em  paz  o  senhor  D.  João  VI,  —  quem  sabe 
se  Eduardo  Prado  lho  ensinara,  pelo  menos,  a  respeitar?—, 
e  rectificou  honestamente :  —  <  Elle  (Fradique)  ergueu  a 
face  para  mim  com  tanto  espanto  como  se  eu  lhe  propu- 
zesse  marchar  descalço,  atravez  da  noite  tormentosa,  até 
aos  bosques  de  Marly.» 


E  Fradique?  E  o  seu  espólio?  Embora  pudesse  parecê-lo, 
Tião  me  esqueci  nem  de  Fradique  nem  do  seu  espólio.  Para 
melhor  se  conhecer  Fradique,  até  agora  reputado  sim- 
plesmente como  um  profissional  de  humorismos  bizarros, 
nós  necessitávamos  de  conhecer  o  seu  meio,  —  de  conhe- 
cer o  seu  ambiente.  Nada  mais  falseado,  em  verdade,  do 
que  o  ambiente  em  que  se  movimentou  a  geração  de  Fra- 
dique. É  considerada  como  negadora,  como  iconoclasta, 
essa  geração.  Foi-o,  efectivamente.  Mas  foi-o  da  ideologia 
liberalista,  foi-o  das  mentiras  e  dos  ídolos  que  abastarda- 
vam a  essência  eterna  da  Pátria.  Era  cedo  ainda  para  que 
o  seu  esforço  se  polarizasse  no  sentido  orgânico  duma  dou- 
trina. Bastou-lhe,  porém,  a  observação;  e  a  iluminá-la,  a 
conduzi-la,  a  desbravar-lhe  o  caminho,  velava  por  ela  o  gé- 
•nio  rude  e  intenso  de  Proudhon. 

A  Proudhon,  —  um  incrédulo  — ,  deve  a  Igreja  uma  das 


363 


mais  vibrantes  defezas  do  poder  temporal  dos  Papas.  Não 
nos  causa  estranheza  assim,  que,  á  frente  do  livro  de 
Jacques  Bainville,  Bismarck  et  la  France,  a  memória  de 
Proudhon  se  enlace  comovedoramente  à  memória  dos  zua- 
vos  pontifícios  caídos  no  campo  de  batalha.  Pela  influên- 
cia máscula  do  pensamento  proudhoniano,  Antero,  também 
fora  da  Igreja,  defenderia  o  Syllabus  num  opúsculo  já  hoje 
raro,  antecipando-se  bem  quarenta  anos  às  apologias  céle- 
bres de  Charles  Maurras,— um  agnóstico.  Intitulava-se  esse 
folheto :  —  Defeza  da  Carta  Encydica  de  S.  S.  Pio  IX  contra 
a  chamada  opinião  liberal.  «É  um  protesto  contra  a  falta  de 
lógica  com  que  as  folhas  liberaes  atacavam  o  Syllabus,  — 
informa  Antero  na  sua  Carta  auto-biográfica— ,  declarando- 
-se  ao  mesmo  tempo  fieis  catholicas.» 

A  total  ausência  de  cultura  em  Portugal  não  permitiu  que 
se  visse  logo,  através  de  Proudhon,  a  razão  doutrinária  do 
anti-constitucionalismo  da  geração  de  60.  Tomou-se  como 
um  simples  acto  de  fé  republicana,— como  hoje  se  diria  em 
boa  linguagem  comicieira.  Antero,  Eça  de  Queiroz,  Oli- 
veira Martins,  ao  falarem-lhes  em  soluções,  aceitariam  en- 
tão,—admite-se—,  teoricamente  a  república.  Quando,  po- 
rem, mais  tarde,  o  seu  espírito,  fechado  o  período  analítico, 
se  procurou  aquietar  na  desejada  e  repousadora  síntese  — 
Inveni  portuml  como  exclamaria  Lemaitre,  ao  atingi-la  al- 
voroçadamente—,  foi  na  Monarquia-monárquica—,  con- 
quista de  civilização  e  de  história,  que  sem  dificuldade  a 
descobriram.  De  resto,  bem  cedo  Antero  se  impressionou 
com  as  analogias  existentes  entre  Balzac  e  Proudhon.  Não 
nos  espanta,  por  isso,  que,  pela  mão  de  Proudhon,  chegasse 
àquele  sereno  ancoradoiro,  de  que  Balzac  reflecte  a  tran- 
quilidade no  prefácio  imortal  de  La  Comêdie  Humaine. 

Ora  Fradique,  nada  proudhoniano,  mais  sibarita  que  pen- 
sador, mais  observador  que  sociólogo,  teve  de  comum  com 


364 


os  seus  amigos  um  ponto  de  partida:  —  Balzac.  É  certo 
que  Fradique,  com  rara  agudeza  crítica,  qualificava  o  es- 
tilo de  Balzac  «de  uma  exuberância  desordenada  e  barba- 
rica»,  mas  não  se  olvidava  nunca  de  lhe  mandar  pôr  sobre 
a  campa,  no  dia  dos  Mortos,  um  ramo  de  violetas  de  Parma 

—  dessas  violetas  que  em  sua  vida  Balzac  tanto  amara. 
Também,  por  acusar  Renan  de  falta  de  «solidez  e  nervo», 
nós  não  devemos  atirar  para  o  limbo  das  hipóteses  inúteis  o 
seu  mais  que  evidente  «renanismo».  Ao  acaso,  nas  menores 
manifestações  de  Fradique,  êle  se  nos  apresenta  bem  defi- 
nido, bem  caracterizado.  E  será  por  esse  fio  que  nós  vere- 
mos como  Fradique,  isento  da  pressão  de  Proudhon,  che- 
garia por  interessante  paralelismo  a  verificações  sociais  e 
políticas,  idênticas  às  dos  seus  amigos. 

<-<Toitriste  da  intelligencia»  se  confessava  espontaneamente 
Fradique.  O  crítico  mais  meticuloso,  ao  receber  a  sua  con- 
fissão, não  hesitava  em  classificá-la  logo  de  «renanista».  De 
renanismo,  com  efeito,  corre  eivado  quási  tudo  o  que  pos- 
suímos de  Fradique.  É  bem  de  Renan  um  excerto  como 
este,  arrancado  por  Eça  a  uma  carta  de  Fradique  a  G.  F.: 

—  «Todos  nós  que  vivemos  n'este  globo  formamos  uma 
imensa  caravana  que  marcha  confusamente  para  o  Nada. 
Cerca-nos  uma  Natureza  inconsciente,  impossível,  mortal 
como  nós,  que  não  nos  entende,  nem  sequer  nos  vê,  e 
d'onde  não  podemos  esperar  nem  socorro  nem  consolação. 
Só  nos  resta,  para  nos  dirigir,  na  rajada  que  nos  leva,  esse 
secular  preceito,  summa  divina  de  toda  a  experiência  hu- 
mana —  «ajudae-vos  uns  aos  outros !»  Que,  na  tumultuosa 
caminhada,  portanto,  onde  passos  sem  conta  se  misturam, 
cada  um  ceda  metade  do  seu  pão  áquelle  que  tem  fome;  es- 
tenda metade  do  seu  manto  áquelle  que  tem  frio ;  acuda  com 
o  braço  áquelle  que  vai  tropeçar;  poupe  o  corpo  d'aquelle 
que  já  tombou;  e  se  algum  mais  bem  seguro  e  provido  para 


365 


o  caminho  necessitar  apenas  sympathia  d'almas,  que  as  al- 
mas se  abram  para  elle  transbordando  d'essa  sympathia. . . 
Só  assim  conseç^uiremos  dar  alguma  belieza  e  alguma  di- 
gnidade a  esta  escura  debandada  para  a  Morte.» 

E  tal  como  em  Renan,  em  Carlos  Fradique  Mendes  a  es- 
perança dum  maior  grau  de  consciência  no  Universo,  como 
o  único  meio  de  vencer  o  dilema  fatal  da  Vida,  alternava, 
sem  reticências  nem  transições  demoradas,  com  o  seu  pro- 
fundo orgulho  na  arte  nobre  do  pensamento.  «O  homem, 
como  os  antigos  reis  do  Oriente,  —  dizia  Fradique  em  18S3 
a  Oliveira  Martins  — ,  não  se  deve  mostrar  aos  seus  seme- 
lhantes senão  única  e  serenamente  occupado  no  duro  officio 
de  reinar,  —  isto  é,  de  pensar.y>  E  era  ainda  o  seu  excessivo 
culto  pelo  prestígio  da  Inteligência  que  levava  Fradique, 
seguindo  as  pisadas  de  Renan  e  contra  os  preconceitos  pre- 
ponderantes na  sua  época,  a  condenar  asperamente  a  De- 
mocracia. 

Eça  guardou-nos  um  retalho  precioso  das  idéas  de  Fra- 
dique sobre  «o  grande  erro  da  nossa  civilisação».  Foi  numa 
manhã  de  Maio,  no  jardim  das  Tulherias.  Apoiado  no  braço 
do  que  viria  a  ser  no  futuro  o  seu  biógrafo  enternecido,  Fra- 
dique abria-se  vagarosamente,  condenando  «a  extrema  de- 
mocratização da  sciência,  o  seu  universal  e  illimitado  derra- 
mamento atravez  das  plebes».  No  horisonte  já  se  desenhava 
a  terrível  catástrofe,— a  catástrofe  tremenda.  E  Fradique  ia 
alongar-se,  quando,  «ao  transpormos  a  grade  para  a  Praça 
da  Concórdia,  —  escreve  Eça—,  o  Philosopho  que  assim 
lançava,  por  entre  as  tenras  verduras  de  maio,  estas  predi- 
ções de  desastre  e  de  fim— estaca,  emmudece.»  Ao  trote 
fino  duma  égua  passava  um  coupé,  onde,  de  relance,  flabe- 
laram  uns  cabelos  saborosamente  côr  de  mel.  Fradique  in- 
terrompe a  sua  apocalipse  e  atira-se  num  fiacre  arquejante 
para  os  lados  do  Cais  de  Orsay. . . 


366 


Ora,  ao  crepúsculo  desse  mesmo  dia,  Eça  entrava  em  casa 
de  Fradique,  à  rua  de  Varennes,  —  no  velho  palácio  dos 
Tredennes.  Fradique,  de  mãos  enterradas  na  quinzena  de 
seda,  olhava  melancolicamente  para  o  jardim,  já  aesfumar- 
-se  na  sombra.  Ao  alto,  forrando  a  sala,  quatro  ricas  tape- 
çarias de  Luca  Cornei i o  ressuscitavam  os  Trabalhos  de 
Hércules.  Pois  com  a  maior  naturalidade,  como  se  o  diálogo 
das  Tulherias  tivesse  continuado  pelo  dia  fora,  Fradique, 
sem  mais  preâmbulos,  prosseguiu  : 

—  «Não  lho  acabei  de  dizer  ha  pouco. . .  A  Sciencia,  meu 
caro  amigo,  tem  que  recolher-se  novamente  aos  Santuários. 
Não  ha  outro  meio  de  nos  salvarmos  da  anarquia  moraL 
Tem  de  ser  recolhida  aos  Santuários,  repito,  e  entregue  a 
um  sacro  collegio  intellectual  que  a  guarde  contra  as  curio- 
sidades das  plebes...  Ha  a  fazer  com  esta  idéa  um  pro- 
gramma  para  as  gerações  novas !»  Digam-me  agora  os  se- 
nhores se  é  ou  não  é  Renan  puro,  Renan  genuino,  — Renan 
dos  Drames  Philosophiques'í  Em  Fradique  transparecia,  de 
uma  maneira  inconfundível,  uma  das  mais  queridas  aspira- 
ções de  Renan,  ao  enunciar  assim  o  seu  desejo  dum  mundo 
regido  por  um  areópago  solene  de  sábios.  Assustado  com 
o  crescer  vozeante  e  ignaro  das  massas,  já  Renan  apelara 
para  um  sumo-sacerdócio  da  sciencia,  dominando  as  multi- 
dões pelo  terror  dos  seus  poderes  ilimitados  e  misteriosos. 
Na  ausência  de  Deus,  regressavam  os  deuses...  E,  ilusionado 
como  Renan  pelo  prestígio  mitológico  dum  intelectualismo 
prestes  a  desfazer-se,  Fradique  sofria-lhe  as  consequências 
na  terrível  escuridade  da  sua  terrível  noite  interior.  Deri- 
vava daí  a  sua  impossibilidade  quási  orgânica  á&  afirmação,  a 
que  Teixeira  de  Azevedo,  com  precisão  notabilissima,  cha- 
mava linfatismo  crítico.  Comparando-o  um  pouco  a  Descar- 
tes, —  Renan  encontrava-se  muito  perto,  para  que  a  seme- 
lhança se  surpreendesse  com  exactidão—,  Oliveira  Martins 


367 


fixara  num  relance  de  visão  feliz  o  traço  próprio  da  fisio^ 
nomia  mental  e  morai  de  Fradique  naquela  sua  carta,  de 
Novembro  de  1877,  a  Eça  de  Queiroz:  —  «Com  tudo  isto. 
falta-lhe  na  vida  um  fim  serio  e  supremo,  que  estas  quali- 
dades, em  si  excellentes,  concorressem  a  realizar.  E  receio 
que  em  logar  do  Discurso  sobre  o  Methodo,  venha  só  a  dei- 
xar um  vaudeville.» 

Nada  mais  dolorosamente  verdadeiro  !  Nada  em  que  me- 
lhor se  estampe  o  diletantismo  de  Fradique !  Eu  sei  que 
Eça  o  não  teve  como  dilettanti,— que,  até  numa  defeza  aca- 
lorada do  seu  amigo,  se  insurge  contra  essa  designação  em 
que  frequentemente  o  abrangiam.  «O  dilettante,  com  effei- 
to,  — pondera  Eça  — corre  entre  as  ideias  e  os  factos,  como 
as  borboletas  (a  quem  é  desde  séculos  comparado)  correm, 
entre  as  flores,  para  pousar,  retomar  logo  o  vôo  estouva- 
do, encontrando  n'essa  fugidia  mutabilidade  o  deleite  su- 
premo. Fradique,  porém,  ia  como  a  abelha,  de  cada  planta 
pacientemente  extrahindo  o  seu  mel ;  quero  dizer,  de  cada 
opinião  recolhendo  essa  «parcella  de  verdade»  que  cada  um 
invariavelmente  contém,  desde  que  homens,  depois  de  ou- 
tros homens,  a  tenham  fomentado  com  interesse  ou  paixão.» 
Mas  o  que  é  isto  senão  o  dilettantismo  na  sua  forma  supe- 
rior, no  seu  abuso  da  relatividade,  na  sua  incapacidade  sin- 
tética e  construtiva!  Não!  Não  nos  iludamos!  Fradique  foi 
um  dilettanti!  E  como  dilettanti,  saboreando  os  benefícios 
duma  alta  e  invulgar  cultura,  é  em  Renan  que  nos  cabe  pro- 
curar o  tipo  intelectual  que  mais  justamente  lhe  corresponde.. 

Depois,  é  mediante  esta  identificação  de  Fradique  com  o 
pensamento  e  com  a  psicologia  de  Renan  que  nós  pudemos 
explicar  o  que,  doutro  modo,  continuaria  inexplicável  em. 
Fradique:  — o  seu  nacionalismo,  em  mais  dum  caso  assinala- 
do com  paixão  fervorosa  numa  pessoa  como  êle,  que  parecia 
distraído  de  todo  pela  perturbação  das  grandes  urbes  cos- 


363 


mopolitas.  Provou-o  Fradique  magnificamente  ao  comprar 
a  quinta  do  Saragoça  em  Sintra.  Comprava-a,  exprimia-se 
êle  a  F.  Q.  «com  desacostumada  emoção»  —  acentua  Eça 
—  <  para  ter  terra  em  Portugal,  e  para  se  prender  pelo  forte 
vinculo  da  propriedade  ao  solo  augusto  d'onde  um  dia  ti- 
nham partido,  levados  por  um  ingénuo  impulso  de  idéas 
grandes,  os  seus  avós,  buscadores  de  mundos,  de  quem  elle 
herdara  o  sangue  e  a  curiosidade  do  a/m.»  São  palavras 
repassadas  duma  humildade  religiosa,  duma  ternura  tão  rara 
e  tão  intima,  que,  sem  querer,  me  trazem  à  lembrança  as  de 
Renan,  ao  invocar  a  memória  dos  da  sua  estirpe,  agarrados 
secularmente  ao  torrão  e  fazendo  economias  de  sensibili- 
dade e  de  entendimento,  de  cujo  tesoiro  acumulado  êle  seria 
o  usufrutuário  venturoso. 

Em  Portugal  descobria  Fradique  um  sanatório  para  as 
suas  torturas  dialécticas  de  sofista  insaciável.  «Nada  de 
idéas !  —  exclamava  êle  diante  dum  prato  «complicado  e 
profundo  de  bacalhau,  pimentos  e  grão  de  bico»,  em  certa 
taberna  da  Mouraria,  aonde  Eça  de  Queiroz  o  levara.  Ao 
acaso,  lançara-se  o  nome  de  Renan,  — sua  chaga  viva,  seu 
espelho  preferido.  Fradique  mirou-se,  horrorisado,  e  pro- 
testou com  veemência.  «Nada  de  idéas !  Nada  de  idéas ! 
Deixem-me  saborear  esta  bacalhoada  em  perfeita  innocen- 
cia  de  espirito,  como  no  tempo  do  senhor  D.  João  V,  antes 
da  Democracia  e  da  critica!» 

Antes  da  Democracia  e  da  Crítica !  Eis  um  conceito  que 
resume  todo  o  segredo  da  personalidade  de  Fradique.  Fio 
débil  num  enigma  tão  enleiante,  mostra-nos,  contudo,  como 
Fradique  reagia  contra  as  baixas  superstições  do  seu  tem- 
po. E  é-nos  lícito  admitir,  por  esta  via,  que  o  nacionalismo 
de  Fradique  não  se  reduzia  a  ser  unicamente  um  naciona- 
lismo pictural,  — um  simples  nacionalismo  de  esteta,  bus- 
cando-se  sempre  a  nota  bizarra  e  imprevista. 


o  FUNERAL  DE 

Famosa  pAoina  do  jornal  *A  Parodm 


o  P.-oU  íty,  Mc 

* 


—Como  !lM  Jijo  PoU  não  remilKcc  c 
— <h  miut  ^nc£<t>l  Sio  tiKk»  con» 


DE  QUEIROZ 
5ENHO  DE  Rafael  Bordalo  Pinheiro 


369 


Insofismavelmente  no-lo  indica  a  antipatia  de  Fradique 
pela  vida  de  Lisboa,  que,  numa  rápida  faísca  daquele  seii 
humorismo  tão  cáustico  e  tão  brilhante,  definiu,  duma  vez 
para  sempre,  como  «uma  cidade  traduzida  do  francez  para 
calão».  Conta  Eça  que,  ao  desembarcar  em  Santa  Apoló- 
nia, —  a  morte  poupou  a  Fradique  o  pavor  da  estação 
<  manuelina»  do  Rossio  !  — ,  o  tormento  profundo  de  Fradi- 
que era  descobrir,  por  debaixo  das  espessas  e  ignóbeis  ca- 
madas dum  torpe  francesismo  de  importação,  o  que,  por 
acaso,  restasse  ainda  do  autêntico,  do  castiço  Portugal. 
Começava  logo  por  se  desgostar  com  a  comida.  E  então, 
num  sentimento  minucioso  das  coisas  de  algum  dia,  Fradi- 
que  preguntava,  —  e  preguntava  doloridamente:  —  «Onde 
€stão  os  pratos  veneráveis  do  Portugal  portuguez  (do  Por- 
tugal português  —  reparem !),  o  prato  com  macarrão   do 
século  XVIII,  a  almôndega  indigesta  e  divina  do  tempo  das 
descobertas,  ou  essa  maravilhosa  cabidela  de  frango,  pe- 
tisco dilecto  de  Dom  João  IV,  de  que  os  fidalgos  inglezes 
íjue  vieram  ao  reino  buscar  a  noiva  de  Carlos  II  levaram 
para  Londres  a  surprehendente  noticia?  Tudo  estragado! 
O  mesmo  provincianismo  reles  poz  em  calão  as  comedias 
de  Labiche  e  os  acepipes  de  Qouffé.  E  estamo-nos  nutrindo 
miseravelmente  dos  sobejos  democráticos  do  boulevard. . . 
Desastre  estranho  !  As  coisas  mais  deliciosas  de  Portugal, 
o  lombo  de  porco,  a  vitela  de  Lafões,  os  legumes,  os  do- 
ces, os  vinhos,  degeneraram,  insipidarain.. .  Desde  quan- 
do? Pelo  que  dizem  os  velhos,  degeneraram  desde  o  Cons- 
titucionalismo e  o  Parlamentarismo.  Depois  d'estes  enxer- 
tos funestos  no  velho  tronco  lusitano,  os  fructos  tem  per- 
dido o  sabor  como  os  homens  tem  perdido  o  caracter...» 
<  Os  fructos  perderam  em  Portugal  o  sabor,  como  os  ho- 
mens perderam  o  caracter,  desde  o  advento  do  Parlamen- 
tarismo, desde  o  Constitucionalismo...»  E  para  que  não 

KÇA  DB  QUKIKOZ  24 


370 


nos  cresçam  duvidas,  Fradique  trata  as  imortais-conquis- 
tas  da  Liberdade  de  «enxertos  funestos  no  velho  tronco  lu- 
sitano». É  toda  uma  teoria  contra-revolucionária  que  se 
enuncia,  neste  desprendimento  elegante  de  Fradique.  Su- 
ponho que  se  Madame  Lobrinska  tivesse  permitido  a  Eça 
que  remexesse  no  cofre  espanhol  do  século  xv,  não  saía  de 
lá  nem  uma  Teoria  da  vontade,  nem  uma  Psicologia  das  Re- 
ligiões, —  repito.  O  que  saía,  detalhando  uma  Filosofia  de 
Reacção,  quási  se  adivinha  nesse  horror  de  inteligência  e 
de  instinto  com  que  Fradique  encarava  a  comédia-bufa  do 
nosso  ultra-romantismo  político. 

Documentou-o  Fradique,  em  muita  passagem  sua,  mas, 
sobretudo,  em  duas  das  suas  mais  celebradas  cartas,  —  a 
carta  endereçada  a  Mr.  E.  Mollinet,  conspícuo  director  da 
Revae  de  biographie  et  d'histoire,  e  a  ultima  carta  que  se  lhe 
conhece,  dirigida  a  Madame  de  Jouarre,  sua  madrinha,  e 
em  cujo  nome  palpita  ainda  uma  doce  reminiscência  de  Re- 
nan.  Na  verdade,  Fradique  tipificou  magnificamente  o  Cons- 
titucionalismo no  Conselheiro  Pacheco  e  no  Padre  Sal- 
gueiro. O  Padre  Salgueiro,  amanuense  de  Nosso  Senhor 
Jesus  Christo,  e  Pacheco,— o  de  imenso  talento,  sempre  ca- 
lado, sempre  recolhido  nas  profundidades  de  si-mesmo, 
marcam  uma  época  e  vitalizam  uma  mentira.  E  se  lhes  jun- 
tarmos D.  Paulina,  —  a  da  casa  de  hóspedes,  e  o  comenda- 
dor Pinho,  barão  presumivel  de  S.  Francisco,  a  Regeneração 
fica  simbolizada  em  quatro  figuras,  que  são  outros  tantos 
resumos  de  génio  num  tratado  de  experiência  humana.  Julgo 
demais  examiná-las  à  luz  do  critério  que  ilumina  o  presente 
ensaio.  Somente  aconselho  a  sua  meditação  reflectida,  em 
seguida  a  uma  leitura  não  menos  reflectida  do  Portugal 
contemporâneo,  ou  das  Farpas.  Então  se  verificará  a  admi- 
rável coincidência  doutrinária  que  presidiu  no  ambiente  de 
Fradique  à  demolição  consciente  e  sistemática  do  Libera- 


371 


lismo.  Essa  demolição,  revestindo  em  Fradique  termos  mais 
brandos,  podia  êle  tê-la  bebido  no  Renan  da  Reforme  intel- 
leduelle  et  morale,  E  se  traduz  alguma  influência  remota  de 
Proudhon,  — Proudhon,  com  a  sua  rusticidade  ardorosa,  ar- 
ranharia os  nervos  aristocráticos  de  Fradique  — ,  é  ao  alu- 
dir, num  periodo  passageiro,  às  crenças  do  Rev.Jo Salgueiro. 
«Nào  admira,  porém,  na  obra  pontifical  de  Pio  IX,  —  es- 
clarece Fradique—,  nem  a  Infallibilidade,  nem  o  Syllabus; 
porque  se  preza  de  liberal,  deseja  mais  progresso,  bemdiz 
os  beneficios  da  instrucção,  assigna  O  Primeiro  de  Janeiro:» 
Singular  geração  essa  em  que,  de  Antero  a  Fradique,  se  com- 
preendia e  respeitava  o  Syllabus,  quando,  a— dentro  da  Igre- 
ja, prelados,  como  o  de  Vizeu,  se  recusavam  publicamente  a 
defendê-lo  ! 

Pena  é  que  não  chegasse  a  aparecer  o  volume  Versos  e 
Prosas  de  Fradique  Mendes,  anunciado  por  Eça  na  Corres- 
pondência. Mais  espaçadamente  aí  se  confirmaria  o  intenso 
nacionalismo  do  glorioso  amigo  de  Ana  de  Léon,  —  tanto 
mais  que  Eça  proclama  como  verdadeiros  «Ensaios  Histó- 
ricos» as  cartas  de  Fradique  a  Oliveira  Martins  acerca  do 
nosso  imperialismo  no  Oriente,  do  Sebastianismo  e  do  Mar- 
quês de  Pombal.  Com  fundamentos  colhidos  na  história  e 
na  sociologia,  esse  nacionalismo,  —  insisto  — ,  não  resul- 
tava, pois,  duma  mera  guloseira  de  estética,  dum  pictura- 
lismo  requintado  e  exigente.  Em  politica,  conduzira  Fra- 
dique francamente  a  uma  posição  de  inactual,  —  de  ante- 
cipado, que,  por  conhecimento  próprio,  o  obrigou  talvez  à 
mudez  inviolável  do  cofre  espanhol  do  século  xv.  Fradique 
sentia  o  amor  da  história  e  não  ha  nada  mais  irreconciliável 
com  a  Democracia  e  com  o  Liberalismo  do  que  a  História 
—  quando  história—,  na  realidade!  Foi  por  aí  que  Fradique 
recuperou  o  senso  das  coisas  da  nossa  terra.  E  assim  não 
nos  espanta  que  Fradique  amasse,  em  Portugal,  principal- 


372 


mente  o  Povo.  E  porquê?  Porque  o  Povo  «não  mudou, 
como  não  muda  a  Natureza  que  o  envolve  e  lhe  communica 
os  seus  caracteres  graves  e  doces».  Com  o  Povo,  não  mu- 
dou também  a  Paisagem.  E  a  Paisagem  arrancou  a  Fradique 
essa  écloga  admirável  que  é  a  carta  escrita  da  quinta  de  Re- 
caldes,  no  Minho,  a  Madame  de  Jouarre.  «Um  carro  retar- 
dado, pesado  de  mato,  geme  pela  sombra  da  azinhaga.  E 
tudo  é  tão  calmo  e  simples  e  terno,  minha  madrinha,  que, 
em  qualquer  banco  de  pedra  em  que  me  sente,  fico  enleva- 
do, sentindo  a  penetrante  bondade  das  coisas,  e  tão  em 
harmonia  com  ella,  que  não  ha  n'esta  alma,  toda  encrostada 
das  lamas  do  mundo,  pensamento  que  não  pudesse  contar  a 
um  santo. ..» 

Quando  no  nosso  país  se  institua  a  valer  um  curso  de 
energia  nacional,  a  Fradique  se  irá  pedir,  como  uma  das 
prelecções  iniciais,  a  sua  bela  carta  a  M.^^  F.  —  maravi- 
lhoso epítome  do  que  seja  um  patriotismo  sentido  com  a 
inteligência  e  compreendido  com  a  emoção.  Sabem  de  certo 
a  que  carta  me  refiro  ?  Refiro-me  à  resposta  de  Fradique  a 
uma  senhora  que  pretendia  para  seu  filho  um  professor  de 
espanhol.  Numa  hora  de  estrangeirismo  invasor,  a  carta  de 
Fradique  precisava  de  andar  em  todas  as  bocas,  de  ser  lida 
em  todas  as  escolas,  de  estar  patente  à  entrada  de  todas  as 
casas.  É  dessa  carta  um  grande,  um  inolvidável  conselho, 
digno  de  se  reduzir  às  honras  dum  artigo  de  fé  na  religião, 
hoje  tão  desertada,  da  Terra  e  do  Sangue :  —  «Falemos  no- 
bremente mal,  patrioticamente  mal,  as  línguas  dos  outros».  E 
Fradique  justifica-se,  Fradique  explica-se:  —«Mesmo  por- 
que aos  estrangeiros  o  polyglotta  só  inspira  desconfiança, 
como  ser  que  não  tem  raízes,  nem  lar  estável,  —  ser  que 
rola  através  das  nacionalidades  alheias,  successivamente 
se  disfarça  n'ellas,  e  tenta  uma  installação  de  vida  em  to- 
das porque  não  é  tolerado  por  nenhuma.  Com  effeito,  se  a 


I 


373 


minlia  amiga  percorrer  a  Gazeta  dos  Tribunaes  Verá  que  o 
perfeito  polyglottismo  é  um  instrumento  de  alta  escroque- 
riey>. 

Passo  em  claro  o  episódio  comovedor  da  tia  de  Fradi- 
que  (os  genealogistas  descobrirão,  de  futuro,  se  o  era  por 
via  materna,  se  por  linha  paterna),  boa  e  excelente  senho- 
ra, que,  sem  falar  mais  do  que  o  minhoto,  «nunca,  em  ci- 
dade ou  região  intelligente  do  Universo,  . . .  deixou  de  co- 
mer os  seus  ovos,  e  superiormente  frescos».  E  no  momento 
em  que  se  funda  em  Portugal  uma  Casa  de  Jornalistas,  — 
que  diabo  serão  na  sociedade  os  jornalistas  para  terem 
casa?  — ,  prefiro  recordar  a  definição  que  Fradique  nos  dava 
dos  jornais  portugueses.  Qqx^^o  fenómenos  picarescos  de  de- 
composição  social  os  encarava  e  caracterizava  o  poeta  fu- 
gidio dos  Lapidários.  Pois  aos  jornais,  como  desforço 
póstumo,  pode  Fradique  agradecer  o  conceito  de  fazedor 
impertinente  de  frases  que  lhe  desbota  e  ennegrece  a  me- 
mória !  Pobre  Fradique!  Ninguém  padeceu  como  êle  a  tra- 
gédia profunda  da  Inteligência,— e  ninguém  como  êle  é  ainda 
agora  festejado  como  um  profissional  de  ironias  célebres, 
impostas,  ditatorialmente,  do  alto  da  sua  correcção,  a  uma 
plebe  anónima  de  snobs  —  àos  que  vegetam,  como  o  lixo  da 
rua,  ao  longo  dos  carnets-mondains  e  alternam  com  os  mo- 
ços de  corda  às  esquinas  inglórias  do  Chiado.  Afilhado,  se 
não  irmão  mais  novo  de  Renan,  Fradique  teve,  como  Renan, 
o  encanto  da  conversação  e  o  gosto  do  estilo.  Mas,  como 
em  Renan,  a  bondosa  despreocupação  de  Fradique  não  cor- 
respondia ao  conteúdo  exacto  da  sua  alma. 

Léon  Daudet  apresenta-nos  algures  Renan  como  «iin  sce'- 
ptique  suspenda  entre  un  rêve  multicolore  et  le  néant.y>  Suspensa 
entre  a  imagem  obsedianíe  do  Nada  e  o  sonho  artificial  de 
que  baldadamente  se  tentou  rodear,  eis  como  decorreu  a 
existência,  só  nas  aparências  tranquila  e  sorridente,  de  Car- 


374 


los  Fradique  Mendes.  Inopinatam  atque  repentinam,  veiu 
um  dia  a  morte,  —  a  morte  que  êle  e  César  foram  os  dois 
a  apetecer,  igual.  O  segredo  de  Fradique  ficou  para  sempre 
guardado  no  cofre  espanhol  do  século  xv,  confiado  aos  cui- 
dados severos  de  Madame  Lobrinska,  —  aquela  «sapiente 
Libuska»  que  se  movia  com  o  esplendido  peso  duma  está- 
tua. Debalde  insistiu  Eça  de  Queiroz  para  que  os  inéditos 
de  Fradique  se  revelassem,  belos,  à  admiração  internecida 
dos  seus  amigos.  Refugiada  entre  neves  e  crepes,  nos  con- 
fins do  governo  de  Karkoff,  Madame  Lobrinska  obstinou-se 
sempre  numa  recusa  tão  inabalável  e  tão  gelada,  como  a  im- 
penetrabilidade das  velhas  esfinges  tumulares.  Morreu  Ma- 
dame Lobrinska.  E  nas  mãos  dos  seus  herdeiros  os  papeis 
de  Fradique,  ou  voaram  desfeitos  na  indiferença  da  gente 
estranha,  ou  juntaram  as  suas  cinzas  às  cinzas  do  vasto 
domínio,  quando  ultimamente  os  campesinos  de  Karkoff  o 
reduziram  a  um  montão  de  cinzas  acarvoadas. 


Pregunta-se:— mas  o  que  conteria  afinal  o  cofre  espanhol 
do  século  XV,  tão  ciosamente  guardado  por  Madame  Lo- 
brinska? Não  creiam  que  conixv esse  Memorias,  —  e  muito 
menos,  ou  uma  Teoria  da  Vontade,  ou  uma  Psicologia  das 
Religiões.  Senhor  de  toda  a  cultura  da  sua  época,  Fradique 
não  ignorava  que  essa  cultura  representava  superiormente, 
com  Balzac,  Comte,  Taine,  Renan  e  tantos  outros,  um  sis- 
tema de  crítica  filosófica  aos  baixos  erros  da  Democracia 
e  do  Liberalismo. 

Não  se  entende,  de  outro  modo,  que  Fradique  — um  cos- 
mopolita e  um  dilettanti,  —  concluísse  emotiva,  estética  e 
socialmente  num  nacionalismo  tão  intenso  e  tão  apaixo- 


375 


nado,  como  o  que  nos  oferece  o  estudo  reflectido  da  sua 
Correspondência.  Afigura-se-me  que,  se  nalí^um  trabalho  de 
fôlego,  consistia  o  espólio  literário  de  Fradique,  talvez  se 
intitulasse  Filosofia  da  Reacção.  Não  é  constranger  a  uma 
idéa  minha  as  idéas  sempre  tão  vigorosas  e  tão  indepen- 
dentes de  Fradique,  É  antes  concretizar  numa  fórmula  pre- 
cisa o  espírito  e  as  intenções  do  pouco  que  de  Fradique 
chegou  até  nós,  desgraçadamente. 

Mas  seja  como  fôr,  na  minha  livraria  eu  coloco  dora- 
àvante  o  volume  de  A  Correspondência,  entre  os  pensado- 
res políticos,  ao  lado  de  O  Novo-Príncipe,  do  dr.  José  da 
Gama  e  Castro,  e  de  O  Desengano,  do  P/  José  Agostinho 
de  Macedo.  E  se  amanhã,  de  posse  de  subsídios  inespera- 
dos e  mais  decisivos,  houver  de  refundir  o  presente  ensaio, 
chamar-lhe-ei  definitivamente  e  com  mais  propriedade:  — 
Fradique,  mestre  da  Contra-Revolução. 

Badajoz,  exílio,  2  de  Janeiro  de  1920. 

António  Sardinha. 


Ante  lã  estatua  de  Eça  de  Queiroz 


Durante  mi  estancia  en  Lisboa,  nunca  creí  que  podría  re- 
sucitar  á  mis  ojos,  en  esta  ciudad  tan  moderna,  tan  clara, 
más  enírenada  aún  para  la  vida  cosmopolita  y  uUrachic  que 
el  castizo  y  adorable  Madrid  ;  —  ese  viejo  Portugal  que  yo 
antes  tantas  veces  había  sofiado,  pêro  que  solo  podia  inter- 
pretar y  sentir  á  través  de  los  libros  de  ese  mago  de  la  His- 
toria, con  más  solidez  mental  que  Michelet,  con  tanta  ca- 
pacidad  para  las  ideas  generales  como  Taine,  con  tanto  po- 
der de  evocación  en  su  estilo  como  Agustin  Thierry,  con 
tanta  facultad  poética  de  animar  la  documentación  como 
Alejandro  Herculano,  en  suma,  ese  mago  de  la  Historia  á 
quien  yo  creo  que  el  Portugal  intelectual  no  ha  estimado 
aún  en  todo  lo  que  vale,  que  se  llamó  Joaquín  Pedro  Oli- 
veira Martins... 

En  una  mafiana  clara  y  luminosa  de  Diciembre,  —  con  un 
cielo  azul-ferrete,  «profundo,  luminoso,  consolador»,  como 
una  vez  definió  Eça  el  cielo  de  Lisboa  —  tuve  la  visión 
gloriosa  y  nítida  de  ese  viejo  Portugal  de  frailes,  de  desem- 


377 


bargadores,  àe  fidalgas  rez&wáersiS,  de  muchachitas  enamo- 
radizas,  meigas  y  românticas. . . 

Fué  en  la  Iglesia  de  Nuestra  Senora  dei  Loreto,  en  lo  alto 
dei  Chiado.  Yo  venía  de  recorrer  calles  y  plazas  de  la  vieja 
Lisboa,  ruas,  largos,  travessas,  becos,  y  escadinhas,  que,  si 
me  eran  desconocidas  en  su  tangible  realidad,  me  eran  fa- 
miliares en  sus  nombres,  en  su  configuración  y  en  sualma; 
hay  un  alma  dormida  en  cada  riía  de  Lisboa!  á  través  de 
los  libros  más  estimados  de  la  literatura  portuguesa,  que 
cultive  y  curioseé  siempre  con  el  amor  de  una  literatura 
hermana. . . 

Eran  las  once  de  Ia  mafiana  de  un  claro  dia  genuinamente 
dei  invierno  de  Lisboa,  i  No  fué  pensando  en  este  clima  de- 
licioso y  en  la  alegria  de  vivir  que  inspira,  en  el  instinto  da 
goces  naturales  y  sanguíneos  que  despierta  en  el  pueblo 
português,  como  un  personaje  de  Eça  de  Queiroz  decia  que 
se  contentaba  en  su  sobriedad  meridional,  como  los  anti- 
guos  griegos,  con  comer  unas  aceitunas  y  mirar  ai  cielo 
que  es  bonito  ?. . .  Quien  hablaba  asi  era  —  en  A  Illustre 
Casa  de  Ramires— el  delicioso  Tító,  de  vozarrón  recio,  cara 
gordinflona  y  alma  amable  de  obeso,  el  simpático  António 
Villalobos,  gentil  epicúreo  que  es  representante  de  la  me- 
socracia  portuguesa,  junto  con  João  Gouveia,  como  Gon- 
çalo Mendes  Ramires  es  el  representante  de  la  aristocra- 
cia y  de  Ia  hidalguía,  como  André  Cavalleiro  es  el  repre- 
sentante de  la  burguesia  enriquecida  y  condecorada  con 
encomiendas,  como  José  Casco  es  el  representante  dei  pue- 
blo rural  que  sabe  fustigar  á  sus  superiores  y  sabe  también 
humillarse  cristianamente, . .  Porque  en  A  Illustre  Casa 
DE  Ramires,  esa  novela  síntesis  dei  grande  amor  que  por 
dentro  sentia  Eça  de  Queiroz  hacia  su  pátria,  pasan  figuras 
representativas  de  todas  las  clases  sociales  dei  Portugal 
viejo  y  dei  nuevo  Portugal. . . 


378 


Yo  venía  aquella  mafiana  de  recorrer  las  cíalles  de!  rifión 
de  Lisboa,  calles  pinas,  algunas  cortadas  á  pico,  sobre  las 
três  colinas  de  San  Pedro  de  Alcântara,  Chagas  y  Alto  de 
Santa  Catharina ;  calles  que  tienen  nombres  pintorescos, 
de  sabor  rancio  y  popular :  Rua  das  Gáveas,  Travessa  do 
Poço  da  Cidade,  Rua  da  Barroca,  Travessa  dos  Inglezinhos, 
Travessa  dos  Fieis  de  Deus,  Travessa  da  Agua  de  Flor,  Rua 
da  Trombeta,  Rua  da  Atalaia,  etc;  calles  que  están  encer- 
radas en  ese  laberinto  que  se  tiende  detrás  dei  jardin  de 
San  Pedro  de  Alcântara;  calles  aúu  con  caracter,  conver- 
tidos los  balcones  en  tendederos  de  ropa  blanca,  con  por- 
tales  lóbregos  y  tendinhas  infectas  en  los  pisos  bajos,  con 
fachadas  pintarrajeadas  de  colores  chillones;  en  suma,  un 
resto  de  Ia  Lisboa  típica  tal  como  la  vió,  en  los  comienzos 
de!  siglo  pasado,  el  viajero  inglês  Kinsey, . . 

Lo  que  dá  caracter  á  estes  barrios  típicos  de  Lisboa  es 
que,  siendo  esta  ciudad  de  las  más  ricas  y  alegres  en  su 
parte  nueva,  alli  en  aquellos  escondrijos  rezuma  la  pobre- 
za, la  miséria  secular  dei  país.  La  miséria  está  más  confi- 
nada, tornandose  com  eso  más  triste  por  más  aislada,  en 
Madrid,  en  Paris  y  en  Londres ;  en  Lisboa  la  miséria  es 
más  alegre,  es  una  miséria  andariega  y  resignada  como  la 
de  San  Francisco  de  Asis  y  de  sus  compafieros  los  pove- 
retti. . .  En  Lisboa  la  miséria  sale  á  la  superficie,  rebosa,  so- 
brenada ;  no  se  la  puede  contener  en  ghettos  ni  morerías  ; 
el  sol  alegre  y  el  cielo  claro  la  convidan  á  salir  de  sus 
choupanas,  de  sus  cubiles ;  y  se  expande  y  se  luce  y  se  re- 
pulga  ai  sol  en  las  calles  nuevas  y  ruidosas,  perturbando 
con  su  Vision  sórdida  la  digestión  de  los  felices  y  de  los  ri- 
cos... 


379 


II 


Me  detuve  ante  Ia  iglesia  que  hace  un  tan  lindo  empare- 
jamiento  fronterizo  con  Ia  de  Nuestra  Sefiora  de  la  Encar- 
nación  y  que  ostenta  sobre  el  portalón  labrado  bellas  ale- 
gorias angélicas  de  escultura  italiana,  i  Había  en  Ia  iglesia 
alguna  joya  de  arte  religiosa,  aigún  cuadro  de  Wolkmar  ó 
escultura  de  Machado  de  Castro?  Alguna  cosa  habia  que 
valiera  Ia  pena  de  verse;  mas  no  era  esto  Io  que  alli  me 
atraía  ;  vénia  yo  aquella  manana  de  la  Iglesia  de  San  Ro- 
que, saturado  de  pintura  religiosa. . . 

Lo  que  alli  me  atraía  y  cautivaba  era  el  espectáculo  su- 
gestivo de  una  funcción  religiosa,  con  exposición  dei  San- 
tísimo  Sacramiento,  Io  que  en  Portugal  aún  se  Ilama,  á  la 
linda  manera  latina,  un  Lausperenne.  . .  Ese  Laiisperenne 
ai  cual  van  todas  las  tias  viejas  de  los  muchachos  janotas 
que  Eça  ha  retratado  ;  ese  Lausperenne  ai  cual  va  siempre 
la  fétida  D."*  Patrocinio  das  Neves  en  A  Relíquia  ;  ese 
Lausperenne  ai  cual  van,  como  en  sumisión  de  súbditos  de 
Su  Majestad  Fidelísima,  todas  las  fuerzas  vivas  dei  país 
—  Ias  fuerzas  vivas  que  en  Portugal  como  en  Espaiia  son 
casi  siempre  las  fuerzas  muertas :  —  \a.  burocracia,  repre- 
sentada por  el  consejero  Acácio  en  O  Prlmo  Basílio,  por 
el  Dr.  Margaride  en  A  Relíquia  y  por  João  Gouveia  en  A 
Illustre  Casa  de  Ramires;  la  hidalguía  momificada,  re- 
presentada por  Barrôlo  en  esta  última  novela,  por  el  Con- 
de de  Ribamar  en  O  Crime  do  Padre  Amaro  ;  la  politica 
constitucionalista  y  velhota  representada  por  el  Conde  de 
Gouvarinho  en  Os  Maias  y  por  André  Cavalleiro  en  A  Il- 
lustre Casa  de  Ramires;  y  hasta  ipudet  dictu!  la  litera- 
turilla  inconsulta  y  acéfala,  representada  por  Thomaz  de 


380 


Alencar  en  Os  Maias  y  por  Ernestinho  en  O  Primo  Ba- 
sílio... 

;  Lausperenne  simbólico,  representativo  dei  viejo  Portugal 
que  pasó  la  vida  entre  novenas,  Lausperennes,  Salve-rainhas 
y  toiradas!. . .  i  Portugal  arcaico  de  los  desembargadores  y 
de  las  fidalgas  devotas,  Portugal  de  los  consejeros  y  de  los 
comendadores  de  S.  Thiago  ó  de  la  Orden  de  Cristo;  Por- 
tugal que  hoy  menosprecian  los  mozos  violentos  y  radica- 
les,  calificándolo  de  charneca! . . .  Yo  no  comparto,  aunque 
comprenda,  el  parecer  de  estos  mozos  irrequietos  y  ba- 
talladores  ;  y  el  dualismo  es  perfectamente  explicable. . . 
Comprendo  la  posición  mental  de  los  desdefiadores  y  de- 
tractores dei  viejo  Portugal  porque  es  la  misma  posición 
que  ante  la  vieja  Espafia  mantenemos  todos  los  escritores 
é  intelectuales  de  la  generación  que  viene  después  de  la 
caida  dei  império  colonial  y  los  estertores  de  agonia  de 
1898;  ocasión  solemne  aquella  en  la  historia  dei  mundo  en 
que  un  áspero  Lord  Salisbury  nos  envolvió  á  todos  los  ín- 
colas de  la  Península  en  una  gargalhada  de  sarcasmo  y  de 
desdén . . . 

Concibo,  pues,  la  posición  de  menosprecio  ai  viejo  de 
Portugal  —  que  es  la  posición  nuestra  de  menosprecio  á  la 
vieja  Espaiia:  la  posición  de  Unamuno  el  fuerte,  de  Azorin 
el  fiando,  de  Ortega  Gasset  el  denso,  de  Maeztu  el  vasco 
áspero,  de  Pérez  de  Ayala  el  ondulante  como  la  curva  de 
nuestras  colinas  rideilas  dei  Cantábrico,  la  posición  mia  en 
suma,  que  tengo  en  mi  espíritu  esa  dualidad  dúctil  y  flexi- 
ble  que  dá  el  clima  lluvioso  y  la  etnografia  indecisa  de  As- 
túrias. . .  Pêro  si  la  concibo,  no  la  comparto ;  porque  para 
mi  punto  de  vista  de  extranjero,  á  quien  el  viejo  Portugal 
no  ha  herido  en  las  entrafias,  hay  un  aspecto  artístico  dei 
viejo  Portugal  ai  cual  no  puedo  sustraerme:  y  amo  ese  viejo 
Portugal  visto  á  través  de  Herculano,  de  Arnaldo  Gama, 


381 


de  Oliveira  Martins.  Á  través  de  estos  artistas,  puede  de- 
cirse  que  el  Portuga!  viejo  era  un  poço  triste,  un  poço  sór- 
dido, un  poço  melancólico  y  un  poço  sucio,  pêro  i  tan  pin- 
toresco,  tan  interesante  !. . . 


III 


En  el  templo  susurraban  las  devotas  rezos  bisbiseados. 
Había  muchas  mujeres  y  también  —  para  consolación  de 
almas  católicas  —  muchos  hombres  ;  ancianos  en  su  mayo- 
ría,  de  largos  bigotes  colgantes  y  blanca  perilla;  hombres 
maduros  de  ásperos  bigotes  ó  suíças  genuinamente  portu- 
guesas ;  hasta  cinco  ou  seis  mozos  de  negros  ojos  agare- 
nos, foscos  bigotes  estirados  é  impertinentes,  de  pensativa 
y  elegante  esbeltez  peninsular...  Los  clérigos  cantaban 
una  Letanía  cadenciosa  á  la  cual  contestaban  las  devotas 
con  un  bisbiseo  mascullado  y  sordo  de  latín  litúrgico... 
Era  una  letanía  omniuin  sanctorutn,  monocorde  y  melódica 
<iue  me  evocaba  las  rogativas  de  primavera  en  Astúrias,  en 
las  iglesias  de  aldeã  para  pedir  sol  que  fecunde  las  siem- 
bras  estragadas  por  la  Iluvia. . .  Sonaba  lento  y  solemne  en 
el  vasto  recinto  de  la  iglesia,  el  Libera  me.  Domine  y  el 
Exaudi  nos  de  las  vocês  rezanderas. . . 

Luego  los  cantores  dei  coro  alto  entonaron  el  Pange  lin- 
gua...  Entonces  un  sacristanuco  de  facha  enrevesada  y 
harapienta,  con  una  capa  roja  sobre  el  raido  traje  seglar, 
vino  á  invitarme  con  esa  dulzura  cadenciosa  que  toma  el 
português  en  lábios  de  servidores  : 

—  Quer  V.  Ex.^  uma  capinha  p'rá  procissão  do  Santíssimo 
Sacramento  ? . . . 

Con  timidez  de  extranjero  que  pronuncia  mal  conteste 


382 


que  no,  á  pesar  de  haber  visto  á  los  mozos  de  langorosos 
ojos  ibéricos  y  á  los  viejos  de  adusta  faz  sombria  colgarse 
capas  rojas  sobre  fatos  de  corte  inglês  y  bajo  bigotes  don- 
juanescns...  No  era,  pues,  repulsa  despectiva  descortês » 
sino  timidez  de  extranjero  —  y  un  poço  de  ironia  volte- 
riana. . .  A  punto  estuve  de  explicarte  esta  actitud  i  oh  sa- 
cristán  de  traza  tan  ruin  y  voz  tan  meiga !  con  estas  ó  pa- 
recidas frases  :  —  No  me  pongo  la  capa  para  la  procesión 
dei  Santisimo  Sacramento  — aún  siéndome  tan  grato  el  en- 
cuentro  imprevisto  con  ese  viejo  Portugal  que  tantas  veces 
presentí  en  Almeida  Garrett,  en  Arnaldo  Gama  y  en  Oli- 
veira Martins,  y  sobre  todo,  en  el  mestre  inmortal  Hercu- 
lano —  por  causa  de  ese  hombre  que  está  a/ií  abajo. . . 


IV 


Ese  hombre  era,  en  efígie,  José  Maria  Eça  de  Queiroz, 
estatuado  por  Teixeira  Lopes  en  un  bloque  de  mármol  cla- 
ro ;  y  ahí  abajo  era. . .  el  Largo  do  Barão  de  Quintella,  pe- 
quefía  plaza  encuadrada  entre  la  Rua  das  Flores,  empinada 
y  revuelta,  y  la  Rua  do  Alecrim  que  en  suave  pendiente 
baja  ai  Cães  do  Sodré. . .  De  esta  plazoleta  arranca  en  pen- 
diente perpendicular  la  Rua  do  Sequeiro  das  Chagas,  me- 
lancólica calle  de  província,  con  muros  de  quintal  sobre  los 
cuales  ramajes  de  árboles  asoman  las  cabezas  curiosas ; 
con  casas  viejas  siempre  cerradas,  con  una  soledad  y  un 
silencio  conmovedores,  en  pleno  corazón  de  la  ciudad. . . 

Ante  ese  monumento  he  ido  muchas  mananas  claras  y 
apacibles  dei  invierno  de  Lisboa  á  meditar  y  á  sonar. . .  La 
vida  portuguesa  dei  siglo  pasado  tal  como  la  retrato  Eça 
en  sus  novelas  desfilaba  ante  mis  ojos...  Frente  ai  monu- 


383 


mento  de  Eça  de  Queiroz  está  un  caserón  aristocrático 
siempre  cerrado  —  un  caserón  como  esos  que  él  ha  descri- 
to, como  el  caserón  de  los  Barrôlos  en  Oliveira,  con  su 
«fidal;4a  fachada  de  doze  Varandas»  (1) ;  —  es  el  Palácio  de 
Carvalho  Monteiro,  donde  se  alojo  el  Mariscai  Junot  cuan- 
do  invadió  el  reino  lusitano,  en  el  primer  vuelo  dei  águila  na- 
poleónica  sobre  el  antiguo  solar  de  Viriato...  (Evocación 
dei  fuerte  libro  El-Rei  Junot  de  Raul  Brandão).  Propie- 
dad  dei  Barón  de  Quintella  que  da  nombre  á  la  pequena, 
plaza,  está  hoy  siempre  cerrado  y  con  su  f  isonomía  severa 
y  adusta  entona  aquel  paraje  de  Lisboa  en  que  vive  con  la 
vida  iumortal  dei  mármol  el  glorioso  creador  de  Os  Maias. 
El  novelista,  en  su  gesto  de  hombre  superior,  va  á  reco- 
ger  en  sus  brazos  la  figura  de  la  Verdad  que  se  le  entrega, 
médio  desnuda,  velada  por  el  cendal  de  la  fantasia,  evocan- 
do aquel  epígrafe  suyo  en  A  Relíquia:  Sobre  a  nudez  forte 
da  verdade,  o  manto  diaphano  da  phantasia . . .  Contempla 
el  novelista  á  la  Verdad  con  su  atenta  mirada  algo  irónica. 
Fero  hay  un  acierto  admirable  dei  escultor  que  se  debe, 
antes  que  á  una  intencionalidad  deliberada,  á  una  dificul- 
tad  de  ejecución.  Teixeira  Lopes,  que  ha  hecho  en  esta 
estatua  una  bella  obra  de  arte,  no  ha  puesto  ai  novelista 
su  clásico  monóculo. . .  El  olvido  ó  la  deliberación  son  sim- 
bólicos, i  Aquel  era  el  único  momento  de  su  vida  en  que 
Eça  no  se  encajaba  el  monóculo  bajo  el  arco  supericlial !... 
Para  mirar  á  la  Verdad,  Eça  se  ponía  frente  á  frente  y  la 
contemplaba  cara  á  cara,  la  encaraba  sin  auxilio  dei  lente 
maligno  y  mundano,  lente  de  ironia  y  de  salón,  de  sociedad 
y  de  ritual...  Es  toda  una  ensenanza  :  á  la  Verdad  la  mi- 
raba  Eça  con  sus  propios  ojos,  con  esos  ojos  que  se  ha- 
bia  de  comer  la  tierra,  como  dice  el  pueblo  en  Espafia. 


il)  A  Illtistre  Casa  de  Ratíiires,  cap.  iv,  pag.  119. 


384 


Este  era  el  hombre  i  oh  sacristán  dei  Loreto,  de  rostro 
expresivo  y  picaro  de  português  caturra !  que  me  había  en- 
senado  á  sonreir  dei  viejo  Portugal. . .  Ese  viejo  Portugal 
que  el  tanto  vilipendio  y  pisoteó  ai  principio  de  su  carre- 
ra  literária ;  dei  que  luego  se  sonrió  con  una  más  leve  y 
alada  sonrisa  de  escepticismo  en  Ia  edad  madura  á  la  hora 
en  que  el  espíritu  se  va  tornando  más  serio  y  más  concen- 
trado ;  y  que  acabo  en  el  ocaso  de  su  existência  por  amar 
y  adorar  y  evocar  con  tan  llorosa  nostalgia,  con  saudade 
infinita  de  poeta  —  pudiendo  entonces  decirse  que  amaba 
ai  viejo  Portugal  como  un  Lost  Paradise,  como  una  pátria 
para  siempre  perdida  :  amor  dei  cual  son  símbolo  y  cifra 
A  Cidade  e  as  Serras  y  A  IlUistre  Casa  de  Ramires. 


V 


Temperamiento  nunca  inclinado  á  las  ideas  cerradas  y 
unilaterales,  temperamento  que  como  el  de  Renan  alcan- 
zaba  en  toda  cosa  el  doble  aspecto  de  verdad  y  mentira  que 
«ncierra,  temperamento  predominantemente  artista,  y  como 
tal,  propicio  á  la  flexibilidade  y  de  escasareceptividad  para 
la  obsesión  fanática,  Eça  de  Queiroz  nunca  tuvo  «ese  no- 
ble  y  bello  fanatismo  por  la  Revolución»,  por  el  cual  el  loa- 
ba  á  Teófilo  Braga,  en  carta  quele  dirigia  desde  New-Cas- 
tle  en  12  de  Marzo  de  1878  á  propósito  de  El  Primo  Basí- 
lio (1). 


:1)  He  aqui  el  pàrrafo  en  que  se  halla  ese  íuerta  inciso :  «A  sua  uki- 
raa  foi  para  mim  um  grande  allivio.  Eu  estava-lhe  com  receio.  Como  to- 
dos os  artistas,  creia,  eu  trabalho  para  três  ou  quatro  pessoas,  tendo 
-sempre  presente  a  sua  critica  pessoal. . .  E  multas  vezes,  depois  de  ver 


O 

u 
cr 

r  < 

<  % 

'"O 

u 

£   D 


u-    o: 


< 

G 

< 

c 

o 
u 

2 

O 

Q 


.-  o 


j  o 

iU    z 


o 
< 
o 

2 


385 


Nunca  tuvo  cl,  es  cierto,  ese  noble  y  bello  fanatismo, 
pêro  lo  aprobaba  cuando  lo  advertia  en  alí^uien.  Y  si  ai  fi- 
nal de  su  vida  combatió  acerbamente  el  jacobinismo —  es- 
pecialmente en  aquel  cnsayo  sobre  Melchor  de  VogUé  y 
Ias  tendências  de  la  moderna  ideologia  francesa,  que  con 
«1  título  de  O  Bock  Ideal,  ha  sido  recopilado  en  Notas  Con- 
temporâneas, porque  >a  en  los  anos  en  que  eso  escribía 
propendia  á  cierto  catolicismo  sentimental  —  no  hay  que 
olvidar  que,  en  los  ardores  de  la  mocedad,  sintió  algunas 
veces  el  entusiasmo  fervoroso,  el  furor  sagrado  de  los  ja- 
cobinos y  de  los  sectários  dei  racionalismo. . .  En  esos  pri- 
meros  afios  de  su  vida,  Eça  asemejábase  sin  duda  ai  João 
Eduardo  que  el  describe  en  Leiria,  periodista  anticlerical, 
<]ue  gustaba  de  mofarse  de  los  clérigos,  y  que  era  detesta- 
<io  por  las  gentes  de  orden  de  la  pequeiíaciudadlevítica... 
Por  entonces  hay  que  imaginarse  que  «Eça,  administrador 
do  concelho»  en  Leiria,  estaba  en  oposición  con  la  ciudad 
beata  y  levítica  por  sus  ideas  jacobinas  y  que  con  fragmen- 
tos de  su  vida  personal  y  recuerdos  de  su  estancia  allí,  mez- 
•clados  y  combinados,  —  como  con  alguna  reminiscência  de 
su  temporada  pasada  en  Évora,  como  periodista,  ciudad 
triste  y  abrumadora,  que  un  archivo  de  monumentos  histó- 
ricos envuelve  en  su  pesado  cíngulo  de  recuerdos,  evocan- 
do toda  la  vieja  Ebora  romana,  centro  de  la  gran  comarca 
cerealífera  ;  —  fué  como  compuso  aquella  su  primera  obra 
íuerte,  su  primera  gran  novela  que  se  llama  O  Críme  do 
Padre  Amaro. 


o  Primo  Basílio  impresso,  pensei :  O  Theophilo  iiào  vae  gostar  !  com 
o  seu  nobre  e  bello  fanatismo  por  a  Revolução,  não  admittlndo  que  se 
desvie  do  seu  serviço  nem  uma  parcella  do  movimento  intellcctual ;  — 
€ra  bem  possível  que  você,  vendo  O  Primo  Basílio  separar-se,  pelo  as- 
sumpto e  pelo  processo,  da  Arte  de  combate  a  que  pertencia  O  Padre 
Amaro,  o  dcsapprovara.»  (Quarenta  aunos  de  vida  litteraria,  p.  92|. 
BÇ&  DB  «cBisoz  25 


386 


El  influjo  de  las  ideas  positivas  en  el  contacto  con  Teó- 
filo Braga  —  él  dice  en  esa  misma  carta  que  ^é  de  Você 
de  quem  tenho  recebido  depois  das  minhas  duas  tentativas 
d'arte  as  cartas  mais  animadoras  e  mais  recompensadoras» 
—  hizo  evolucionar  su  espírita  hacia  un  sociologismo  posi- 
tivo y  hacia  un  panteismo  poético  que  tenia  mucho  de 
deismo  y  algo  de  ateismo...  Este  panteismo  se  refleja  en 
el  proyecto  de  Historia  de  um  Átomo  (1)  que  esboza  su  Só- 
sias novelesco,  su  alter  algo  espiritual,  su  fotografia  nove- 
lesca,  João  da  Ega  en  Os  Maias.  En  esta  época  puede 
decirse  que  su  actitud  ante  el  problema  religioso  es  un 
agnosticismo  elegante  y  algo  como  un  ateismo  paradoxal  y 
propicio  á  las  frases,  un  paradojal  ateismo  á  la  manera  de 
Stendhal :  «La  única  disculpa  de  Dios  es  que  no  existe. . .» 

Con  la  misma  enigmática  ironia  ataca  entonces  Eça  el 
énfasis  pomposo  dei  Consejero  Acácio,  la  vacuidad  mental 
dei  Conde  de  Gouvarinho  ó  la  devoción  hipócrita  de  las 
fidalgas  ricas. . .  Su  postura  nunca  es  la  de  un  sectário  en- 
carnizado,  sino  la  de  un  escéptico  sonriente. . .  Surgen  en- 
tonces las  páginas  brillantes  y  deslumbradoras  de  ®s  Maias 
en  que  el  viejo  Portugal  es  ridiculizado,  vilipendiado  y  es- 
carnecido. Brota  luego  Ia  más  directa  y  encarnizada  sátira 
que  contra  el  poder  eclesiástico  y  el  ritualismo  católico  y 


(1)  No  se  olvide  este  detalle  curioso  que  corrobora  más  la  similltud 
de  João  da  Ega  con  Eça  de  Queiroz.  João  da  Ega  escríbe  á  través  de  la 
novela  capital  de  Os  Maias  la  Historia  de  um  átomo  y  Eça  de  Queiroz 
en  Prosas  barbaras,  en  uno  de  los  primeros  f olletines  publicados  en  /l  Re- 
volução de  Setembro,  nos  dice  que  «talvez  este  sentimento  me  leve  ain- 
da algum  dia  a  publicar  papeis  que  guardo  avaramente  e  que  são  as 
Memorias  d'um  átomo  e  os  Apontamentos  de  viagem  d'uma  raia  de 
cypreste.t  (Prosas  barbaras,  p.  182,  3."  edição— Porto,  1917).— Hasta  en 
esos  detalles  se  ve  la  intención  de  similltud  psicológica  consigo  mismo- 
que  quiso  poner  en  su  João  da  Ega  el  gran  paradoxlsta. 


387 


el  mercado  de  milafiros  é  indulgências  en  la  reli<2ión  roma- 
na se  ha  vibrado  janiás  desde  La  Religieiíse  de  Diderot;  la 
más  ardorosa  invectiva  que  contra  Ia  mojigateria  y  la  falsa 
piedad  se  ha  escrito  desde  el  TartíiffcáeM.o\\hxe\  ensuma, 
esa  obra  maestra  de  sarcasmo  demoledor  que  se  titula  A 

RriLIQUIA. 

Como  ensayo  de  demolición  de  los  viejos  ídolos,  como 
sátira  acerba  y  vibrante,  rivaliza  con  un  Pérsio  ó  un  Juve- 
nal moderno;  como  pamfleto,  es  a!go  tan  luminoso  y  admi- 
rable  como  las  mejores  páginas  de  Paul-Louis  Courier ; 
como  novela  sujeta  á  un  cânon  retórico,  no  será  la  más 
perfecta  de  Ias  suyas,  aunque  diste  mucho  de  ser  una  po- 
chade,  como  Ia  Ilamaba  el  severo  Camillo,  que  debiera  ser 
al^jo  más  indulgente  para  que  lo  fueran  con  sus  muchas 
equivocaciones  y  gaffes  literárias.  En  A  Relíquia  es  some- 
tido  á  befa  é  irrisión  el  sentimiento  falsamente  religioso  y 
postizamente  pio  de  las  beatas  portuguesas,  como  D.*  Pa- 
trocínio das  Neves  ;  es  assobiada  la  pompa  tribunicia  dei 
Dr.  Margaride,  visto  en  grotesco  el  tartufismo  de  Justino; 
y  aparece  motejado  de  avaro,  simoniaco,  retrasado  y  ca- 
zurro  el  clero  português  en  las  personas  dei  Padre  Casi- 
miro y  dei  Padre  Pinheiro...  i  Con  esta  novela  si  que  de- 
bió  exultar  e!  noble  y  bello  fanatismo  de  Th.  Rraga,  pen- 
sando que  Eça  de  Queiroz,  su  camarada  de  Coimbra,  no 
se  desviaba  ni  un  ápice  de  laborar  por  la  Revolución  fu- 
tura!. . . 

Raposo  pertenece  á  esa  generacién  que  en  las  calles  de 
Coimbra  «chasqueava»  ai  Sefior  de  Ia  Caila  Verde  en  las 
procesiones  de  Semana  Santa ;  á  esa  misma  generación 
pertenece  Eça  de  Queiroz  y  en  ese  mismo  espiritu  estaba 
educado  y  embebido. . .  Cuando  hizo  su  viaje  á  Tierra  San- 
ta con  el  Conde  de  Resende  en  1869— con  cuya  hermana  ha- 
bia  de  casar  aiios  después  —  cieríamente  que  no  iba  acom- 


388 


panado  de  sentimientos  de  piedad  ni  espoleado  en  esa  pe- 
regrinación  por  móviles  religiosos...  El  misino  Conde  de 
Resende  era  un  gran  senor  volteriano  á  la  manera  de  los 
aristocratas  franceses  de  finales  dei  siglo  xviii,  que  habia 
perdido  todo  contacto  con  Ia  religión  positiva  de  su  país  y 
que  se  encontraba  en  estado  de  racionalismo  ateo  cuando 
fué  á  Jerusalém . . .  Buena  prueba  de  ello  es  aquella  anécdo- 
ía  que  de  él  se  cuenta :  ai  llegar  ai  Templo  dei  Santo  Se- 
pulcro toda  la  peregrinación  portuguesa  en  la  que  ellos  iban 
enrolados  —  aunque  espiritualmente  desligados  —  se  postró 
de  rodillas  ante  el  Sepulcro  de  Jesus  Nuestro  Senor,  todos 
movidos  por  un  sentimiento  de  respeto  irresistible,  ya  que 
no  de  devisión,  todos  incluso  Eça  de  Queiroz,  espiritu  algo 
apocado  y  supersticioso  un  tanto  cuanto ;  —  todos  menos 
el  Conde  de  Resende,  que  con  el  sombrero  puesto,  el  mo- 
nóculo engastado  en  el  ojo,  sereno,  altivo,  retador,  gol- 
peaba  con  su  bastón,  con  su  fina  bengala  de  Malaca,  en 
las  losas  diecinueve  veces  seculares  dei  Santo  Sepulcro, 
erguido  ante  la  multitud  como  un  monstruo  de  volteria- 
nismo  y  de  desdén  a  los  mitos  religiosos,  terror  de  las  devo- 
tas portuguesas  que  en  aquella  generacion  venian... 

;  El  Conde  de  Resende  !. . .  i  Que  magnífico  relato  se  po- 
dria  escribir  de  su  vida  multiforme,  accidentada  y  pinto - 
resca  !...  Pêro  i  como  olvidar  Ia  medalla  sóbria  y  elegante 
de  su  figura  romântica  que  nos  dejó  Ramalho  ?. . . 

Otro  de  los  nombres  que  influyeron  más  en  el  tempera- 
mento de  Eça  durante  su  juventud  fué  el  ingeniero  João 
Burnay,  hombre  de  datos  y  de  cifras,  hombre  positivista,  a 
very  matter-of-fact-man,  que  le  inspiraba  ideas  prácticas  y  le 
inyectaba  conocimientos  positivos,  de  quien  parece  haber 
una  vaga  lembrança  en  el  Jorge,  protagonista  de  O  Primo 
Basílio,  que  nunca  se  commoviera  con  Musset  ni  leyera 
emocionado  las  novelas  de  Balzac. . .  Por  esa  época  el  Ce- 


389 


náculo  era  el  cenlro  de  reunión  de  Eça  e  de  sus  compa- 
íieros  de  generación,  el  Cenáculo  que  fué  una  recogida 
cooperación  de  entusiasmos  juveniles  más  que  una  capillita 
de  secta  literária;  el  Cenáculo  que  nos  ha  descrito  tan  nia- 
ravillosaniente  Jayme  Batalha  Reis  en  su  magnifica  intro- 
duccion  á  las  Prosas  Bárbaras;  el  Cenáculo  dei  cual  dice 
Ramalho  Ortigão,  en  un  movimiento  generoso  de  hipérbole, 
sugerido  por  Ia  saudade  de  aquellos  tiempos  juveniles,  que 
nunca  en  Portugal  se  desperdício  tanto  ingenio,  tanta  fan- 
tasia, tanto  poder  de  improvisación,  tanta  fuerza  humoris- 
tica,  tanta  vena  cómica.  (Nunca  em  Portugal  se  dispendeu 
tanto  espirito,  tanta  phantasia,  tanto  poder  de  improvisação, 
tanta  força  humorística,  tanta  veia  cómica).  (1) 

Mas  realmente  se  habia  educado  Eça  de  Queiroz,  en  un 
ambiente  poço  propicio  ai  respeto  de  los  Poderes  consti- 
tuídos. La  Universidad  de  Coimbra  era  una  almácigadere- 
beldias,  un  plantel  de  protestas  mozas.  Como  reacción 
contra  su  tradicionalismo  teológico,  los  estudiantes  de  en- 
tonces  estaban  en  continua  insurrección  contra  la  Univer- 
sidad que  les  cobijaba,  considerándola  como  Leopardi  en 
su  época,  aboUzione  delia  gioventú. . .  El  mismo  Eça  nos  lo 
dice  en  su  estúdio  maravilloso  sobre  Anthero  de  Quental : 
«La  Universidad,  que  en  todas  las  naciones  es  el  alma  ma- 
ter, la  madre  creadora,  por  quien  se  consierva  siempre,  á 
través  de  Ia  vida,  un  amor  filial,  era  para  nosotro?  unama- 
drastra  amarga,  grunona,  malhumorada,  de  quien  todo  es- 
pirita digno  se  deseaba  libertar,  apenas  le  hubiera  arran- 
cado por  Ia  astúcia,  por  el  tesón,  por  la  sujección  a  las 
sebentas,  ese  grado  que  el  Estado,  su  cúmplice,  convertia 
en  llave  de  las  carreras. . .»  (2) 


dl  As  Farpas,  toiuo  ii,  As  Epistolas,  pág.  21!. 

'2)  Notas  cov.tcmporúiuas :  Anthero  de  Quental.  1.»  edición,  Livia- 
ria  Chardron,  Porto,  19^9. 


390 


dQuienes  eran  sus  camaradas  de  Universidad?. . .  Teó- 
filo Braga,  ya  en  aquellos  tiempos  escolares,  un  revolucio" 
nario  —  teórico  más  que  práctico  y  doctrinal  más  quede 
acción— ya  suspirando  por  el  advenimiento  de  la  República, 
ya  propagando  Ia  filosofia  positiva  y  las  afirmaciones  irre- 
ligiosas de  sus  pontífices  máximos  Comte  y  Littré  y  de  sus 
satélites  Robinet,  Laffite,  Lafargue,  Wirouboff,  et  quibus- 
dam  aliis;  Anthero  de  Quental,  por  aquellos  tiempos  ateo 
hasta  de  parade,  mozo  que  resumió  con  inusitado  briljo  — 
como  dice  el  mismo  Eça  — «el  tipo  dei  académico  revolucio- 
nário racionalista»,  el  mozo  audaz  é  intrépido  de  quien  se 
cuenta  la  anécdota  de  aquella  temerária  noche  en  que  él,  re- 
loj  en  mano,  «intimo  a  Dios  á  que  Io  partiera  de  un  rayo  en 
el  término  de  siete  minutos  en  caso  de  existir. . .»  Y  aunque 
Eça  agrega  por  su  cuenta,  con  una  sonrisa  de  leve  ironia, 
que  Anthero  no  Ilsvaba  reloj  y  que  «su  exegesis  era  ya 
muy  fina  para  confundir  asi  los  modales  de  Jehovah  con  los 
de  Júpiter  y  si  lanzó  el  desafio  satânico,  fué  riéndose  ale- 
gremente dei  ecceso  de  su  fantasia»  :  —  lo  cierto  es  que  la 
anécdota,  si  autentica,  es  estupenda;  si  legendaria,  da  idea 
de  la  formación  dei  mito  de  la  irreligiosidad  y  dei  ateismo 
en  torno  de  Anthero  de  Quental. .. 

En  Coimbra  fueron  estos  sus  directores  espirituales ;  y 
todos  los  restantes  condiscípulos  palpitaban  en  un  ânsia 
perpetua  de  mesianisrao  revolucionário. . .  Luego  en  Lisboa 
tórnase  muy  amigo  y  camarada  de  Ramalho  Ortigão,  cuya 
labor  demoiedora  de  prejuicios  teológicos  y  políticos  es 
bien  conocida  por  As  Farpas;  de  João  Burnay,  un  ingeniero 
positivista,  creyendo  solo  en  la  ciência  y  en  Ia  industria... 
Forman  entonces  unos  cuantos  amigos  el  Cenáculo  que  se 
torna  una  institución  irreverente  y  agresiva  contra  todos 
los  Poderes  consagrados. . .  Nuiica  em  Portugal —  nos  dice 
Ramalho— Sí»  dispendeu  tanto  espirito,  tanta phantasia,  tanto 


391 


jjoder  de  improvisação,  tanta  força  humorística,  tanta  veia  có- 
mica. (1) 

La  infiltración  de  racionalismo  y  positivismo  era  intensa 
para  el  espiritu  mui  mozo,  muy  dúctil  y  muy  permiable  de 
Eça  de  Queiroz.  Tal  vez  fué  por  eso  muy  fuerte  Ia  sacudida 
y  muy  intensa  Ia  reacción  que  contra  ese  su  espiritu  juve- 
nil, racionalista  y  librepensador,  se  inicio  en  los  postrime- 
ros  anos  de  su  vida  y  que  tal  vez  le  hubiera  Ilevado  a  una 
retractación  fervorosa  y  pública,  tal  vez  a  una  confesión 
solemne  de  catolicismo,  como  la  de  Bourget  ó  la  de  Ver- 
laine. . . 

i  Quien  sabe  !  Si  Eça  hubiese  vivido  unos  anos  más  des- 
pués  de  1900,  acaso  hubiera  marcado  un  rumbo  nuevo  á  su 
orientación  ideológica.  Casi  quisiera  decir  que  es  fortuna 
para  sus  admiradores  que  no  haya  ocurrido  asi,  porque  hu- 
biera deslustrado  un  poço  el  esplendor  y  Ia  unidad  ada- 
mantina de  su  obra.  Tal  como  se  inicio  y  apenas  se  esbozó 
esa  reacción  contra  sus  opiniones  de  juventud,  puede  de- 
cirse  que  fué  un  bosquejo  de  reacción  sin  ser  una  reacción 
completa  y  acabada,  un  movimiento  que  se  apuntó  y  no  se 
definió...  Comenzó  Eça  á  desbrozar  toda  Ia  maleza  jaco- 
bina y  racionalista  que  consigo  llevaba;  llegó  también  á 
"formarse  un  concepío  de  Ia  pátria,  que  no  era  el  concepto 
peyorativo  de  la  mocedad. . . 

Habia  maltratado  á  su  país  como  poços  escritores;  habia 
protestado  de  él  y  de  su  orgullo  peninsular,  estólido  y  es- 
téril, sin  fruto  y  sin  motivo ;  habia  criticado  severamente 
sus  instituciones  y  sus  oligarquias,  sus  costumbres  y  su 
organización,  su  vida  cívica  y  moral...  Se  arrepintió  des- 


il)  As  Farpas,  vol.  ii  — .-ís  Epistolas,  vin,  pag  211,  (Dayld  Corazzt, 
«dltor,  Lisboa,  lS84j. 


392 


pués  de  todo  Io  que  escribiera  porque  tal  vez  se  dió  cuenta 
dei  dano  que  habia  hecho  á  la  pátria  y,  sobre  todo,  á  las 
generaciones  que  le  sucedieron... 


VI 


Tiene,  pués,  dos  aspectos  verdaderamente  interesantes 
para  paralelizar  la  obra  de  Eça  de  Queiroz  como  labor  so- 
cial y  de  orientación  de  Ias  futuras  generaciones:  una  fase 
perfectamente  definida,  destructiva,  demoledora,  negativa, 
que  arranca  de  su  colaboración  en  As  Farpas  y  se  prolonga 
cada  vez  más  agresivamente  á  través  de  O  Crime  do  Padre 
Amaro,  O  Primo  Bazilio,  A  Relíquia,  Os  Maias  donde 
culmina;  y  otra  fase,  creadora,  constructiva,  ferviente  en 
el  amor  á  Portugal,  que  ya  se  inicia  y  esboza  en  A  Cor- 
respondência DE  Fradique  Mendes,  se  acentua  en  A 
Illustre  Casa  de  Rarmires  y  se  vigoriza  más  aún  en  A 
Cidade  e  as  Serras. 

En  la  primera  fase  analítica  y  negativa  Eça  de  Queiroz 
no  hizo  más  que  fustigar  y  lapidar  con  su  ironia  de  gran 
artista  la  sociedad  portuguesa  de  aquellos  aiíos  que  arran- 
can  desde  el  60  ai  90  y  que  han  sido  igualmente  fustigados 
por  la  verberante  y  flageladora  pluma  — asote  de  todas  las 
almas  selectas  de  la  época,  asi  de  los  constructores  de  la 
historia  de  Portugal  como  Alexandre  Herculano,  de  los 
poetas-filósofos  como  Anthero  de  Quental,  de  los  panfle- 
tários como  Ramalho  Ortigão,  y  de  los  historiadores  ó  más 
bien  filósofos  de  la  historia  como  Oliveira  Martins.  Pienso 
que  se  es  un  poço  injusto  en  Portugal  con  Eça  de  Queiroz 
cuando  se  le  denigra  ó  se  le  maltrata  ó  ai  menos,  no  se  le 
ijuiere  bien,  por  una  exagerada  filáucia  patriótica,  d  Qué 


393 


se  le  reprocha  en  suma?...  d Haberse  excedido  en  Os  Maias 
en  pintar  una  Lisboa  perversa  e  sucia?...  i  Haber  sido 
acerbo  y  á  ratos  truculento  en  su  critica  dei  Portuç?al/a- 
dista  y  frailuno,  caturra  y  constitucional?...  No  fué  mas 
acerba  y  más  dura  su  critica— aunque  fuese  más  plástica— 
que  la  de  un  Herculano,  que  fué  «el  último  de  los  que  po- 
seyeron  alma  bastante  para  protestar  y  para  acusar»,  en 
frase  de  Oliveira  Martins ;  no  fué  tampoco  más  áspera  y 
agresiva  su  critica  que  la  dei  propio  Oliveira  Martins  que 
escribia :  «Después  de  el  (de  Herculano)  las  generaciones 
convirtieronse  ai  optimismo,  cómodo  para  la  inteligência 
que  asi  descansa  y  para  el  cuerpo  que  asi  engorda. . .  Los 
Pancracios  ó  los  Falstaffs  hallaban  ai  final  la  verdadera 
libertad;  consumárase  !a  revolución  definitiva;  muriera  ai 
final  el  último  é  importuno  Jeremias. . .»  (1) 

Todos  ellos  venian  á  ser  en  verdad  inoportunos  Jeremias,, 
lo  mismo  los  que  protestaban  desde  el  folleto  y  Ia  sátira, 
como  Ramalho  Ortigão,  que  los  que  protestaban  desde  Ia 
altura  dei  Olimpo  sereno  de  la  poesia  ó  dei  Erebo  ator- 
mentado de  la  filosofia  pesimista,  como  Anthero  de  Quen- 
tal ;  que  los  que  protestaban  desde  sus  libros  de  historia  y 
sus  elucubraciones  financieras,  como  Oliveira  Martins;  que 
los  que  se  limitaban,  más  bien  que  á  protestar,  á  presentar 
en  cuadros  maravillosos  de  novela  toda  la  decadência  de 
una  sociedad,  como  Eça  de  Queiroz...  Todos  ellos  eran 
vocês  discordantes  en  el  concierío  de  alabanzas  y  de  loores 
de  Ia  obra  de  la  Regeneración.  Inoportunos  Jeremias  eran 
tambien  en  Espaíía  Larra,  el  génio  satírico  más  fuerte  que 
allá  hemos  tenido,  nuestro  Joaquín  Costa,  un  profeta  fati- 
gado ai  fin  de  predicar  en  desierto,  y  retirado  ai  refugio 


ill  Portugal  contemporâneo,  tomo  ii,  livro  v!,  pag.  301.   Livraria 
Bertrand;  Lisboa,  1883). 


394 


penascoso  de  Graus,  como  Herculano  ai  rincón  campestre 
de  Vai  de  Lobos,  nuesíro  Macias  Picavea,  que  es  alli  el 
equivalente  de  vuestro  Oliveira  Martins,  disminuido,  re- 
tréci;  nuestro  Leopoldo  Alas,  que  fué  el  artista,  como  Eça, 
el  que  protesto  de  la  sociedad  no  en  folletos  doctrinarios, 
sino  en  verberaciones  de  ironia... 

Era  natural  que  en  Portugal  todos  los  espíritus  nobles, 
todas  las  inteligências  selectas  de  la  época,  protestasen  dei 
•constitucionalismo.  Todos  los  espíritus  independientes  tu- 
vieron  que  reaccionar  contra  aquella  bazofia  de  las  inteli- 
gências y  aquella  degradación  de  los  caracteres.  Lo  ace- 
ptaron  otros,  los  retribuídos  con  cargos  dei  Estado,  los 
Pinheiro  Chagas,  los  Júlio  César  Machado,  los  Serpa,  los 
SanfAnna;  todos  aquellos  que  fueron  caracterizados  por 
Oliveira  Martins  en  esta  frase :  «Todos  los  literatos  de 
esta  época  acabaron  más  ó  menos  en  la  Aduana  ó  en  el  Mi- 
nistério de  Hacienda,  —  na  Alfandega  ou  no  Ministério  da 
Fazenda.. .«  (1) 

Más  tarde,  es  cierto,  aquellos  mismos  altos  espíritus  se 
doblegan  un  poço  y  Oliveira  Martins,  ante  las  presiones 
de  la  opinion  acepta  la  pasta  (cartera)  de  Hacienda  y  Ra- 
malho Ortigão  acaba  por  merced  regia  de  Bibliotecário  en 
el  Palácio  de  Ajuda ;  pêro  el  uno  lo  hace  para  salvar  la 
Deuda  Pública  y  el  otro  para  saciar  su  voracidad  de  eru- 
dito... 

Eça  de  Queiroz  tuvo  la  fortuna  de  salvarse  de  claudica- 
-ción  visible  porque  se  habia  hecho  independiente  y  se  habia 
desvinculado  de  la  política  dei  país  con  su  cargo  consular. 
Vivió  más  tiempo  en  el  extranjero  que  en  Portugal,  se  de- 
sarraigo un  poço  dei  país,  pêro  nunca  fué  un  deraciné;  fué 
siempre  un  saudoso  de  Portugal.  Quizá  con  su  capacidad 


(1)  Portugal  contemporâneo,  tomo  ir,  cap.  iii,  p.  364. 


395 


para  el  concurso,  con  sus  estúdios  y  sus  buenas  luces,  quiso 
Eça  de  Queiroz  alejarse  de  Ia  pátria,  extranjerizarse,  as- 
cudirse  las  sandálias  dei  polvo  dei  suelo  natal;  pêro  no  lo 
consiguió  plenamente...  Portugal  se  le  aferro  ai  alma  quand 
mêtne  y  su  divino  encanto  le  perfumo  Ia  vida  entera,  lo 
mismo  en  las  arenas  calcinadas  de  Egipto  que  en  Ias  tier- 
ras  feraces  de  Palestina,  que  en  las  brumosas  soledades  de 
New-Castie  ó  de  Bristol,  que  en  el  pabellón  perfumado  y 
discreto  de  la  casita  de  Neuilly,  donde  en  los  últimos  aiíos 
•de  su  vida  sonaba  con  el  Portugal  amado  á  través  de  la 
distancia. . . 


VII 


He  suscitado  ai  correr  de  la  pluma  el  tema  fecundo  y  rico 
dei  nacionalismo  de  Eça  de  Queiroz.  Es  un  tema  que  evoca 
mnchos  recuerdos  y  muchas  lecturas  en  mi  mente;  pêro  no 
puedo  siquiera  desflorarlo  y  menos  aún  agotarlo  en  el  re- 
ducido  espacio  que  se  me  concede...  Por  otra  parte,  no 
he  de  poder  ser  yo  juez  en  la  matéria  y  árbitro  en  el  litígio; 
pues  seria  impertinência  soberana  que  un  extranjero  viniese 
á  dar  patentes  de  portuguesismo  á  su  gran  escritor  nacio- 
nal... 

Lo  que  si  he  notar  con  sorpresa  es  que,  fuera  dei  estúdio 
atiborrado  y  difuso  de  José  Sampaio  (Bruno),  la  semblanza 
de  Ramalho  Ortigão  y  sus  dos  ó  três  aperçus  en  As  Farpas 
sobre  O  Crime  do  Padre  Amaro  y  sobre  O  Primo  Basílio, 
de  la  introducción  de  Batalha  Reis  á  Prosas  barbaras, 
dei  exacto  y  completo  estúdio  critico  de  Fidelino  de  Fi- 
gueiredo en  la  Historia  litteraria  realista,  de  los  trazos 
^anzados  aqui  y  alli  en  sus  libros  por  los  críticos  brasile- 


396 


nos  José  Veríssimo,  Machado  de  Assis,  Adherbal  d' Aze- 
vedo, dei  commovido  estúdio  de  Carlos  de  Magalhães,  dei 
libro  más  de  poeta  emocionado  y  de  amigo  respetuoso  que 
de  critico  de  Alberto  de  Oliveira,  dei  libro  irregular  y  ar- 
bitrário de  José  Agostinho,  no  haya  una  semblanza  ni  una 
visión  acabada  de  este  artista  que  muy  ciertaniente,  como 
el  idólatra  queiroziano  João  Chagas  ha  escrito  en  un  resú- 
men  crítico  admirabie:  «era  realmente  como  ningún  otro  es- 
critor antiguo  ni  moderno  lo  fué  en  Portuga!  un  génio  claro 
servido  por  el  mayor  poder  de  imaginación  plástica  que 
hubo  jamás  no  ya  en  nuestra  literatura,  sino  en  todas  las 
literaturas  dei  mundo  y  por  mucho  que  haya  sido  un  no- 
velista,  un  analista,  un  humorista,  un  cronista,  un  crítico, 
un  fino  literato  ó  un  alto  dandy  literário,  lo  cierto  es  que 
él  fué  ante  todo  principalmente,  una  imaginación  viendo  y 
comprendiendo  y  adivinando  la  vida  á  través  de  la  más  lu- 
minosa y  fiel  retina  en  que  ella  ha  podido  reflejarse.»  (1) 

Ahora  ventilad  y  removed  vosotros  ahi  ese  pleito ;  pêra 
séame  lícito  decir  mi  impresión  de  crítico  extranjero :  la 
más  fuerte  impregnación  de  alma  portuguesa  en  los  últimos 
tiempos  la  hemos  recibido  allende  estas  fronteras  por  con- 
ducto  de  Eça  de  Queiroz. . . 

Es  verdad  que  él  desde  mozo  quiso  evadirse  dei  ambiente 
desolador  y  torpe  dei  constitucionalismo,  aíravesado  por 
luchas  mezquinas  entre  regeneradores  é  históricos;  porque 
este  ambiente  no  iba  bien  con  su  achatamíento  moral  y  su 
indiferencia  mental  á  la  exquisita  compleción  espiritual  de 
Eça  de  Queiroz.  Es  verdad  que  busco  en  el  viaje  por  paí- 
ses exóticos  y  luego  en  el  voluntário  expatriamento  Ia  calma 
y  el  reposo  á  las  discórdias  que  veia  desencadenadas  en  el 
país. . .  Es  verdad  también  que  quizá  por  ello  vió  más  claro 


(1|  Vida  lilíeraria,  pags.  161-16:.  (Cclmbra,  iy(i6.) 


397 


«n  los  defectos  de  su  pátria  ;  es  verdad  que  allá  en  las  bru- 
mas nórdicas  de  Britania  ó  en  el  retiro  delicioso  de  los  en- 
virons  de  Paris  se  le  proyectaba  más  tétrica  y  sombria  la 
visión  de  su  pátria  —  pátria  para  sempre  perdida,  como  dice 
el  mismo  en  una  dolorosa  evocación  !. . . 

Pêro  también  por  estar  lejos  sintió  más  á  fondo  la  sau- 
dade de  Portugal  y  esta  saudade  se  fué  poço  á  poço  con- 
•densando  hasta  constituir  en  él  una  segunda  naturaleza, 
que  necesitó  derramarse  en  libros  de  arte,  formando  as!  Ia 
segunda  parte  constriictiva  y  creadora  de  su  gran  obra. 

Desde  fuera  lanzó  sus  dardos  contra  las  instituciones 
carcomidas,  contra  Ias  costumbres  viciadas,  contra  los 
grandes  hombres  de  oropel,  contra  los  políticos  vácuos  — 
como  el  Conde  de  Gouvarinho  ó  «el  immenso  talento»  de 
Pacheco  ;  —  contra  los  oradores  pomposos  y  huecos,  como 
el  Rufino  ;  contra  los  periodistas  venales  y  analfabetos, 
como  el  Guedes  de  A  Corneta.  Pêro  políticos  huecos,  ora- 
dores vácuos  y  periodistas  venales,  son  (creedme)  plagas 
de  la  Península;  abundan  aquém  e  além  Duero,  Tajo  y  Gua- 
diana ;  y  no  componen  ciertamente  Ia  pátria. . . 

Pêro  no  se  limito  á  protestar  dei  Portugal  oficial  y  de  la 
Lisboa  de  entonces  en  sus  novelas  (i  qué  es  Os  Maias  sino 
una  palpitante  protesta  contra  la  Lisboa  de  su  tiempo  ?) 
5Íno  que  protesto  en  los  artículos  y  cartas  que  enviaba  por 
entonces  á  Ia  Gazeta  de  Portugal,  á  la  Gazeta  de  Noticias 
de  Rio  de  Janeiro.  En  los  últimos  afíos  de  su  vida,  en  la 
Revista  de  Portugal  que  él  fundo  y  dirigió  en  Paris,  ya  no 
protestaba,  sino  que  construía.  Protesta  contra  el  ambiente 
de  la  Lisboa  de  su  tiempo,  fueron  As  Farpas,  que  inicio 
con  un  fervor  sagrado  de  destrucción,  en  unión  de  ese  Al- 
cides que  se  llamó  Ramalho  Ortigão ;  á  Eça  le  compitió  el 
trabajo  hercúleo  de  limpiar  las  caballerizas  de  Augias. . .  y 
luego  huyó  á  La  Habana,  como  él  mismo  dice,  dejando  a  su 


398 


robusto  amigo  los  otros  seis  trabajos  que  cerrasen  el  ciclo- 
de  leyenda  dei  varón  forzudo. . .  «Láncese  siete  veces  una 
carcajada  en  torno  de  una  institución— decía  él  más  tarde  (1) 
— y  la  institución  se  derriba ;  es  la  Bíblia  la  que  nos  lo  en- 
sefía  bajo  la  alegoria,  generalmenje  estimada,  de  las  trom- 
petas de  Josué  em  torno  de  Jericó. . .» 

Trompetas  de  Jericó  fueron  para  la  sociedad  de  Lisboa 
O  Primo  Basílio  y  Os  Maias,  donde  no  hizo  sino  poner 
rótulos  y  etiquetas  á  las  insíituciones  y  nombres  propios, 
aunque  novelescos,  á  esos  idolilios  de  cartón  y  barro,  ver- 
daderos  idola  fori  ulisiponensi  en  la  época,  que  se  llaman 
luego  con  esos  nombres  que  él  ha  immortalisado.  Bien  cla- 
ramente se  lo  decia  é!  á  Teófilo  Braga  en  su  curiosa  y  pre- 
citada  carta,  definiendo  sus  personajes  por  grupos  sociales: 
«O  formalismo  oficial  (Acácio),  a  beatería  parva  de  tempe- 
ramento irritado  ÍD.  Felicidade),  a  litteraturinha  acephala 
(Ernestinho),  o  descontentamento  acre  e  o  tédio  de  profis- 
são (Juliana)  e  ás  vezes,  quando  está  calado,  um  bom  ra- 
paz (Sebastião).  . .  .Amaro  é  um  empecilho  ;  mas  os  Aca- 
cios,  os  Ernestos,  os  Saavedras,  os  Basilios  são  formidáveis 
empecilhos;  são  uma  seria  causa  d'anarchia  em  meio  da 
transformação  moderna».  (2) 

Os  Maias  continúan  y  acentúan  esa  protesta  —  equivo- 
cada ó  no  —  que  representa  O  Primo  Basílio.  Idêntica  ca- 
racterización  de  una  sociedad  envenenada  y  corrupta  por 
estar  sustentada  sobre  falsas  bases:  en  elladanzan  los  Da- 
masos  Salcedes,  los  Gouvarinhos,  los  Rufinos,  los  Guedes, 
los  Cohen,  los  comparsas  todos  dei  retablillo  grotesco  que 
adorna  esta  intensa  y  fuerte  novela.  Novela  que  tan  mal 


'D  Vld.  Notas  contemporâneas,  Semblanza  de  Ramalho  Ortigão;  1.* 
edição,  Porto,  1909. 

l2)  Quarenta  annos  de  vida  litteraria,  por  Theophilc  Braga;  pag.  92^ 


399 


supo  ai  fino  paladar  y  acrisolado  gusto  de  Fialho  de  Almeida , 
el  fuerte  colorista  y  critico  áspero  —  que  no  era  cierta- 
mente  más  nacionalista  que  Eça  (como  pienso  demostrar 
algún  dia) ;  pêro  que  aprovechó  la  ocasión  para  descargar 
estos  mandobles  contra  el  novelista  á  quien  tenia  sobre  ojo 
como  el  más  fuerte  adalid  de  arte  que  habia  en  Portugal... 
«Para  o  romancista,  a  Lisboa  dos  Maias  é  ainda  aquella 
Lisboa  bisonha  e  suja  dos  primeiros  fasciculos  das  Farpas, 
em  que  todos  os  homens  são  grotescos,  idiotas,  insignifi- 
cantes e  velhacos ;  em  que  não  ha  senão  mulheres  adulte- 
ras, etc.»  (1) 

Bien  se  advierte,  á  pesar  de  la  parcialidad,  la  garra  dei 
critico,  pues  está  claro  que  Os  Maias  continúan  el  proceso 
psicológico  iniciado  contra  la  ciudad  «de  marmol  y  grani- 
to», que  canto  Herculano.  Prueba  de  que  eseerael  intento 
de  Queiroz  es  que  penso  primitivamente  en  titular  esa  no- 
vela A  Capital,  considerando,  pues,  Ia  ciudad  olisiponense 
como  el  personaje  central,  el  héroe  novelesco,  ó  sea  que 
Eça  más  que  retratar  personas,  queria  retratar  grupos  so- 
ciales  y  poner  en  pie  la  Lisboa  regeneracionista  de  1860  á 
1880. . .  Quizá  no  persistió  en  conservar  ese  título  por  pa- 
parecerle  demasiado  pretencioso,  de  allure  social  e  tenden- 
ciosa á  lo  Zola  ;  pêro  en  esa  novela  tan  voluminosa,  de  900 
págs.,  ni  una  sola  de  las  cuales  tiene  condición  de  papave- 
rismo,  virtud  de  adormideras  !  —  condenso  todas  sus  obser- 
vaciones  de  la  capital  donde  vivió  sus  afíos  de  juventud, 
entre  ese  pandemonium  de  la  vida  lisbonense  ingertando 
una  historia  de  amor,  un  drama  intensísimo,  que  á  Fialho, 
degouté  de  Eça,  le  parecia  historieta  magra  e  romanesca. . . 
Degoutê  et  peut-être  jaloux!. . . 


(1)  Pasquinadas  ijornal  d'um  vagabundo',  pag.  267;  Livraria  Civili- 
saçao,  sem  data ;  Porto  —  1890  ? .  • . 


400 


Mas  si  dei  extranjero  mandaba  esas  obras  de  demolíción, 
dei  extranjero  venian  esos  cantos  á  Portugal,  á  sus  belle- 
zas,  á  sus  paisajes  y  á  su  pueblo  ingénuo,  Cristiano  y  hu- 
milde que  se  llaman  A  Illustre  Casa  de  Ramires  y  A  Ci- 
dade E  AS  Serras.  Hay  una  observación  muy  aguda  en  el 
prestigioso  crítico  Alberto  d'01iveira  (1)  y  es  que  este  ar- 
tista «tan  poço  português»,  como  se  le  dice,  habiendo  com- 
puesto  casi  todos  sus  iibros  fuera  de  Portugal,  se  ha  inspi- 
rado siempre  en  asuntos,  paisajes  y  figuras  de  su  país.  La 
observación  no  puede  ser  más  justa ;  y  yo  afiado  esto  por 
mi  cuenta.  Para  embeberme  de  portuguesismo  é  infiltrarme 
de  alma  lusitana,  yo  releo  y  repaso  siempre  páginas  de  Eça 
de  Queiroz. . . 

La  nueva  generación  literária  de  Espana  ha  aprendido  á 
amar  á  Portugal  en  este  gran  artista.  Por  mi  parte  puedo 
afirmar  que  él  me  ha  llevado  á  interesarme,  á  través  de  sus 
negaciones  y  críticas,  en  el  arte,  en  el  paisaje,  en  la  litera- 
tura y  hasta  en  la  política  portuguesa  y  que  de  él  he  rece- 
bido, más  intensamente  que  de  ningún  otro,  la  emoción  pe- 
ninsular, el  sentido  peninsular  que  aún  les  falta  á  portugueses 
y  á  tantos  espafioles  !. . . 

Lisboa,  Domingo  de  Carnaval,  15  febrero  1920. 

Andrés  Gonzâlez  Blanco. 


d'  Eça  de  Queirós  (Paginas  de  memorias),  cap.  iv.  p.  66;  Lisboa,  s. 
d.  (1919) 


os  «VENCI 

De  pé,  da  esquerda  para  a  direita:  Conde  de  Sabugosa,  Carlos 

Guerra  Junqueir 
Sentados:  Ramalho  Ortigão,  EÇA  DE  QUE 


5  DA  VIDA^ 

IR,  Carlos  Lobo  de  Ávila,  Oliveira  Martins,  Marquês  de  Soveral, 

Conde  de  Arnoso. 

l,  Conde  de  Ficalho  e  Dr.  António  Cândido 


Notas  queirozianas 


Mais  certo  lhe  chamaria  —  Migalhas  de  lauta  mesa.  Que- 
reria —  não  pude  —  ter  feito  mais  e  melhor  (1). 

Aqui  lidos,  acolá  ouvidos,  arquivei  no  meu  canhenho  de 
lembranças,  de  cantos  esfiados  pelo  tira-mete  nas  algibei- 
ras, meia  dúzia  de  notas  inconexas  e  menos  conhecidas 
acerca  do  escritor  modelo  que  neste  livro  celebrámos. 

Eça  foi  Homem,  e  nil  ab  eo  humanum  alienam  erat.  Mas 
foi  um  superior,  um  director  intelectual...  Que  monta 
isso?  Lá  estava  o  barro  original  a  prendê-lo  ás  misérias  do 
próximo,  mesmo  do  mais  diminuto  próximo... 


Com  todo  o  seu  amor  da  nota  real,  Eça  era  no  fundo,  bem 
no  fundo,  um  romântico  (2).  Questão  de  herança  paterna.  O 


(1)  Os  organisadores  deste  livro  tinham  assente  nfio  colaborar  nele. 
Quase  no  fim  da  impressão  mudaram  de  aviso;  o  que  escreveram  ressen- 
te-se,  pois,  da  pressa  em  enviar  os  originais  á  tipografia. 

(2)  «Eça  de  Queiroz,  en  sus  prlmeros  tierapos,  cultivo  el  romanticismo 
fúnebre,  el  romanticismo  de  las  tumbas,  de  los  cadalsos,  }•  de  los  suicí- 
dios.» 

Andrés  Gonzalez-Blanco,  Eça  de  Queiroz,  Antero,  Victor  Hugo  y 
otros  ewsajos  — Madrid,  1919  (Prologo,  pág.  XIi, 

EÇA  DE  QUEIROZ  20 


402 


dr.  José  Maria  de  Almeida  Teixeira  de  Queiroz  foi  um  u!- 
íra-romântico  sem  confeição;  veja-se  O  Ccstello  río  Lago^ 
poemeto  <  de  extenso  fôlego  scotíeano:>  (1)  publicado  em. 

1841. 

II 

Murmura  muita  gente  —  e  boa,  ou  pelo  menos  que  o  pa- 
rece—  da  feição  desnacionalizadora  da  obra  queiroziana, 
e  do  seu  desbragado  francesismo.  Não  discutirei  este  ponto, 
já  porque  sou  a  negação  áo  crítico,  já  porque  outros  neste 
mesmo  livro  proficientemente  lhe  produzem  os  prós  e  os- 
coníras.  Má-língua  antiga,  afinal.  O  mestre  jornalista  Tei- 
xeira de  Vasconcelos  disse  um  dia  na  redacção  do  seu  jor- 
nal, a  Gazeta  de  Portugal,  quando  o  ilustre  poveiro  ali  ra- 
biscava os  primeiros  artigos  que  lhe  saíram  da  então  obs- 
cura pena: 

—  O  rapaz  tem  talento,  não  ha  duvida... 
iVias  acrescentava  logo,  a  gaguejar: 

—  É  pena  ser  com...  com...  completamente  doido,  ter 
estado  em  Coimbra,  . .  .e. . .e. . .  e  escrever  em  francês  (2). 

Eça  justificou-se  mais  tarde  da  pecha  no  artigo  O  Fran- 
cezismo;>,  recolhido  nas  Ultimas  Paginas. 


III 


Eça  conhecia  realmente  aquela  língua  como  se  fosse  a 
sua.  Conta-se  que  sendo  O  Manda  rim  traduzido  em  francês,, 
e  enviada  a  versão  ao  autor  do  romance,  este  dirigiu  ao  tra- 


(li  Camilo,  cit.  por  António  Cabral,  í^Cíz  í/c  .(J.-.f/Voc  — Lisboa,  1916> 
pag.  24. 

(2;  «O  Século»,  de  19  de  agosto  de  IS^.X). 


403 


duior  uma  carta  de  agradecimento,  num  francês  tão  puro 
e  tão  elegante,  que  o  destinatário  não  resistiu  a  mostrá-la 
a  um  membro  da  Academia  Francesa,  o  qual,  tendo-a  lido  e 
relido,  assegurou  que  com  muita  dificuldade  se  toparia  em 
França  quem  excedesse  a  beleza  literária  daquela  carta. 


IV 


Quando  Eça  de  Queiroz  lançou  Os  Maias,  o  poeta  Bu- 
lhão Pato  entendeu  que  para  si  fora  taihada  a  carapuça  que 
no  livro  dá  pelo  nome  de  Tomás  de  Alencar  e  enfiou-a. 
Eça  negou  a  aplicação  da  dita  carapuça;  e  Bulhão  Pato, 
que  então  mais  do  que  nunca  justificou  o  primeiro  apelido, 
meteu-se  á  bulha  com  o  romancista  esaiu-se  com  as  sátiras 
O  Grande  Maia  (1)  e  Lázaro  Cônsul,  onde  põe  em  verso 
medíocre  e  enfático,  dobrado  de  injustiça,  as  banalidades 
que  por  aí  se  debitavam  sobre  a  moral  dos  livros  de  Quei- 
roz. Assim,  a  dar-lhe  crédito, 

Séria,  n'esta  nação,  não  ha  mulher  nenhuma. 
Homem?  Algum  cretino!  E  com  talento,  em  summa, 
Nem  mesmo  amigos  seus!  Só  elle  é  que  figura 
Na  tela  genial !  E  não  borra  a  pintura! 

Tudo  é  mesquinho  e  vil  no  meu  torrão  natal! 
Assim  o  dizes  tu,  cônsul  de  Portugal! 

O'  Lazaro,  fareja  as  podridões  da  vida, 
Como  fareja  a  hyena  a  carne  corrompida! 


(1)  Esta  sátiia  que  A.  Cabral  cita  como  precedendo  Lczaro  Cônsul 
(Eça  de  Queirós,  pag.  226)  vem  apensa  ao  livro  de  Bulhão  Fato  Hoje— 
Satyras,  Canções  e  Jciyll tos  — 'Lisboa,  Í868. 


404 


Não  dás  ao  teu  paiz  nada  affectivo  e  santo ; 
Nem  um  sorriso  ao  berço,  nem  á  cova  um  pranto ! 
(1) 

Isto  é  um  exemplo  de  injustiça  que  admira  topar  no  poeta 
da  Paquita,  que  eu,  sem  tê-lo  conhecido,  fantasio  bom, 
calmo,  amoravel.  Mas  a  paixão  desvairava-o. 

Eça  a  negar  talento  a  toda  a  gente,  mesmo  aos  seus  ín- 
timos! Em  quantos  lances  da  sua  obra  se  distribue  justiça 
a  quem  de  direito!  (2)  Êle,  que  como  poucos  era  amigo  do 
seu  amigo !  Eça  a  achar  mesquinho  e  vil  quanto  era  portu- 
guês! Êle,  que  escreveu  A  illustre  Casa  de  Ramires,  êle,  que 
escreveu  A  Cidade  e  as  Serras,  que  tanto  quiz  ao  nosso 
«Portugal  pequenino,  ainda  tão  doce  aos  pequeninos»,  ao 
nosso  Portugal  «que  cheira  bem»,  ao  nosso  Portugal  onde 
pessoas  e  coisas,  mulheres  e  flores,  as  aves  no  ceu  e  os 
guardas  da  alfandega  ao  passar  a  fronteira,  nos  «murmuram 
baixinho,  com  immensa  doçura»,  tão  meigas  e  amorosas 
palavras!»  (3) 

Assim  se  referia  a  «hyena»  á  sua  terra;  a  «hyena»,  que 
escreveu  essa  comovedora  coisa  que  se  chama  o  Suave  Mi- 
lagre, e  as  idílicas,  consoladoras  páginas  de  Tormes. 


(1)  Bulhão  Pato,  Lasaro  Cônsul,  Lisboa,  1899. 

(2i  E'  certo  que  E.  de  Queiroz  era  por  vezes  severo,  mas  com  quem  o 
merecia.  Gostava  de  «mondar  á  thesoura  todas  as  orelhas  sumptuosas 
que  subissem  mais  de  dois  palmos  acima  das  cabeças  respectivas», 
escreve  Guerra  Junqueiro  em  Eça  de  Queiroz  a  propósito  do  novo 
romance  «O  Primo  Basílio*,  —  Occidente  n.°  7,  de  1  de  abril  de  1878. 

(3)  Albeito  d'01iveira,  Eça  de  Queiroz  Lisboa,  1919.  pag.  121. 


405 


Tinha  a  fobia  dos  álbuns  de  autógrafos;  ao  inVez  dum 
literato  que  eu  conheço  —  que  nós  conhecemos!  —  que  dá 
o  cavaquinho  por  escrever  «pensamentos»  catitas  e  suges- 
tivos em  álbuns  de  senhoras  novas  e  bonitas.  Quando  não 
podia  deixar  de  ser,  Eça  lá  rabiscava ;  mas  rabiscava  res- 
mungando (1). 

Isto  de  pôr  uma  página  em  branco  defronte  duma  pessoa 
e  intimá-la:  —  Pense!  Escreva  o  que  pensou!  Assine  o  que 
escreveu!. . .  Era  a  pior  coisa  que  lhe  podiam  pedir. 

Ainda  assim,  alguma  vez  escrevia  sem  desprazer.  No  ál- 
bum de  «mademoiselle»  Maria  Augusta  Pereira  Machado, 
onde  Junqueiro  escrevera: 


Vida ! . . .  punhado  de  areia ! 
Morte ! . . .  rajada  de  vento ! 


e  Oliveira  Martins: 

A  vida  é  sonho  para  quem  vela ;  será  realidade  para  quem 
dorme? 


ili  Contou  Ramalho  a  um  amigo  meu,  que  lhe  pedia  escrevesse  duas 
palavras  num  álbum  de  auicgraíos; 

—  Olhe,  o  Eça  embirrava  tanio  com  isto,  que,  quando  forçosamente 
linha  que  escrcrer  num  álbum,  costumava  levá-lo  ao  seu  barbeiro,  e  je- 
dia  ao  mcstre-escama  que  escrevesse.  E  o  Eça  então  ditava  as  coisas 
mai8  chistosas  e  disparatadas. 

«Partida»  de  académico  coimbrão,  de  que  sempre  ficaram  uns  vestí- 
gios no  feitio  de  Eça  de  Queiroz?  Ou  hla^ue  do  Ramalho?  Vão  lá  agora 
sabC-lo..- 


406 


Eça  resumiu: 

O  amigo  Oliveira  Martins  diz  que  a  vida  é  um  sonho;  o 
amigo  Guerra  Junqueiro  diz  que  é  um  punhado  de  areia. . . 
Se  é  sonho,  é  o  único  que  vale  a  pena  sonhar ;  se  é  areia, 
é  a  única  sobre  que  vale  a  pena  edificar. 

Eça  de  Queiroz 
VI 


Alguém  que  o  conheceu  em  Pariz,  contou-me  que  era 
assaz  irregular  na  frequência  do  consulado.  Faltava  muito 
notadamente  quando  estava  trabalhando  com  afinco  nalgum 
livro.  Dizia  rindo  que  não  era  preciso  lá  ir:  todo  o  edifí- 
cio estava  cheio  da  sua  presença  espiritual.  De  acordo:  não 
era  a  sua  presença  real,  dentro  daquelas  salas  dobrado  so- 
bre estúpidas  folhas  de  papel  selado,  que  havia  de  influir 
prosperamente  nos  destinos  da  Pátria. . . 

Abençoada  ausência,  se  com  ela  ficava  em  casa  a  criar 
obras  primas !  Era  outra  maneira,  e  de  não  somenos  valia, 
de  bem  servir  a  sua  terra. 

A  inadaptação  de  Eça  aos  usos  e  fórmulas  burocráticas 
vinha  de  longe  (1). 


(1)  «Com  os  nejroclos  da  administração  do  concelho  nuo  se  preocupava 
em  demasia.  Assignava  a  papelada  em  que  era  necessária  a  sua  firma, 
dava  expediente,  bocejando,  aos  serviços  do  seu  carjjo,  ouvia  as  queixas 
que  lhe  faziam,  como  quem  cumpre  uma  dura  penitencia  e  ia  logo  en- 
cerrar-se  no  seu  gabinete,  folheando  livros,  tomando  apontamentos, 
consultando  Horácio  e  outros  auctores  latinos,  a  que  chamava  carinho- 
samente «os  seus  mestres».  A  administração  do  concelho,  para  elle,  era 
o  vácuo,  como  costumava  dizer.» 

António  Cabral.  Eço.  de  Queiroz,  Lisboa,  1916,  pag.  112. 


407 


Quando  era  administrador  do  concellio  em  Leiria,  car- 
teava-se  desta  forma  com  Eduardo  Coelho:  «Escrevo-lhe 
<lo  meu  exilio  administrativo.  Aborreço-me  como  Ovidio 
desterrado  e  como  Francisco  I  prisioneiro».  E  pedia  jor- 
nais, noticias,  relatos  copiosos  da  guerra  franco-prussiana 
e  um  mapa,  que  deviam  distraí-lo  no  seu  degredo  oficiai. 


VII 


Nos  últimos  anos  da  sua  vida,  quando  Eça  começou  a 
•encostar  mais  o  coração  que  o  cérebro  á  terra  portuguesa, 
o  nosso  passado  tinha  para  êle  encantos  inéditos.  Uma  das 
íaces  desse  afecto  nascente  foi  a  paixão  do  bric-à-brac^  do 
livro  antigo.  De  cada  vez  que  vinha  a  Lisboa  visitava  os  al- 
íarrabistas,  escabichava  a  Feira-da-Ladra  e  os  ferro-velhos 
•da  cidade.  Lia  muito  os  clássicos,  quiçá  lembrado  das  pa- 
lavras de  Junqueiro :  «Infelizmente  Eça  de  Queiroz  não  co- 
•nhece  ainda  todos  os  recursos  brilhantes  de  que  pode  dis- 
por, manejada  por  um  espirito  moderno,  a  antiga  lingua 
Tsortugueza».  (1)  Ali  topava  modos-de-dizer  felizes  e  raros, 
A^ocábulos  desusados  que  o  seduziam.  Recomendava  aos 
••amigos  essa  leitura,  como  aquisição  de  novas  riquesas  lin- 
guísticas, e  como  correctivo  aos  disparates  sintácticos  da 
-mediocridade  plumitiva. 

Mas  ainda  em  Pariz,  Eça  rebuscava  o  alfarrábio.  Alberto 
«de  Oliveira  e  António  Nobre  foram  uma  tarde  encontrá-lo 
debruçado  num  dos  cais  do  Sena,  folheando  embevecido 
Tuns  calhamaços  pulverulentos.  E  teve  com  eles  estas  pala- 
•vras,  que  são  uma  confissão  de  culpas,  um  arrependimento: 


U)  Art.  já  cit.  do  OcciJer.te,  n.° ' 


408 


«Meus  amigos,  a  gente  em  Portugal  não  estuda  nada  na 
edade  de  estudar,  não  sabe  nada.  Eis  porque  eu  cheguei  á 
velhice  quasi  analphabeto  e  tenho  agora  de  voltar  á  escola 
para  .conhecer  os  mestres  da  nossa  lingua  e  da  nossa  his- 
toria. Ando  aqui  a  formar-me  em  humanidades,  bem  fora 
de  tempo,  por  estes  melancólicos  cães  do  Sena,  onde  ao- 
fim  de  longas  pesquizas,  rivalisando  defleugmacom  tantos- 
pescadores  á  linha,  longos  dias  debruçados  sobre  o  rio  por 
esses  mesmos  cães  fora,  lá  descubro  um  Fernão  Lopes,, 
ou  arremato  um  Damião  de  Góes  ou  um  António  Vieira,, 
encadernados  para  a  eternidade  em  solida  carneira  lusi- 
tana !  Amigos,  aprendam  commigo  a  não  recahir  nos  meus 
erros,  formem  e  cultivem  a  sua  intelligencia  com  fortes  e 
lentas  leituras,  tudo  o  que  se  deixa  de  estudar  a  tempo  e 
horas  custa  muito  a  apprender  na  minha  edade  !»  (1) 

O  fragmento  que,  por  mal  conhecido,  em  seguida  trans- 
crevo, é  também  por  demais  expressivo  neste  particular.  Em. 
1897  escreveu  algures  Eduardo  Prado,  outro  enamorado  da 
civilisação  francesa,  «amigo  fraterno»  (2)  de  Eça,  que  este- 
retratou  no  protogonista  de  A  Cidade  e  as  Serras: 

«São  longas  as  suas  estações  em  frente  aos  alfarrabistas, 
e  nunca  volta  elle  para  Neuilly  sem  alguma  estampa  portu- 
gueza,  ou  alguns  volumes  de  velhas  coisas  peninsulares, 
chronicas,  sermões,  vidas  de  Santos,  obras  de  mystica,  por- 
tuguezas  ou  hespanholas,  que  depois  leva  horas  a  concer- 
tar, a  tapar  os  buracos  dos  bichos,  a  lavar,  a  polir  com 
vernizes  antisepticos,  matadores  dos  micróbios  que  colo- 
nisam,  de  preferencia,  naquella  litteratura. 

«Um  dia  fez  vir  de  Portugal  o  Diccionario  Bibliographico 
de  Innocencio.  O  que  diria  Camillo  Casíello  Branco  se 


(1)  Alb.  d'01iveira,  Eça  de  Queirc~,  pag.  3S  e  ;í). 
(2,  Id.,  ibid.,  pag.  161. 


409 


soubesse?  Perguntaria,  decerto,  noticias d'aquelIeescriptor, 
em  quem  sempre  reconheceu  talento,  mas  em  quem  sempre 
viu  ou  fingiu  ver  um  estrangeirado,  anti-portuguez.  E  a 
maior  ponto  subiria  a  sua  admiração,  sabendo  que  aquelles 
volumes  do  Innocencio  estão  acrescentados,  annotados,  cor- 
rigidos. (1)  É  para  Eça  de  Queiroz  mais  alegre  o  domingo 
em  que  traz  para  casa  um  livro  portuguez,  não  citado  pelo. 
bibliographo. 

«—Não  está  no  Innocencio!  diz  elle  triumphante,  mos- 
trando o  volume  descoberto  nos  parapeitos  do  cães. 

«O  bem  anda  por  todos  os  caminhos,  A  procura  da  per- 
feição na  sua  obra,  levou  Eça  de  Queiroz,  corrigido  do  es- 
trangeirismo que  enfurecia  Camillo,  á  grande  consolação- 
de  ter  amor  e  enthusiasmo  pela  sua  terra.» 

Fecho  esta  nota  envaidecendo-me  de  incluir  na  minha 
modesta  livraria  um  exemplar  dos  Commentarios  do  grande- 
Afonso  Dalboquerque  (Lisboa,  MDCCLXXIV,  4  vols.)  que 
tem  no  forro  interno  da  capa  de  encadernação:  —  «Efa  de 
Queiroz  —  Bristol—  7  de  Abril  de  ISSS".  Algumas  passagens, 
estão  sublinhadas,  possivelmente  pelo  lápis  do  romancista 


VIII 


Umas  vezes  apetecia-lhe  anular-se,  confundir-se  com  o- 
Vulgo...  «Eu  sou  apenas  um  pobre  homem  da  Povoa  de 
Varzim»— escreve  êle  numa  carta  a  Pinheiro  Chagas  (Bris- 
tol,  14-XII-80).  Mas  numa  outra  de  1889  ao  dr.  Alfredo- 


(1)  Porque  mãos  andará  agova  esta  preciosa  peça  bibliográfica?  Seria 
de  alto  interesse  literário  averiguá-lo. 


410 


Brandão,  seu  antigo  condiscípulo  e  pároco  duma  das  frè- 
•guezias  de  Lisboa,  falando  dum  titular  cujo  nome  não  vem 
ao  caso :  —  <  Se  êle  tem  pergaminhos,  eu  tenho-os  tão  bons 
ou  melhores  que  os  dele.»  (1) 


IX 


Supersticioso  como  bom  poveiro  que  se  presava  de  ser. 
A.  Cabral,  de  pag.  14S  a  150  do  seu  livro,  arquiva  boa  man- 
cheia  de  crendices  —  pé  direito  na  soleira  da  porta,  mudança 
de  botões  no  punho  da  camisa,  horror  às  bruxas,  ao  azeite 
derramado,  ao  uivar  dos  cães  e  piar  das  corujas,  etc,  de 
que  o  espírito,  aliás  desempoeirado  de  Eça  de  Queiroz, 
■íiunca  vingou  libertar-se.  Mas  tudo  sobrelevam  os  perio- 
-dos  que  vão  ler-se,  recortados  duma  carta  ao  açoriano  Fa- 
-ria  e  Maia,  datada  apenas  de  2  de  julho  mas  que  é  de  1894  : 

«...  Mando  sempre  ao  sachristão  d'uma  capella  celebre 
-do  Norte,  de  cujos  arraiaes  me  lembro  saudosamente,  o  1." 
livro  que  me  chega  do  editor.  Faço  isto  desde  a  Relíquia.  (2) 
Eu  andava  destrambelhado,  ultra-nervoso.  Uma  noite,  nas 
vésperas  da  sabida  do  romance,  que  hei  de  eu  sonhar?  Que 
toda  a  gente,  novos  e  velhos,  ricos  e  pobres,  desde  o  con- 
tinuo da  administração  do  concelho  e  desde  o  criado  de  la- 
"Voura  até  ao  brazileiro  endinheirado  e  ao  politicão  graúdo, 
•fam  pedir  ao  tal  sachristão,  não  relíquias  milagreiras  do  mi- 
lagreiro santo,  mas  A  Relíquia,  a  minha  Relíquia,  muitas  Re- 
líquias, copiosíssimas  Relíquias.  E  o  pobre  homem,  á  saída 


(1)  António  Cabral  fala  das  ctenJencias  aristocráticas  manifestadas 
■«em  Coimbra»,  que,  como  se  vO,  als:uraa  vez  ressurgiam. 
(2»  Publicada  em  1S87. 


411 


da  missa,  novena  ou  lausperenne,  distribuía  aos  devotos, 
a  torto  e  a  direito,  suando  esbófado,  braçadas  e  braçadas 
de  livros.  Vê  tu  que  disparate,  não  é?  Pois  saberás,  meu 
menino,  que  me  deu  que  pensar  o  disparate,  e  d'ahi  em 
diante,  sempre  que  atirava  ás  gentes  algum  livro,  ahi  man- 
dava eu  o  1."  que  me  vinha  á  mão,  com  a  letra  disfarçada 
no  endereço,  ao  obscuro  funccionario  da  igreja,  cujo  nome 
nem  sequer  suspeitava.  Pas  de  dcdicace;  apenas  a  nota  em 
letras  garrafaes  — offerecido  —  a  evitar  que  voltasse,  já 
não  digo  ao  meu  poder,  porque  o  destinatário  ignorava  o 
remettente,  mas  ao  do  editor.  O  que  o  pobre  diabo,  que  tal- 
vez nem  saiba  ler,  terá  pensado  ao  recebel-os  ! 

«Supunha  eu  assegurar  assim  o  bom  êxito  da  obra,..  Pa- 
rece-me  que  te  estou  ouvindo  rir. . .  Pois  não  devemos  rir- 
íios  de  coisas  sérias.»  (1) 


X 


Acabámos  de  ver  o  qnantiiin  de  supersticioso  entrado  na 
compleição  psicológica  de  Eça:  vejamos  no  episódio  que 
segue,  como  êle  era  acessível  ás  sciências  ocultas  —  espi- 
ritismo, telepatia,  etc. 

Era  em  Pariz.  O  romancista  fora  convidado,  com  outras 
pessoas,  por  Eduardo  Prado  para  uma  sessão  particular  de 
espiritismo,  onde  se  apresentava  um  dos  mais  celebres  me- 
diums  da  época.  Eça  assistia,  com  um  rictus  sarcástico  a 


(l(  o  original  desta  curiosíssima  carta,  qiic  copiei  na  íntegra,  c  na  ín- 
tegra será  algum  dia  publicada,  está  actualmente  na  poíse  do  meu  an- 
tigo amigo  e  condiscípulo  Manuel  Afonso  Pinto  Braga,  coleccionador  in- 
teligente e  infatigável  de  autógrafos,  que  gentilmente  ma  faculiou.  Fol- 
Ihe  em  tempos  oferecida  nos  Açores  pelo  destinatário. 


412 


franzir-lhe  as  comissuras  da  boca;  e  em  certa  altura  bo- 
quejou á  orelha  dum  amigo  : 

—  Espera. . .  vou  apahná-lo  ! 

—  ? 

—  Vou  pedir-lhe  a  história  de  D.  Sebastião  ! 
E  voltando-se  para  o  médium: 

—  Conte  a  história  em  que  estou  pensando  ! 

Eça  então  assistiu,  de  olhos  arregalados,  a  este  espectá- 
culo imprevisto:  a  narrativa,  feita  pelo  médium  a  traços 
gerais,  dos  planos  cavaleirescos  do  Rei-Desejado,  sua  pas- 
sagem à  Africa,  travessia  do  mar,  os  trajes  e  armaduras  da 
época,  a  batalha  de  Alcácer,  a  morte  do  rei  no  meio  da  re- 
frega. E  foi  o  assombro,  quando,  entrecortando  as  frases, 
hesitante,  como  quem  quere  entrar  à  força  uma  porta  afer- 
rolhada, de  olhos  cerrados  e  escorrendo  em  suor,  numa 
grande  concentração  de  espírito,  o  mediam  acrescentou : 

—  Mais...  mais...  chose  extraordinaire!  — ...  on  dit... 
on  dit. . .  quMl  reviendra  1 

Quando  daí  em  diante  vinha  a  pêlo  falar-se  de  espiri- 
tismo, Eça  de  Queiroz  já  não  sorria.  Pois  se  o  médium  fora 
mesmo  até  apropriar-se,  por  sugestão  inconsciente  de  Eça, 
da  lenda  sebastianista  ! 


XI 


É  realmente  Eça  o  autor  do  Diccionario  dos  Milagres  ?  {\} 
Teem  surgido  dúvidas  a  esse  respeito,  e  o  assunto  ainda 
hoje  não  parece  inteiramente  líquido.  Que  o  romancista 
coordenou  os  materiais  para  êle,  e  apresentou  o  manuscrita 


il  Lisboa,  Parceria  Pereira,  1900. 


413 


ao  editor  Pereira,  parece  não  sofrer  hesitação,  atenta  a  de- 
claração de  Silva  Bastos  no  prefácio  ao  Diccionario  (pág. 
VIII).  Como  foi  escrito?  É  ainda  S.  Bastos  quem  acrescen- 
ta :  «Evidentemente  Eça  de  Queiroz  leu  as  obras  onde  se 
narravam  tais  milagres,  marcou  a  lápis  os  casos  mais  ou 
menos  typicos  e  que  mais  tinham  impressionado  a  sua  ima- 
ginação de  artista,  transplantando-os  depois,  por  copia, 
para  os  papeis  hoje  propriedade  da  Parceria.v>  (Ibid.)  Até 
aqui  vê-se  que  Eça  copiou  de  algum  Fios  Sandorum,  dos 
Bolandistas  ou  da  Áurea  Legenda,  e  acaso  das  hagiografias 
<jue  ultimamente  muito  comprava  e  lia,  os  lances  onde  sen- 
tiu um  motivo  de  arte,  propondo-se  mais  tarde  dar-lhes  uma 
redacção  definitiva,  vestindo-os  da  sua  prosa  expressiva  e 
colorida  (1).  As  lendas  de  Santos  das  Ultimas  Paginas  são 
já,  porventura,  a  resultante  desse  plano  irrealizado. 

Declarou  Ramalho  Ortigão  poucos  dias  depois  do  apare- 
cimento da  obra,  que  ela  era  a  coisa  pior  que  saíra  da  pena 
de  Queiroz ;  e  seria  talvez  a  melhor  se  conseguisse  levar 
esse  trabalho  até  onde  intentava. 

Isto  esclarece  até  certo  ponto  o  problema  que  Silva  Bas- 
tos considerava  «actualmente  insolúvel»  (pag.  ix). 


XII 


De  1884  a  1886  houve  em  Lisboa  uma  revista  —  Republi- 
■cos  se  chamava  ela  —  de  qus  foi  director  político  Tomás 
Ribeiro  e  literário  o  visconde  de  Correia  Botelho  (Camilo 
Castelo-Branco).  O  primeiro  abandonou  a  revista  a-quando 
<la  sua  elevação  à  cadeira  das  obras  públicas  ;  o  nome  de 


(1)  S.  Bastes  pressente  isto  mesmo  a  pág.  xi  e  xii  do  seu  prefacio. 


414 


Camilo,  esse  deixa  de  figurar  à  cabeça  ào  Republicas  desde 
o  n."  89  (8  de  outubro  de  1886). 

Percorrendo  as  páginas  deste  notável  repositório  literá- 
rio, onde  escreveram  algumas  das  mais  bem  categorisadas 
penas  da  época,  e  outras  que,  por  então  obscuras,  vieram 
depois  a  enobrecer-se  no  lidar  das  letras,  fui  topar  em  o 
n."  61,  de  20  de  fevereiro  de  1886  as  seguintes  quadras 
humorísticas  ao  insigne  romancista,  autor  de  A  Corja  (1)  r 


A  FIDALGUINHA 

A  Tliomaz  Ribeiro 

Thomaz  Ribeiro,  o  conto,  que  te  envio, 
é  como  -<Pierrot;>  que  vibra  o  sistro, 
a  fim  de  te  alegrar  n'esse  sombrio 
tristonho  gabinete  de  Ministro. 

Sob  o  docel  do  mirante, 

(^ó  Graças,  prestae-me  auxílio  í) 

via-se  a  loura  menina 

A  lêr  <'0  Primo  Bazilio». 

No  seu  chateau  solarengo 
costuma  passar  a  calma  ; 
—  o  oxygenio  para  o  corpo, 
o  Bazilio  para  a  alma. 


(1)  Esta  nótula  saiu  já  cm  tempos  n'0  Scciílo.  edição  da  noite,  ar.ies- 
q-jc  A.  Cabral  publicasse  o  livro  Eçc.  de  Queiroz,  onde  intercalou  alíju- 
mas  das  quadras  de  A  Fidalgv.inha,  que  sai  agora  publicada  na  integra- 


415 


Com  a  mão  aristocrata 
a  romanesca  fidalga 
afagava  o  pelo  ebúrneo 
de  uma  turbulenta  gal^a. 

Caminhavam  pela  estradu 
três  crianças  com  a  mãe, 
esfarrapadas,  mendigas... 
Já  não  tem  pae.  N'isto,  vem 

do  mirante  abaixo  a  galga 
a  ladrar,  a  remetter 
contra  os  pequenos  que  choruir 
Quer  um  d'elles  defender 

os  irmãos,  e  ergue  a  custo 
uma  pedra  ;  então  a  galga 
fugiu  ganindo,  n'um  choro, 
como  a  queixar-se  á  fidalga. 

Raivosa,  a  loura  menina, 
curvando  o  peito  arquejante 
sobre  o  peitoril  florido 
do  balsâmico  mirante, 

brada  ao  pequeno  :  «ó  garoto  ! 
se  lhe  atiras  a  pedrada, 
mando  lá  fora  um  lacaio 
rebentar-te  !:> 

—  Não  é  nada . . . 

(disse  a  pobre).  O  meu  pequer.- 
tem  tanta  fome,  ó  fidalga, 
que  não  podia  atirar-lhe 
com  a  pedra  á  sua  galga. . . 


416 


Voltou  a  face  a  menina, 
carregando  o  sobrecilio, 
e  foi  lêr  o  que  fizera 
tio  «Paraizo»  o  Bazilio. 

Não  compreendeu,  felizmente ! 
Que  o  Eça,  com  grande  tino, 
quando  a  natureza  é  suja, 
usa  estylo  sibyllino ; 

de  modo  que  o  não  percebam 
meninas  da  flor  no  viço, 
e  apenas  o  entendam  velhas 
que  nada  perdem  com  isso. 


Ca.millo  Castello  Branco. 


Bem  se  ajustam  estas  quadras  aos  remoques  desfechados 
pelo  Mestre  de  Seide,  sempre  que  tal  se  lhe  enseja,  ao  peito 
de  Eça  de  Queiroz. 

Mas  o  que  tem  graça  é  que  o  irredutível  impugnador  da 
escola  realista  enfileira  entre  os  que  melhormente  a  segui- 
ram, justamente  com  as  mesmas  armas  com  que  intentou 
metê-la  a  ridículo.  Não  são  A  Corja  e  o  Eiisebio  Macário 
primos  co-irmãos  dos  Maias  e  de  .4  Relíquia  ? 


AS   CONFERÊNCIAS   DO   CASINO 


Eça  de  Queiroz,  tendo  no  bolso  As  Farpas,  mói  num  al- 
mofariz o  Idealismo  a  golpes  de  Realismo 


íiiiiiiiiininiiiiiiitiiiwiiuiiiiiiiiP^iitiiiiaMiaMi^iii^ 


Os  COMERENCISTAS   DO   CaSINO  (ENTRE  ELES  EÇA  DE  QUEIROZ) 
COM   AS   BOCAS   ROLHADAS 

Caricaturas  de  Rafael  B.  Pinheiro  n'.4  Berlinda 
(Julho  de  1871). 


417 

Xlll 


Que  pensava  Eça  de  Queiroz  da  dramatisaçSo  dos  seus 
romances  ? 

Toda  a  gente  disse,  a  quando  da  representação  do  Primo 
Bazilio,  que  os  romances  de  Eça  de  Queiroz  eram  indrama- 
tisáveis.  Faltava,  todavia,  o  testemunho  do  romancista,  eé 
êle  quem,  dalgum  modo,  depõe  com  a  sejjuinte  carta,  escrita 
ao  publicista  brazileiro  Augusto  Fábregas,  que  do  Crime 
do  Padre  Amaro  extraíra  uma  peça: 

Rocio,  26  — Lisboa,  6  de  maio  de  JSQO.—Ex."""  sr.  —  O 
sr.  Vieira  da  Silva  teve  a  amabilidade  de  me  entregar  a  carta 
de  V.  Ex.^.  Foi-me  extremamente  grato  o  saber  que  o  Crime 
do  Padre  Amaro  tem  merecido  de  V.  Ejc.*  uma  attenção  tão 
-continua  e  fiel.  Nunca  pensei  n'essa  obra  como  sendo  susce- 
ptível de  dramatisação.  O  único  dos  meus  livros  que  sempre 
se  me  afigurou  próprio  a  dar  um  drama  e  um  drama  pathe- 
tico,  de  fortes  caracteres,  de  situações  moraes  altamente  coni- 
moventes,  c  o  meu  romance  «Os  Maias».  Em  todo  o  caso,  es- 
tou certo  de  que,  com  os  seus  elevados  recursos,  V.  Ex.^  soube 
tirar  de  O  Crime  do  Padre  Amaro  uma  acção  de  theatro  in- 
teressante e  viva. 

Emquanto  ao  que  V.  f.r.'  me  pergunta  sobre  a  minha  partf. 
de  direitos  de  auctor,  eu  não  tenho  mais  do  que  seguira  regra 
estabelecida  na  Europa,  e  que  é  julgada  muito  equitativa. 
Aqui  o  auctor  do  romance  e  o  extractor  do  drama  recebem 
cada  um  metade  dos  direitos  do  auctor.  O  auctor  do  romance 
recebe  mesmo  mais  —  mas  quando  elle  collabora  na  composi- 
ção do  drama,  o  que  se  não  deu  n'este  caso  do  Padre  Amaro. 

Seria,  portanto,  2  ''2  por  cento  da  receita  bruta  que  eu  teria 
a  receber.  Emquanto  â  recita  do  auctor,  não  conlieço  a  regra 


418 


aqui  estabeUcida,  nem  sei  nicsmo  se  ella  existe ;  deixo,  por- 
ianío,  que  V.  Ex.^,  de  accordo  com  o  meu  representante,  me  ar- 
bitrem o  que  fôr  considerado  razoável.  Penso,  todavia,  em 
consciência,  que  a  melhor  parte  d'essa  recita  de  auctor  deve 
pertencer  ao  extractor  do  drama. 

O  meu  representante  ê  o  sr.  Alfredo  Prisco  Barbosa  (raa 
da  Alfandega  33).  Elle  decerto  procurará  V.  £>.*. 

Creia-me,  com  a  maior  estima  —  De  V.  f.r.*,  muito  agra- 
decido e  dedicado  —  Eça  de  Queiroz. 

Infere-se  desta  preciosíssima  carta,  agora  aqui  estam- 
pada por  extremada  gentileza  do  seu  possuidor  actual,  qne 
o  célebre  estilista  considerava,  em  geral,  os  seus  romances 
como  insusceptíveis  de  apresentação  no  palco,  salvando 
apenas  Os  Maias.  Curvemo-nos  ante  a  opinião  do  Mestre,. 
mas  roguemos  todos  aos  deuses  que  ninguém  se  lembre, 
entusiasmado  por  ela,  de  ir  para  casa  cogitar  numa  esto- 
pada em  8  atos,  a  4  por  volume ! 

Eça  de  Queiroz  recebeu  pouco  depois  por  intermédio  do 
seu  representante  no  Rio,  cerca  de  500^000  réis  fortes,  me- 
tade do  produto  dos  direitos  de  autor  até  esse  dia,  distri- 
buidos  por  vinte  e  quatro  representações. 

Deve  registar-se  a  opinião  de  Eça,  quanto  ao  melhor  qui- 
nhão que  ao  extractor  do  drama  cabe  nos  lucros  da  récita 
de  auctor,  valorisando  por  esta  forma  equitativa  o  traba- 
lho de  extracção  e  desenho  da  peça  teatral. 

Quando  o  romance  O  Primo  Bazilio  veiu  a  lume,  fez-se  e 
em  volta  dele  um  barulho  cujos  ecos  ainda  muitos  anos  de- 
pois ressoavam  nas  esferas  literárias.  No  Brasil,  designada- 
mente, bazilistas  e  anti-bazilistas  escaramuçavam  estron- 
dosos no  panfleto  e  na  imprensa,  na  revista  do  ano  e  na 
caricatura ;  e  uma  peça  num  acto,  de  que  não  tenho  mais 
notícia,  surgiu  num  palco  do  Rio  com  o  título  do  romance, 


419 


trinta  e  tantos  anos  antes  que  uma  outra  de  i«jual  origem  e 
com  igual  título  fosse  representada  em  Lisboa  com  o  in- 
sucesso da  primeira.  (1) 

A  figura  de  S.  Frei  Gil,  que  tão  maravilhosamente  o 
Mestre  pincelaria  mais  tarde,  foi  também  um  dos  seus  pla- 
nos tratá-la  no  teatro,  por  conselho  do  falecido  escritor 
Eduardo  Garrido. 

Ouçamos  a  este  respeito  Xavier  de  Carvalho: 

«Foi  Eduardo  Garrido  quem  primeiro  lembrou  a  Eça  de 
Queiroz  um  curioso  trabalho  sobre  Frei  Gil  de  Santarém. 

«Os  dois  escriptores  deviam  escrever  a  obra  juntos,  e 
por  fim  Eça  de  Queiroz  resolveu  occupar-se  elle  sosinho 
do  assumpto;  mas  não  cremos  que  deixasse  largo  trecho 
escripto. 

«Ao  começo,  o  Frei  Gil  devia  ser  uma  oratória,  como  o 
Santo  António,  mas  Eça  quiz  fazer  primeiramente  um  ro- 
mance, para  depois  extrahir  d'elle  a  peça  theatral. 

«Afinal  não  fez  nem  romance,  nem  peça  theatral».  (2) 

Trata- se  evidentemente  do  fragmento  5.  Frei  Gil,  reco- 
lhido nas  Ultimas  Paginas. 


XIV 


Eça  também  desenhava?  Parece  que  sim.  Bem?  Mal? 
Ignoro.  Não  alcancei  ver  algum  desenho  seu.  Os  que  lerem 
este  livro,  certo  apreciariam  conhecer  quaisquer  documen- 


(1|  Existe  um  raríssimo  prospecto  litografado  da  peça  brazilelra  no 
Museu  Boidalo  Pinheiro,  desenho  do  grande  Rafael. 

(2(  X.  C.  (Xavier  de  Cars*alho)  Carta  de  Paris  para  O  Século  do  27 
de  agosto  de  1900. 


420 


tos  que  fixassem  esta  aptidão  inédita  do  Mestre.  Porfiei 
conseguir  algum  —  sem  resultado.  Em  poder  da  sua  viuva 
deve  todavia  existir  —  informam-me  —  um  álbum  desses  es- 
quissos,  que  por  desenfadamento  rabiscava. 


XV 


A  delicada  oferta  do  nosso  colaborador  artístico,  sr.  Vis- 
conde do  Alcaide,  cedendo  aos  organisadores  deste  livro 
uma  sua  fotografia  que  lhe  foi  tirada  pelo  romancista,  veio 
revelar  aos  admiradores  de  Eça  as  suas  simpatias  por  essa 
arte. 

«O  Eça  pouco  se  dedicou  á  photographia,  escreve-me 
aquele  senhor  em  data  de  4-5-919,  tendo  apenas  feito  al- 
guns trabalhos,  no  género  do  retrato  que  me  tirou ;  em 
todo  o  caso  pôde  dizer-se  que  foi  photographo  amador.» 


XVI 


Moniz  Barreto,  essa  grande  e  legítima  esperança  da  crí- 
tica portuguesa  que  a  morte  mal  deixou  florir,  tinha  entre 
os  seus  papeis  um  inquérito,  luminosamente  reflectido  e 
realisado,  á  obra  de  Eça  de  Queiroz.  Antero  de  Quental  e 
Oliveira  Martins  conheciam  esse  trabalho,  e  tinham-no  em 
alto  apreço.  Resta  dele  um  esboço  destinado  a  ser  impresso 
na  Revista  de  Portugal,  dirigida  por  Eça  de  Queiroz.  (1) 


111  Ha  ainda,  que  cu  saiba,  um  outro  artigo  de  Moniz  Barreto  sôbrc  o 
mesmo  escritor  — £'pa  de  Queirós  e  Os  Maias,  estampado  no  Repórter 
de  2õ  de  julho  de  1883. 


421 


Que  caminho  terão  levado  tais  papeis? 

Falando  desses  e  doutros  escritos  de  Moniz  Barreto, 
escreveu  alíjuem  n'0  Século  dias  depois  da  morte  de  Eça, 
estas  palavras  que  oxalá  fossem  ainda  ouvidas  e  cumpridas 
por  quem  o  possa  fazer : 

«Seria  um  bom  serviço  prestado  á  litteratura,  se  os  her- 
deiros do  fallecido  critico  dessem  publicidade  a  taes  docu- 
mentos para  honra  de  ambos». 

M.  Cardoso  Martha. 


o  amor  de  Eça  à  terra  portuguesa 


tjániais  na  nossa  literatura  algfuem  de- 
senhou raaís  nítidas  paisagens,  modelou 
mais  vivas  Gguras,  pOs  era  circulação 
omlor  numero  de  idcas  e  Imagens,  ano 
tou  mais  Incoercíveis  sensações,  desba. 
nallsou  e  recunhou  mais  palavras  gastas, 
melhor  descreveu,  melhor  narrou,  mais 
de  perlo  atingiu  a  fronteira  da  realidade 
e  Hs  fontes  da  vida  !» 

(Alberto  de  Oliveira— £■{:«  de  Queiroz 
Pâgirtas  e  Memórias,  pág.  38). 

Dos  nossos  escritores  dos  últimos  tempos  é  Eça  um  dos 
mais  diversamente  discutidos.  Ha  sobre  êle  as  mais  desen- 
contradas opiniões.  Uns  têera  pelo  eminente  romancista 
uma  verdadeira  idolatria,  escondendo  cautelosamente  os 
seus  defeitos,  outros,  não  se  referindo  às  suas  qualidades 
de  prosador  e  artista  primoroso,  criticam-no  acerba  e  im- 
piedosamente. 

Para  alguns  a  Relíquia  é  quase  um  decalque  das  Mt:- 
MOiRES  DE  Judas  de  Petrucelli  delia  Gattina,  o  Mandarim 
uma  simples  bluetU  extraída  do  Peau  de  Chaorin  de  Bal- 
zac,  a  Illustre  Casa  de  Ramires  uma  pocJmde  à  política 
provinciana,  a  Correspondência  a  sua  pior  obra  e  até  Os 


423 


Maias  <;uma  porção  de  crónicas,  isto  é,  de  apontamentos, 
de  notas  muito  ridículas,  muito  enj^raçadas,  que  tanto  po- 
<líam  vir  coleccionadas  sob  um  título  único  como  debaixo 
de  vários  títulos,  fraj^mentadas.»  (I) 

A  ânsia  dos  seus  detractores  em  lhe  amesquinharem  a 
obra  vai  ao  ponto  de  considerarem  o  Crime  do  PADRr 
Amaro  como  um  isjnobil  plagiato  áeLafautedeVabbéMou- 
ret,  escrito  por  Zola  alguns  anos  depois.  (2) 

Eça,  defende-se  ironicamente  desta  falsa  acusação  numa 
nota  inserta  na  segunda  edição  do  Crime  «Com  conheci- 
mento dos  dois  livros,  só  uma  obtusidade  córnea  ou  má 
fé  cínica  podia  assemelhar  esta  bela  alegoria  idílica,  a  que 
«stá  misturado  o  patético  drama  duma  alma  mística,  ao 
Crime  do  Padre  Amaro  que,  como  podem  ver  neste  novo 
trabalho,  é  apenas,  no  fundo,  uma  intriga  de  clérigos  e  de 
beatas  tramada  e  murmurada  à  sombra  duma  velha  Sé  de 
província  portuguesa.» 

Fialho  d'Almeida,  o  azedo  panfletário  dos  Gatos,  como 
oficial  do  mesmo  ofício,  não  poupa  Eça  e  acha-n  um  cara- 
cter desnacionalisado,  uma  contrafacção  estrangeira  e  Silva 
Pinto,  (5)  que  a  princípio  o  considerava  um  escritor  sem 
mácula,  faz  coro  com  o  autor  do  País  das  uvas, 

E  até  o  sr.  José  Agostinho  (4)  o  põe  também  pela  rua  da 
amargura ! 

Jaime  Batalha  Reis  prefaciando  Eça  não  se  esquece  de 
indicar  as  influências  estrangeiras  que  se  notam  na  obra 


U)  I-^rnanJo  Reis—  Eça  de  Queiroo,  in-Revista  Xova.  Ano  i  n.*  it, 

('.',  WenJes  dos  Remédios  — //<s/cí»7tf  da  literatura  porlttgue»M,  4.* 
«d.  1914,  pag.  640. 

i8)  Silva  Pinto  —  Noites  de  Vigília. 

44)  Josá  Ajj^ttinho  —  £^#  Ae  Queiroz,  Porto. 


424 


queiroziana;  (1)  o  sr.  dr.  João  de  Meyra,  num  curioso  fo- 
lheto, vai  mais  longe  pois  se  entrega  ao  trabalho  pacien- 
tíssimo de  comparar  algumas  passagens  de  escritores  es- 
trangeiros com  as  de  vários  romances  de  Eça,  dizenda 
como  desculpa  à  denuncia  feita  que  Eça  se  limitou  apena» 
«a  imitar,  transportar  para  o  seu  estilo  as  imagens,  as  ideas 
ou  as  expressões  de  um  outro  estilo,  apresentando  de  um 
modo  inédito  as  coisas  já  ditas,  ou  aplicando  frases  feitas 
a  situações  inteiramente  novas.»  (2) 

Um  dos  muitos  defeitos  atribuídos  à  obra  de  Eça  é  a 
pornografia,  a  imoralidade,  a  acção  dissolvente  dos  seus 
romances.  Estes  —  dizem  —  atacam  a  família,  essa  institui- 
ção que  devia  ser  sagrada,  intangível.  O  próprio  Eça  sai  è 
estacada  defendendo-se  dessa  agressão,  —  «eu  não  ataco  a 
família,  ataco  a  família  lisboeta,  produto  do  namoro,  reu- 
nião desagradável  de  egoísmos  que  se  contradizem» —  es- 
creve êle  numa  interessantíssima  carta  dirigida  em  1878,  de 
New-Castle,  ao  sr.  dr.  Teófilo  Braga.  (3) 

O  Primo  Bazilio  e  O  Crlme  são  os  romances  conside- 
rados como  mais  realistas,  mais  imoralizados,  contudo  o 
sr.  dr.  Fidelino  de  Figueiredo  considera  o  primeiro,  na 
sua  serena  e  minuciosa  análise  «uma  obra  de  imaginação,, 
animada  dum  elevado  propósito  de  morigeração  >  e  o  se- 
gundo um  romance  completo  que  integralmente  satisfaz, 
«de  superior  beleza  e  de  elevada  mora!.»  (4) 

O  sr.  dr.  Teófilo  Braga,  que  em  matéria  literária,  não  é 


(1   Eça  c?e  Queiroz  —  Prosas  Barbaras. 

i2i  João  de  Mc3'ra  —  Influencias  estrangeiras  em  Eça  de  Queiroz. 
Tila  Nova  de  Famalicão.  Tlp.  Minerva  —  1912. 

i.3)  Teófilo  Braga  —  Quarenta  anos  de  vida  literária,  pag.  92. 

(4)  Fidelino  de  Figueiredo —//isV.  da  lií.  realista.  Lisboa,  1914.  pag, 
HO  c  U2, 


425 


íúcil  de  contentar  reputa  também  inexcedível  o  primeiro- 
destes  romances:  «não  haverá  nas  literaturas  europeas  ro- 
mance que  se  lhe  avantage.  Há  ali  a  construção  sejjura  de 
Balzac,  o  acabado  artístico  de  Flaubert,  a  crueza  real  mas- 
imponente  de  Zola,  os  quadros  completos  como  um  Dau- 
det.»  (1) 

Porém,  uma  das  mais  graves  e  importantes  acusações 
feitas  ao  eminente  autor  da  Cidade  f.  as  Serras  é  a  de  que 
êle  foi  um  escritor  desnacionalizado,  que  as  íiguras  dos 
seus  romances  não  são  portuguesas. 

Como  escreve  o  ilustre  poeta  e  escritor  dr.  Alberto  de 
Oliveira  «os  espíritos  mais  sagazes  e  refractários  ao  con- 
tágio dos  logares  comuns  não  hesitam  em  afirmar,  aliás  na 
intensão  menos  depreciativa,  que  Eça  de  Queiroz  foi  o  es- 
critor português  menos  português  que  ainda  houve  em  Por- 
tugal.»  (2) 

Isto  não  é  verdade.  Eça  adorava  a  sua  terra,  a  luminosa, 
a  ridente  e  linda  terra  de  Portugal ;  a  acção  dos  seus  ro- 
mances, escritos  no  estrangeiro,  desenvolve-se  em  meios 
portugueses  e  toda  a  galeria  de  personagens  da  sua  obra  é 
genuinamente  nacional. 

Êle  amava  a  sua  pátria;  o  que  fortemente  detestava  eram 
os  ridículos  da  sociedade  portuguesa  que  desassombrada- 
mente classifica  de  mesquinha,  estúpida,  convencionalmente 
pateta,  grotesca  e  pulha.  (3) 

Os  conselheiros  Acácios  e  os  literatelhos  acéfalosqueEça 
tão  flagrantemente  personaliza  na  figurinha  alvar  do  Ernes- 
tinho  é  que  lhe  não  perdoam  as  ironias  e  as  incoerências». 


(1)  Teófilo  Braga— .If  ttiodenias  itieas  iia  iil.  po)ltisi,riesa.  Tomo  n>. 
pag.  3C8. 

(2)  Alberto  de  Oliveira—  Obra  cií..  pag.  51. 

v3)  TcíClo  Brsga  —  Que.yenta  r,t:cí  tfe  vida  lit.,  pag.  93. 


426 


Das  centenas  de  tipos  que  povoam  os  seus  romances  e 
que  constituem  a  prole  literária  de  Eça  todos  eles  viveram 
€  se  agitam  ainda  no  nosso  meio.  Mesmo  as  figuras  episó- 
dicas, fugitivas,  mal  esboçadas  se  tornam  inconfundíveis 
pelos  seus  ligeiros  traços  porque  foram  todas  elas  copia- 
das do  natural,  arrancadas  ao  tablado  da  vida  nacional. 
Toda  a  série  curiosíssima  de  personagens  arroladas  por  Eça 
são  etnográfica  e  psicologicamente  exactas,  bem  estigmati- 
zadas nas  suas  taras,  nos  seus  defeitos,  nos  seus  vícios  e 
na  crueldade  impiedosa  como  êle  os  rubrica,  como  êle  des- 
faz as  suas  existências,  como  as  arrasta  pela  amargura  da 
A?ida,  como  as  ridiculariza.^é  que  está  o  seu  forte  realismo. 

Seria  interessante  fixar  aqui  a  lista  verdadeiramente  cu- 
riosa de  todas  as  suas  personagens  genuinamente  portu- 
guesas, mas  não  é  esse  o  objectivo  do  nosso  despretencioso 
artigo;  o  que  pretendemos  apenas  é  reabilitar  Eça  da  acu- 
sação que  mil  vezes  lhe  tem  sido  dirigida  de  que  êle  des- 
prezou sempre  a  sua  terra. 

«Acusam-no  de  não  ser  um  escritor  português  a  êle  que 
vivendo  quase  sempre  no  estrangeiro  fez  todos  os  seus  li- 
vros sobre  assuntos  nacionais,  e  constantemente  teve  os 
olhos  presos  na  visão  desta  terra  que  êle  sobretudo  criti- 
cou —  porque  a  queria  a  melhor  e  a  mais  bela.  O  raeio  em 
que  evolucionam  os  tipos  que  a  sua  imaginação  creou,  foi 
sempre  on  osso»,  assim  escreve  Justino  de  Montalvão  numa 
das  suas  magníficas  e  brilhantíssimas  crónicas. 

Eça  lá  fora  viveu  sempre  assoberbado  por  uma  profun- 
díssima nostalgia,  nostalgia  que  êle  deixou  bem  documen- 
tada na  Cidade  e  as  Serras,  livro  que  é,  como  diz  Paulo 
Osório,  <'de  todos  o  mais  nosso  e  o  que  mais  encanta,  o 
linico  que,  roçando  apenas  a  miséria  humana,  se  eleva  alto, 
num  vôo  de  optimismo  e  crenças,  e  cuja  leitura,  para  mais 
como  brilho  dum  estilo  adorável,  tonifica,  faz  bera.» 


427 


Com  as  suas  subtis  ironias,  com  os  seus  famosos  para- 
doxos, com  as  futilidades  mundanas,  Eça  procurava  afogar 
as  saudades  da  Pátria,  mas,  de  quando  em  quando,  elases- 
picaçavam-ilie  a  alma  e  assim,  recordando  os  seus  tempos 
de  estudante,  das  alegres  guitarradas,  a  lioras  mortas,  pe- 
las ruas  estreitas  do  vellio  burgo  coimbrão,  escreve  em 
uma  das  cartas  a  madame  Jouarre:  «E  o  dia  na  quinta  finda... 
enquanto  na  guitarra  ao  lado  geme  algum  dos  fados  de  Por- 
tugal, longo  em  saudades  e  em  ais,  e  a  lua,  ao  fundo  da  va- 
randa, uma  lua  vermelha  e  cheia,  surde  como  a  escutar, 
por  detraz  dos  negros  montes.»  (1) 

Dando  relevo  às  suas  preocupações  de  totiristt  intelectual 
fantasia  o  Mandarim. 

Pois  ainda  mesmo  dentro  de  todo  esse  exotismo  encon- 
tramos uns  laivos  de  paisagem  portuguesa. 

Teodoro,  quando  do  alto  das  muralhas  de  Pekin  envolve 
com  o  olhar  triste  a  grande  cidade,  sente  invadir-lhe  a  alma 
uma  profunda  melancolia,  lembra-se  com  saudade  da  sua 
aldeiazinha  minhota. 

«...  era  como  uma  saudade  de  mim  mesmo,  um  longo  pe- 
zar  de  me  sentir  ali  isolado,  absorvido  naquele  mundo  duro 
e  bárbaro :  lembrei-me  com  os  olhos  humedecidos,  da  mi- 
nha aldêa  do  Minho,  do  seu  adro  assombreado  de  carva- 
lheiras, a  venda  com  um  ramo  de  louro  à  porta,  o  alpendre 
do  ferrador,  e  os  ribeiros  tão  frescos  quando  verdejam  os 
linhos. ..»  (1) 

Como  se  vê,  as  personagens  dos  seus  romances,  mesmo 
quando  peregrinam  por  longínquas  terras,  afoga-as  a  sau- 
dade da  Pátria.  O  Teodorico  Raposo  da  Relíquia,  farto 


(1)  Eça  de  Qvtzlroz  —  Correspondência  de  Fradiqne  Mendes.  1909 
3.»  ed.  pag.  218. 

(1)  Eça  de  Queiroz  —  O  Mandarim.  1.»  ed.  1880,  pa?    U». 


428 


das  remotas  paragens  orientais,  de  volta  de  Jerusalém, 
exulta  de  prazer  quando,  num  hotel  do  Egito  sabe  que,  fi- 
nalmente, pode  regressar  a  Lisboa  porque  «um  vapor  de 
gado,  El  Cid  Campeador,  partia  de  madrugada  para  as  ter- 
ras bemditas  de  Portugal !»  (l) 

A  paisagem  é  sempre  duma  flagrante  verdade. 

«Algumas  páginas  descritivas  —  como  escreve  Alfredo  de 
Carvalho  num  seu  interessante  opúsculo  —  são  traçadas 
por  mão  de  mestre,  e  valem  como  esplêndidas  aguarelas,  a 
que  os  anos  não  conseguem  delir  a  belesa  viçosa.  As  pai- 
sagens do  Padre  A.maro  conservam-se  agora  mesmo,  em 
torno  de  Leiria,  e  com  uma  egual  distribuição  de  tonali- 
dades e  uma  inesmaecida  policromia  de  outrora. :>  (2) 

Realmente  que  luminosa  aguarela  é  esta  em  que  Eça  nos 
descreve  um  recanto  da  paisagem  do  Liz: 

«A  tarde  descaía  muito  límpida;  o  alto  ceu  tinha  uma  pá- 
lida cór  azul;  o  ar  estava  movei.  Naquele  tempo  o  rio  ia 
muito  vazio;  pedaços  de  areia  reluziam  em  seco;  e  a  agua 
baixa  arrastava-se  com  um  marulho  brando,  toda  enrugada 
do  roçar  dos  seixos. 

<;Com  a  inclinação  do  sol  a  agua  perdia  a  sua  claridade 
espelhaníe,  estendiam-se  as  sombras  dos  arcos  da  ponte. 
Do  lado  das  colinas  ia  subindo  um  crepúsculo  esfumado,  e 
as  nuvens  côr  de  sanguínea  ecôr  de  laranja  que  anunciam 
o  calor,  faziam,  sobre  os  lados  do  mar,  uma  decoração 
muito  rica.»  (3) 


1 ,  Eça  de  Queiroz  —  A  Relíquia,  6.*  ed.  1918,  pag-  oló. 

\2)  Alfrcclo  de  Carvalho  —  ^frt  de  Qiieíro:;  isua  primeira  fase  literá- 
ria) Lisboa,  VJIS.  pag.  47. 

(3;  Eça  de  Queiroz—  O  Crime  do  Padre  Amare.  ~.'  ed.  1919.  pags. 
Uic  11. 


429 


Interessante  e  fortemente  colorida  é  também  a  seguinte 
descrição  duma  quinta  minhota: 

«...  por  aqui  me  quedei,  olvidado  do  mundo  e  de  mim, 
na  doçura  destes  ares,  destes  prados,  de  toda  esta  rural 
serenidade  que  me  afaga  e  me  adormece. 

«Adiante  é  a  horta  viçosa,  cheirosa,  suculenta,  bastante  a 
fartar  as  panelas  todas  de  uma  aldeia,  mais  enfeitada  que 
um  jardim,  com  ruas  que  as  tiras  de  morangal  orlam  e  per- 
fumam, e  as  latadas  ensombram,  copadas  de  parra  densa. 
Depois  a  eira  de  granito,  limpa  e  alisada,  rijamente  cons- 
truída para  longos  séculos  de  colheitas,  com  o  seu  espi- 
gueiro  ao  lado,  bem  fendilhado,  bem  arejado,  tão  largo  que 
os  pardais  voam  dentro  como  num  pedaço  de  céo.  E  por 
fim,  ondulando  ricamente  até  ás  colinas  macias,  os  campos 
de  milho  e  de  centeio,  o  vinhedo  baixo,  os  olivais,  os  rel- 
vedos,  o  linho  sobre  os  regalos,  o  mato  florido  para  os  ga- 
dos . . . 

«De  madrugada  os  galos  cantam,  a  quinta  a  corda, os  cães 
de  fila  são  acorrentados,  a  moça  vai  mungir  as  vacas,  o  pe- 
gureiro atira  o  seu  cajado  ao  hombro,  afila  dos  jornaleiros 
mete-se  às  terras  —  e  o  trabalho  principia,  esse  trabalho 
-que  em  Portugal  parece  a  mais  segura  das  alegrias  e  a  festa 
sempre  incansável,  porque  é  todo  feito  a  cantar.  As  vozes 
vêm,  altas  e  desgarradas,  no  fino  silêncio  d'alem,  dentre  os 
trigos,  ou  do  campo  em  sacha,  onde  alvejam  as  camisas  de 
linho  cru,  e  os  lenços  de  longas  franjas  vermelhejam  mais 
<]ue  papoulas.» 

E  referindo-se  aos  jantares^da  quinta  de  Refaldes,  exclama 
orgulhosamente : 


430 


«Em  palácio  algum,  por  essa  Europa  superfina,  se  come 
na  verdade  tão  deliciosamente  como  nestas  rústicas  quin- 
tas de  Portugal.» 

E  prosseguindo  num  Verdadeiro  cântico  à  terra  portu- 
guesa conclue : 

«Os  arvoredos  repousam  numa  imobilidade  de  contem- 
plação, que  é  inteligente.  No  piar  velado  e  curto  dos  pás- 
saros ha  um  recolhimento  e  consciência  de  ninho  feliz.  Em 
fila,  a  boiada  volta  dos  pastos,  cançada  e  farta,  e  vae  ainda 
beberar  ao  tanque,  onde  o  gotejar  da  agua  sob  a  cruz  é 
mais  preguiçoso.  Toca  o  sino  a  Ave-Marias.  Em  todos  os 
casaes  se  está  murmurando  o  nome  de  Nosso  Senhor.  Um 
carro  retardado,  pesado  de  mato,  geme  pela  sombra  da  azi- 
nhaga. E  tudo  é  tão  calmo  e  simples  e  terno,  minha  madri- 
nha, que,  em  qualquer  banco  de  pedra  em  que  me  sento, 
fico  enlevado,  sentindo  a  penetrante  bondade  das  coisas,  e 
tão  em  harmonia  com  ela,  que  não  ha  nesta  alma,  toda  en- 
crostada  das  lamas  do  mundo,  pensamento  que  não  podesse 
contar  a  um  santo. . . 

Verdadeiramente  estas  tardes  santificam.»  (1) 

E  aqui  e  ali,  em  toda  a  obra  de  Eça,  pequeninas  manchas, 
esplendidos  carvões  esquissando-nos  amorosamente  lindos 
fragmentos  da  nossa  paisagem  tão  cheia  de  luminosidade» 
de  côr  e  de  sentimento. 

As  telazinhas  sobre  Sintra  d'Os  Maias;  as  d' A  Illus- 
TRE  Casa  de  Ramires  e  tantas  outras,  dão-nos  flagrante- 
mente a  fisionomia  pitoresca  dos  nossos  campos  e  das  nos- 
sas cidades  e  demonstram-nos  que  todos  esses  trechos  da 
nosso  Portugal  se  conservavam  na  retina  de  Eça  mesmo 


Ú)  Eça  de  Qnciroz— .4  Correspondência  de  Fraàique  Mendes.  3.* 
ed  Porto,  1909,  pajs.  212-218. 


431 


quando  em  terras  alheias  e  longínquas,  onde  foram  escritas 
as  melhores  páginas  dos  seus  melhores  romances. 

Vivendo  no  estrangeiro,  êle  só  se  interessa  pelo  seu 
país. 

Mas  onde  Eça  exprime  o  seu  grande  amor  à  terra  lusa  é 
sem  duvida  no  livro  póstumo  A  Cidade  e  as  Serras.  Nessa 
obra,  escrita  com  a  ternura  dum  enamorado,  êle  redime  bem 
o  grande  pecado  de  haver  sido  alguma  vez  ingrato  para 
com  ela,  quando  ainda  mal  a  conhecia. 

«Enquanto  conheceu  mal  o  seu  país,  em  que  abundam 
maravilhas  de  beleza,  feriu-o  cruelmente  com  alfinetadas 
de  violenta  e  implacável  crítica.  Mas  não  tardou  a  emenda 
do  irremissível  erro. 

«Ao  fim  da  longa  curva  que  seguiu  na  sua  evolução  lite- 
rária, a  transformação  por  que  passou  o  espírito  do  escritor 
exímio  era  completa  e  êle  pôde  então  ver  os  encantamen- 
tos da  sua  terra,  cujas  serras  alcantiladas,  o  verdejar  dos 
vales  aos  píncaros,  algumas  vezes  o  agasalharam  à  sombra 
dos  densos  arvoredos,  perfumados  pelo  aroma  agreste  e 
picante  dos  montes  floridos.  Nessa  hora  de  visão  clara, 
Eça  de  Queiroz  compôs  e  dedicou-lhe  harmoniosos  hinos 
bucólicos  a  que  deu  toda  a  alma. . .»  (1) 

Quem  não  conhece  essas  deliciosas  páginas  em  que  Eça 
nos  descreve  a  beleza  incomparável  das  serras  e  dos  vales 
do  Douro  e  que  tanto  maravilharam  Jacinto,  o  príncipe  da 
Grâ-Ventura,  o  hyper-civilisado  do  n.°  202  dos  Campos 
Elísios?  Como  êle  admira  <  o  divino  Artista  que  faz  asser- 
ras  e  que  tanto  as  cuidou,  e  tão  ricamente  as  dotou,  neste 
seu  Portugal  bem-amado!^)  (2) 

O  acendrado  amor  pelo  nosso  belo  torrão  manifesta-a- 


0)  António  Cabral—  Eça  de  Queirós.  1916,  pag.  10  e  11. 

i'J)  Eça  de  Queiroz  —  A  Cidade  e  as  Serras,  1908,  3."  ed.  pag.  204. 


432 


Eça  ainda  quando  em  Paris,  cheio  de  nostalgia  talvez,  fe- 
cha um  dos  seus  romances  com  este  período : 

«...  e  padre  Soeiro,  com  o  seu  guarda-sol  sob  o  braço 
recolheu  à  Torre  vagarosamente  no  silêncio  e  doçura  da 
tarde,  rezando  as  suas  Ave-Marias,  e  pedindo  a  paz  de 
Deus  para  Gonçalo,  para  todos  os  homens,  para  campos  e 
<:asaes  adormecidos,  e  para  a  terra  formosa  de  Portugal, 
tão  cheia  de  graça  amoravel,  que  sempre  bemdita  fosse  en- 
tre as  terras.::  (\) 

Eloy  do  Amaral. 


I 


(1)  Eça  de  Queiroz  — -4  Illustre  Casa  de  Ramires.  2*  ed.  I90i,  psg. 


EÇA  DE   QUEIROZ 


(Subsídios  para  a  sua  bibliografia) 


«ÇA  OE  QCKIROZ 


Eça  de  Queiroz 

LENDO   «O   FiQARO»   NO  JARDIM   DE  SUA   CASA   EM    NEUILLY 


Estas  notas  bibliográficas  são  apenas  apontamentos  e 
não  um  trabalho  bibliográfico.  O  seu  compilador,  absolu- 
tamente carecido  de  tempo,  não  quiz  porem  deixar  de  ac- 
ceder  ao  convite  amável  de  Cardoso  Martlia.  Só  por  isso 
êles  se  encontram  aqui,  assim  como  vão. 


O  Crime  do  Padre  Amaro.  (1)  Scenas  da  vida  devota. 
Edição  definitiva.  Lisboa,  Typ.  Castro  Irmão.  1S76. 
iv-362pg. 

—  Nova  edição,  inteiramente  refundida  e  recomposta. 

Porto,  1880  —  IX  -  3  -  674  pg. 

—  5.^  ed.,  inteiramente  refundida  e  differente  na  forma  e 

na  acção  da  edição  primitiva.  Porto,  1889  — xii- 674 

—  4.''  ed.,  inteiramente  refundida,  recomposta,  e  differen- 

te na  forma  e  na  acção  da  edição  primitiva.  Porto, 
1901 ,  retrato,  viii  -  726  pg.  .^ 

—  5.*  ed.  id.  Porto,  1910,  retr.  viii-725-3  pg. 

—  6.*    »    id.       »      (1917)  734  pg. 

—  7.»    »    id.      »       1919,  retr.  VIII -591-1  pg. 

—  8.'^    »    id.       »       1920      »     vii-l-556pg. 


(1)  Foi  escrito  em  1871  e  lido  a  alguns  amigos  em  1872.  Publicado 
primitivamente  na  Revista  Occidental.  (Lisboa  —  2  vols.  1875). 

V.  Chronicas  iininoyaes  por  Albino  For  jaz  de  Sampaio.  Cap.  .-í 
Tortura  do  estylo. 


IV 


o  Primo  Bazilio.  (1)  Episodio  domestico.  1.^  ed.  Porto, 
1878  —  636  pg. 
—  2.^  ed.,  revista.  Porto,  1879,  retrato,  608  pg. 


—  3.*  »          > 

>   1887, 

608  » 

—  4.*  »          > 

>   1901,  retr.. 

630  » 

—  5,^  »          > 

>   1908,   » 

655-1  pg 

—  6.a   »              > 

>   1915,  » 

659-1  » 

—  7.*  »          > 

>   1920,   » 

592  pg. 

Em  1878  teve  Eça  de  Queiroz  preparado  para  sair  um 
romance  de  que,  creio,  chegaram  a  compor-se  e  imprimir-se 
16  pg.  Intitulava-se  «Scenas  portuguezas  1  I  |  A  Capital  | 
por  1  Eça  de  Queiroz  |  (E.  C.  em  monograma)  1  Livraria  in- 
ternacional I  de  Ernesto  Chardron,  editor  |  Porto  e  Braga 
1  —  I  1878  I  »  No  verso  desta  pg.,  ao  fundo:  «—  |  Porto 
{  Typ.  de  A.  J.  da  Silva  Teixeira  |  62,  Cancella  Velha,  62 
i  1878  i  » 

Na  pg.  seguinte  começa:    |  I  |  Era  na  estação  d'Ovar  (g- 
minho  de  ferro  do  |  Norte),  na  primeira  semana  d'Abri!.  De 
manhã  1  chovera;  mas  a  tarde  cahia  muito  clara,  com  | 
uma  frialdade  fina.  | 

A  1.*  pg.  tem  16  linhas  além  da  do  I  indicativa  de  capí- 
tulo e  todas  as  outras  32. 

Deviam  seguir-se  a  este  os  romances  O  milagre  de  Valle 
de  Reriz  e  O  conspirador  Mathias. 


(li  O  Primo  Basílio  foi  adaptado  á  scena  e  representado  no  Theatro 
Phenix  Dramática  do  Rio  de  Janeiro,  em  beneficio  do  actor  Silva  Pe- 
reira, em  sexta-feira  24  de  Maio  de  1878.  Representavam  o  Comendador 
BapUsta,  Vasques;  o  Primo  Bazilio,  Silva  Pereira ;  Z,Ȓsfl,  Rosa  Vil- 
liot  e  a  criada  Juliana,  Isabel  Porto. 

NSo  ha  muito  também  o  escritor  portuense  Vaz  Pereira  fez  uma 
adaptação  do  romance,  subindo  á  scena  no  Teatro  do  Ginásio,  em  Lis- 
boa. Foi  apenas  a  primeira  noite. 


o  Mandarim,  l.'^  ed.,  Porto,  1879. 

—  2.-  ed.,  Porto,  1880,  iv-181  -3  pg. 

—  3."    »  »       1889,  183  pfi. 

—  4.»    »         »      1900,  retrato,  183- I  pg. 

—  5."    »  »      1907,       »         vin-183-lpg. 

—  7."-    »    sétima  edição,  iilustrada,  com  um  prefacio  do 

auctor.  (É  a  carta  em  francês  ao  Redactor  da  Revue 
Universelle),  Porto,  1919,  retr.,  viii-  175-  1  pjí. 

A  Relíquia.  (1)  1.'  ed..  Porto,  18S7-xviii-441  -  1  pg. 

—  2.'*  ed.,  Porto,  1891,  16-441-1  pg. 

—  3.'»    »  »      1902,  retr.,  16-495-1  pg. 

—  4.*    »  »      1909,  436  pg. 

—  5.-^    »  »      1915,  retr.  12-419-1  pg. 

—  7.^'    »  »      1920,     »       X- 329-1    » 

Os  Maias.  Episódios  da  vida  romântica.  1.-^  ed..  Porto, 
1888,  IV -458  pg.  e  520  pg.,  2  Vo!s. 

—  2.^  ed.,  Porto,  s/d.  (1903)  est.  -  467  -  1 ;  520  pg. 

—  3.*    »  »        »    (1912)  retr.  518 -2;  566-2  pg. 

—  5.*    »  »  1920      »      455-3;  497-3    » 

A  illustre  casa  de  Ramires.  (2)  1.^  ed..  Porto,   19D0, 
543  -  1  pg. 

—  2.*  ed..  Porto,  1904,  retr.,  347-1  pg. 

—  3.»    »  »      1912,     »      340-4   -> 

—  5.^^    »  »       1920,      »      488  pg. 


(1)  Veio  primeiramente  em  folhetins  na  Gazeta  de  Xoticias  do  Rio 
de  Janeiro. 

(2)  Publicado  na  Revista  Moderna,  editada  em  Paris  per  Martinho 
Botelho,  desde  o  n.°  10  (Not.°  1887).  Não  concluiu.  E<:a  reviu  o  livro  ape- 
nas ate  pg  417. 


VI 


Correspondência  de  Fradique  Mendes.  (1)  (Memorias 
e  notas).  Porto,  1900,  244  pg. 

—  2.^  ed.,  Porto,  1902,  retrato.  —  248  pg. 

—  3.a    »  »      1909,       »        —251    » 

—  4.a    »  »      1915,       »        —268   » 

—  5.a    »  »      1919,       »       —  254-2  pg. 

Diccionario  de  Milagres.  (Coordenação  inédita  por  con- 
cluir). Outros  escriptos  dispersos.  Lisboa,  1900,  retr. 
e  est.  XXXVIII  -  2  -  392  -  2  pg. 

(Tem  artigos  de  Silva  Bastos,  Melo  Freitas  e  José 
Sarmento). 

A  Cidade  e  as  Serras.  (2)  Porto,  1901,  retr.,  380-2  pg. 

—  2.»  ed.,  Porto,  1903,  est.,  384-2  pg. 


—  3.^     » 

» 

1908,  retr. 

385-3  pg 

—  4.^     » 

» 

1913,     » 

385-3   » 

—  5.^    » 

» 

1913,     » 

36-8         » 

—  6.*    » 

» 

1919,     » 

355-1    » 

Contos.  Porto,  1902,  retr.  —  4  -  352  -  2  pg. 

—  2.«  ed..  Porto,  1907,  4-348-2  pg. 

—  3.^    »         »      1913,  retr.,  IV -348-2  pg. 

—  5.^    »  »      1921,     »       6-331-1    » 

Prosas  barbaras.  Com  uma  introducção  de  Jayme  Bata- 
lha Reis.  Porto,  1905,  Lin-3-246-ii  pg. 

—  2.»  ed..  Porto,  1909,  retr.,  lviii- 1 -2-279-7  pg. 

—  4.3    »         »      1919,     »      LXi-3-275-3  pg. 


(li  Publicado  incompleto  na  Revista  de  Portugal. 
(2i  Eça  reviu  até  pg.  241 ;  o  resto  reviu  R.  Ortigão. 


VII 


Cartas  de  Inglaterra.  Porto,  19C>5,  retrato.  -242-2  p:.'. 

—  2.'"  ed.,  Porto,  1907,  retr.  —  24(3  pçí. 

—  4.*    »  »       1919,     »     —235-5  pi?. 

Echos  de  Paris.  Porto,  1905,  monuin.,  iv-241  -3  pg. 

—  2.^  ed..  Porto,  1911,  retr.,  271-1  pg. 

—  4.»    »         »       1920.     )      227-1    » 

Cartas  familiares  e  bilhetes  de  Paris.  (1893-96).  Por- 
to, 1907,  retr.,  262-2  pg. 

—  2.^  ed.,  Porto,  1913,  retr.,  260-4  pg. 

—  3.^    »         »       1918,     »      259-1    » 

Notas  contemporâneas.  Porto,  1909,  retr. —4-576  pg. 

—  2.»  ed..  Porto,  1913,  retr.,  6-a^-2  pg. 

—  3.*    »         »       1920,      »      VIII -9  a  560  pg. 

Ultimas  paginas.  (Manuscriptos  inéditos).  S.  Christovam 
—  Santo  Onofre  — S.  Frei  Gil  — Artigos  diversos. 
Porto,  1912,  retr. —  VII -1-502 -2  pg. 
(Foi  revisto  por  Luís  de  Magalliães). 

Com  Ramalho  Ortigão  publicou  Eça: 

As  Farpas.  —  Chronica  mensal  da  politica,  das  lettras  e 
dos  costumes.  Lisboa.  Saiu  o  n.'^  1  em  Maio  de  1871. 
Consta  de  4  series.  A  1.»  de  26  n.'^'*  (1871  -75);  a 
2.»  de  10  (1875);  a  5.^  de  3  (187S)  e  a  4.^  de  3  (1882). 
Publicou-se  2.*  ed.,  de  13  volumes.  Lisboa,  1887  a 
1890,  constituindo  a  colaboração  de  Eça  os  2  volu- 
mes intitulados 

Uma  campanha  alegre.  Lisboa,  1S90-91 —374-2  pg. 
e  265  -  3  pg. 


VIII 


Também  com  Ramalho  Ortigão  publicou  : 

O  Mysterio  da  Estrada  de  Cintra.  Cartas  ao  Diário  de 
Noticias.  (1)  1.^  ed.,  Lisboa,  1870  —  261-5  pg. 

—  2.^  ed.,  retocada  e  precedida  de  um  prefacio.  Lisboa, 

MDCCCLXXXV  —  X  -  242  -  1  pg. 

—  5.^  ed.,  Lisboa,  mdcccxciv  —  xii  -  192  -  iv  -  iv  pg. 

—  4.^    »     emendada  e  precedida  d'um  prefacio.  Lisboa^ 

1902  —  204-4  pg. 

—  5.=^  ed.,  Lisboa,  1913  —  204-4  pg.  de  índice. 

Suave  Milagre.  O  Conde  de  Arnoso  extraiu  de  um  con- 
to de  Eça  a  peça  que  com  versos  de  Alberto  de  Oli- 
veira e  música  de  Oscar  da  Silva  se  representou  no 
Theatro  de  D.  Maria  II  em 

Está  publicado:  Lx.*,  1902.  Mysterio  em  4  actos 
e  6  quadros.  1  aguarela  do  Rei  D.  Carlos.  119-1  pg. 


TRADUZIU 

As  Minas  de  Salomão,  por  Ridder  Haggard.  Porto,  1891 
VII -1  -517-3  pg. 

—  2.^  ed..  Porto,  1902,  retrato.  —  vii -  1  - 317 - 3  pg. 

—  3.*    »         »       1911,       :>        —VII- 1-313- 3  » 

—  5.*    »         »       1920,       »        —  VIII-2Ô1 -3  pg. 


(1)  Insertas  desde  o  n.°  16t0  a  1715  —  24  de  Julho  a  27  de  Setembi-c 
de  1870. 


IX 


DIRIGIU 

Revísía  de  Portugal.  4  vols.  Porto,  1889  —  90-01  -  1892 

-  790,  8íi2,  770,  818  pí?s. 

Altnanach  Encyclopedico.  Parceria  Pereira. 
-1896. 

—  1897  —  406  pg.,  Lx.^ 

Escreveu  para  ambos  o  prefácio,  respectivamente  Al/na- 
nachs  e  Adão  e  Eva  no  Paraizo,  depois  reproduzidos  na 
Diccionario  de  Milagres. 

CONTRAFACÇÕES 
Brazileiras 

o  Crime  do  Padre  Amaro.  Rio  de  Janeiro.  Typ.  da  Ga- 
zeta de  Noticias  —  1878  —  8.°  peq."  557  pg. 

Singularidades  de  uma  rapariga  loira.  R.Janeiro.  Casa 
MonfAlverne,  1900  — 48-2  pg. 

O  Defunto.  R.  de  Janeiro.  Domingos  de  Maçíalhães,  edi- 
tor. Off.'''  da  Livraria  Moderna.  95-  1  pg. 

-    TRADUÇÕES 

Hespanholas 

El  crimen  dei  Padre  Amaro. 

El  primo  Basílio. —  Traduccion  de  Ramon  dei  Valle  In- 

clan.  Barcelona,  1904,  2  vols.,  256  e  237  pg. 
El  Mandarin. 


X 


La  Relíquia.  —  Traduccion  de  Ramon  dei  Valle  Inclan. 
Barcelona,  19Ci2,  254  pg. 

Anunciando  esta  tradução  de  A  Relíquia,  diz  o  ca- 
tálogo da  casa  editora  Maucci  (Barcelona,  1902): 

<'AI  aparecer  este  libro  en  Portugal,  su  autor,  co- 
nocido  ya  por  otras  novelas  de  gran  mérito,  fué 
objeto  de  vivas  censuras  por  parte  de  los  envidiosos 
de  su  gloria  literária,  que  llegaron  ai  extremo  de 
acusarle  de  plagiário,  citando  á  este  propósito  las 
Memorias  de  Judas,  de  Petrucelli  delia  Gatina. 

Esta  sátira  revela  verdadero  ingenio  espanol  y 
tiene  sabor  cervantesco.  Queiroz  desciende  en  linea 
recta  de  nuestros  picarescos  novelistas  de  la  edad 
de  oro.» 

La  Relíquia.—  Traduccion  de  Camilo  Bargíeia  y  Fran- 
cisco Villaespesa.  Barcelona,  1901.  Tomo  i.  (E'  com- 
pleta n'este  vol.).  —  8.«  de  4  -  278  -  101  pg. 
—  Outra  ed.  Barcelona,  1904.  2  vols. 

Antero  de  Quental,  Victor  Hugo  y  otros  ensayos  (No- 
tas contemporâneas), —Traduccion,  prólogo  y  notas 
de  Andrès  Gonzalez  Blanco.  Obra  inédita  en  caste- 
llano.  Madrid,  1919  — xxviii —  255-5  pg. 

Cartas  de  Inglaterra.  —  Version  castellana  de  Aurélio 
Vinas.  (Obra  inédita  en  castellano). 

Los  Maias.  —  Version  castellana  de  Augusto  Riera  (3  to- 
mos). 

Cartas  familiares  y  billetes  de  Paris.  —  Version  caste- 
llana, de  la  segunda  edicion  portuguesa,  por  C.  de 
Velasco.  Habana,  1919. 

4Paris,  Flaubert,  Ia  <Antigona  de  Sófocles,  Victor 
Hugo,  Lemaitre,  Brunetière,  etc.  —  Trad.  de  A. 
Gonzalez  Blanco.  8.",  285  pg. 


XI 


Obras  de  Eça  de  Queiroz  —  San  Onofre-  —  Trad.  de  A. 
Gonzalez  Blanco.  Madrid,  s/d.  (1^)20). 

Até  pgs.  70:  Eça  de  Queiroz  (breve  bosquejo  bio- 
í^ráfico-crítico). 

Últimos  Ensayos.  —  Trad.  de  A.  Gc.izalez  Blanco.  Ma- 
drid. 8." 

Una  campana  alegre.  —  Trad.  de  N.  Fernandez  Flúrez. 
Madrid.  8." 

Obras  — Una  campana  alegre.  —  Trad.  de  N.  Fernan- 
dez Flórez.  Madrid,  1920  (Biblioteca  Nueva). 

La  muerte  de  Jesus  —  Poema  bíblico.  —  Trad.  de  M.  Fé- 
necli.  8." 

La  ilustre  casa  de  Ramires.  —  Version  castellana  de  Pe- 
dro Gonzalez  Blanco. 

Epistolarío  de  Fradique  Mendes. —  Trad.  de  Juan  José 
Morato.  Barcelona,  1907.  192  pg. 

La  ciudad  y  Ias  sierras.  — Version  castellana  de  Ed.  Mar- 
quina.  Barcelona,  1903. 

El  misteriQ  de  la  carretera  de  Cintra.  —  Trad.  y  pró- 
logo de  Enrique  Amado.  Madrid.  Francisco  Béitran. 

Leyendas  de  Santos.  —  I.  San  Cristóbal.  —  Trad.  de  En- 
rique Amado.  1915. 

Criticando  as  Leyendas  de  Santos  diz  a  Espana, 
n.*^  52,  que  «el  estilo  de  Eça,  marcadamente  flauber- 
tiano,  tiene  jugo  e  suavidad  portugueses». 

Cuentos.  —  Trad.  de  Enrique  Amado. 

Idem.  —  Trad.  de  la  última  edicion  portuguesa  por  A.  Gon- 
zalez Blanco.  Madrid,  (Biblioteca  Nueva).  8.'' 

Prosas  bárbaras  y  otros  ensayos.  —  Trad.  de  Andrés  Gon- 
zalez Blanco.  Madrid,  (Biblioteca  Nueva).  240  pg. 

La  decadência  de  Ia  risa. —  Trad.  y  prólogo  de  A.  G. 
Blanco.  1  vol.,  8.",  261 -3  pg. 

El  senor  Diablo.  —  Trad.  id. 


XII 


La  Nodríza.  Singularidades  de  una  muchacha  rubía. 
Adan  y  Eva  en  el  Paraíso.  Un  poeta  lírico.  — 

Trad.  de  Miguel  A.  Ródenas.  Barcelona  — 16.°  — 
170-6  pg.  E'  o  n."  108  da  Collección  Diamante. 
Don  Juan  Luís...  Pacheco  y  su  ínmenso  talento 
presentidos  en  1870  por  Eça  de  Queiroz.— El  ta- 
lentoso Pacheco.  —  Imprenta  Continental  —  Valpa- 
raiso,  1915.  Folh.  de  4  pg. 

E'  a  célebre  carta  extraída  da  Correspondência  de 
Fradiqiie  Mendes  e  aproveitada  como  pasquim  contra 
um  dos  candidatos  à  presidência  da  República  Chi- 
lena. 


Num  volume  da  Societat  Catalana  de  Edicions,  de  Barce- 
lona, dedicado  aos  Contistas  portugueses,  Ribera  i  Rovira 
traduziu  O  Defunto.  Não  consegui  examinar  esse  volume. 

Francesas 

Le  Mandarín.  —  Traduit  du  portugais  par  Claude  Frazac 
et  Jacques  Crépet.  In  La  Revue,  de  Paris,  n.°'  15,  16 
e  17,  de  1  ago.  a  1  set.  de  1911.  Vem  precedido,  de 
pg.  355  a  342  do  n.°  15,  por  um  estudo  sobre  Eça 
de  Queiroz,  assinado  pelo  1.°  daqueles  tradutores. 

Claude  Frazac  é  o  pseudónimo  do  escritor  por- 
tuguês Cristiano  Frazão  Pacheco. 

La  Nourrice,  in  Les  Mille  Nouvelles  nouvelles.  —  Paris. 

E'  o  último  conto  do  n.°  2,  que  decorre  de  pgs.  157 
a  143.  Vem  precedido  em  pgs.  136  duma  curta  noti- 
cia sobre  o  romancista,  onde,  entre  outras  inexacti- 
dões, se  escreve  que  nasceu  em  Aveiro. 


XIII 


ITALIAKA 

La  Relíquia.  —  Trad.  de  Luigi  Siciliani.  —  Ed.  de  R.  Ca- 
rabba  in  Lanciano  —  1915. 


No  jornal  O  Século  de  30  de  Agosto  de  1900  anuncia-se  que 
está  no  prélo  uma  trad.  italiana  de  O  Crime  do  Pi:- 
dre  Amaro  por  Vittorio  Baroncelli.  Nào  sei  se  che- 
gou a  publicar-se. 

Inglesas 

The  sweet  miracle.  —  Trad.  de  Edgar  Prestage. 
1  .*  ed.,  London,  1904  —  37  pg. 
2.»    »  »         1904  —  37   » 

3.»    »  »         1905-37   » 

4.»    »    Oxford    1914  —  35   » 

As  3  primeiras  edições  trazem  a  reproducção  da 
aguarela  do  rei  D.  Carlos.  São  todas  em  4.=* 

Ha  uma  contrafacção  americana  de  Portland  (Mai- 
ne),  1906  —  viii  -  53  -  7  pg. 
Eça  de  Queiroz  and  the  Correspondence  of  Fradique 
Mendes. — Trad.  de  Edgar  Prestage.  London,  1906. 
8.0,  12  pg.  (E'  a  versão  da  história  de  Pacheco,  o 
homem  de  imenso  talento). 
Our  lady  of  the  Pillar.  (O  Defunto).  —  Trad.  de  Edgar 
Prestage.  London,  1906.  Est.-xiii-88  pg.,  8.» 

Noticia  de  F.  F.  acerca  desta  trad.,  a  pg.  205  do 
1."  vol.  da  Revista  de  Historia. 


XIV 


The  Dragon's  teeth.  — Boston  (?). 

E'  uma  trad.  de  O  Primo  Basílio  de  que  não  tenho 
mais  detalhada  noticia. 


No  Manchester  Uiiiversity-Magazine  publicou  Edgar  Pres- 
tage  The  children's  festival  (versão  do  n."  xi  das  Cartas  de 
Inglaterra). 

O  drama  de  Alberto  de  Oliveira  foi  traduzido  pelas  frei- 
ras de  Notre  Dame  e  publicado  com  o  titulo  de  The  sweet 
niiracle.  A  mystery  place.  London,  1905. 

Fez-se  outra  ed.  London,  1910.  —  32  pg.  8.°  com  a  agua- 
rella  do  rei  D.  Carlos. 

Alemã 

Stadt  und  Gebirg.  (A  Cidade  e  as  Serras).  —  Trad.  de 
Louise  Ey.  Sttutgart,  1903  —  8.° 

Apreciações  desta  trad.  no  Hamburger  Fremden- 
blaít  e  na  Feder,  órgão  da  Allgemeiner  Schrifssler 
Verceis,  de  Berlim.  Trad.  transcritas  no  n.°  5.937  do 
jornal  Novidades,  de  29-8-  1903. 

Sueca 

Na   Lilla  Rosa  och  Andra  Berâttelser.  —  Por  Goran 
Bjorkmann.  Stockholm.  (Adolf  Bonnier).  193-1  pg. 

PREFACIOU 

Azulejos.  —  Por  Bernardo  Pinheiro  Pindella.  Porto.  1SS6. 

—  XXXVIII  —  176  pg. 
O  brazileiro  Soares.  — Por  Luiz  de  iMagalhães.  Carta- 

prefacio.  Porto,  1886.  O  prefacio  vai  de  págs.  v  a  xxi. 


XV 


Lu  íz  de  Camões.  (1),  —  Por  Joaquim  de  Araújo.  Poeme- 
to. Porto,  1887.  XII -67-1  pj?.  A  carta  de  Eça  que 
serve  de  prefácio  é  datada  de  Bristol  15  de  Junho,  e 
vai  de  pg.  viii  a  ix. 

—  2.-^  ed.,  Porto,  1887.  xi-67  pg.  8.»  peq. 

—  3.»    »     Lisboa,  1894.  8.»  peq.  de  62  pg. 

—  4.*    »     Hayward  (Califórnia),  1897.  8."  peq.  de  62  pg» 

—  50  exemplares. 
Aquarellas.  —  Por  João  Diniz.  Porto,  1889.  O  prefácio, 
datado  de  Bristol,  1888,  vai  de  pgs.  ix  a  xxiii. 

COLLABOROU 

Gazeta  de  Portugal.  Lisboa,  1867.  Traz  a  seguinte  co- 
laboração: O  Milhafre  (n.°  1456  de  6  de  Outubro); 
Lisboa  (n."  1462  de  13);  O  Senhor  Diabo  (n."  1468 
de  20);  Uma  carta  a  Carlos  Maverin,"  1479  de  3  de 
Novembro);  Da  pintura  em  Portugal (n."  1485  de  10); 

0  Lume  (n."  1491  de  17);  Mephistopheles  (n.°  1505  de 

1  de  Dezembro);  Omphalia  Benoiton{x\.°  1515  de  15); 
e  Memorias  d'uma  forca  (n.°  1521  de  22). 

Dístrícto  de  Évora.  —  N.»  1  de  6  de  Janeiro  a  66  de  25. 
de  Agosto  de  1867. 

E.  de  Q.  dirigiu  por  algum  tempo  este  jornal,  e 
dele  são  todos  os  artigos  assinados  A.  Z.  e  muitos 
outros  sem  assinatura.  Eça  saiu  de  Évora  a  1  de 
Agosto  de  1867,  não  sendo  portanto  já  de  sua  direc* 


(1)  Traduzido  em  italiano:  —  Gioachiuo  de  Araújo—  Lttigi  de  Ca- 
tiioens.   Poemetto.  Con  tina  lettera  di  Eça  de  Queirós.  Traditzioiíe 
dal  portcghese  di  G.  Zuppoiíe-Síraui.  Génova.  Tip.  dei  R.  Istitiito. 
Scrdo-  Juuíí,  J6S3.ÍÍ-)  rs  -^  t^na  de  Eça  ccif^  as  pg.  7  a  9. 


XVI 


ção  os  n,"'  a  partir  do  60,  como  se  vê  da  dec-aração 
inserta  na  1.^  pág.  desse  número: 

«J.  M.  d'Eça  de  Queiroz  declara  que  desde  o  dia 
1.°  de  Agosto  deixou  de  ser  o  redactor  e  director 
politico  do  jornal  «Districto  de  Evora»,  e,  desligado 
da  empreza  fundadora,  dá  como  terminada  a  sua  res- 
ponsabilidade material,  moral,  politica  e  literária.» 
Revolução  de  Setembro.  —  N.°  8167,  de  Lisboa,  29  de 
Agosto  de  1869.  Folhetim,  em  verso,  contendo:  So- 
neto; Serenata  de  Satan  ás  estreitas;  A  velhinha ;  Fra- 
gmentos da  guitarra  de  Satan.  Vem  assinado  «Carlos 
Fradique  Mendes»,  e  precedido  dalgumas  palavras 
sobre  o  autor,  onde  se  diz  que  tem  preparadas  três 
colecções  de  poesias:  A  guitarra  de  Satan,  Boleros 
de  Pan  e  Ideas  selvagens.  (1). 

Idem.  —  Folhetim  A  Morte  de  Jesus,  n.°*  8352  de  13 
de  Abril  de  1870  a  8419  de  8  de  Julho  do  mesmo  ano. 
Incompleto. 
Diário  de  Notícias.  Lisboa,  1870.  Insere:  De  Port-Said  a 
Suez.  Descripção  das  festas  da  abertura  do  Canal. 
N.°^  1507  a  1519  de  18  a  21  de  Janeiro.  (Folhetim). 

Idem.  —  Insere,  desde  o  n.°  12469  de  23  de  agosto 
de  1900  até  12472  de  26  do  mesmo  mês,  o  conto  5///- 
gularidades  d'uma  rapariga  loura,  em  folhetins. 
A  Revista.  —  Illustração  Luso-Brazileira.  N.'^  1,  Paris,  5 
de  Junho  de  1893:  Collecção  Spitzer. 


(li  Caiei,  no  D.  de  Noticias  de  25  —  111  —  1901,  atribui  a  Eça  as 
4  poesias  A'  pomba  que  voou.  Na  vareta  d'tiin  leque.  Risadas  e  Mi- 
se)!as,  insertas  na  Rev.  de  Setembro  n.°  S403  de  23  — VI— 70,  porque 
nrio  leu  no  seguinte  número  a  rectificação  onde  se  diz  que  cpor  equi- 
voco ou  erro  de  revisão  sahiu  com  o  nome  do  sr.  Bça  de  Queiroz  o 
íollietim  que  era  do  ar.  Gomes  Leal». 


XVII 

A  Illustraçâo.  —  Revista  de  Portugal  e  Brazil.  Director 
e  propr.  Mariano  Pina.  Paris,  n.°  3  (1."  ano),  de  5  de 
Julho  de  1884:  A  Inglaterra  e  a  trança  julgadas  por 
um  inglez. 

—  Idem,  n.°  16  (2."  ano),  de  2()  de  Agosto  de  1885: 
Uma  carta  sobre  Victor  Hugo. 

—  Idem,  n."  10  (5.°  ano),  de  20  de  Maio  de  18SS: 
A  Academia  e  a  Litteratura. 

Reproduzida  in  O  Repórter  (Abril  e  Maio  de  1888). 

—  Idem,  n.°  14  (5.°  ano),  de  20  de  Julho  de  1888: 
Ainda  sobre  a  Academia. 

—  Idem,  n."  7  ((i."  ano),  de  pgs.  102  a  110:  Christo 
no  pretório  (fragmento), 

—  Idem,  n.''  10  (7."  ano),  de  20  de  Agosto  de  1890: 
Cartas  de  Fradique  Mendes.  (A  Ramalho  Ortigão). 

O  Atlântico.— Lisboa,  1880.  Traz  a  seguinte  colaboração: 
28  de  Março:  Um  poeta  lyrico  (Folhetim) ;  28  de  Abril: 
No  Moinho;  29  de  Dezembro :  Brazil  e  Portugal  (carta 
a  Pinheiro  Chagas);  6  de  Fevereiro  de  1881:  nova 
carta  a  P.  Chagas  com  o  mesmo  título  da  anterior. 

O  Occídente,  10."  ano,  n.-^  304,  de  Lisboa,  1  de  Junho  de 
1887.  A  Relíquia  (excerpto). 

Brazil-Portugal.  —2."  ano,  1901.  De  pgs.  259  a  263:  O 
Inverno  em  Londres.  Com  muitas  gravuras  represen- 
tando aspectos  do  funeral  de  E.  de  Q. 

—  Ibid.  Uma  carta  de  Eça.  Pg.  327. 

—  Ibid.  A  Capital.  Pg.  2*27. 

—  Idem,  n.''71,  3."  ano,  Lisboa,  1  de  Janeiro  de  1902: 
O  Conto  de  Eça  de  Queiroz.  (É  o  Suave  Milagre,  re- 
produzido a  seguir  à  notícia  da  representação  da  peça 
com  o  mesmo  título). 

—  Idem,  n.'  151,  7.'^  ano,  Lisboa,  1  de  Maio  de  1905: 
O  Senhor  Diabo. 


XVIII 

Branco  e  Negro,  1.*  ano,  n."  7,  Lisboa,  17  de  Maio  de 
1S96:  Um  génio  que  era  um  SanU>.  E'  wm  excerpto. 

—  Idem,  n.°  25,  de  20  de  Set.,  1896:  O  Milhafre^ 

—  Idem,  n."  44,  de  51  de  Jan.,  1897:  Adão  e  Eva  no- 
Paraíso.  Precedido  de  algumas  palavras  de  José  Sar- 
mento, e  com  retrato  de  Eça. 

Almanach  IHustrado  do  BraziUPortugal  para  o  ana 
de  1900.  De  pgs.  44  a  46:  Singularidades  de  uma  ra- 
pariga loura.  (Excerpto). 

Collectaneas,  por  Eduardo  Prado.  S.  Paiilo-,  1904.  Art.* 
Eduardo  Prado,  a  abrir  o  1.^  vol.  Foi  primeiramente 
impresso  na  «Revista  Modernas,  de  Paris,  n."  22,  Ju- 
lho de  1893. 

Os  melhores  trechos  da  litteratura  portugueza. — 
Lisboa  e  Porto,  s/data.  Traz  excerptos  de  5.  Frei: 
Gil  (Ultimas  paginas);  das  Ca/ias  de  Inglaterra  (A 
festa  das  creanças);  e  uma  nota  bibliográfica. 

Correio  da  Manhã,  Supplemento  Litterarío,  ano  1.°,. 
n.'^  7,  de  8  de  Dez.,  1884:  Os  Maias.  E'  um  excerpto- 
do  romance. 

Revista  de  Historia,  5."  vol.,  pgs.  82  e  84:  Carta  de  Eça 
de  Queiroz  a  Fialho  de  Almeida.  Vem  precedida  de  uma 
introdução  por  F.  de  F.  (Fidelino  de  Figueiredo). 

O  Dia,  n.'  561,  de  16  de  Ago.,  1915:  Eça  de  Queiroz.  16  de 
agosto  de  1900.  São  algumas  linhas  anónimas  segui- 
das de  duas  interessantíssimas  cartas  inéditas  do  in-^ 
signe  escritor. 

Prosas  Modernas,  por  Cândido  de  Figueiredo.  Lisboa,. 
1885.  De  pgs.  55  a  59:  A  Communa  e  o  Chiado.  E"^ 
um  extracto  de  O  Crime  do  Padre  Amaro. 

Revista  Moderna.  Publicação  quinzenal.  Director  M.Bo- 
telho. Paris,  5  de  Maio  de  1897.  Ano  I,  n.»  1 :  Chro^ 
nica  —  A  Revista.  De  pgs.  11  a  19:  ^4  Perfeição. 


XIX 


Revista  Moderna,  n."  2,  de  25  de  Junho  de  ]S97:José  Ma- 
thias,  de  pgs.  47  a  56. 

Revista  Occidental.  Lisboa,  1875.  Aqui  foi  pela  primeira 
vez  publicado  O  Crime  do  Padre  Amaro.  Vai  de  pj^. 
35  do  n."  de  15  de  Fevereiro  (1.»  vol.)  até  pg.  93  do 
2.°  vol.  Traz  esta  nota  final : 

«Achando-se  fora  de  Portugal,  não  poude,o  sr.  Eça 
de  Queiroz,  dirigir  pessoalmente  a  fpublicação  do 
seu  romance,  e  introduzir  n'este  modificações  im- 
portantes que  tencionava  fazer». 

A  Renascença.  Órgão  dos  trabalhos  da  geração  moderna. 
Director  Joaquim  de  Araújo.  Porto,  1878.  De  pg.  17 
a  22:  Ramalho  Oriigão  (Carta  a  Joaquim  de  Araújo). 

Beja-Creche.  Coimbra,  Abril  de  1885.  Número  único,  pri- 
mitivamente impresso  em  Beja.  A  págs.  12:  Festa  das 
creanças. 

Um  feixe  de  pennas.  Lisboa,  1885.  A  pg.  93  vem  o  conto 
Outro  amável  milagre  que  depois,  alterado  pelo  au- 
ctor,  se  chamou  Suave  Milagre. 

A  Actualidade.  Porto,  1887.  Para  este  jornal,  cuja  colec- 
.    ção  não  consegui  consultar,  enviou  E.  de  Queiroz, 
de  Londres,  várias  correspondências. 

Anathema.  Número  único.  Coimbra,  1890.  A  págs.  44  e45: 
Fraternidade. 

A  Victoria  da  Republica.  Almanach  de  Propaganda  De- 
mocrática, para  1891,  collaborado  pelos  principaes 
escriptores  republicanos.  6.'  anno,  Lisboa,  1890, 
pg.  133:  O  Inverno  em  Londres. 

Brinde  do  Diário  de  Noticias.  9.'*  vol.  Lisboa,  1875. 
De  pg.  7  a  40:  As  singularidades  d' uma  rapariga 
loira. 

Jornal  da  Lonzan  n.°  140,  de  7  de  Janeiro  de  1888.  O 
Lume,  folhetim  de  Eça  de  Queiroz. 


XX 


Um  feixe  de  plusnas.  Lisboa,  1885.  Numero  único.  A  co- 
laboração de  E.  de  Q.,  como  toda  a  deste  número, 
é  apócrifa. 

Algarve  e  Alemtejo  —  Continuação  do  «Progresso  do 
Sul  >.  Faro,  5  de  Abril  de  1904.  n.°  654,  O  folhetim 
Outro  amável  milagre. 

Os  de  Paris  a  João  de  Deus.  —  (8  de  Março)  1895  —  Pa- 
ris-Lisboa.  No  fim:  Xavier  de  Carvalho,  director 
litterario. . .  De  pgs.  5  a  6,  artigo  sem  título,  que  co- 
meça :  <:  A  alma  poética  do  Povo  Portuguez  encarnou 
em  João  de  Deus».  Datado  de  Paris,  22  de  Fevereiro 
de  1895.  Número  único. 

Anthero  de  Quental  — In  Memoriam.  Porto,  1896.  De 
pg.  421  a  522 :  Um  geiúo  que  era  um  Santo. 

Encyclopedia  das  Famílias.  Lisboa,  1902,  Anno  16,  n." 
182.  Traz  o  conto  Suave  Milagre. 

Quarenta  annos  de  vida  litteraría,  por  Theophilo  Bra- 
ga. (1860-1900).  Lisboa,  1905.  De  pg.  92  a  94  duas 
cartas  notáveis  de  E.  de  Q. 

Gazeta  da  Figueira.  1  de  Abril  de  1899.  O  templo. 

—  Idem,  6  de  Março  de  1901.  Fragmento. 

—  Idem,  22  de  Agosto  de  1921.  A  illustre  casa  de 
Ramires  —  (Fragmento). 

A  Voz  da  Justiça.  Figueira  da  Foz,  1904.  Inseriu  em  11 
folhetins  o  conto  Singularidades  de  uma  rapariga 
loira,  desde  o  n."  190,  de  8  de  Setembro,  até  200, 
de  15  de  Outubro. 

—  Idem,  n."'  571,  de  8  de  Junho,  a  575,  de  15  do 
mesmo  mês  de  1906 :  A  Península  (folhetim). 

—  Idem,  n."  551,  de  8  de  Março  de  1908:  O  Suave 
Milagre.  É  uma  paródia  carnavalesca  de  Cardoso 
Martha,  aplicando  o  conhecido  conto  de  E.  de  Q.  a 
um  sujeito  da  Figueira-da-Foz. 


XXI 


Anais  das  Bibliotecas  e  Arquivos.  P'^.  &)  do  2."  vol., 
Lisboa,  Janeiro- Março  de  VJ2] :  fia  duos  espécies 
de  patriotismo . . . 

A  B  C  do  Banhista  —  Revista  semanal  -  Fii^ueira  da  Foz, 
26  de  Setembro  de  1921.  Lugares  selectos  —  João  da 
Ega  na  Figueira  —  Eça  de  Queiroz. 
«Pastiche»  de  M.  Cardoso  Martha. 

O  Heraldo  —  Nova-Goa.  Publicou,  durante  o  ano  de  1905, 
As  Minas  de  Salomão,  de  Rider  Haojgard,  trad.  de  Eça 
de  Queiroz.  Tenho  presente  o  folhetim  n,"  45. 

O  Festival  de  João  de  Deus  —  Apotheose  do  Poeta  — 
8-  III  -  1895.  Lisboa,  1905.  Traz  de  pg.  455  a  458  ura 
artigo  transcrito  do  n.*"  único  Os  de  Paris  a  João 
de  Deus.  fl) 


Obras  sobre  Eça 


Arnaldo  Fonseca  —  Eça  de  Queiroz.  Os  panegyristas  da 
sua  obra  e  os  censores  da  sua  carcassa.  Lisboa,  S/d. 
(190C'),  55-1  pg. 

Francisco  Lagreca  —  Em  defesa  do  Mestre.  Resposta  a 
Fialho  d' Almeida,  sobre  o  que  escreveu  contra  Eça 
de  Queiroz.  S.  Paulo,  lOOíS.  4."  viii-  15iO  pg. 

Theophílo  Braga  —  Eça  de  Queiroz  e  a  sua  obra.  Confe- 
rencia. Na  sessão  solemne  em  Homenagem  ao  grande 


(li  NSo  menciono  nesta  secção  as  inumeráveis  selectas  e  outras  obras 
escolares,  que  encerram  trechos  de  livros  tk  E.  de  Q. 


XXII 

romancista,  effectuada  pela  Mocidade  das  Escolas 
Superiores  em  5  de  Março  de  1901.  Lisboa,  1901. 
14  pg. 

Fernandes  Agudo  —  Apotheose  a  um  romancista.  Lis- 
boa, 1901.  8.»  16  pg. 

Manuel  de  Sousa  Pinto  —  O  monumento  a  Eça  de  Quei- 
roz. Coimbra,  1904.  16-1  pg. 

Eça  de  Queiroz.  Questão  de  naturalidade.  —  Porto, 
1906.  19-7  pg.  Saiu  também  no  n."  6906  do  jornal 
Novidades,  de  17  de  Nov.,  1906.  Reivindica  para  a 
Póvoa  de  V'arzim  o  berço  do  escritor. 

O  Partidário  — Villa  do  Conde,  4  de  Dezembro  de  1906. 
Suplemento  ao  n.""  329:  Eça  de  Queiroz  —  Questão 
de  naturalidade  —  Contestação  por  parte  de  Villa  do 
Conde.  1  fl.  fól.  impr.  dos  dois  lados. 

F  a  resposta  ao  folheto  anterior.  Importante  por 
inserir  os  documentos  do  baptismo  e  casamento  de 
Eça  e  seus  Pais,  declarações  destes,  etc. 

Miguel  Mello  —  Eça  de  Queiroz.  A  obra  e  o  homem.  Rio 
de  Janeiro,  1911.  228-4  pg. 

José  Agostinho  —  Os  nossos  escriptores.  IV.  Eça  de  Quei- 
roz. Porto,  1909.  retr.,  127-1  pg. 

João  de  Meira  —  Influencias  estrangeiras  em  Eça  de  Quei- 
roz. Famalicão,  1912.  (Separata  de  pouquissimos 
exemplares  do  jornal  O  Ave). 

A  Eça  de  Queiroz.  Na  inauguração  do  seu  monumento, 
realisada  em  Lisboa  a  9  áz  Novembro  de  19(0.  Dis- 
cursos do  Conde  de  Arnoso,  .Marquez  d'Avila,  Ra- 
malho Ortigão,  Luiz  de  Magalhães,  Annibal  Soares, 
António  Cândido  e  Conde  de  Rezende.  Poesia  de 
Alberto  d'01iveira.  Porto.  1904.  1  gr.,  iv-90-1  pg. 

Alberto  d'01iveira— Eça  de  Queiroz.  (Paginas  de  me- 
morias). Lisboa,  1919.  212-4  pg. 


XXIII 

António  Cabral  —  Eça  de  Queiroz.  A  sua  vida  e  a  stia 
obra.  Cartas  e  documentos  inéditos.  Lisboa,  191G. 
retr.,  430-2  pfJ. 

Artigos  àcêrca  deste  livro:  O  Liberal,  n.*  127,  de 
19  de  maio  de  1917,  por  Mário;  Diário  de  Noticias, 
de4e5demaio  de  1915,  n.°^  18155  e  181v^»,  én.°  de 
20-7-1916;  Revista  de  Historia,  pí<s.  191  do 5.°  Vol., 
por  Fidelino  de  Fiíjueiredo. 

Alfredo  de  Carvalho  —  Eça  de  Queiroz.  (Sua  primeira 
fase  literária).  1918.  Lisboa.  ti8-2  pí«.  Publicado  pri- 
mitivamente no  jornal  A  Lncta. 

A  Revista  Moderna  —  Paris.  (O  n."  99,  que  não  pude  con- 
sultar, é  todo  em  homenaí^em  de  E.  de  Q.). 

Xavier  de  Carvalho  —  De  Garrett  a  Théopliile  Braga  et 
à  Eça  de  Queiroz.  Discours  prononcé  le  10  Décem- 
bre  1905  à  Ia  Societé  d'ÉtHdes  Portugaises.  Paris, 
1904.  19  pg.  (Ref.''^  de  pg.  17  a  18  e  tradução  de  um 
trecho  de  Eça  s/  João  de  Deus  a  pg.  15  e  16). 

Bulhão  Pato  —  Hoje.  Satyras,  canções  e  idyliios.  Lx.% 
1SS8.  257  pg.  Entre  as  pg.  10  e  11  estão  intercaladas 
4  pg.  s/n.  com  o  titulo  O  Grande  Maia.  A'  Ultima 
Hora,  satyra  a  Eça  de  Queiroz.  Tem  a  seguinte  nota: 
cEsta  satyra  escripta  depois  de  completo  este  livro, 
não  faz  parte  d'elle,  embora  o  acompanhe,  e  não  fi- 
gura, portanto,  no  indice.  —  B.  P.>> 

-  Idem,  Lazaro  Cônsul.  5.*  ed.,  Lisboa,  1889. 

Rafael  Bordalo  Pinheiro  —  Álbum  das  Glorias.  N.°  9, 
de  Julho  de  1880.  Retrato  de  E.  de  Queiroz  com  ar- 
tigo de  João  Rialto  (Guilherme  de  Azevedo). 

Manuel  da  Silva  Gayo  —  Eça  de  Queiroz.  (Carta).  Coim- 
bra, 1920. 

E'  a  sua  colaboração  neste  In-Memoriam,  profun- 
damente modificada. 


XXIV 

Cardoso  Martha  — Notas  queirczianas.  Lisboa,  1921. 

E'  uma  separata  do  artigo  com  que  colaborou 
neste  In-MeiTioriam.  Tiragem  de  40  exempl.,  senda 
5  em  papel  Wliatman,  D  em  pape!  de  linho  naciona!  e 
os  restantes  2S  em  papel  vergc. 


A  consultar 

Abel  Botelho  —  Eça  de  Qneiroz,  in  revista  Serões. 

Idem  —  Eça  de  Queiroz,  in  O  Dia,  n.°  145,  de  17  de 
Agosto  de  1900. 

Idem  —  Eça  de  Queiroz,  in  Mala  da  Europa,  n.^SO^ 
fi.o  ano,  de  21  de  Agosto  de  1900. 

Adolpho  Caminha  —  Cartas  litterarias.  Rio  de  Janeiro^ 
1895.  Págs.  49  a  56. 

Adolpho  Coelho  —  Alexandre  Herculano  e  o  Ensino  Pu- 
blico. Lisboa,  1910.  A  págs.  207  e  seguintes  muitas 
referências  a  E.  de  Q. 

Adriano  Pimentel  —  Os  versos  ^e  Eça  de  Queiroz.  In  Re~ 
vista  Porfugueza,  n."  5.  Porto,  1895. 

Affonso  de  Queiroz  —  Consciência  litteraria —  Carta  ao 
Ex.^-^  Sr.  Camillo  Castello  Branco.  Porto,  ISSO.  Re- 
fer.  a  Eça  a  págs.  14. 

Alberto  Carlos  —  A  Escola  realista  e  a  Moral.  Opuscula 
offerecido  ás  mães.  Lisboa,  ISSO. 

Alberto  d'01iveira  —  Pombos-correios  (Xotas  quotidia- 
nas). Coimbra,  1915.  Referências  a  E.  de  Q.  em 
págs.  59,  ICiõ,  151,  158,  !97  e  555. 


Homenagem  do  jornal  «O  Besouro» 

(Rio  DE  Janeiro,  1878) 
O  RETRATO  DE  EÇA  É  DO  DESENHADOR  A.  OFF; 

as  figurinhas  da  cercadura, 

que  representam  o  conselheiro  acâcio,  d.  felicidade, 

Luísa,  o  primo  Bazílio  e  a  creada  Juliana, 

SÃO  DE  Rafael  Bordalo  Pinheiro 


XXV 

Alberto  Pimentel  —  A'  volta  do  Eça.  Folhetim  iii  O  Sé- 
culo, edição  da  noite,  n.''  2185,  de  5  de  Dezembro 
de  1920. 

Albino  Forjaz  de  Sampaio  —  Chronicas  immoraes.  Lis- 
boa, 1906.  Reproduz  o  arti<ío  inserto  na  Revista  Litt. 
Scient.  e  Aríistica  de  O  Século,  n."  216,  de  4  de  No- 
vembro. 
Idem  —  Grilhetas.  Lisboa,  1916. 
Idem  —  Eça  de  Queiroz  e  o  iheatro,  in  A  Liícta,^ 
w.^  3613,  de  10  de  Janeiro  de  1916. 

Alcântara  Carreira  —  D'aquem  e  d'alcm  mar  —  Culto  da 
Chimera  — Pequenas  medalhas  — Suave  milagre.  Lis- 
boa, s/  data.  A  págs.  59  o  soneto;  Eça  de  Queiroz,  e- 
a  págs.  69  e  71 :  Suave  milagre  —  De  Eça  de  Queiroz 
(poesia). 

Alexandre  da  Conceição  — Scenas  da  vida  devota  — O 
Crime  do  Padre  Amaro  por  Eça  de  Queiroz,  in  Bi' 
bliographia  Poriagueza  e  Estrangeira,  2."  ano,  n.°  4» 
Porto,  1880.  É  transcrito  da  Correspondência  da  Fi- 
gueira. 

Idem  —  Camillo  Castello  Branco  —  A  Corja,  con- 
tinuação do  Eusébio  Macário. . .  Ibid.,  2."  ano,  n."  12 
(1880).  Largas  refer.  a  E.  de  Q. 

Alfredo  de  Carvalho  —  Eça  de  Queiroz  em  Leiria.  In 
O  Século,  ed.  da  noite,  n.^  1692,  de  19  de  julho  de  1919. 

Alfredo  da  Cunha  —  Eça  de  Queiroz  e  o  Diário  de  Noti- 
cias—O Mysterio  da  Estrada  de  Cintra,  in  Diário 
de  Noticias,  n.°  12465,  de  19  de  Setembro  de  1900. 

Alfredo  Mesquita  —  Eça  de  Queiroz  e  os  Vencidos  da 
Vida.  In  Alinanach  de  O  Dia. 

Almanach  Illustrado  do  Occidente  para  1882.  1."  ano. 
A  págs.  54  e  55:  Eça  de  Queiroz  e  Oliveira  Martins.. 
Com  retratos. 


XXVI 

'^Aimanach  Illustrado  para  1901  (Da  casa  Francisco  Pas- 
tor). Lisboa,  1900.  A  págs.  81 :  Eça  de  Queiroz.  Com 
retr. 

A.  Loíseau  —  Histoire  de  la  littérature  portugaise  depuis 
ses  origines  jusqu'à  nos  jours.  Paris,  1886.  Ref.  a 
págs.  388. 

Andrés  Gonzalez  Blanco.  — Eça  de  Queiroz.  In  Estádio, 
revista  de  Barcelona,  n.°^  72  e  75.  Dezembro  de  1918 
e  Janeiro  de  1919. 

•Angel  Guerra  — Literatos  estranjeros.  Valência,  s.  data 
(1905?).  Refer.  a  págs.  194,  no  capítulo  àcêrca  de 
Trindade  Coelho. 

António  Arroyo  —  O  monumento  a  Eça  de  Queiroz,  in 
Revista  Litt.,  Scient.  e  Artística  do  jornal  O  Século, 
n.°  65,  de  9  de  Novembro  de  1905. 

Idem  —  Os  monumentos  a  Eça  de  Queiroz  e  a  Oli- 
veira Martins,  ibid.,  n."^  72,  75  e  74  de  11,  18  e  25  de 
Janeiro  de  1904. 

António  Bandeira  —  Esta  Raça  — O  Enterro  de  Eça, 
in  Diário  Illustrado,  n."  9888,  de  18  de  Setembro 
de  1900. 

Armando  Labra  Carvajal  —  El  Portugal.  Lisboa,  1920. 
Refer.  a  E.  de  Q. 

-Arnaldo  de  Oliveira  —  Zoia  e  o  Naturalismo,  in  Biblio- 
graphia  Portngueza  e  Estrangeira,  5.°  ano,  n.^S.  Por- 
to, 1881.  É  transcrito  áo  Jornal  do  Commercio.  Mui- 
tas refer.  a  Eça  de  Q. 

Aubrey  F.  G.  Bel  I  — Portugal  of  the  portuguese.  London, 
1915.  Refer.  a  págs.  22,  74,  75  e  147. 

Idem  — Studies  in  portuguese  littérature.  Oxford, 
1914.  Refer.  a  págs.  ix,  195,  194  e  2Ce  a  220.  Nestas 
ultimas  págs.  traduz  alguns  excerptos  das  obras  de 
Eça. 


xxvn 

Augusto  de  Castro  -  Eça  de  Queiroz,  in  Atlântida,  vol.  II, 
Lisbaa,  1916. 

Basílio  de  Magalhães— O  Suave  Milagre  (de  uui  conto  de 
Eça  de  Queiroz).  Três  sonetos  in  Atlântida,  ano  III, 
n."  32.  Lisboa,  1918. 

Beldemonio  —  Moços  da  Vida  —  Ramalho  Ortiíjão,  in  A 
Má  Lingiia,  n.°  2,  Lisboa,  1889. 

Bíbliographia  Portugueza  e  Estrangeira  (Da  casa  Er- 
nesto Chardron).  2."  ano,  n."  1  (1880).  Insere:  Eusé- 
bio Macário  (art.  recortado  de  As  Novidades)  com 
muitas  referências  a  E.  de  Q. 

Idem  —  Modificações  importantes  introduzidas  na 
nova  edição  do  Crime  do  Padre  Amaro  por  Eça  de 
Queiroz,  id. 

Idem  —  Scenas  da  vida  devota  —  O  crime  do  Padre 
Amaro  por  Eça  de  Queiroz,  2.»  ano,  n."  4  (1880). 

Idem  —  Eça  de  Queiroz  —  O  Mandarim,  2.o  ano, 
n."  9  (1880).  São  apreciações  extraídas  de  jornais. 

Idem  ~  O  Mandarim  por  Eça  de  Queiroz,  in  n."  10, 
2.»  ano  (1880). 

BraziUPortugal  —  N.°  39,  Lisboa,  1  de  Setembro  de  1900. 
É  todo  consagrado  a  E.  de  Q. 

Brinn'  Oaubast  —  La  littérature  portugaise  contempo- 
raine,  in  Revue  Encyclopédique  Laroiisse,  n."  247  (de- 
dicado a  Portugal).  Paris,  1898,  págs.  496  e  497.  Com 
retr. 

Idem  —  La  littérature  portugaise  depuis  1865,  in  Le 
Portugal,  Paris,  Larousse,  1898,  pág.  156. 

Caetano  Alberto  — O  monumento  a  Eça  de  Queiroz,  a 
págs.  58  e  59  do  Atmanach  /Ilustrado  do  Occidettte 
para  1905.  Com  retr.  e  vista  do  monumento. 

Caiei  —  Eça  de  Queiroz,  in  Diário  de  Noticias,  n."'  12740 
e  12741,  de  24  e  25  de  Maio  de  1901.  (Com  uma  longa 


XXVIII 

bibliografia).  Publicado  primitivamente  na  Revista 
critica  de  Historia  y  Literatura  espanolas,  portuguesas 
y  hispano-americanas. 
Camillo  Castello  Branco  —  Sentimentalismo  e  Historia. 
—2.^  edição,  revista  pelo  author.  Porto,  1^0.  Reíer. 
a  págs.  10  do  Prefacio  da  segunda  edição. 

Idem  —  Nota  ao  artigo  supra  do  sr.  Alexandre  da 
Conceição,  in  Bibliographia  Portugueza  e Estrangeira, 
ano  2.",  n."  12.  Porto,  1880. 

Este  artigo  supra  é  o  2.°  de  A.  da  C.  mencionado 
nesta  lista  bibliográfica. 
Capital  (A)  —  Art.  a  prop.  da  mutilação  do  monumento  a 
E.  de  Q.,  in  n."  1645,  de  5  de  Março  de  1915,  e  1648, 
de  8  do  mesmo  mês  e  ano. 
Carlos  Malheiro  Dias  —  Cartas  de  Lisboa,  2."  série.  Lis- 
boa, 1905. 
Conceição  d'Eça  de  Mello  — Eça  de  Queiroz  —  16  de 
Agosto  de  1900-1909,  in  O  Dia,  n."  2827,  de  16-VIII-1909. 
Idem  — Poetas  e  escriptores  na  intimidade.  Eça  de 
Queiroz  revelado.  In  Alma  Nova,  Lisboa,  1916. 
Conde  de  Sabugosa  —  Um  plano  de  Eça  de  Queiroz,  in 

O  Dia,  n."  169,  Lisboa,  17  de  Setembro  de  1900. 
Correio  dos  Açores  — Ponta  Delgada,  23  de  Setembro 
de  1921.  Ano  II,  n.*>  406:  A  propósito  da  organisaçuo 
da  educação  fisica  na  sociedade  micaelense  —  Algu- 
mas páginas  d'«Os  Maias»  de  Eça  de  Queiroz. 
Diário  do  Minho  — Propriedade  da  Empresa  «Minho  Grá- 
fico». Braga,  29  de  Maio  de  1921 :  Ao  domingo  — 
Correio  literário,  (a)  O  Outro.  (Um  cap.  desta  cró- 
nica refere-se  a  E.  de  Q.) 
Diário  de  Noticias  -N.°  15647,  de  23  de  Nov.  1905:  Eça 
de  Queiroz.  Transcreve  os  discursos  de  Luís  Cebola, 
António  Aurélio  da  Costa  Ferreira,  António  Brilhan- 


XXIX 

te,  Gomes  da  Silva,  Campos  Lima,  Ramada  Curto  e 
Júlio  Martins,  e  uma  poesia  de  Alfredo  Pimenta. 

Idem  — N. o  19669,  de  3  de  Set.  1920:  Literatura 
portuguesa  na  America  —  Eça  de  Queiroz  na  Argen- 
tina—Dois sonetos  ao  autor  de  «Os  Maias  ■.  Repro- 
duz os  assinados  por  Alfredo  Arteaí^a  (Repiiesta,  no 
livro  Camião  de  la  Montaria,  1912)  e  por  Francisco 
Romero  (Eza  de  Queiroz,  no  livro  Versos,  1917).  Com 
retr.  de  Eça. 

Diário  de  Portugal,  n.»  670,  de  Lisboa,  8  de  Fev.  de  1880. 
Biografia  e  retr.  de  E.  de  Q. 

D.  J.  da  S.  P.  (D.  José  da  Silva  Pessanha)  —  Artigo  in  El 
Mundo  Latino,  de  Barcelona,  25  de  Set.  de  1900. 

Domingos  de  Castro  —  Eça  de  Queiroz,  in  Nova  Alvora- 
da, n.°  3. 

Eduardo  de  Aguilar  —  Leves  conceitos  a  propósito  do 
monumento  a  Eça.  A  págs.  344  e  346  do  n."  70  da  rev. 
O  Passatempo.  Lisboa,  25  de  Nov.  1903.  (Tem  uma 
grav.  reproduzindo  o  monumento). 

Neste  mesmo  n.'^  a  CArí?«/m  condena  o  monumento 
a  Eça  por  ser  pornográfico  (!)  (Com  retr.  de  Teixeira 
Lopes). 

Eduardo  Prado  —  CoUectaneas.  S.  Paulo,  1904.  De  págs. 
299  a  354  do  vol.  I,  o  artigo  Eça  de  Queiroz,  repro- 
duzido da  Revista  Moderna,  de  Paris,  de  20  de  Nov. 
de  1879. 

Eduardo  Schwalbach  —  Notas  da  quinzena,  in  Brazil- 
Portugal,  2.°  ano,  1901.  Larga  referência  ao  faleci- 
mento do  romancista. 

Emília  Pardo  Bazan  —  La  literatura  francesa  moderna— 
El  Naturalismo.  Madrid,  s.  data. 

Emílio  Faguet  —  Iniciação  litteraria.  Trad.  de  Chagas 
Franco.  Lisboa,  1916. 


XXX 

Enrique  Segura  — Un  génio  que  era  un  Santo,  por  Eça 
de  Queiroz.  Prólogo  y  traducción.  (De  págs.  140  a 
156  de  Cervantes,  revista  mensual  ibero-americana— 
Madrid,  abril  de  1917,  afio  II,  num.  ix). 

Neste  número  só  o  Prologo  foi  publicado.  Ignoro 
se  chegou  a  publicar-se  a  tradução,  que  não  vem,  pelo 
menos,  nos  n.°*  x,  xi  e  xii,  que  pude  examinar. 

Ethel  C.  Hargrove  —  Progressive  Portugal.  London,  s. 
data.  Refer.  a  págs.  255. 

Farpas  (As)  brazileiras— Protesto  por  um  patriota.  2."  edi- 
ção mais  correcta.  Rio  de  Janeiro,  1872.  Nunca  vi  a 
l.^^ed. 

Fernandes  Costa  —  O  Poema  do  Ideal.  Intermezzo  Úrico» 
Lisboa,  1894.  2  vols. 

O  n."  107  da  2.^  parte  do  vol.  I  (págs.  282)  trata 
de  E.  de  Q. 

Fernando  de  Lacerda  —  Espiritismo  —  Communicação 
obtida  pelo  Ex."""  Sr.  ***  e  attribuida  a  Eça  de  Quei- 
roz (Do  Paiz  da  Luz).  In  Azulejos,  ano  II,  n.<"  25  e26. 
Lisboa,  1908. 

Idem  —  Espiritismo  —  Communicação  de  Eça  de 
Queiroz  (Do  vol.  II  do  Paiz  da  Luz,  no  prelo).  Ibid, 
n.***  34,  35  e  56.  Lisboa,  Maio  de  1908. 

Fernando  Reis  —  Eça  de  Queiroz,  in  Revista  Nova.  Lisboa. 
1902. 

Ferreira  Deusdado  (Dr.)  — A  crise  do  ideal  na  Arte.  An- 
gra do  Heroismo,  1917. 

Fialho  de  Almeida  — Vida  Irónica.  Lisboa,  1892.  Refe- 
rências a  E.  de  Q. 

Idem  —  Eça  de  Queiroz,  in  Brazil-Portugal,  1.»  ano» 
n."  40,  de  16  de  Set.  1900. 

Idem  — Eça  de  Queiroz,  ibid.,  2»' ano,  Lisboa,1901» 
págs.  243  a  248. 


XXXI 

Fidelino  de  Figueiredo— Historia  da  LítteraturaRomar.- 
tica  Portuguesa  (1825-1870).  Lisboa,  1913.  .Muitas  re- 
fer.  a  E.  de  Q. 

Idem  —  Historia  da  Litteratura  Realista.  Lisboa, 
1914. 

Idem  —  A  critica  litteraria  como  sciencia.  2.^  ed. 
Lisboa,  1914. 

Idem  —  Características  da  Litteratura  Portuguesa. . 
Reimpressão,  revista.  Lisboa,  1915.  (Publicada  ante- 
riormente na  Revista  de  Historia,  n."  11). 

Idem  —  Estudos   de   litteratura  contemporânea  — 

III  —  sobre  a  composição  do  romance  —  IV  —  sobre 

a  decadência  do  romance  realista.  De  págs.  42  a  49 

do  5."  vol.  da  Revista  de  Historia, 

Folha    do    Fundão  —  Artigo  anónimo:  Eça  de  Queiroz^ 

n."  85,  de  14  de  Nov.  1903.  Com  retr. 
Fran«Pazeco  —  A  Escola  de  Coimbra  e  a  dissolução  da 

Romantismo.  Lisboa,  1917. 
Garcia  Redondo  —  Atravez  da  Europa.  Porto,  1908. 
Gervásio  Lobato  —  Chronica  Occidental  in  O  Occidente^ 
IO.»  ano,  n.°  303.  Lisboa,  21  de  Maio  de  1887. 

Esta  crónica  é  muito  curiosa  por  falar  de  um  ro- 
mance sueco  com  assunto  semelhante  ao  de  A  Reli-^ 
quia. 

Idem  —  Um  concurso  litterarío.  Ibid.,  ano5.*,  n.*l, 
de  5  de  Jan.  de  1888. 
Gomes  Leal  —  Fim  d'um  mundo  —  Satyras  modernas. — 
Porto,  1S99  (na  capa  de  broch.  1900).  A  págs.  124: 
Eça  de  Queiroz.  É  uma  sátira  em  Verso,  que  vem  re-- 
produzida  autografa  neste  In  Memoriam. 

Idem  —  A  morte  do  Rei  Humberto  e  os  criticos  do 
«Fim  d'um  Mundo».  Lisboa,  1900.  A  «Nota  Finabre- 
fere-se  toda  às  relações  de  G.  Leal  com  E.  de  Queiroz. 


XXXII 

Guerra  Junqueiro  — Eça  de  Queiroz  a  propósito  do  novo 
romance  «O  Primo  Bazilio»,  a  págs.  54  e  55  de  O 
Occidente,  Lisboa,  1878.  Com  retr. 

Henrique  das  Neves  — Individualidades.  Lisboa,  1910.  De 
págs.  56  a  40,  /l  dedicatória  da  Velhice  do  Padre  Eter- 
no, reprod.  da  Revista  //lustrada,  n.°  9,  1,°  ano,  15  de 
Agosto  de  1890. 

Illustração  (A),  5.'^  ano,  n."  16.  Paris,  20  de  Agosto  de  1888. 
Artigo  Eça  de  Queiroz,  assinado  A  Redacção.  Repro- 
duz a  prova  duma  pág.  de  Os  Maias,  com  as  correc- 
ções do  autor. 

ia  m  -.  Art.  Um  grupo  celebre,  in  2.*>  ano,  n."  18,  de 
20  de  Set.  de  1885.  Largas  referências  a  E.  de  Q.,  a 
propósito  dum  grupo  reprod.  neste  In  Memoria/n,  em 
que  figura  o  romancista  com  Oliveira  Martins,  An- 
tero, Ramalho  e  Junqueiro. 

Jacintho  Benavente  (D.)— De  Sobremesa.  Madrid,  1910. 
A  págs.  52  do  1.0  vol.,  cap.  sobre  E.  de  Q. 

Jaime  Batalha  Reis  —  Prosas  Barbaras  —  Os  primeiros 
escriptos  de  Eça  de  Queiroz,  in  Reyista  Litt.,  Scient. 
e  Artística  do  jornal  O  Século,  n.»  63,  de  9  de  Nov. 
de  1905. 

Idem  —  Ainda  a  propósito  das  esculpturas  de  An- 
tónio Teixeira  Lopes,  carta  a  António  Arroyo.  Ibid., 
n."  94,  de  20  de  Jun.  de  1904. 

Jaime  de  Magalhães  Lima  — Os  demolidores  do  libera- 
lismo, in  Atlântida. 

Jaime  Victor—  Suave  Milagre.  In  Brazil-Portugal,  n.°71, 
Lisboa,  1  de  janeiro  de  1902.  Com  grav.  represent.  o 
autor  do  conto  (Eça  de  Queiroz),  os  da  peça  (Conde 
de  Arnoso  e  Alberto  de  Oliveira),  o  da  música  (Os- 
car da  Silva),  o  scenógrafo  (L.  Manini)  e  cinco  aspe- 
ctos do  scenário. 


XXXIII 

João  Carlos  de  Moraes  Palmeiro  —  Chronícas  de  Ham- 
burgo —  VII  —  . . .  Lendo  Eça  de  Queiroz. . .  In  Cor- 
reio da  Manhã,  n."  261 ,  de  Lisboa,  28  de  Dez.  de  1921 . 
João  Chagas  —  Homens  e  factos.  Lisboa,  1905. 
Idem  —  Vida  litteraria.  Coimbra,  1906. 
Joaquim  Costa  —  Alma  Portugueza.  Porto,  19()í). 
Johan  Vising  — Spanien  ocli  Portugal.  Stockholm,  1911. 
Referências  a  págs.  197  do  cap.  dedic.  à  llterat.  por- 
tug.  contemporânea. 

Idem  — Den  portugisiska  litteraturenspiinytfõdelse 
i   det  nittonde  arhundradet.  In   revista  My  svensk 
tidskrift,  n."'  7  e  8.  Stockholm,  1890.  Referências  a 
pág.  445. 
Jornal  da  Manhã,  de  Lisboa,  10  de  Novembro  de  1903. 
Eça  de  Queiroz.  (É  a  noticia  da  inauguração  do  mo- 
numento). 
José  Augusto  Vieira  —  Os  Maias,  in  Diário  Popular.  Lis- 
boa, 1887. 
José  Barros  Lima  Nobre  — Breve  estudo  da  evolução 
dos  géneros  literários.  Chaves,  1905.  Págs.  35  do 
cap.  Formas  literárias  em  prosa  —  O  romance. 
José  Pereira  de  Sampaio  (Bruno)  — Eça  de  Queiroz,  in 
A  Illustração,  3.»  ano,  n.°  12,  Paris,  20  Jun.  1886.  E' 
um  excerpto  do  livro  que  segue. 

Idem  — A  Geração  Nova.  Porto,  1886.  A  págs.  129: 
O  romance  naturalista.  A  págs.  197:  Os  seguidores. 
Idem  —  O  Brazil  Mental.  Porto,  1898. 
Idem  —  Os  modernos  publicistas  portuguezes.  Por- 
to, 1916. 
José  Sarmento  —  O  estylo  de  Eça  de  Queiroz,  in  O  Dia, 
n.<'  169,  de  Lisboa,  17  de  Set.  de  1900. 

Idem  —  Artigo  em  O  Século,  n.^  6717,  de  17  de  Set. 
de  1900. 

KÇA  BE  QVKIROZ  *  «  • 


XXXIV 

José   Sarmento  —  Cidade   de   Mármore,   in   A   Manhã^ 

n."  772,  de  19  de  Maio  de  1914. 
José  Veríssimo  —  Homens  e  cousas  estrangeiras.  Rio  de 

Janeiro,  1902. 
Júlio  Brandão  — Eça  de  Queiroz,  \n  lllustração  Braziieira^ 

n."  10.  Paris,  Maio  de  1902.  Com  retr. 
Júlio  Nogueira  — O  exame  de  portuguez.  A  págs.  2S4  e 

285,  no  cap.  Noções  sobre  as  principaes  phases  littera- . 

rias  —  Escriptores  ty picos  de  cada  época  em  Portugal  e 

no  Brazil,  trata  de  E.  de  Q. 
Karl  von  Reinhardstoettner  —  Portugiesische  Literatur- 

geschichte.  Leipzig,  1904.  Refer.  a  págs.  156. 
Lobato  Adegas— Eça  de  Queiroz  em  Évora,  in  Terra 

Nossa,  anno  I,  n."  3,  Lisboa,  Setembro  de  1916. 
Lobo  d'AviIa  Lima  — Eça  de  Queiroz  e  Camillo  Castello 

Branco,  in  A    Quinzena  de  Portugal,  n.°  1,  Lisboa. 

Março  de  1915. 
Luigi  Siciliani- Studi  e  saggi.  Milano,  1913.  Cap.  Eça  de 

Queiroz  e  la  sua  opera,  de  págs.  223  a  240.  Também 

há  refer.  a  Eça  no  cap.  Da  Luigi  Camoe/is  a  Tcofila 

Braga,  págs.  201  e  202. 
Luir  da  Camará  Reys  — Ramalho  Ortigão,  a  págs.  27  da 

Atlântida,  Lisboa,  1915. 
Luiz  de  Magalhães  —  Artigo  in  A  Tarde,  n.°  5824,  de  17 

de  Set.  de  1900. 
Idem  — Eça  de  Queiroz,  in  Revista  /Ilustrada,  ano  I,. 

n.''  12,  Lisboa,  1890.  Págs.  155.  Com  retr. 
Manuel  Silva  — A  questão  da  naturalidade  de  Eça  de 

Queiroz,  de  págs.  251  a  253  do  vol,  3.*  da  Revista  de 

Historia. 
Manuel  da  Silva  Gayo  —  Um  anno  de  chronica.  Lisboa,. 

1889.  Insere:  Eça  de  Queiroz  e  os  Maias. 
Manuel  de  Sousa  Pinto  — Pelas  letras:  Eça  de  Que'roz 


XXXV 

Prosas  barbaras.  In  Resistência,  n."  860,  Coimbra,  17 
de  Dez.  de  1905. 

Idem  —  Um  novo  livro  de  Eça.  (Cartas  familiares 
e  Bilhetes  de  Paris),  in  Correio  da  Aíaniul,  n."  2307 
Rio  de  Janeiro,  7  de  Nov.  de  1907. 

Idem  —  Um  novo  volume  de  Eça  de  Queiroz.  (No- 
tas contemporâneas).  Ibíd.  n.°  3089, 31  de  Dez.  de  1909- 

Idem  —  Carta  a  um  leitor  admirável.  Ibid.  n."  3144, 
24  de  Fev.  de  1910. 

Idem  —  Rumphius  e  Topsius.  Ibid.  n."  3727,  1  de 
Out.  de  1911. 

Idem  —  Últimas  páginas  de  Eça  de  Queiroz.  In  A 
Mascara,  n."  5.  Lisboa,  20  de  Fev.  de  1912. 

Idem  —  Um  ensaio  sobre  Eça  de  Queiroz.  In  Cor- 
reio da  Manhã,  n."  4079.  Rio  de  Janeiro,  18  de  Set. 
de  1912. 

Idem  —  Eça  de  Queiroz  e  iMaurice  Rollinat.  A  ca- 
misa de  Miss  Mary,  in  Diário  de  Lisboa,  n."  208,  de 
7  de  Dez.  de  1921. 
Maria  Amália  Vaz  de  Carvalho  —  Alguns  homens  do 
meu  tempo  (Impressões  litterarias).  Lisboa,  1889.  A 
págs.  37 :  Ramalho  e  Eça. 

Idem  — Eça  de  Queiroz,  in  O  Dia,  n."  169.  Lisboa, 
17  de  Set.  de  1900. 

Idem  —  No  meu  cantinho.  Lisboa,  1909. 

Idem  — Figuras  de  hoje  e  de  hontem.  Lisboa,  19C'2. 
De  págs.  1  a  21 :  Eça  de  Queiroz  —  O  homem  e  o  ar- 
tista. 

Idem  —  Cérebros  e  corações.  Lisboa,  1903. 
Mariano  Pina  —  Zola  e  Eça  de  Queiroz  in  A  lílustração, 
2.°  ano,  n."  11,  Paris,  5  Jun.  1885. 

Idem  —  A  Reliquia,  ibid.,  n.°  14  do  4."  ano,  20  Jul. 
1887. 


XXXVI 

Mariano  Pina  —  Chronica  —  Os  Maias,  ibid,  n.°  16  do  5.* 
ano,  20  Ago.  1888.  Com  retr. 

Idem  — Eça  de  Queiroz,  in  Galeria  Moderna,  1.*  sé- 
rie. Com  retr. 

Matheus  de  Albuquerque  —  Da  Arte  e  do  Patriotismo. 
Lisboa,  1920.  De  págs.  5  a  88  estudo  sobre  Eça  de 
Queiroz. 

Idem  —  In  y4  Águia,  2.*  série,  vol.  II,  págs.  32  a  36. 
Porto,  1912. 

Mathias  Lima  — Medalhões  Nacionaes  (Poetas  e  Prosado- 
res). Porto,  s/d.  A  págs.  109:  Eça  de  Queiroz. Comretr . 

Mello  Freitas  —  A  casa  do  avô  de  Eça  em  Verdemilho,  in 
Revista  /Ilustrada,  vol.  I,  n.°=  12, 13e  14.  Lisboa,  1890. 
Com  1  grav.  representando  a  casa. 

Mendes  dos  Remédios  — J.  M.  Eça  de  Queiroz.  De 
págs.  590  a  591  da  Historia  da  litteratura  portugueza, 
desde  as  origens  até  a  actualidade ;  e  de  págs.  670  a 
674,  trechos  demonstrativos:  Suave  Milagre,  A  che- 
gada a  Tormes  e  Um  telefone  em  Tormes! 

Miguei  de  Unamuno  —  Por  tierras  de  Portugal  y  de  Es- 
pafia.  1911.  Refer.  de  págs.  11  a  19. 

Moniz  Barretto  —  Eça  de  Queiroz  e  Os  Maias  in  O  Re- 
pórter de  25  jul.  1888.  Reproduz,  de  págs.  251  a  255 
do  vol.  7.°  da  Revista  de  Historia.  Lisboa,  1918. 

Idem  —  A  litteratura  portugueza  contemporânea, 
in  Revista  de  Portugal,  Lisboa,  1889. 

Nunes  Claro  —  A  consagração  de  Eça  de  Queiroz,  ou  a 
vingança  do  conselheiro  Accacio.  In  Revista  Xova, 
n.  ■  II,  Lisboa,  25  de  Abril  de  1901. 

Parodia  (A)— N.»  37,  Lisboa,  26  Set.  1900:  Guerra  da 
Successão  (Entremez)  pelo  Barão  Quim.  Figura-se, 
em  verso,  um  grupo  de  literatos  que  se  disputam  a 
herança  intelectual  de  E.  de  Q. 


XXXVII 

Paulo  Osório  —  Os  Livros  —  A  Cidade  e  as  Serras,  in 
Revista  Nova,  n/'  V,  de  Lisboa,  15  de  Julho  de  1901. 
Idem  —  A  comedia  d'uma  homenagem,  in  Agiiilha- 
das,  n."  6.  Porto,  Nov.  de  1903. 

Idem  —  Lisboa  —  Chronicas.  Porto,  1908. 
Philéas  Lebesgue  —  Le  Portugal  littéraire  d'aujourd'hui. 
Paris,  1904.  Refer.  a  págs.  10,  13,  44  a  47,  56  e  68. 

Idem  —  La  Republique  Portugaise.  Paris,  s.  d.  Re- 
fer. a  pág.  204,  205  e  208. 
Pinheiro  Chagas  — Brazil  e  Portugal  (Carta  a  Eça  de 
Queiroz),  in  O  Atlântico,  n."'  27  e  28,  de  Lisboa,  4  e 
5de  Jan.  de  1881. 
Idem  —  Ibid.,  w."  52,  de  15  de  Fev.  de  1881. 
Rafael  M.  de  Labra  (D.)  —  Portugal  contemporâneo  — 
Conferencias  dadas  en  el  «Fomento  de  las  Artes;)  de 
Madrid.  Madrid,  s.  d.  De  págs.  236  a  241  ocupa-se 
de  E.  de  Q. 
Ramalho  Ortigão  — Eça  de  Queiroz,  in  Alnianach  das  Se- 
nhoras para  1893. 

Idem  —  Eça  de  Queiroz,  in  Correio  Nacional, 
n.*  2251,  Lisboa,  1900.  Art.  transcrito  do /oa/ic/ </o 
Commercio. 

Idem  —  Carta  á  Ex.""*  Sr.*  D.  Guiomar  Torrezão, 
in  Mala  da  Europa,  n.*  50,  Q."  ano,  de  21  de  Ago. 
de  1900. 
Raul  Brandão  —  Memorias,  vol.  I.  Porto,  1919. 
Reis  Dâmaso  -Júlio  Diniz  e  o  Naturalismo,  de  págs.  511 
a  519  da  Revista  dé  Estados  Livres,  vol.  I.  Lisboa,  1884. 
Idem  —  Romancistas  naturalistas  —  Eça  de  Quei- 
roz, de  págs.  73  a  80  do  mesmo  livro. 
Republica,  Lisboa,  10  de  Set.  de  1916.  «lllustre  Casa  de 
Ramires».  Morreu  no  Brazil  o  fundador  da  revista 
em  que  Eça  escreveu  aquelle  romance. 


XXXVIII 

Revista  (A),  Illustração  Luso-Brazileira  —  N.**  2,  Paris.  — 
Echos  e  actualidades.  Refer.  a  E.  de  Q.,  com  um 
retr.  do  natural  na  L*  pág.  por  Jorge  Colaço. 

Revista  Moderna  — N.°  1,  1."  ano.  Paris,  1897.  Traz  bio- 
grafia e  retr.  de  E.  de  Q. 

Revista  Nova,  n."  IV,  de  25  de  Junho  de  1901.  Duas  car- 
tas de  Eça  de  Queiroz.  Este  n."  traz  na  1.*  pág.  a 
reprodução  dum  baixo  relevo  de  Eça  de  Queiroz, 
por  Costa  Motta  (sobrinho). 

Ribera  i  Rovíra  —  Portugal  litterari.  Barcelona,  1912. 
Trata  de  E.  de  Q.,  de  págs.  148  a  165.  Com  retr. 

Rocha  Martins  —  O  avô  de  Eça  de  Queiroz  conspirador, 
in  Diário  Nacional,  n.»  615,  Lisboa,  4de  Jul.  de  1918. 

Salvatore  Montuori  —  Rassegna  delia  letteratura  porto- 
ghese  nel  secolo  xix  —  Roma,  1901.  Refer.  a  págs.  7. 

Samuel  —  Consciência.  Carta  aos  111.""°'  e  Ex."""'  Snrs.  Ra- 
malho Ortigão  e  Eça  de  Queiroz,  redactores  das 
Farpas.  2.^  edição,  correcta  e  augmentada.  Lisboa, 
1871.  Não  Vi  a  1.^  edição. 

Século  (O),  n.o  8909,  de  15  de  Jul.  de  1906:  Eça  de  Quei- 
roz—  Inauguração  duma  lapide  na  Povoa  de  Varzim. 

Silva  Pinto  —  Do  realismo  na  Arte.  Estudos  críticos. 
5,^  edição,  augmentada.  Porto,  1881, 

Única  edição  que  pude  examinar.  E'  a  critica  a  O 
crime  do  Padre  Amaro  e  á  Comedia  no  Campo  no 
1.'^  cap.,  e  a  O  primo  Bazilio  no  2.° 
Idem  — Pela  vida  fora.  Lisboa,  1900. 
Idem  —  Alta  noite. 
Idem  —  S.  Frei  Gil. 

Idem  —  Combates  e  criticas.  Porto,  1882.  No  3.o 
vol.,  a  págs.  47. 

Sylvio  Romero  — Eça  de  Queiroz  por  Miguel  de  Mello, 
in  AUnanach  Garnier,  Rio  de  Janeiro,  1914. 


XXXIX 

Teixeira  Bastos  —  O  Primo  Bazilio,  \n  Jornal  do  Coinmer- 
cio,  Lisboa,  n.^  7298,  de  9  de  Março  de  1898. 

Theophtio  Braga  —  As  modernas  ideias  rta  litteratura  por- 
tugueza.  Porto,  1892.  De  págs.  295  a  522  do  vol.  II: 
Eça  de  Queiroz  e  o  Romance  realista.  No  mesmo  vol., 
a  <•  Conclusão»  trata  novamente  de  Eça. 

Idem  —  Eça  de  Queiroz.  Art.  publicado  na  Ency- 
clopedia  portiigneza,  de  Maximiano  de  Lemos.  Porto- 
Idem  —  Eça  de  Queiroz  e  o  realismo  contemporâ- 
neo, in  A  Renascença,  1878,  pár|s.  58;  e  Eça  de  Quei- 
roz, ibid.,  págs.  95. 

Valentim  Magalhães  — A  litteratura  brazileira.  Lisboa, 
1897. 

Veiga  Simões  — A  Nova  Geração.  Coimbra,  1911.  Refer. 
de  págs.  91  a  95. 

Visconde  de  Benalcanfôr  —  Art.  in  Diário  da  Manliã  de 
25  de  Março  de  1878,  transcrito  de  O  Coinniercio  do 
Porto. 

Visconde  de  Villa  Moura —  Grandes  de  Portugal.  Porto, 
1916.  Páçjs.  45.  Com  retr.  por  António  Carneiro. 

Vitorino  Nemésio  —  Carta  a  Eça  de  Queiroz,  para  o 
Largo  do  Quintela,  in  A  Pátria,  n."  524,  de  Lisboa, 
16  de  Junho  de  1921. 


  volta  da  peça  de  Vaz  Pereira,  de  que  atraz  falei,  ex- 
Iraída  com  o  mesmo  título  do  romance  O  Primo  Bazilio, 
fez-se  na  imprensa  um  certo  ruído,  tendo  eu  notícia  dos  se- 
guintes artigos: 

Peças  novas—  O  Primo  Bazilio,  no  Gymnasio;  quatro  actos 
<idaptados  do  romance  de  Eça  de  Queiroz  pelo  sr.  Vaz  Pereira, 
€ni  A  Capital,  n.°  1948,  de  8  de  Jan.  de  1916; 


XL 


O  Primo  Bazilio  tio  teatro,  artigo  de  António  d'Eça  de 
Queiroz,  no  mesmo  jornal,  de  5  de  Fev.  de  1916; 
,  Crítica  de  Eduardo  Coelho  in  Diário  de  Noticias,  n.°  18019^ 
de  8  de  Jan.  de  1916; 

Crítica  in  O  Dia,  n:'  847  e  848,  de  7  e  8  de  Jan.  de  1916. 


Quando  E.  de  Q.  faleceu,  referiram-se  a  esse  lutuoso  su- 
cesso quasi  todos  os  jornais  de  Lisboa  e  do  país,  entre  eles: 

Brazil-Poriugal,  de  Lisboa,  Ago.  de  1900. 

Correio  Nacional,  id.,  n.°^^  2240  e  2241,  de  Ago.  de  1900. 

Correio  da  Noite,  id.,  n."  6580,  de  17  de  Se t.  de  1900. 

O  Dia,  id.,  n.°  145  do  1.°  anno  (5019  do  10.°),  de  17  de 
Ago.  de  1900  e  dias  seguintes.  E'  quasi  inteiramente  dedi- 
cado a  E.  de  Q.  o  n."  de  17  de  Set.  do  mesmo  ano  (chegada 
dos  restos  mortais  de  Eça  a  Lisboa). 

Diário  Hlustrado,  id.,  n.°  9857,  de  18  de  Ago.  de  1900 
(art.  de  fundo  Eça  de  Queiroz  e  retrato)  e  dias  seguintes. 
O  n.*  9888  de  18  de  Set.  publica  novo  artigo  àcêrca  do  en- 
terro e  repete  o  mesmo  retrato. 

Diário  de  Noticias,  id.,  n."  12464,  de  18  de  Ago.  de  1900  e 
dias  seguintes. 

Mala  da  Europa,  id.,  n."  50,  6.°  anno,  21  de  Ago.  de  1900,. 
com  retr.;  e  mais  alguns  dos  n.'''  que  se  lhe  seguem.  (> 
n.o  2  do  7.°  ano,  de  18  de  Set.,  traz  um  artigo,  Eça  de  Quei- 
roz, com  retr.  da  esposa  e  filhos  de  Eça,  e  o  jazigo  onde  fi- 
caram encerrados  os  seus  restos.  No  n."  5  do  7.°  ano :  Eça 
de  Queiroz.  Retr.  de  Eça  com  Tomás  de  Souza  Rosa. 

O  Século,  id.,  n.^'  6687,  de  18  de  Ago.  de  1900  e  n.^"  se- 
guintes. 

A  Tarde,  id. 


XLI 


E  os  jornais  estranjiíeirosj: 

A  Noticia,  do  Rio  de  Janeiro. 

Gazeta  de  Noticias,  id. 

A  Cidade  do  Rio,  id. 

Correio  Paulistano,  S.  Paulo,  Brazil. 

Commercio  de  S.  Paulo,  id. 

O  Estado  de  S.  Paulo,  id. 

Diário  Popular,  id. 

A  Platéa,  id. 

O  Império,  id. 

La  Correspondência  de  Espana,  de  Madrid. 

El  Pais.  id. 

La  Época,  id.  Chama  a  E.  de  Q.  o  maior  romancista  da 
peninsula  ibérica,  e  noutro  número  publica  um  extracto  de 
O  Mandarim,  precedido  de  palavras  elogiosas. 

El  Heraldo  de  Madrid,  id. 

El  Mundo  Latino,  de  Barcelona. 

Le  Temps,  de  Paris. 

L'Époque,  id.  Traduzido  do  seu  artigo  editorial  de  26 
de  Agosto  de  1900: 

«A  obra  superior  de  E.  de  Q.,  se  fosse  escripta  na  en- 
cantadora lingua  de  Bourget  e  de  Rostand,  ficaria  com  toda 
a  justiça  immortal,  porque  é  a  obra  grandiosa  d'um  traba- 
lhador emérito  e  d'um  inspirado.  Lançada  porém  n'um  mer- 
cado litterario  medíocre,  sahiu  muito  superior  ás  propor- 
ções e  capacidade  d'esse  mercado,  d'onde  ella  extravasou, 
tendo  nós  fé  que  se  tornará  eterna  quando  os  outros  pai- 
zes,  começando  por  a  admirar,  a  estudem  conveniente- 
mente. 


....  nenhum  escriptor  europeu  da  actual  geração  revelou 
ainda  mais  phantasia,  mais  inspiração,  mais  nitidez  no  es- 


XLII 

tudo  sociológico  do  ineiOr  nem  mais  perseverança  no  seu 
methodo  inicial/.  (O  Dia,  31  de  Ago.  de  1900). 


Ocupam-se  de  Eça  de  Queiroz: 

Diccionario  Bibliographico  Portugu£z,  por  Innocencio  Fran- 
cisco da  Silva,  continuado  por  Brito  Aranha.  Lisboa.  Vol. 
15.°,  págs.  94. 

Eiicyclopedia  Poiiagiieza  lUustrada,  dirigida  por  Maxi- 
miano de  Lemos.  Porto.  Vol.  IV,  págs.  157. 

Diccionario  llliístrado  da  Lingua  Portngneza,  por  D.  Fran- 
■cisco  d' Almeida  e  H.  Brunswick.  1898.  2.°  vol.,  págs.  1647. 

Diccionario  Universal  llliístrado,  por  Eduardo  de  Noro- 
nha. Lisboa. 

Portugal  —  Diccionario  histórico,  etc.  Lisboa.  Vol.  5.o, 
págs.  ICfâ.  Com  retr. 

Xouveau  Larousse  Illustré — Paris.  Vol.  IV,  págs.  13. 

Encyclopedia  Britannica,  11.*  edição,  1910.  No  vol.  VIII 
um  art.  de  Edgar  Prestage. 


É  dedicada  a  Eça  de  Queiroz  A  Velhice  do  Padre  Eterno, 
-de  Guerra  Junqueiro. 


XLIII 


Iconografia 


Retratos  a  óleo: 

Columbano  Bordalo  Pinheiro  —  Retrato  de  Eça  de 
Queiroz.  1887.  A  óleo,  em  meio  corpo.  Perdido  no 
naufrágio  do  paquete  Sf.  André,  quando  enviado  à 
exposição  de  S.  Luís,  na  América  do  Norte. 

Idem  — Outro  retrato.  Também  a  óleo,  e  meio  cor- 
po. Em  poder  do  actual  conde  de  Arnoso,  Vicente 
Pinheiro  de  Mello. 


Desenho  : 

António  Carneiro  —  Postal.  Fotogravura  reprod.  a  págs. 
45  da  ob.  cit.  Os  Grandes  de  Portugal. 

Cristiano  de  Carvalho  —  Máscara,  reprod.  em  várias 
publicações. 

Alfredo  Cândido  —  Desenlio  representando  a  festa  de  27 
de  Ago.  de  1900,  promovida  pelos  estudantes  de  di- 
reito brazileiros  no  Gabinete  Português  de  Leitura 
do  Rio  de  Janeiro,  em  homenagem  a  E.  de  Q.  In  Bra- 
zil-Portngal,  1900,  págs.  26. 

Postal,  com  a  reprod.  do  monumento  a  E.  de  Q. 
Tem  no  canto  esquerdo  as  iniciais  F.  L.  S. 

Rafael  Bordalo  Pinheiro  — yl  Parodia,  n."  33,  de  29  de 
Ago.  de  1900.  Na  1.^  página,  retr.  de  E.  de  Q.  co- 
berto de  crepes.  Assina  também  esta  litografia  Ma- 
nuel Gustavo  B.  Pinheiro. 


XLIV 


Caricaturas  : 


Rafael  Bordalo  Pinheiro  — O  António  Maria.  Vol.  II, 
págs.  230. 
Idem  —  Álbum  das  Glorias. 
Idem  —  A  Parodia. 


Fotografia: 

A  Revista  Moderna,  de  Paris,  publica,  em  folha  solta,  um 
magnífico  retrato  de  E.  de  Q.,  em  fotogravura,  có- 
pia de  fotografia. 


Escultura: 

Teixeira   Lopes  —  Estátua,   em  mármore,  no  Largo  do 
Quinteia,  em  Lisboa.  Inaugurada  em  1904. 

Silva  Gouveia  —  Estatueta  em  bronze  (corpo  inteiro). 

Rafael  Bordalo  Pinheiro  —  Busto  em  barro. 

Costa  Mota  (Sobrinho)  —  Busto  em  baixo  relevo.  Vem 
reprod.,  como  atraz  disse,  na  Revista  Nova.  N."  IV, 
25de  Jun.  de  1901. 
O  Correio  da  Manhã,  n."  1,  de  7  de  Abril  de  1921,  traz 

uma  pequena  notícia  com  este  título:  Eça  de  Queiroz— Vae 

ter  u/n  monumento  na  Povoa  de  Varzim. 

m 

Albino  Forjaz  de  Sampaio. 


EÇA  DE   QUEIROZ 


A    SUA    ASCENDÊNCIA 


ARMAS  DA  família  DE  EÇA  DE  QUEIROZ 
Escudo  partido  em  pala:  na  1.^  Queirozes;  na  2.^  Almeidas 


A  ascendência  de  Eça  de  Queiroz 


Houve  quem  se  encarregasse  de  escrever  um  artigo  ge- 
nealógico para  este  livro;  mas  esse  alguém  teve,  segundo 
me  informaram,  de  sair  de  Portugal,  sendo-Ihe  assim  im- 
possível cumprir  o  seu  desejo. 

Mas  no  programa  do  In-Metnoríam  tinha  ficado  assente 
que  se  tratasse  da  família  do  ilustre  escritor,  e  o  tempo 
urgia.  A  maioria  dos  admiradores  contentar-se-ia,  por  cer- 
to, em  lêr  os  artigos  onde  variamente  é  apreciada  a  figura 
do  grande  português:  mas  há  também  quem  ache  interes- 
sante saber  qual  foi  a  feliz  estirpe  que  conseguiu  aperfei- 
çoar-se  até  ao  ponto  de  produzir  um  Eça  de  Queiroz. 

Eis  a  razão  duma  carta  que,  em  Julho  do  ano  corrente, 
me  dirigiu  o  meu  velho  amigo  Manuel  Cardoso  Martha, 
carta  que  mais  parecia  um  telegrama  pela  urgência  com 
que  queria  que  eu  escrevesse  um  estudo  sobre  a  ascendên- 
cia de  Eça.  Três  dias  ou  quatro  —  o  máximo  meia  dúzia. 

E'  muito  difícil  começar  um  estudo  genealógico  partindo 
dos  nossos  dias  sem  ter  alguém  que  nos  elucide,  sendo  o 
único  meio  recorrer  aos  registos  de  baptismo  e  de  casa- 
mento, para  saber  quem  foram  os  pais  e  avós  para  se  po- 


XLVIII 

der  estabelecer  e  seguir  uma  linha,  não  se  podendo  consul- 
tar documentos  na  Torre  do  Tombo,  sem  ter  alcançado 
aproximadamente  cem  anos  na  ascendência. 

Pouco  ha  escrito  sobre  a  família  de  Eça  de  Queiroz; 
eu,  pelo  menos,  pedindo  elementos  dentro  do  curto  prazo 
de  24  horas  a  quantos  conheço  que  se  dedicam  a  coleccionar 
■dados  de  estudos  dispersos  por  livros,  jornais,  revistas, 
etc,  só  consegui  uns  artigos  de  jornal  que  pouco  adiantam 
no  assunto,  e  os  elementos  que  se  encontram  no  artigo  do 
snr.  Melo  Freitas  Casa  do  avô  de  Eça  de  Queiroz  em  Ver- 
demilho,  o  que,  junto  com  outros  artigos  doutros  autores  e 
do  próprio  Eça  de  Queiroz,  constituem  um  volume  com  o 
título  de  Diccionario  de  Milagres  publicado  em  1900  pela 
Parceria  António  Maria  Pereira;  e  o  livro  Eça  de  Queiroz, 
publicado  pelo  ilustre  escritor  sr.  conselheiro  António  Ca- 
bral. 

Aqui  obtive  alguns  elementos  sobre  o  ramo  Queiroz,  que 
é  o  paterno.  Sobre  o  ramo  materno,  Eça,  nada  ha  escrito, 
mas  consegui  os  nomes  dos  avós,  por  amável  indicação  da 
Ex."*  Snr.*  D.  Conceição  Pereira  de  Eça  de  Melo,  prima 
de  Eça  de  Queiroz,  e  os  nomes  do  irmão  e  filhos  do  mesmo 
pelo  snr.  Tomás  de  Eça  Leal,  primo  e  único  afilhado  do 
genial  escritor.  O  resto,  que  muito  pouco  é,  fui  buscá-lo  á 
Torre  do  Tombo.  Se  mais  tempo  tivera,  naturalmente  mais 
faria. 

Do  conjunto  desses  elementos,  formei  o  que  se  segue: 

1  —Custódio  de  Queiroz  Pessanha  de  Sampaio,  na- 
tural de  Vila  Meã,  freguezia  do  Salvador,  arcebispado  de 
Braga;  casou  com  D.  Luisa  Maria  Ferreira  de  Carvalho, 
natural  de  Vila-Meã,  concelho  de  Santa  Cruz  de  Riba-Tâ- 
mega.  Deste  casamento  nasceu  : 

2  — José  Marcelino  Próspero  Teixeira  de  Queiroz, 


XLIX 

nascido  na  freguezía  de  S.  Salvador  do  arcebispado  de  Bra- 
^a.  Foi  escrivão  na  vila  de  Vagos;  casou  no  dia  10  de  Fe- 
vereiro de  1771,  na  igreja  paroquial  de  S.  Isidro  do  Eixo, 
com  D.  Joana  Leonor  de  Sousa  e  Almeida,  conforme  consta 
do  termo  lavrado  pelo  Padre  João  Correia  da  Costa  a  fl. 
85  do  livro  dos  casamentos  do  mesmo  ano.  Foram  padrinhos 
•deste  enlace  António  de  Santa  Rosa  Carvalho  e  João  da 
Fonseca. 

D.  Joana  Leonor  de  Sousa  e  Almeida  nascera  no  lugar 
das  Quintas  era  7  de  Julho  de  1752,  baptisando-se  a  25  do 
mesmo  mês  na  freguezia  do  ^xo,  conforme  consta  do  ter- 
mo lavrado  pelo  Vigário  encomendado  João  Ricardo  de 
Araújo  a  fl.  559  do  livro  respectivo.  Foram  seus  padrinhos 
D.  Joana  Quitéria  de  Almeida  e  Apolinário  Nunes  de  Fi- 
gueiredo, do  lugar  da  Madruga,  freyuezia  de  S.  Isidro  da 
vila  do  Eixo. 

D.  Joana  Leonor  era  filha  de  Gabriel  de  Sousa,  natural 
<la  ilha  de  S.  Miguel  e  de  sua  mulher  D.  Josefa  Bernarda 
de  Almeida  Novais,  natural  de  Aveiro  e  filha  de  D.  Maria 
<la  Graça  e  de  seu  marido  André  de  Almeida  e  Pinho,  fidal- 
go de  cota  de  armas  conforme  documentos  que  abaixo 
transcrevo,  quando  trato  de  Joaquim  José  de  Queiroz  e 
Almeida.  Do  casamento  de  José  Marcelino  Próspero  de 
Queiroz  e  Almeida  nasceram :  Joaquim  José  de  Queiroz  e 
Almeida,  com  quem  seguimos,  e  mais:  Fernando  de  Quei- 
roz, que  foi  superintendente  dos  tabacos  e  morreu  em  Lis- 
boa; José  Queiroz,  que  foi  oficial  do  exercito  e  morreu  em 
<:ampanha ;  D.  Maria  Alexandrina  de  Queiroz,  que  foi  mãe 
de  Joaquim  Mendes  de  Queiroz. 

5  — Joaquim  José  de  Queiroz  e  Almeida,  nasceu  no 
<lia  9  de  Janeiro  de  1774  no  lugar  de  Quintas,  freguezia 
do  Eixo,  onde  se  baptisou  em  17  do  mesmo  mês,  conforme 
o  assento  feito  a  fl.  195  do  livro  respectivo  pelo  Padre  João 

KÇ*  OK  QQKtROZ  ^:  :;:  ^  f-. 


Correia  da  Costa.  Foram  seus  padrinhos  Joaquim  Barbosa 
Freire,  de  Aveiro,  por  seu  procurador  o  Capitão-mór  Apo- 
linário Nunes,  do  lugar  das  Quintas,  e  D.  Clara  Izabel 
Rosado,  filha  do  Dr.  Luís  António  Rosado,  de  Aveiro,  re- 
presentado pelo  seu  procurador  o  Sargento-mór  Luís  Ro- 
drigues de  Figueiredo. 

Em  22  de  Julho  de  1835  requereu  que  lhe  fosse  conce- 
dida carta  de  brazão  de  armas,  existindo  o  respectivo  pro- 
cesso arquivado  na  Torre  do  Tombo,  sob  o  n.»  4  do  maço  59 
do  Cartório  da  Nobreza.  Nesta  petição,  que  tem  juntamen- 
te as  certidões  dos  assentos  de  baptismo  e  casamento  a 
que  acima  me  refiro,  declara  e  é  confirmado  pelas  teste- 
munhas que  foram  inquiridas  no  concelho  de  Santa  Cruz 
em  25  de  Janeiro  de  1855  e  em  Lisboa  em  26  de  Maio  da 
mesmo  ano,  que  na  casa  do  suplicante  e  na  de  sua  família 
materna  sempre  se  usaram  as  armas  dos  Almeidas  por 
cima  do  portão  do  pátio,  abertas  em  pedra;  que  seu  avô 
paterno  Custódio  de  Queiroz  Pessanha  de  Sampaio  era  da 
família  dos  Queirozes  de  Amarante  e  de  muitas  outras  de 
nobre  procedência  e  que  seu  bisavô  André  de  Almeida 
Pinho  era  fidalgo  de  cota  de  armas  com  o  brazão  dos  Al- 
meidas, mas  que  esta  carta  lhe  tinha  sido  apreendida,  não 
podendo  ser  tirada  «certidão  do  seu  registo  no  Cartório 
dos  Brazoens  d/esta  Corte  porque  sendo  antigo  e  ante- 
rior ao  terramoto  de  1755  todos  os  livros  d'aquelle  cartó- 
rio foram  queimados». 

Depois  diz  a  petição:  «pretende  o  suplicante  que  Vossa 
Magestade  lhe  conceda  o  Brazão  d'Armas  dos  ditos  Quei- 
rozes, e  lhe  mande  reformar  o  das  armas  dos  Almeidas  de 
que  usa  e  sempre  usou  sua  família,  reunindo-se  ambas  as 
ditas  armas  sob  o  timbre  das  de  Queiroz». 

Esta  petição  tem  o  seguinte  despacho:  «Sua  Magestade 
a  Rainha,  Determina  que  o  Rey  de  Armas  Portugal,  exa- 


LI 


minando  os  documentos  e  mais  papeis  que  o  Suplicante 
junta  a  este  requerimento,  e  achando-os  conforme  á  Ley, 
passe  ao  mesmo  supplicante  o  Brazão  de  Armas  que  pre- 
tende. Paço  das  Necessidades  em  30  de  junho  de  1835. 
(a)  Marquez  Mordomo-Mór». 

Não  resisto  á  tentação  de  transcrever  o  documento  n."  4 
deste  processo,  por  ser  muito  interessante.  Tal  documento, 
que  vem  escrito  em  uma  folha  de  papel  da  taxa  de  40  réis 
do  Crédito  Publico,  diz  textualmente  : 

«Alexandre  António  de  Sousa  Freitas  Sampaio,  Fidalgo 
da  Casa  Real,  Cavalleiro  da  Ordem  <íe  Christo  e  Proprie- 
tário Vitalicio  e  Encartado  em  hum  dos  officios  do  Tabel- 
lião  Publico  de  Notas  nesta  cidade  de  Lisboa  e  seu  termo, 
por  sua  Magestade  Fidelíssima  a  Senhora  Dona  Maria  Se- 
gunda que  Deos  Guarde,  etc.  —  Certifico  que  me  forão 
apprezentados  huns  autos  por  traslado  do  sequestro  feito 
ao  Dezembargador  Joaquim  José  de  Queiroz  do  lugar  de 
Verdemilho  termo  da  cidade  de  Aveiro  no  anno  de  1829, 
por  mandado  do  Juiz  de  Fora  da  mesma  Cidade  que  então 
era  José  de  Sousa  Ribeiro  Pinto,  em  virtude  da  Denuncia 
dada  naquelle  Juízo  dos  quaes  foi  Escrivão  Manoel  Antó- 
nio de  Carvalho,  em  os  quaes  se  acham  descriptos  os  Au- 
tos de  Busca  e  aprehenção  de  huma  caixa  de  páu  de  pinho 
de  comprimento  de  três  palmos  e  meio,  e  de  largo  palmo  e 
meio,  aprehendida  em  caza  de  Sebastião  dos  Santos  Bai- 
xeiro  do  lugar  do  Bom  Successo,  termo  da  villa  de  Ílhavo, 
em  a  qual  forão  encontrados  trastes  de  prata,  livros  e  mui- 
tos outros  papeis,  de  que  fora  depozitario  Fernando  Antó- 
nio de  Almeida,  em  prezença  do  qual  procederão  nova- 
mente a  exame  dos  papeis  avulsos  que  tinha  em  seu  poder, 
e  não  havião  sido  relacionados  no  auto  da  Busca,  do  que 
lavrarão  o  competente  Termo,  que  se  pedio  por  Certidão 
em  publica  fornia,  o  qua!  sendo  por  mim  visto,  lho  mandei 


LII 


passar,  e  o  seu  theor  he  o  que  se  segue:  —  TERMO  =  Aos 
vinte  diaa  do  mez  de  Maio  de  mil  oitocentos  vinte  e  nove 
annos,  nesta  cidade  de  Aveiro,  e  Gazas  do  Encarregado  do 
Depozito  desta  cidade  Fernando  António  de  Almeida,  aon- 
de se  achavão  em  depozito  os  papeis  avulsos,  constantes 
da  relação  retro,  que  se  não  poderão  relacionar  no  Auto  da 
Achada,  aonde  eu  Escrivão  vim  com  o  Escrivão  meu  com- 
panheiro João  Chrisostomo  Lucena  para  effeito  de  os  exa- 
minarmos na  forma  determinada  no  Auto  folhas  huma,  ahi 
sendo  prezente  o  mesmo  Depozitario,  procedendo  no  dito 
exame  com  toda  a  exactidão  e  miudeza  achamos  que  nada 
entre  elles  havia  de  identidade  e  que  possa  merecer  alguma 
attenção  mais  do  que  huma  carta  de  Francisco  Saraiva  da 
Costa  e  Refoios  dirigida  ao  mesmo  rebelde  Queiroz  = 
Duas  ditas  de  Luiz  Estevão  Couceiro  desta  cidade  =  Hum 
apontamento  do  mesmo  Queiroz  sobre  as  bazes  dos  pode- 
res da  Delegação  da  Junta  Rebelde,  e  mais  huma  carta  de 
Jozé  Cupertino  da  Fonseca  e  Brito,  escripta  ao  rebelde 
ex-Provedor  de  Vizeu,  Caetano  Xavier  Pereira  Brandão, 
sendo  tudo  o  mais  papeis  relativos  á  Revolução  do  Rio-de- 
Janeiro,  em  1820  ou  22 ;  correspondências  dali  sobre  negó- 
cios domésticos,  vários  attestados  e  certidoens  relativos  á 
serventia  dos  lugares  do  mesmo  rebelde.  Carta  de  Desem- 
bargador, e  do  Habito  de  Christo,  e  outros  mais  desta  na- 
tureza, hum  Padrão  de  Armas  de  André  de  Almeida  e  Pi- 
nho desta  cidade.  E  para  constar  fiz  de  tudo  o  prezente 
Termo  em  que  assinarão  o  dito  meu  companheiro  João 
Chrisostomo  de  Lucena  e  Depozitario  Fernando  António 
de  Almeida.  E  eu  Francisco  José  Martins  Rapozo  que  o 
escrevi:  e  declaro  que  os  ditos  papeis  supra-mencionados 
que  parecerão  de  alguma  entidade  e  attenção  os  juntei  na 
forma  do  que  se  determina  no  referido  Auto  folhas  huma 
aos  Livros  e  Folhetos  Maçónicos  para  serem  prezentes  ao 


LIII 


D.«'  Juiz  de  Fora,  Jozé  de  Sousa  Ribeiro  Pinto  a  fira  de 
determinar  delles  o  que  julgar  conveniente  de  que  para 
constar  o  escrevi  e  assignei  com  as  testemunhas  também 
assignadas  =  Francisco  Jozé  Martins  Rapozo  —  Fernando 
António  de  Almeida  =  Francisco  Jozé  Borges  Cardoso  = 

António  Jozé  de  Almeida  =  João  Clirisostomo  Lucena. 

E  he  tão  somente  o  que  se  pediona  Certidão  em  publica- 
fórma,  dos  mencionados  Autos  a  principio  confrontados  a 
que  me  reporto  que  entreguei  ao  aprezentante.  Lisboa  2<3  de 
Maio  de  1835.  E  eu  Alexandre  António  de  Sousa  Freitas  e 
Sampaio  Tabelião  a  subscrevi  e  assignei  em  publico,  etc. 
Em  testemunho  de  verdade  =  Alexandre  António  de  Souza 
Freitas  e  Sampaio.» 

Havia  portanto  «vários  attestados  e  certidoens  relativos 
á  serventia  de  lugares»  para  que  foi  nomeado.  Tudo  isto 
desapareceu:  mas  dalguns  encontrei,  numa  rápida  busca 
que  fiz  na  Torre  do  Tombo  a  Processos  e  livros  das  Mercês 
e  Chancelarias  da  época.  Vejamos  os  respectivos  registos: 

No  maço  76,  letra  J,  n."  3  da  Leitura  de  Bacharéis  encon- 
trei a  sua  petição  para  ler  no  Dezembargo  do  Paço  ficando 
assim  habilitado  a  ocupar  cargos  de  justiça  e  nos  auditó- 
rios. Este  pedido  teve  o  primeiro  despacho  em  15  de  Maio 
de  1810  e  foi  aprovado  em  17  do  mesmo  mês. 

No  Livro  10,  fl.  349  das  Mercês  do  Rei  D.  João  VI  (Prín- 
cipe Regente)  está  com  a  data  de  9  de  Março  de  1812  re- 
gistada a  carta  de  Juiz  de  Fora  da  Vila  de  Azurara  da 
Beira. 

No  Livro  15  a  f!.  318  da  Chancelaria  de  D.  João  VI  e 
D.  Maria  I,  com  a  data  de  14  de  Março  de  1812  está  regis- 
tada a  Provisão  para  poder  jurar  por  seu  procurador  como 
Juiz  de  Fora  da  Vila  de  Azurara  da  Beira. 

No  Livro  17,  fl.  26  verso,  das  Mercês  de  D.  João  VI 


LIV 


com  data  de  11  de  Janeiro  de  1822  está  registada  a  carta 
de  Dezembargador  da  Relação  do  Porto. 

No  Livro  39,  fl.  115  verso  da  Chancelaria  de  D.  João  VI 
e  D.  Maria  I  está  registada  com  a  data  de  11  de  Fevereiro 
de  1822  a  carta  de  Dezembargador  da  Relação  da  Baía  com 
exercício  na  do  Porto. 

No  Livro  6,  fl.  9  verso  das  Mercês  de  D.  Maria  II  com  a 
data  de  8  de  Janeiro  de  1835  está  registada  a  carta  de  con- 
firmação de  Presidente  da  Relação  de  Lamego. 

Finalmente,  no  Livro  4,  fl.  86  verso  das  Mercês  da  mes- 
ma Rainha,  com  a  data  de  2  de  Junho  de  1835  está  registado 
o  alvará  do  foro  de  Fidalgo  Cavaleiro  da  Casa  Real. 

Da  vida  política  do  Dezembargador  Joaquim  José  de 
Queiroz  e  Almeida  fala  o  sr.  Melo  Freitas  no  trabalho  a 
que  já  me  referi,  Casa  do  avô  de  Eça  de  Queiroz  em  Verde- 
milho.  Também  não  é  falho  de  interesse  o  artigo  de  Rocha 
Martins,  O  avô  de  Eça  de  Queiroz  conspirador,  publicado  no 
Diário  Nacional,  n."  615,  de  4  de  Julho  de  1918,  e  natural- 
mente muitos  outros  trabalhos  haverá  que  se  refiram  a  este 
<:rebelde»,  como  o  documento  transcrito  lhe  chama  e  que 
afinal  tanto  sofreu  pelo  seu  ideal,  emigrando  e  conseguindo 
escapar  á  forca,  sorte  que  não  tiveram  tantos  dos  seus 
companheiros  de  lutas  políticas. 

Em  resumo,  direi  que  em  1820  fez  profissão  de  fé  liberal 
e  em  16  de  Maio  de  1828,  sendo  Dezembargador  da  Rela- 
ção do  Porto,  proclamou  a  Rainha  e  a  Carta  Constitucional 
na  Praça  do  Comércio  em  Aveiro.  No  mesmo  dia  rebentou 
a  revolta  do  Porto,  que  não  vingou  e  o  Dezembargador 
Queiroz  teve  que  emigrar  para  se  pôr  a  salvo. 

Em  25  de  Novembro  de  1829  foi  julgado  á  revelia  e  con- 
denado á  morte  de  garrote,  a-pezar-da  colossal  defeza  feita 
pelo  Dr.  António  Ciro  Pinto  Osório.  A  sentença  não  foj 
executada,  por,  como  disse,  ter  o  réu  emigrado. 


LV 


Regressando  a  Portugal  depois  de  restabelecido  o  sis- 
tema liberal,  ocupou  o  lugar  de  Presidente  da  Relação  do 
Porto,  sendo  demitido  pela  Junta  do  Porto,  por  decreto 
de  13  de  Outubro  de  18^16,  acusado  de  ter  participado 
activamente  na  guerra  civil  como  partidário  dos  Cabrais. 
Voltou,  porém,  em  Julho  de  1847  a  presidir  ao  mesmo  tri- 
bunal até  18  de  Dezembro  seguinte,  em  que  lhe  foi  confiada 
a  pasta  de  Ministro  da  Justiça,  que  sobraçou  até  21  de  Fe- 
vereiro de  1848. 

Foi  deputado  várias  vezes,  era  Conselheiro  de  Estado, 
Fidalgo  Cavaleiro  e  de  cota  de  armas,  Cavaleiro  professo 
na  Ordem  de  Cristo,  etc. 

Faleceu  na  sua  casa  de  Verdemilho  em  16  de  Abril  de  1850, 
tendo  casado  com  D.  Teodora  Joaquina  de  Almeida,  natu- 
ral de  Fornos  de  Algodres.  Tiveram:  José  Maria  de  Al- 
meida Teixeira  de  Queiroz,  com  quem  seguimos;  Joaquim 
Augusto  de  Almeida  Teixeira  de  Queiroz,  que  seguiu  a  ma- 
gistratura e  morreu  em  Évora;  Bernardo  de  Almeida  Tei- 
xeira de  Queiroz,  que  foi  director  do  correio  em  Aveiro, 
falecendo  na  casa  de  Verdemilho,  com  55  anos ;  João  de 
Almeida  Teixeira  de  Queiroz,  que  seguindo  a  carreira  das 
armas  faleceu  em  Qôa,  sendo  oficial  superior;  D.  Maria 
Emilia  de  Queiroz,  que  casou  com  António  José  da  Rocha, 
<jue  foi  juiz  do  Supremo  Tribunal  de  Justiça  e  Vice-pre- 
sidente da  Câmara  dos  Deputados  em  1880  e  1881  ;  e 
O.  Ana  Libânia  de  Almeida  Teixeira  de  Queiroz,  que  mor- 
reu em  1&46. 

4  — José  Maria  de  Almeida  Teixeira  de  Queiroz, 
nasceu  no  Brazil  em  1820,  formou-se  em  Coimbra  em  1841, 
foi  deputado  em  várias  legislaturas  e  Par  do  Reino  electivo 
pelo  distrito  de  Aveiro. 

No  Livro  21,  fl.  275  das  Mercês  de  D.  Maria  II,  está  re- 
igistada  em  22  de  Agosto  de  1844  a  carta  de  Delegado  do 


LVI 


Procurador  Régio  da  comarca  de  Ponte-do-Lima.  Foi  juiz 
de  direito  do  2.°  distrito  da  cidade  do  Porto,  Presidente  do 
Tribunal  do  Comércio  e  juiz  da  Relação  e  do  Supremo 
Tribunal  de  Lisboa. 

Escreveu  o  poema  O  Castello  do  Lago,  em  7  cantos  (Coim- 
bra, imprensa  da  Universidade,  1841).  Versa  este  poema  so- 
bre o  amor,  o  ciúme,  a  vingança  e  a  saudade.  No  Rama- 
lhete publicou  várias  poesias  nos  vols.  Ill,  IV,  VI  e  VII,  e 
artigos  em  prosa  no  tomo  I  da  Chronica  Litteraria  da  Nova 
Academia  Dramática,  de  Coimbra. 

O  dr.  José  Maria  de  Almeida  Teixeira  de  Queiroz  faleceu 
em  50  de  Janeiro  de  1901.  Casou  com  D.  Maria  Carolina 
Augusta  Pereira  de  Eça,  que  foi  irmã  do  general  José  An- 
tónio Pereira  de  Eça,  falecido  no  cargo  de  comandante  do- 
Real  Asilo  de  Runa.  Eram  filhos  do  coronel  José  António 
Pereira  de  Eça,  que  comandou  infantaria  18,  tendo  nascido 
em  20  de  Abril  de  1792  e  falecido  em  Agosto  de  1853,  por 
ferimentos  recebidos  nas  linhas  do  Porto,  e  de  sua  mulher 
D.  Angélica  Clementina  de  Abreu  e  Castro. 

Do  casamento  do  dr.  José  Maria  de  Almeida  Teixeira  de 
Queiroz  nasceram :  José  Maria  Eça  de  Queiroz,  o  eminente 
escritor  com  quem  seguimos,  D.  Aurora  Amada,  Alberto 
Carlos  e  Carlos  Alberto  que  faleceram  todos  três  soltei- 
ros, D.  Henriqueta  que  foi  casada  com  Alfredo  Krus  e  mais 
dois  filhos  falecidos  em  tenra  idade. 

5  — José  Maria  Eça  de  Queiroz,  nasceu  na  Praça  do. 
Almada  da  Póvoa  de  Varzim,  em  25  de  Novembro  de  1845, 
sendo  solenemente  baptizado  íl)  no  dia  1  de  Dezembro  se- 
guinte na  Matriz  Colegiada  da  histórica  Vila-do-Conde  pelo 
Rev.  Pedro  António  da  Silva  Coelho,  sendo  padrinhos  o  Se- 


il)  Vidé  adiante  Dccuíttetttos. 


LVII 

nhor  dos  Aflitos  e  Ana  Joaquina  Leal  de  Barros  (que  foi  sua 
ama  de  leite,  e  em  casa  de  quem  viveu  os  primeiros  anos), 
mulher  de  António  Fernandes  do  Carmo,  não  tendo  o  pa' 
do  baptizando  assinado  o  termo  do  baptismo  por  se  encon- 
trar em  Ponte  do  Lima,  donde  escreveu  ao  Prior  de  Vila- 
do-Conde  em  18  de  Novembro,  ou  seja  a  oito  dias  do  nasci- 
mento de  Eça  de  Queiroz,  recomendando  a  forma  como  de- 
via ser  feito  o  assento  da  criança  que  viesse  a  nascer.  Essa 
carta  está  junta  ao  referido  termo  de  baptismo. 

Como  o  romancista  foi  para  Vila-do-Conde  com  muito 
poucos  dias  de  existência,  quis  esta  vila  que  êle  ali  tivesse 
nascido,  o  que  foi  contestado  pela  da  Póvoa-de- Varzim, 
onde  de  facto  nasceu.  Ovar  e  Aveiro  também  quiseram  que 
lá  nascesse.  É  sina  dos  homens  célebres :  todas  as  terra» 
lhe  querem  ter  servido  de  berço. 

Faleceu  Eça  de  Queiroz  em  Paris,  no  dia  16  de  Agosto 
de  1900  (1). 

O  sr.  conselheiro  António  Cabral  trata  largamente  daque- 
le caso  e  da  questão  entre  Póvoa-de-Varzim  e  Vila-do-Conde 
na  sua  obra  Eça  de  Queiroz  (1  .*  edição  em  1916  e  2.*  em  1920). 
O  jornal  Novidades,  n.o  6906,  de  16  de  Novembro  de  1906, 
com  o  título  «Eça  de  Queiroz  —  Questão  de  naturalidade», 
também  largamente  se  ocupa  do  assunto,  bem  como  o  Jor- 
nal de  Noticias,  do  Porto,  na  1.*  quinzena  de  Outubro  do 
mesmo  ano. 

Da  sua  biografia  abstenho-nie  de  falar  por  se  encontrar 
ampla  e  primorosamente  tratada. 

Casou  Eça  de  Queiroz  com  a  senhora  D.  Emilia  de  Cas- 
tro Pamplona  (2),  nascida  em  9  de  Junho  de  1857,  irmã  dos 


(1)  Vidé  adiante  Documttttos. 
i2)  Ibid. 


Lvm 

5."  e  6."  Condes  de  Rezende  e  filhos  do  4.**  Conde  D.  Antó- 
nio Benedito  de  Castro,  IS."  senhor  de  Penela,  15."  senhor 
de  Reriz  e  Bemviver,  Par  do  Reino,  18.*  Almirante  de  Portu- 
gal, Porteiro-mór  da  Casa  Real,  8.*  Capitão  da  Guarda  Real 
dos  Archeiros,  etc,  e  de  sua  mulher  D.  Maria  Balbina  Pam- 
plona  Carneiro  Rangel  Veloso  Barreto  de  Figueirôa,  filha 
dos  1."'  Viscondes  de  Beire,  Manuel  Pamplona  Carneiro 
Rangel  Veloso  Barreto  de  Miranda  e  Figueirôa,  Par  do 
Reino,  12.0  senhor  da  Casa  e  Morgado  de  Beire,  Comen- 
dador da  Ordem  da  Torre-e-Espada,  Tenente-General  do 
Exército,  etc,  e  de  D.  Maria  Helena  de  Sousa  Holstein,  fi- 
lha dos  Condes  de  Sanfré  no  Piemonte. 

O  4.»  Conde  de  Rezende,  sogro  de  Eça  de  Queiroz,  nas- 
ceu em  1821  e  faleceu  em  1865,  sendo  filho  do  3.»  Conde 
D.  Luís  Inocêncio  Benedito  de  Castro,  Comendador  da 
Torre-e-Espada,  Marechal  de  Campo,  17.*  Almirante  de 
Portugal,  etc,  etc,  e  de  sua  mulher  D.  Maria  José  Eme- 
renciana  da  Piedade  da  Silveira,  sobrinha  do  5.'^  Conde  de 
Sarzedas. 

Não  me  alongarei  na  ascendência  dos  Condes  de  Rezen- 
de por  ser  bem  conhecida. 

Do  casamento  de  José  Maria  Eça  de  Queiroz  com  a  se- 
nhora D.  Emília  de  Castro  Pamplona  nasceram  os  Ex.""' 
Srs. :  José  Maria,  António,  Alberto  e  D.  Maria  de  Castro 
Pamplona  de  Eça  de  Queiroz. 

Aqui  está  o  que  muito  sobre  o  joelho  consegui  apurar 
«obre  a  ilustre  família  do  grande  escritor. 

Lisboa,  Julho  de  1921. 

Ai  ONSO  DE  DORNELAS. 


EÇA  DE  QUEIROZ 


Documentos 


Certidão  de  baptismo 


José  Maria  —  filho  natural  de  José  Maria  d'AI- 
meida  Teixeira  de  Queiroz  e  de  May  incógnita :        JOSÉ 
neto  paterno  de  Joaquim  José  de  Queiroz,  e  de  sua      41.^^60  que 
mulher  D.  Theodora  Joaquina  d'Almeida  Queiroz,  passti  cera- 
nasceu  aos  vinte  e  cinco  de  novembro  de  mil  oito-  ^'^°  ^^"°  '^^f 

primeiro  de 

centos  e  quarenta  e  cinco;  e  no  primeiro  de  de-  Deaembro  de 

zembro  foi  solemnemente  baptisado  n'esta  Matriz  iS45. 

Collegiada  de  Villa  do  Conde,  com  imposição  dos  «íoi^smos 

Santos  Óleos,  pelo  reverendo  Pedro  António  da 

Silva  Coelho,  a  quem  dei  minha  jurisdição:  forão  xjr^xA 

Padrinhos  o  Senhor  dos  Afflictos,  tocando  com  o 

seu  resplendor  o  mesmo  baptisante,  e  Madrinha  Declaro  que 

"^  "^  para  nao  levar 

Anna  Joaquina  Leal  de  Barros,  casada  com  Anto-  descaminho  na 
nio  Fernandes  do  Carmo:  Decclaro  que  fiz  este  as-  minha  mao  a 
sento  sem  assygnatura  do  Pay  por  estar  ausente  ^"^^^ê  o  a"í ?«- 
em  Ponte  do  Lima,  e  me  ser  apresentada  uma  car-  to  da  —  lauda 
ta,  que  fica  em  meu  poder,  escripta  pelo  Mesmo,  opposia,  fica 
datada  d'aquella  Villa  com  data  de  desoito  de  No-  "'"  '*J*'^l  !' 

^  vro,  para  cvi- 

vembro,  na  qual  expressamente  recommenda  o  que  tar  uo  futuro 


LXII 


toda  a  rcspoii-  acima  fica  escripto,  e  por  isso  fiz  este  assento,  que 

sabilidade. 

assigno : 
^^"'"'^  era  ut  supra. 

Doniicgos  da 
Soledade  Sillos 

O  Prior, 


Domingos  da  Soledade  Sillos. 


Certidão  do  casamento  dos  pais  de  Eça  de  Queiroz 


Aos  três  dias  do  niez  de  Setembro  do  anno  de  mil  oito- 
centos e  quarenta  e  nove,  guardadas  as  formalidades  do 
Sagrado  Concilio  Tridentino  e  Constituições  Diocesanas, 
precedendo  a  competente  licença  da  auctoridade  ecclesias- 
tica,  na  igreja  do  extincto  convento  de  Santo  António  d'€8ta 
cidade,  na  minha  presença  e  das  testemunhas  abaixo  assi- 
gnadas,  se  receberam  por  marido  e  mulher,  por  palavras  de 
presente  e  mutuo  consentimento  o  Doutor  José  Maria  Tei- 
xeira de  Queiroz,  nascido  na  cidade  do  Rio  de  Janeiro,  do 
Brazil,  e  morador  n'esta  minha  freguesia  de  Vianna,  filho 
legitimo  do  Excellentissimo  Conselheiro  Joaquim  José  de 
Queiroz,  natural  da  freguesia  de  Quintães,  bispado  de  Avei- 
ro, e  de  Dona  Theodora  Joaquina  d' Almeida  Queiroz,  na- 
tural da  freguesia  de  Fornos  d'Algodres,  bispado  de  Vizeu, 
neto  paterno  de  José  Marcélio  Prospero  de  Queiroz  e  de 
Dona  Joanna  Leonor  d'Ahneida,  da  freguesia  de  Coixo, 


•  LXIII 

bispado  d' Aveiro,  materno  de  José  Nunes  d'Almeida  e  Dona 
Luíza  Maria  da  Fonseca,  da  dita  de  Fornos  dAIgodres, 
com  Dona  Carolina  Augusta  Pereira  d'Eça,  nascida  na  fre- 
guesia dos  Anjos,  da  villa  de  Monsão,  moradora  n'e8ta  ci- 
dade e  minha  freguezia,  filha  legitima  do  tenente  coronel 
José  António  Pereira  d'Eça,  e  de  Dona  Angelina  Clemen- 
tina d' Abreu  Castro  de  Eça,  ambos  já  fallecidos,  neta  pa- 
terna de  Francisco  António  Pereira  d'Eça,  governador  que 
foi  da  Praça  de  Monsão,  e  de  Dona  Anna  Pimentel  Soro- 
menho,  naturaes,  o  primeiro  da  villa  de  Valença,  e  o  segun- 
do da  cidade  de  Lagos,  reino  do  Algarve,  e  materna  de 
Alcelmo  Vicente  d'Abreu  e  Castro  e  Dona  Maria  Luiza 
d'Araujo,  o  primeiro  do  logar  de  Arcos,  reino  da  Galliza, 
e  o  segundo  da  Villa  de  Valença :  foram  testemunhas  o 
Doutor  António  Luiz  Ribeiro  da  Silva,  medico  do  partido 
da  comarca,  e  Manoel  da  Silva  Magalhães,  major  de  vete- 
ranos, ambos  moradores  n'esta  cidade,  José  Vicente  da 
Cruz  e  seu  filho  José,  ambos  sachristães  da  igreja  Matriz.. 
E  para  constar  fiz  este  assento  que  firmo.  Era  ut  supra. 

José  Pereira  Guedes,  arcipreste  —José  Vicente  da  Cruz. 


Declaração  extravagante  de  legitimação 
de  Eça  de  Queiroz 


Declaramos  nós  abaixo  assignados  que  José  Maria,  que 
foi  baptisado  na  Egreja  Matriz  de  Villa  do  Conde,  no  dia 
!.•  de  Dezembro  de  1845  como  filho  natural  do  abaixo  as- 


LXIV 

aignado,  é  filho  da  abaixo  assignada,  e  que  para  o  legitimar 
tiontraimos  matrimonio  no  dia  3  de  setembro  de  1849  na 
Egreja  do  extincto  convento  de  St.°  António  da  cidade  de 
Vianna  do  Castello. 

Lisboa,  23  de  dezembro  de  1885. 

D.  Carolina  Augusta  Pereira  de  Eça  dt  Queiroz. 
José  Maria  d' Almeida  Teixeira  de  Queiroz. 


Proclamas  paroquiais 


Com  o  favor  de  Deus  querem  contrahir  o  sacramento  do 
tnatrimonio  José  Maria  d'Eça  de  Queiroz,  solteiro,  natural 
da  freguesia  de  S.  João  Baptista  de  Villa  do  Conde  (I)  e 
morador  na  Praça  do  Rocio  n."  26,  freguesia  de  S.  Domin. 
gos  da  cidade  Patriarchal  de  Lisboa,  filho  legitimo  de  José 
Maria  d'AImeida  Teixeira  de  Queiroz  e  de  D.  Carolina 
Augusta  Pereira  d'Eça  de  Queiroz 

com 
D.  Emilia  de  Castro  Pamplona,  solteira,  natural  da  fregue- 
sia de  São  Martinho  de  Cedofeita  e  n'ella  moradora,  filha 
legitima  de  D.  António  Benedicto  de  Castro  e  de  D.  Maria 
Balbina  Pamplona  de  Sousa.  (2) 


il  •  Aliás  Pó voa-de- Varzim. 

(2)  Estes  proclamas  foram  lidos  simultaneamente  nas  freguezlas  por- 
tuenses de  Cedofeita,  Sé,  Santo  Ildefonso,  Vitória,  S.  Nicolau  e  Mira- 
gaia, e  todos  «stao  rubricados  por  Bça  de  Queiroz. 


o 

X 
M      u 


O 

u 

a 

ÍI3 

a 


< 

O 

£ 

SI 

< 

£ 


LXV 


Certidão  do  casamento  de  Eça  de  Queiroz 


Aos  dez  dias  do  mez  de  fevereiro  do  anno  de  mil  oitocen- 
tos e  oitenta  e  seis,  n'esta  freguesia  de  São  Martinho  de 
Cedofeita  da  cidade  e  diocese  do  Porto,  no  Oratório  par- 
ticular da  ex.'"*  nubente,  sito  na  quinta  de  Santo  Ovidio, 
na  presença  do  Doutor  José  Rodrigues  Cosgaya,  auctori- 
sado  por  mim,  compareceram  os  nubentes  José  Maria  Eça 
de  Queiroz  e  Dona  Emilia  de  Castro  Pamplona,  os  quaes 
sabe  serem  os  próprios,  com  licença  para  serem  recebidos 
no  oratório  particular  da  nubente,  na  sua  casa  do  campo 
da  Regeneração,  com  dispensa  da  publica-forma  dos  do- 
cumentos da  diocese  alheia,  d'alguns  proclamas,  e  com  to- 
dos os  mais  papeis  do  estylo  correntes  e  sem  impedimento 
algum  canónico  ou  civil  para  o  casamento:  elle  de  idade  de 
quarenta  annos,  solteiro,  cônsul,  natural  e  baptisado  na 
freguesia  e  concelho  de  Villa  do  Conde,  diocese  de  Braga, 
morador  na  Praça  do  Rocio,  da  cidade  de  Lisboa,  filho  le- 
gitimado de  José  Maria  d'Almeida  Teixeira  de  Queiroz,  na- 
tural do  Rio  de  Janeiro,  e  de  Dona  Carolina  Augusta  Pe- 
reira d'Eça,  natural  da  villa  e  freguezia  de  Monsão,  diocese 
de  Braga:  ella  d'idade  de  vinte  oito  annos,  solteira,  pro- 
prietária, natural  e  baptisada  n'esta  freguezia  de  Cedofeita, 
moradora  na  quinta  de  Santo  Ovidio,  no  Campo  da  Rege- 
neração, d'esta  freguezia,  filha  legitima  de  Dom  António 
Benedicto  Maria  da  Conceição  do  Santíssimo  Sacramento 
e  Castro  e  de  Dona  Maria  Balbina  Pamplona  Carneiro  Ran- 
gel e  Souza,  naturaes  de  Lisboa,  os  quaes  nubentes  se  re- 
ceberam por  marido  e  mulher  e  os  uniu  em  matrimonio  e 
seguidamente  lhes  deu  as  bênçãos  nupciaes,  procedendo 

KÇ&  DE  QBEIROZ  4c  H<  :|c  jc  rk 


LXVI 

em  todo  este  acto  conforme  o  Rito  da  Santa  Madre  Egreja 
Catholica  Apostólica  Romana.  Foram  testemunhas  presen- 
tes, que  sabe  serem  os  próprios,  o  Conde  de  Rezende, 
Dom  Manuel  de  Castro  Pamplona,  morador  na  Quinta  de 
Santo  Ovidio,  a  Condessa  de  Covo  Dona  Sophia  Adelaide 
Ferreira  Alves  de  Castro  Lemos,  casada  com  o  conde  do 
Covo,  moradores  na  rua  de  Gonçalo  Christovão,  d'esta  ci- 
dade, e  assistiram  ao  acto  a  Condessa  de  Rezende  (Maria) 
e  o  senhor  Ramalho  Ortigão.  E  para  constar  se  lavrou  em 
duplicado  este  assento,  que,  depois  de  ser  lido  perante  os 
cônjuges  e  testemunhas  com  todos  assigno.  Era  ut  supra. 

José  Maria  Eça  de  Queiroz. 
Etnilia  de  Castro  Pamplona. 
Conde  de  Rezende. 
Condessa  do  Covo. 
Condessa  de  Rezende  (Maria). 
Ramalho  Ortigão. 
Doutor  José  Rodrigues  Cosgaya. 
Cónego  João  António  Pinto  Guimarães. 


Certidão  de  óbito  de  Eça  de  Queiroz 


REPUBLIQUE  FRANÇAISE  -  Liberte-  ÉgaUté-Fra- 
ternité.  Département  de  la  Seine  — Mairie  de  Neuilly-sur- 
Seine  —  État  Civil  —  Extrait  du  Registre  des  Actes  de 
Décès  pour  Tannée  de  1900.  N."  501  du  Registre. 


LXVII 

L'an  mil  neuf  cent  le  díx  sept  Aoút  à  neuf  heures  dix 
minutes  du  matin. 

ACTE  DE  DÉCÈS  de  José  Maria  d'Eça  de  Queiroz, 
âgé  de  cinquante  quatre  ans,  cônsul  de  Portugal  à  Paris, 
chevalier  de  la  Légion  d'honneur,  né  à  Aveiro  (1),  Portu- 
çSal,  décédé  hier,  à  quatre  heures  trente  cinq  minutes  du 
soir  à  Neuilly-sur-Seine  (Seine),  avenue  du  Roule  n."  38. 
Fils  de  José  Maria  Teixeira  d'Eça  de  Queiroz  (2)  et  de  Ca- 
rolina Pereira  d'Eça  de  Queiroz,  son  épouse,  domicilies  à 
Lisbonne,  Portugal.  Époux  de  Emília  de  Rezende  de  Cas- 
tro, son  épouse,  àgée  de  quarante  deux  ans,  sans  profes- 
sion.  Dressé,  verification  faite  du  décès,  par  Nous  Phi- 
lippe  Henri  Grouésy,  Adjoint  au  Maire  de  la  Ville  de 
Neuilly-sur-Seine,  remplissant  par  délégation  spéciale  les 
fonctions  d'Officier  de  TÉtat  Civil. 

Pour  copie  conforme. 

Neuilly-sur-Seine,  le  7  Janvier  1922. 

Le  Maire 

Ville  lunve. 


(1)  Já  vimos  como  Eça  de  Queiroz  nasceu  na  Póvoa-dc-Vaizlm,  sen- 
do portanto  errada  esta  indicação  de  naturalidade. 

(2)  Aliás  José  Maria  de  Almeida  Teixeira  de  Queiroz,  como  atraz  se 
viu. 


COMEMORAÇÃO  DOS  MORTOS 


Durante  a  composição  deste  volume,  desapareceram  den- 
tre os  vivos  três  dos  seus  colaboradores:  Gomes  Leal, 
Xavier  de  Carvalho  e  José  Queiroz. 

Foi  em  primeiro  lugar  o  altíssimo  poeta  das  Claridades 
-do  Sul.  Com  a  sua  amisade  se  honrou  durante  sete  anos 
um  dos  organizadores  deste  livro. 

Logo  que  para  isso  foi  solicitado,  Gomes  Leal  pronta- 
mente acedeu  ao  convite  de  colaboração,  e  com  tão  boa 
vontade,  que  poucos  dias  depois,  e  a-pezar-de  bastante 
debilitado  por  uma  doença  ocasional,  recebemos  o  artigui- 
tiho  que  se  lê  a  páginas  57,  reflexo  nítido  da  última  moda- 
lidade do  seu  espirito. 

Coube  depois  a  sorte  a  Xavier  de  Carvalho,  que  ha  mui- 
tos anos  residia  em  Pariz,  onde  era  correspondente  de  jor- 
nais portugueses.  Xavier  de  Carvalho,  que  foi  também  um 
poeta  de  merecimento,  tratara  mui  de  perto  na  capital 
francesa  com  o  prosador-poeta  do  Suave  Milagre. 


Caiu  por  fim  José  Queiroz,  pintor  e  decorador,  ceramó- 
grafo,  critico  de  arte  e  poeta,  autor,  entre  outros,  do  livro 
notável  que  é  a  Cerâmica  Portugueza.  De  José  Queiroz, 
que  foi  um  trabalhador  infatigável  e  um  grande  amoroso 
das  coisas  do  passado,  se  pôde  justiçosamente  dizer  que 
viveu  bem  o  seu  dia. 

Repousem  na  paz  eterna.  Aqui  deixamos  registada  a  nos- 
sa gratidão  à  sua  memória,  e  sobre  as  suas  campas  esfo-^ 
Ihâmos  a  nossa  espiritual  saudade. 


ÍNDICE 


I 


ÍNDICE 


PÁG. 

Duas  palavras,  por  Eloy  do  Amaral  e  M.  Cardoso 

Martha 1 

As  minhas  queixas  de  Eça  de  Queiroz,  por  Jayme 

Magalhães  Lima       5 

A  ultima  vez  que  o  vi,  por  Alberto  Teles 12 

Eça  de  Queiroz  (Carta),  por  Affonso  Lopes  Vieira  14 

Eça  de  Queiroz,  homem  de  coração,  por  Hermano 

Neves 16 

O  Regresso  a  Tormes,  por  João  Corrêa  d'01iveira         21 
Eça  de  Queiroz  —  Paginas  de  memorias,  por  Al- 
berto de  Oliveira     28 

Eça  de  Queiroz  e  Flaubert  (Excerpto),  por  Camará 

Reys 44 

Eça  de  Queiroz  e  o  humorismo,  por  André  Brun..  49 

Eça  de  Queiroz,  por  Nunes  Claro       53 

Duas  palavras  sobre  Eça  de  Queiroz,  por  Gomes 
Leal 57 


Índice 


Pãg. 

Eça  de  Queiroz,  por  Philéas  Lebesgue 59 

Eça  de  Queiroz  (Excerpto),  por  Matheus  de  Albu- 
querque (Brasileiro) 62 

As  rosas  votivas,  por  Justino  de  Montalvão 71 

Ha  vinte  annos,  por  José  Sarmento     76 

Eça  de  Queiroz  e  Rafael  Bordalo  (Carta),  por  Hen- 
rique Lopes  de  Mendonça 79 

Carta,  por  Manuel  da  Silva  Gaio 82 

Uma  carta,  por  Sousa  Costa 103 

Eça  de  Queiroz,  por  Edgar  Prestage 109 

Dois  improvisos  de  Eça  de  Queiroz,  por  Manoel  de 

Sousa  Pinto     114 

Unum  et  Idem,  por  Alberto  Pimentel 120 

Eça  de  Queiroz  (Problema  biographico),  por  Theo- 

philo  Braga      121 

Um  episódio,  por  Henrique  Marques 125 

Duas  anecdotas,  por  Pinto  de  Carvalho  (Tinop)  •  • .  127 
Eça  de  Queirós  e  a  ortografia  portuguesa,  por  Cân- 
dido de  Figueiredo  ...     129 

De  entre  os  penates. . .,  por  Gõran  Bjõrkman      •  •  •  139 

Eça  de  Queiroz,  por  Raul  Brandão     140 

A  adjectivação  na  Obra  de  Eça,  por  Severo  Por- 
tela     142 

S.  Christóvam  (Iluminura  para  as  «Lendas  de  San- 
tos»), por  João  Cabral  do  Nascimento   ...    .  ,  .  144 
El  .Maestro,  por  Cármen  de  Burgos  (Colombine).  .  145 

Carta,  por  José  Queiroz 147 

Duas  camisas,  por  Hipólito  Raposo 155 

A  Obra  póstuma  de  Eça  de  Queiroz,  por  Júlio  Bran- 
dão     158 

Eça  de  Queiroz  y  Espana,  por  Álvaro  Giraldez   .  .  165 

Eça  de  Queiroz,  por  Carneiro  Geraldes 167 


Índice 


Pág. 

Oliveira  Martins  e  Eça  de  Queiroz,  por  José  Osó- 
rio de  Oliveira 174 

El  sarcasmo  ibérico  de  Eça  de  Queiroz,  por  Mi- 
guel de  Unamuno 178 

Eça  de  Queiroz  póstumo,  por  Corrêa  da  Costa    .  .        183 

Suave  milagre,  por  O  Rabi  Samuel 217 

Eça  de  Queiroz  em  Espanha,  por  Ribera  i  Rovira  .  218 
Uma  emenda  á  «Reliquia»  (Carta  a  Luiz  Fernandes), 

por  J.  de  Mello  Vianna 225 

Eça  de  Queiroz  em  Paris  (Algumas  recordações...). 

por  Xavier  de  Carvalho 231 

S.  Christóvam  (Lendo  as  <'Ultimas  Paginas»),  por 

António  Amargo 236 

Sobre  Eça  de  Queiroz  (Excerpto),  por  António  Pa- 
trício          237 

Uma  pagina  anonyma  de  Eça  de  Queiroz,  por  Luiz 

de  Magalhães 246 

Eça  de  Queiroz  na  intimidade,  por  Magalhães  Lima  266 
Eça  de  Queirós,  académico,  por  Álvaro  Neves  .  .  .  270 
—  Foi  Eça  de  Queirós  um  plagiador?  (Extracto), 

por  Cláudio  Basto 279 

O  monumento  a  Eça  de  Queiroz  por  Teixeira  Lo- 
pes, por  António  Arroyo 310 

Nos  meus  tempos  de  rapaz,  por  Agostinho  Fortes  .  330 
O  espólio  de  Fradique,  por  António  Sardinha  .  .  .  334 
Ante  la  estatua  de  Eça  de  Queiroz,  por  Andrés 

González  Blanco 376 

Notas  queirozianas,  por  M.  Cardoso  Martha  .  .  .  401 
O  amor  de  Eça  à  terra  portuguesa,  por  Eloy  do 

Amaral 422 

Eça  de  Queiroz  (Subsídios  para  a  sua  bibliografia), 
por  Albino  Forjaz  de  Sampaio i 


Índice 


PAg. 


Eça  de  Queiroz  (A  sua  ascendência),  por  Afonso 
de  Dornelas 

Eça  de  Queiroz  (Documentos):  Certidão  de  baptis- 
mo —  Certidão  do  casamento  dos  pais  de  Eça  de 
Queiroz  —  Declaração  extravagante  da  legitima- 
ção de  Eça  de  Queiroz  —  Proclamas  paroquiais 
—  Certidão  de  casamento  de  Eça  de  Queiroz  — 
Certidão  de  óbito  de  Eça  de  Queiroz     

Comemoração  dos  mortos 


XLV 


LIX 
LXIX 


COLOCAÇÃO   DAS   GRAVURAS 


Eça  de  Queiroz Front 

Eça  de  Queiroz  e  sua  esposa. 
Projecto  para  a  capa  da  revista  O  Serão 
Referência  autósjrafa  de  Gomes  Leal  . . 
Eça  de  Queiroz  (do  Albnín  das  Glorias) 

O  funcionário  público 

A  Cidade  e  as  Serras  (2  páí^inas  autografas). 
Visconde  do  Alcaide,  Conde  de  Souza  Rosa  e  Eç 

de  Que'roz .•     

Visconde  do  Alcaide  (fotogr.  de  Eça  de  Queiroz) 
Página  de  A  Parodia,  comemorativa  do  falecimento 

de  Eça  de  Queiroz 

Estatueta  em  bronze  de  Eça  de  Queiroz 

Eça  de  Queiroz  com  O.  .Martins,   A.  de  Quental 

R.  de  Ortigão  e  G.  Junqueiro 

Eça  de  Queiroz,  caricatura  inédita  de  F.  Valença 
«Correspondência    de    Fradique    Mendes»   (prova 

emendada) 

Uma  personagem  viva  do  «Crime  do  Padre  Amaro 


Pág 

spicio 
26 
40 
56 
78 
104 
12S 

150 
166 

184 
236 

256 
272 

288 
304 


IS  MEMORUM 


COLOCAÇÃO  DAS  GRAVURAS 


Eça  de  Queiroz  vestido  de  mandarim 

O  funeral  de  Eça  de  Queiroz. 

Eça  de  Queiroz  com  sua  esposa,  sua  filha,  Domício 

da  Gama  e  Conde  de  Caparica 
Os  «Vencidos  da  Vida>. ;. 
As  conferências  do  Casino  . . . 
Eça  de  Queiroz  lendo  O  Figuro 
Homenagem  do  jornal  O  Besouro 
Brazão  de  armas  da  família  de  Eça  Queiroz 
Eça  de  Queiroz  com  sua  filha  e  seu  filho  mais  velho 

José  Maria 


Pág, 
554 
568 

584 
400 
416 
454 

XXVI 
XLVI 

LXIV 


P'^      Eça  de  (.Queiroz  "In  memoriam',' 
3261     organizado  por  Eloy  do 
E3Z6^98     Amaral  e  H,  Cardoso  Martha 


PLEASE  DO  NOT  REMOVE 
CARDS  OR  SLIPS  FROM  THIS  POCKET 

UNIVERSITY  OF  TORONTO  LIBRARY 


■■f**^' 


W'^-.;r#*^'  ^ 


Wi'm 


""^^